MISTÉRIO PASCAL: RELATO E ANÚNCIO


 

O Concílio Vaticano II usa reiteradamente a expressão mistério pascal para designar a Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, e o seu significado para nós. Este para nós do mistério pascal tem de ser sempre fortemente acentuado e agrafado, uma vez que Cristo – refere o texto conciliar e cantamos nós no Prefácio da Vigília Pascal – «morrendo destruiu a nossa morte e ressuscitando restaurou a nossa vida». É deste CUME que nasce a Igreja e os sacramentos, nomeadamente o baptismo e a eucaristia (SC 5.6.47); é neste LUME NOVO que se acende a celebração do inteiro ano litúrgico, cujo centro é sempre o Domingo e a Páscoa Anual (SC 102.106s.); é esta FONTE que anima todo o quotidiano cristão, devendo informar, desde a raiz, tudo o que fazemos, todas as nossas actividades, todos os nossos comportamentos; mas é ainda neste cume, neste lume e nesta água viva que cada homem de boa vontade, crente ou não crente, será sempre contado, encontrado e conhecido (1 Cor 13,12; Gl 4,9; Fl 3,12) – saiba-o ou não, Deus o sabe (cf. 2 Cor 12,2.3) – para que possa receber ânimo e sentido para a vida e para a morte (GS 22).

 

Quando cantamos que o mistério pascal do Senhor tem a ver connosco, com a NOSSA vida e com a NOSSA morte, aí mesmo confessamos que a realidade da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo nos interessa, nos atravessa, nos explica e nos implica.

 I. PRIMEIRO ANDAMENTO: O RELATO DA PAIXÃO

 Ao atravessarmos com a atenção devida o relato da Paixão, isto é, quando frequentamos o relato da Paixão, em qualquer das suas versões, necessariamente havemos de nos aperceber da sua força e da sua fraqueza.

Da sua força, porque não nos será possível vê-lo apenas desde fora, desde a plateia,  assistir a ele. Ver-nos-emos, antes, implicados nele, atravessados por ele e até explicados por ele: está ali exposta a espessura das nossas raivas e dos nossos ódios, da nossa malícia, da nossa violência, da nossa mentira, da atracção e do fascínio, quem diria, que sobre nós exerce a morte![1] Em contraponto, está ali também exposto o rosto da verdade impoluta, do amor sempre Primeiro e do Perdão infinito, que acolhe a nossa violência e o nosso pecado[2], subvertendo-os, levando-os até ao ponto de irreversibilidade: fim da reversão, saída do círculo férreo da retaliação, vitória sobre a necessidade que emana da natureza do pecado, cujo efeito é sempre encadear, encadear, encadear[3].

Da sua fraqueza, porque o relato da Paixão tem pouca coisa de próprio; pediu muitos elementos emprestados[4]; apresenta-se saturado e soturado com as estridentes súplicas e outras notas saídas dos Salmos, com o silêncio perdoador do Servo de YHWH, com a filigrana que atravessa os Livros do Pentateuco, Profetas, Sabedoria, Cântico dos Cânticos, Daniel, com tantas notas saídas das páginas da vida e de todas as Escrituras. Sintomaticamente, no Evangelho de Marcos, a anotação «para que se cumprissem as Escrituras» aparece uma única vez, precisamente no corpo do relato da Paixão (Mc 14,49)[5].

É assim – na sua força que nos implica e na sua fraqueza que nos explica – que o relato da Paixão se apresenta verdadeiramente como um RELATO. Porque o relato re-lata, isto é, põe em relação, une, reúne, enlaça, entrelaça. E re-lata, isto é, põe em relação, une, reúne, enlaça, entrelaça duplamente: primeiro, porque faz uma re-lação dos acontecimentos; segundo, porque põe em relação o narrador e o narratário[6].

 

É difícil dizer exactamente onde começa o relato da Paixão. É fácil dizer onde termina.

