QUANDO NOVEMBRO NOS ENTRA EM CASA

Outubro 25, 2008

 

1. O tempo em que vamos parece o de Thomas Hobbes, quando, em 1651, deixou escrito no seu famoso Leviatã, que «tudo o que existe tem três dimensões, a saber, comprimento, largura e altura, e aquilo que não tem três dimensões não existe nem está em parte alguma»[1]. Com este procedimento, Hobbes, e alguns dos nossos contemporâneos com ele, reduzem o homem a um objecto, sem alma nem emoções, sem alegria nem tristeza, sem encanto e sem sonho, sem Deus. É um homem à medida do cadáver, e um mundo à medida do cemitério, tudo formatado e tresandando a amoníaco. É o mundo do «dois vezes dois são quatro», de que fala Dostoievski nos seus Cadernos do Subterrâneo, acrescentando logo, em jeito de confissão: «O homem sempre teve medo deste dois vezes dois são quatro, e eu também tenho»[2].

 

2. Na esteira do grande escritor russo, vale a pena mostrar aqui um extracto das recentes e densas análises de O Método, de Edgar Morin: «O dogma da simplificação que contém a morte continua a impor-se por aí como verdade científica (…), e continua a rejeitar para fora do saber aquilo que resiste ao seu controlo. E os defensores deste dogma – continua Edgar Morin – vêem-nos como miseráveis, pedintes, esgadanhando os dejectos das suas lixeiras». E acrescenta depois de forma contundente: «Num sentido, eles têm razão: nós queremos recuperar e reciclar os dejectos que a sua ciência expulsa: não apenas o incerto, o impreciso, o ambíguo, o paradoxal, a contradição, mas também o ser, a existência, o indivíduo, o sujeito. Julgam deitar fora os excrementos do saber: não sabem que atiram para o lixo o ouro do tempo»[3].

 

3. Nada de novo. Seis séculos a. C., já o filósofo grego Heraclito deixava escrito, no seu Fragmento 9, que «Os burros preferem a palha ao ouro». E já no nosso tempo, Martin Heidegger, debruçando-se, nos seus Ensaios e Conferências, sobre a referida sentença de Heraclito, pôde lê-la para nós, explicitando que este «ouro» depreciado é «O brilho não visto da claridade, e não se deixa agarrar, porque ele próprio não agarra»[4], porque não é do domínio da posse, não obedece à regra das três dimensões.

 

4. Anda hoje outra vez por aí muito badalada a cultura das três dimensões. E é nesse sentido que dos hospitais se pretende retirar os capelães, porque aos doentes, reduzidos a três dimensões, bastam os cuidados técnicos que lhes são prestados por técnicos, da mesma forma que das escolas se pretende retirar os crucifixos, porque às crianças basta o alfabeto, a tabuada e a fita métrica, e a Igreja deve ser marginalizada, silenciada e banida como verdadeira fonte de ignorância, dado que o que diz e faz está para além das três dimensões, e já se decretou que o que não tem três dimensões não existe nem está em parte alguma.

 

5. Mas Novembro entra-nos outra vez em casa. E, não se sabe bem porquê, também os defensores da cartilha das três dimensões aparecem a visitar o cemitério e a depor flores nos túmulos dos seus familiares e amigos. E até, muito provavelmente, entrarão em alguma Igreja. Novembro é habitado por um silêncio gritante. Um silêncio que nunca se calou. E as flores, carregadas de sentido, mas silentes, são sempre as últimas a deixar o cemitério. Sim, porque, que se saiba, o sentido nunca fez barulho, nunca faz barulho. Um texto, por exemplo, é letra e som. Mas quando o interpretamos, não é a letra e o som que captamos, mas o sentido que habita essa letra e esse som. Afinal, por mais esforço que se faça, não é possível reduzir o homem a três dimensões. Há sempre uma flor ou uma lágrima, cujo sentido se chama amor, e que não é redutível a três dimensões.

 

6. Novembro lembra-nos outra vez que passamos muito tempo e que talvez gastemos até muitas energias a deitar para o lixo o ouro do tempo! Lembra-te, meu irmão de Novembro, que és pó e amor. E o amor não volta ao pó.

 

António Couto



[1] Th. HOBBES, Leviathan, or the Matter, Form and Power of a Commonwealth, Ecclesiastical and Civil, Londres, Andrew Crooke,  1951, Cap. 46, cit. por J. THROWER, Breve História do Ateísmo Ocidental, Lisboa, Edições 70, 1982, p. 95. Ver agora, em edição portuguesa, Th. HOBBES, Leviatã ou matéria, forma e poder de um estado eclesiástico e civil, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 3.ª ed., 2002, p. 498.