Por aproximação e comodidade, fazemo-lo muitas vezes começar naquela Ceia Última, mas, de facto, Primeira, em que Cristo nos pede que tomemos o seu corpo e que a sua memória se torne a nossa memória: «Tomai e comei: isto é o meu corpo!»; «Fazei isto em memória de mim!»[7]. Mas a verdade é que já Ele tinha tomado o nosso corpo, assumido a nossa condição, o nosso pecado[8], a nossa morte, as nossas reversões, para as levar até ao ponto de irreversibilidade[9].

 

Alarga-se o relato. Sim, o Deus Um[10], o Deus bíblico, é relatável somente porque se submeteu à necessidade[11]; e é só submetendo-se à necessidade, e não iludindo as suas cadeias, mas assumindo-as uma a uma, até à última, que Ele pode quebrar este cadeado, não com o perdão muitas vezes repetido ou indefinido, mas com o Perdão infinito, sem causa nem suporte (Dn 9,4-19)[12]. O relato começa, portanto, muito antes; mesmo antes de antes. Se, de facto, o Verbo é Palavra e relato, ninguém pode conhecer Cristo sem relatar Cristo. E se o Verbo veio do Pai, ninguém pode relatar Cristo sem o relatar desde a origem[13].

 

Mas nós vamos começar o relato da Paixão e começar a celebrar o mistério pascal com a Ceia Primeira, que nos envolve e nos implica no corpo e na memória. É sabido que o IV Evangelho, naquele grande Capítulo 13, relata em vez da Ceia Primeira um lava-pés. O narrador abre a cena, referindo que Jesus «DEPÕE (títhêmi) o manto» (v. 4), e fecha a cena, anotando que Jesus «RECEBE (lambánô) o manto» (v. 12). São os mesmos verbos com que, no Capítulo 10.º, o Bom Pastor «DEPÕE (títhêmi) a vida» e «RECEBE (lambánô) a vida» (v. 17). Imensa e penetrante tradução da Cruz. Entre uma e outra coisa, entre «DEPOR o manto» e «RECEBER o manto», «DEPOR a vida» e «RECEBER a vida»[14], no centro geométrico e teológico do lava-pés (v. 8), está o discurso solene de Jesus: «Se não te lavo, Pedro, não tens parte comigo!» (Jo 13,8).

«Ter parte com» Cristo é participar no seu supremo serviço de amor até dar a vida para receber a vida[15]. «Ser lavado» e «ter parte com» e «estar puro» é linguagem bíblica de ordenação sacerdotal. E aqui é preciso paciência e persistência, e ler o texto de Nm 18,20 juntamente com os Capítulos 29 e 40 do Livro do Êxodo e o Capítulo 8.º do Livro do Levítico, acerca da ordenação sacerdotal de Aarão e dos seus filhos[16].

 

Vinculados no corpo e na memória, na vida e no serviço do amor, atravessamos o Cedron e entramos no «jardim». É de noite, mas arde a LUZ, a LUZ, a LUZ. É verdade que já não estamos todos. Judas perdeu-se na NOITE, na NOITE, na NOITE (Jo 13,30). Virá depois com archotes e lanternas – mísero sucedâneo da luz – e com armas (Jo 18,3). Vem prender a LUZ, mas cai encandeado (Jo 18,6). Tem de ser a LUZ a ofuscar-se por amor e a entregar-se a ele por amor. Neste ponto preciso, refere o relato de Marcos que nós fugimos todos, abandonando-o (Mc 14,50). E fugidos andaremos, e perdidos, na noite e no frio, até sermos outra vez por Ele encontrados e recolhidos. Mas já, entretanto, Pedro, perdido, se acolhe a outra luz e se aquece a outro lume (Jo 18,18). E, interpelado, nega ter andado com Jesus, ter alguma coisa a ver com Jesus, ter parte com Jesus. Nega mesmo conhecer Jesus (Mc 14,67-71).

Até que o galo canta, e começa a nascer o dia para Pedro (Mc 14,72).

 

Mas Jesus prossegue o seu caminho de amor até ao fim. Até à Cruz. É lá que se revela o rosto do doentio gosto pela morte que nos habita. «Salva-te a ti mesmo!» (Lc 23,35.37.39), gritamos nós repetidamente zombando, porque o que queremos mesmo, não é que Ele se salve; o que queremos mesmo é assistir ao doentio espectáculo da morte![17] A tanto chegou a nossa malvadez! Um ódio sem motivo, sem fundo, nos habita (Sl 35,19; 69,5; Jo 15,25)[18]. Ele é o Justo. Ele é a Bondade absolutamente gratuita, sempre Primeira e radical, igualmente sem motivo, sem fundo. Ele ama Primeiro (1 Jo 4,19), quando éramos ainda pecadores (Rm 5,8). Por isso, em vez de à nossa violência oferecer mais violência, Ele acolhe-a e acolhe-nos por amor, e por amor a nós se entrega, declarando assim ultrapassados e inúteis os nossos mais requintados ódios e os nossos mais sofisticados instrumentos de guerra (cf. Is 2,2-4; Mq 4,1-3). Ali, naquele Corpo Crucificado, morto por amor, e por amor exposto por escrito diante dos nossos olhos atónitos (Gl 3,1), morre o nosso desejo de morte, o nosso pecado, apagado pelo fogo do amor, que declara o nosso pecado completamente inútil, inutilizado, anulado e ultrapassado (cf. Cl 2,14).

 

Podemos agora olhar a Cruz de outra maneira. Afinal, ninguém nos fez frente, ninguém nos faz frente. E encetando o caminho retrospectivo do olhar e da memória[19], podemos começar agora a entender que aquelas chagas são o espelho em que podemos ver a nossa violência, a nossa malvadez, o nosso pecado. Como toda a «paixão», a «Paixão» de Cristo expressa passividade provocada por numerosas vontades humanas. A «Paixão» de Cristo revela a «acção» de outros, a nossa «acção»[20]. E podemos ir mais longe e confessar a única verdade disponível: «Nós somos culpados!»[21] Ou não veio Ele para que se manifestem os pensamentos escondidos de muitos corações (Lc 2,35)? Mas confessar sem medos, sem receios, porque nenhum tribunal nos julgará, nenhuma retaliação se seguirá, nenhuma ameaça nos persegue. De facto – descoberta sensacional! – ninguém nos acusou. Nem Deus nem o Servo Justo, Cristo[22]. Nenhuma acusação impende sobre nós. Nesse sentido, aquele Corpo aos nossos olhos exposto por escrito, aquelas chagas abertas, podem ser verdadeiramente a nossa cura (1 Pe 2,24; cf. Is 53,5). Está ali tudo exposto. Tudo às claras. Como a venenosa cobra em nós escondida e dissimulada, mas agora levantada diante dos nossos olhos. Fica ali bem à vista a imagem do mal de que padecemos. Podemos, portanto, agora que sabemos qual é o mal em nós anidado e que conhecemos o remédio, encetar o processo da cura. «Assim como Moisés levantou a cobra no deserto (Nm 21,8-9), assim «é necessário» (deî) que seja levantado o Filho do Homem» (Jo 3,14). O relato da Paixão põe em cena o «corpo a corpo» entre este «é necessário» e uma Liberdade[23].

O Deus Um, o Deus bíblico, só é relatável porque se submeteu a esta necessidade; e é só submetendo-se a esta necessidade, e assumindo uma a uma as suas cadeias, até à última, que Ele pode quebrar este cadeado, não com o perdão muitas vezes repetido ou indefinido, mas com o Perdão infinito, sem causa nem suporte. «É necessário» que seja o Bem a vencer sem combater este combate. Só o Bem é livre. O Bem não começou. O Bem é Primeiro e é para sempre[24]. O mal é que começou e se multiplica, encadeando, até ser completamente dissolvido pelo Bem.