[2] F. DOSTOIEVSKI, Cadernos do Subterrâneo, Lisboa, Assírio & Alvim, 2000, p. 51 e 55.

[3] E. MORIN, O Método. 2. A vida da vida, Lisboa, Publicações Europa-América, s/d, p. 362-363.

[4] M. HEIDEGGER, Essais et Conférences, Paris, Gallimard, 7.ª ed., 1958, p. 340-341.


A FÉ É TAMBÉM UM ACTO DE INTELIGÊNCIA

Outubro 25, 2008

 

1. A maioria dos nossos contemporâneos pensa tranquilamente que a questão de saber se há um Deus ou não, se o mundo é o único ser ou não, é uma questão que pertence à fé, que o mesmo é dizer, segundo eles, que pertence à ordem arbitrária da afectividade e do sentimento, mas não da razão e do conhecimento. É o chamado fideísmo, segundo o qual a fé não é um assentimento da razão, mas apenas do sentimento.

 

2. Nesta ordem de ideias, continuam a pensar tranquilamente os nossos contemporâneos, que a Bíblia, o judaísmo e o cristianismo não têm conteúdos que seja necessário estudar. São apenas da ordem do sentimento. E, nesse sentido, sempre segundo os nossos tranquilos contemporâneos, essas «coisas da fé» ou se têm ou não se têm, sentem-se ou não se sentem. Ponto final.

 

3. E, todavia, quando os nossos ilustrados contemporâneos repetem tranquilamente que o universo físico é o único ser, não é seguramente pela razão e pelo conhecimento que o fazem. É uma afirmação puramente gratuita, arbitrária e sentimental. Da ordem da razão é o passo que se segue: se o universo físico é o único ser, então tem de ser eterno, já que é impossível que a totalidade do ser tenha saído do nada, em virtude do princípio, que permanece firme desde Parménides, de que «do nada, nada vem». Se o universo físico é o único ser, é da ordem da razão que seja eterno. Mas é também da ordem da razão que seja sem evolução nem entropia. Vale aqui a pergunta que deixou Empédocles, no seu fragmento 17: «de quem receberia o crescimento, se é o único ser?» E Melisso de Samos explicita bem que, se o universo é o único ser, então tem de ser «eterno, infinito, uno e absolutamente idêntico. Não pode perecer nem crescer; não pode ter sofrimento nem penas. Porque se tal acontecesse, já não seria uno, uma vez que se veria alterado e não seria idêntico a si mesmo, já que o sofrimento, por exemplo, que antes não existia no seu seio, teria chegado a existir… Por isso, se algo mudasse, mesmo que fosse um só cabelo ao longo de dez mil anos, pereceria completamente através do tempo». De facto, depois de se ter afirmado a priori que o universo é o único ser, e depois de se ter admitido a eternidade do universo, se se admite agora que ele se consome, então é óbvio que já se deveria ter consumido há uma eternidade.

 

4. Afirmar que o universo físico é o único ser é uma afirmação completamente arbitrária. Que seja eterno e imutável é mesmo refutável pela ciência moderna. Apenas se mantém o princípio de que «do nada, nada vem». Afinal, é o ateísmo que é fideísta. A Bíblia, o judaísmo e o cristianismo contêm um pensamento bem mais exigente e fundamentado: o ser não é único nem unívoco; é análogo, isto é, há duas classes de ser: o ser criado e o ser incriado; o universo físico não é o único ser nem o ser absoluto, eterno e imutável; o ser absoluto, eterno e imutável, é o Deus criador, e o universo físico foi criado e mantém-se em estado de criação pelo Deus criador. A vida e o pensamento não vêm do nada, isto é, da não-vida e do não-pensamento. Vêm do Deus criador, Vida e Pensamento ele mesmo. O nascimento e a morte não são meras aparências ou ilusões no seio do único ser imutável. São verdadeiros acontecimentos que remetem para o Deus criador.

 

5. O nascimento como Dom entra-nos em casa sobretudo em Dezembro com o Natal. A morte como Dom visita-nos sobretudo em Novembro, que é o mês que tradicionalmente dedicamos aos fiéis defuntos. Os defuntos não são simplesmente aqueles que já morreram, isto é, aqueles que já não vêem nem ouvem nem têm memória, como pensamos nós, pagãos modernos, muitas vezes, na esteira do que pensavam os gregos, que remetiam os mortos para o Hades [= lugar onde não se vê], mas aqueles que, sem perder a sua identidade pessoal e as marcas da sua história pessoal concreta, foram assumidos, por graça, a viver a Vida grande do Deus criador.

 

António Couto