Perdão infinito, portanto. A mais acabada manifestação de Bondade e Gratuidade mostra-se no dom feito aos mortos[25]. A Escritura de teor apocalíptico, nos seus finíssimos interstícios, faz-nos ouvir a oração dos mortos (Dn 9,4-19), ensina-nos a rezar pelos mortos (2 Mac 12,42-45), e concede o Perdão aos mortos (Dn 9,24)[26], sem que os mortos tenham de voltar à vida para serem perdoados. Antes, são trazidos à vida no próprio acto com que são perdoados[27]. A verdadeira morte não é o termo da vida, mas aquilo que, desde o princípio, impede de nascer.[28] E aquilo que impede de nascer para a Liberdade são as raivas e os ódios, a violência e o pecado que escravizam o coração do homem, encadeando, encadeando, encadeando. O acto que muda o coração e que retira o corpo da morte são um só e mesmo acto[29]. O percurso verdadeiro não é o que fazemos da vida para a morte, mas o que fazemos da morte para a vida. E é o amor que faz passar da morte para a vida (1 Jo 3,14; cf Jo 5,24).

 

É neste cone de luz que se situa o relato de Mateus quando refere que, com a morte de Jesus, «muitos túmulos se abriram e muitos corpos dos mortos santos ressuscitaram» (Mt 27,52). E é ainda a esta luz que o Símbolo dos Apóstolos proclama a descida de Jesus à mansão dos mortos. Perdão infinito. Vida verdadeira. Nascimento do alto e de outra maneira (Jo 3,3.7). Luz fulgurante sobre as trevas. Sulco de luz. Caminho novo da nova humanidade.

 

 

II. SEGUNDO ANDAMENTO: O ANÚNCIO DA RESSURREIÇÃO

 

Espanto, silêncio, amor, dedicação. Tantos perfumes. Dom feito ao morto! Dom mesmo. As mulheres exalam esta música, divina astúcia do amor. E já Nicodemos sai da NOITE, dos medos, dos disfarces, e vem também ele, agora indisfarçável, com mais de trinta quilos de uma mistura de mirra e aloés (Jo 19,39). Envolvem Jesus numas faixas encharcadas de perfume, como o Rei cantado e amado no Salmo 45 (45,9). Sepultam-no num sepulcro novo, como convém ao Rei, sempre o Primeiro em tudo. O IV Evangelho anota que esse sepulcro se situava num jardim, fazendo de Jesus o Primeiro sepultado no jardim. De acordo com a narrativa de Génesis 3,23-24, todos os sepulcros estavam até agora situados fora do jardim.

Suspensão do relato. Se é difícil dizer exactamente onde começa o relato da Paixão, é fácil dizer onde termina. Termina aqui. Termina aqui, porque o acontecimento que se segue, a Ressurreição, não é relatado. Tão-pouco a Ressurreição é representada na antiga iconografia cristã[30]. A Ressurreição não é relatada nem representada, porque permanece oculta aos nossos olhos. O que é relatado são os anúncios da Ressurreição[31]. Registra-se, pois, uma mudança na forma do discurso, tornado agora anúncio, notícia, querigma. Anúncio em primeira mão, vindo de fora. De Deus. Recebido e depois continuado pelos anunciadores habilitados. Mas é preciso acentuar ainda que o que habilita os anunciadores tem as suas raízes no próprio relato da Paixão, em que os futuros anunciadores aparecem claramente designados como aqueles que abandonaram Jesus, que renegaram Jesus e se perderam de Jesus[32]. Só saberão anunciar correctamente a Ressurreição de Jesus se confessarem também até que ponto esse acontecimento da Ressurreição os transformou desde dentro[33], acendendo neles a Chama da Vida verdadeira.

A notícia será então que Ele morreu e que foi salvo da morte, Ressuscitou, e que o seu Perdão nos reabilitou. Se Ele nos reabilitou, então Ele está vivo, actuante e eficaz[34]. Verdadeiramente «somos nós, somos nós, Senhor, a prova de que Tu ressuscitaste»[35]. Tempo novo. Discurso novo. Já antes, no mundo dos Salmos, não poucos orantes tinham chegado ao limiar da morte. Invocaram, porém, a Deus e foram salvos da morte, antes da morte. E voltavam então para relatar na assembleia dos fiéis a salvação experimentada. É certo que de Lázaro é dito que morreu, mas que retornou a esta vida, continuando a viver antes da morte. Permanecíamos sempre, portanto, no mundo do relato.

 

Não é o que se passa agora. Jesus morreu. Atravessou o limiar da morte. A salvação acontece depois da morte. Jesus não regressa a esta vida mortal de antes da morte. Entra na Planície sem fim da vida verdadeira. Desta salvação não há relato. Não pode haver relato. Só pode haver anúncio vindo desde fora, desde Deus. E, em termos narrativos, só pode haver o relato desse anúncio. Este anúncio, nova forma de discurso, assinala então o fim do relato da Paixão, mas também o fim de todo o relato que possa existir. Na verdade, se o Ressuscitado ressuscitasse como Lázaro, regressando a esta vida mortal, o relato prosseguiria. Mas se, de facto, jam non moritur, então a Paixão de Cristo transporta alguma coisa de único, que, por ser único, diz respeito a todos os homens. Não afecta só o corpo de Cristo. Afecta a inteira humanidade. De facto, o relato da Paixão não termina com a morte. É a Vida que põe termo ao relato da Paixão[36].

Mas o que é então primeiro: o relato da Paixão ou o anúncio da Ressurreição? Em termos cronológicos e narrativos, é verdade que o relato da Paixão precede o anúncio da Ressurreição, não sendo o anúncio da Ressurreição senão a declaração de que o relato da Paixão terminou. Do mesmo modo, o anúncio da vitória fecha o relato da batalha ou do jogo, sendo evidente que a batalha ou o jogo estão antes da vitória e do seu anúncio. Mas em termos de enunciação, é o anúncio da Ressurreição (ou da vitória) que precede o relato da Paixão (ou da batalha ou do jogo), e que o provoca, que o desencadeia. Anuncia-se a Ressurreição (ou a vitória), e depois narra-se a Paixão (ou a batalha ou o jogo)[37].

O mensageiro proclama a notícia da Ressurreição. E diz que o faz como se de uma necessidade se tratasse. «Ai de mim se não anunciar o Evangelho!», confessa Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios (9,16). Mas porque é que este anúncio há-de ser, para Paulo, uma necessidade? É uma necessidade porque Paulo considera o mistério da Páscoa de Cristo como único, singular e universal[38], que o afectou radicalmente na sua maneira de ser homem. E o mesmo dirá Pedro e os outros. Também nós. Também nós? A prova é que Paulo mudou tudo na sua vida. Mudou, ou foi mudado. «Somos nós, somos nós, Senhor, a prova de que Tu ressuscitaste». Neste sentido, Paulo proclama assertivamente a força (dýnamis) de Cristo Crucificado e Ressuscitado (Fl 3,10). Mas é claro que este anúncio sempre Primeiro arrasta consigo um novo relato, um longo e lento e belo relato. Este relato é o testemunho de como Cristo atravessou a vida do anunciador, transformando-o radicalmente com o Perdão infinito. O anunciador transforma-se assim naturalmente em narrador. O anunciador é assertivo e audaz e destemido. O narrador é frágil: é um pedinte que mendiga um narratário a quem possa transmitir o seu relato[39]. Ouvindo o anúncio e acolhendo o relato, cabe agora ao narratário decidir se declara o mistério da Páscoa de Cristo como único, singular e universal, isto é, capaz de pôr em andamento uma história nova de Perdão e de Vida para o fim de toda a morte e de todo o pecado[40]. Se o fizer, também ele se porá a caminho, atravessará fronteiras, buscará um destinatário para a sua notícia e um narratário para o seu relato. Anunciará a Ressurreição de Cristo e oferecerá como garante o relato da transformação operada na sua própria vida. «Somos nós, somos nós, Senhor, a prova de que Tu ressuscitaste». É verdade que a notícia faz de ponto de união: junta o mensageiro e o destinatário. Mas só o relato os aproxima, fazendo-os, não só estar juntos, mas nascer juntos como irmãos[41]. Este nascimento, não pelo sangue, mas pela Liberdade, é que é o verdadeiro nascimento, que nos faz saborear a verdadeira fraternidade. «Ide dizer aos meus IRMÃOS que Eu os precedo na Galileia» (Mt 28,10; cf. Jo 20,17). Um pouco antes, o anjo tinha dito: «Ide dizer aos seus discípulos…» (Mt 28,7). Foi por esta passagem única que passou o Perdão infinito e a Vida verdadeira, que transforma os discípulos em IRMÃOS do Ressuscitado, que nos PRECEDE e nos PRESIDE sempre, referência permanente do nosso quotidiano. «Onde estiverem dois ou três, Eu estarei no MEIO» (Mt 18,20; cf. 28,20).

A notícia leva o Evangelho. Mas é o relato que constrói a Igreja[42]. O relato é um caminho longo e lento e belo e saboroso. A originalidade da Igreja não é tanto anunciar o Amor. É relatá-lo! Não basta dizer, proclamando: «Amai-vos uns aos outros!» Soa a Lei. É necessário relatar o amor[43]. Nova versão: «Amai-vos uns aos outros COMO Eu vos amei» (Jo 13,34; 15,12). Mas este «COMO Eu vos amei» abre para um longo e lento e belo e saboroso relato, que nos atravessa e nos transfigura e que atravessa e transfigura outra vez e outra vez e outra vez a inteira Escritura até à origem. O que é a Escritura, senão a história dos momentos em que se pára e se relata[44] e se faz luz e lume novo? «Não ardia cá dentro o nosso coração quando Ele nos falava no caminho, quando nos abria as Escrituras?» (Lc 24,32). Outra vez. O relato relata, põe em relação, une, reúne, enlaça, entrelaça. Pessoas e acontecimentos. O anúncio da Ressurreição desencadeia dois relatos: para trás, até à origem, e para a frente, até ao cumprimento. Ninguém está ausente. Somos todos contemporâneos do Ressuscitado. Implicados nele e explicados por Ele. Até que seja em nós verdade dizer, com a Primeira Carta de S. João: «Nós acreditámos no amor» (1 Jo 4,16)[45]. Ou com S. Paulo e com a Anáfora III: «Na noite em que Ele ia ser entregue…» (1 Cor 11,23): assim começa a mais bela melodia que conheço!

Um caminho novo se abre a nossos pés./ Uma luz nova em nossos olhos arde./ Átrio de luminosidade./ Pão de trigo e de liberdade./ Claridade que se ateia ao coração.// Lume novo./ Lareira acesa na cidade./ És Tu, Senhor, o clarão da tarde./ A notícia, a carícia, a ressurreição.

III. TERCEIRO ANDAMENTO: CONTEMPORÂNEOS, NÃO SIMPLES CONTINUADORES

 É verdade que o relato da Paixão nos atravessa e nos implica. Para explicar esta implicação, mostrámos já que o relato da Paixão não tem continuação. De facto, o seu final guarda um fosso, uma ruptura, que se traduz, por um lado, no abandono dos discípulos da cena da Paixão (Mc 14,50), e, por outro lado, no facto de não se lhe seguir um relato da Ressurreição, mas antes um relato do anúncio da Ressurreição. Se o normal relato continuasse, então os discípulos de Jesus aparecer-nos-iam simplesmente como os seus continuadores, e sobre eles pesaria a incumbência de reparar uma brecha, de colmatar uma falha, de disfarçar uma ausência[46].

Continuadores, eles são-no, nós somo-lo, aos olhos da história empírica[47]. Mas eles são, nós somos, outra coisa na estrutura do relato. De facto, e contra a ideia corrente do simples continuador, é muito antes da Paixão, entre os primeiríssimos actos públicos de Jesus, que é colocado o cenário do seu chamamento (Mc 1,16-20). Nós sabemos que o normal é que o herói prepare a sua sucessão quando pressente que o termo da sua vida se aproxima ou que é inevitável a sua retirada de cena. É igualmente normal que um mestre escolha os seus continuadores sobre a base de uma longa selecção entre os seus discípulos. Mas é no princípio da sua missão que Jesus os chama, e é já durante a sua própria missão que Jesus os envia em missão. Esta contemporaneidade implica com Jesus os seus discípulos, e implica-nos a nós do mesmo modo, impedindo a sua e a nossa catalogação como simples e fáceis continuadores da missão evangelizadora de Jesus.

É, portanto, necessário ter presente que, quando se abeiram da Paixão de Jesus, aqueles discípulos já tinham sido chamados, já tinham sido enviados em missão, e, sobretudo, já «tinham comido o corpo» de Cristo, acção que toda a imaginação piedosa teria espontaneamente relegado para os encontros que têm lugar depois da Ressurreição. Desta maneira, a Paixão aparece como uma prova a que são submetidos, enquanto corpo, Jesus e os seus discípulos. E é este corpo de vários que é o verdadeiro herói da Paixão: «Eu ferirei o Pastor e as ovelhas serão dispersas» (Zc 13,7). E é mesmo no seio deste corpo que a Paixão acaba por ter a sua causa mais próxima, a traição de Judas, uma vez que Judas é chamado repetidamente um dos doze[48].

 

Notemos que quando Judas sai, é de NOITE, e que depois da negação de Pedro, o DIA nasce com o canto do galo. O relato de Pedro faz parte integrante do relato da Paixão, e não é um seu acompanhamento secundário. É o relato do anunciador. O canto do galo é um sinal. Traz para a cena a obra criadora do primeiro dia, em que, segundo o relato do Génesis, «Deus separou a luz e as trevas» (Gn 1,3-5). Aqui, em contraponto, estão as trevas de Judas e a luz nascente para Pedro. Obra luminosa e criadora. Mas também anunciadora, porque este canto exerce uma função de referência entre as fases do tempo: nenhum animal é mais querigmático do que o galo. Iremos encontrá-lo sobre os nossos antigos campanários, mas já, antes disso, o encontrámos muitas vezes sobre os primeiros sarcófagos cristãos[49].

O galo é indissociável de Pedro, porque se a Igreja está fundada sobre Pedro, Pedro está fundado sobre o seu pecado perdoado[50]. «Somos nós, somos nós, Senhor, a prova de que Tu ressuscitaste». É o PERDÃO recebido por Pedro que o constitui em anunciador e narrador. Mas não é tudo. É hoje unanimemente considerado, conjugados os dados da crítica bíblica e da iconografia cristã antiga, que o testemunho de Jesus no tribunal do Sinédrio obedece à intenção de estabelecer um modelo para a futura confissão cristã da fé com o risco da própria vida. E é assim que Pedro e Paulo, André, Tiago e João irão pelo mundo. O seu testemunho, o nosso testemunho, já estão agrafados ao testemunho de Jesus no relato da Paixão.

Tudo isto faz dos apóstolos, e faz-nos também a nós, contemporâneos da Paixão de Cristo, e nela implicados. Eles não podem narrar a Paixão de Cristo – nem atravessar fronteiras – sem revelar a sua própria história de pecado. Nós não podemos narrar a Paixão de Cristo – nem atravessar fronteiras – sem revelar a nossa própria história de pecado. E anunciar a Ressurreição não faria qualquer sentido se eles não testemunhassem também, se nós não testemunhássemos também, que recebemos a Graça da Vida Verdadeira[51]. «Somos nós, somos nós, Senhor, a prova de que Tu ressuscitaste».

 

Também nós hoje somos contemporâneos da Paixão de Cristo. Não simples continuadores. A igreja é a esposa de Cristo, não a sua viúva nem a sua filha.

É importante que escutemos outra vez o anúncio do Perdão infinito e que aprendamos outra vez a relatar a Vida nova dada e recebida à volta da mesa da Palavra e da Eucaristia. «Somos nós, somos nós, Senhor, a prova de que Tu ressuscitaste».

É importante olhar outra vez longa, paciente e intensamente para a Cruz: «Hão-de olhar para aquele que transpassaram» (Jo 19,37). Na Cruz passam dois filmes: o filme da nossa violência, da nossa malícia e malvadez, e o filme do Perdão subversivo de Deus que acolhe a nossa violência e a dissolve por Amor.

Mas é importante também anunciar e testemunhar a força de Cristo Crucificado e Ressuscitado nos caminhos concretos deste tempo e deste mundo. Até que esta Luz nova ilumine o nosso quotidiano.

Não temos de demonstrar nada. Apenas mostrar e testemunhar. Seja onde for. Seja a quem for. A experiência da testemunha é sempre mais forte e mais radical do que as provas que eventualmente queira dar. O testemunho é mais eficaz quando incita o destinatário, não a inclinar-se, vencido, perante as provas, mas a fazer, por sua vez, a experiência[52].

E aqui é importante, é decisivo, relatar esta história do Amor Primeiro que acolhe a nossa violência e a dissolve. Quero dizer: é decisivo discernir o tempo que Deus nos concede até aprendermos a dá-lo aos outros. É preciso ter tempo para os outros. Muito tempo para os outros. Porque relatar é contar uma história e fazer história. Ninguém pode contar uma boa história em pouco tempo. Nem Deus, que levou séculos e séculos a relatar-nos a sua história connosco. É verdade que «O tempo significa amor, e que àquilo que concedo tempo concedo amor; a violência é rápida»[53].

 

Senhor, ensina-nos a viver e a celebrar dignamente o Mistério Pascal, Domingo após Domingo, Páscoa após Páscoa. Ensina-nos sobretudo a ter tempo para Te dar e para dar aos outros, para Te dizer e para Tu nos dizeres, e juntos, nos dizermos uns aos outros.

Passa outra vez, Senhor./ Dá-nos a mão./ Levanta-nos./ Não nos deixes ociosos nas praças./ Sentados à beira dos caminhos./ Sonolentos./ Desavindos./ A remendar bolsas ou redes.// Sacia-nos./ Envia-nos, Senhor./ E partiremos/ O Pão./ O perdão./ Até que em cada um de nós nasça um irmão.

«Somos nós, somos nós, Senhor, a prova de que Tu ressuscitaste».

 

António Couto

[1] P. BEAUCHAMP, D’Une montagne à l’autre. La loi de Dieu, Paris, Seuil, 1999, p. 103.

[2] H. URS VON BALTHASAR, L’Amour seul est digne de foi, Aubier, Montaigne, 1966, p. 131.

[3] P. BEAUCHAMP, L’Un et l’Autre Testament. II. Accomplir les Écritures, Paris, Seuil, 1990, p. 415; P. BEAUCHAMP, Le Récit, la Lettre et le Corps. Essais bibliques, «Cogitatio Fidei», Paris, Cerf, nova edição aumentada, 1992, p. 125. O presente texto é grandemente devedor a dois estudos de Paul Beauchamp – Narrativité et théologie dans les récits de la Passion e La Bible et les formes du langage ou le Texte du Pardon (Daniel 9) – hoje incorporados na nova edição aumentada de Le Récit, la Lettre et le Corps, 1992, p. 107-128 e 281-298, donde os citamos, mas que apareceram inicialmente na revista Recherches de science religieuse, 73, 1985, p. 39-59, e na revista Esprit, 140-141, 1988, p. 199-212.

[4] P. BEAUCHAMP, Le Récit, la Lettre et le Corps, p. 127.

[5] Mc 15,28 é um acrescento tardio, não autêntico.

[6] P. BEAUCHAMP, Le Récit, la Lettre et le Corps, p. 283; P. BEAUCHAMP, Pages exégétiques, Paris, Cerf, 2005, p. 426.

[7] P. BEAUCHAMP, Le Récit, la Lettre et le Corps, p. 119.

[8] Na força das palavras de Paulo, ele foi enviado numa «carne semelhante à do pecado» (Rm 8,3), foi «feito maldição» por nós (Gl 3,13), Deus «fê-lo pecado por causa de nós» (2 Cor 5,21). P. BEAUCHAMP, La loi de Dieu, p. 232.

[9] P. BEAUCHAMP, Le Récit, la Lettre et le Corps, p. 125.

[10] As ideias gregas do múltiplo e indeterminado têm o seu correspondente entre os hebreus na imagem do pó. Neste sentido, a morte é a força, que habita em nós, que nos pode fazer retornar ao pó. O contrário do pó da morte é o UM por excelência, o Vivente, que dá a vida. Cl. TRESMONTANT, Essai sur la pensée hébraique, Paris, Cerf, 1953, p. 16-18; Cl. JEAN-NESMY, Parole et Esprit du Psautier Chrétien, Paris, Téqui, 1975, p. 42-43.

[11] P. BEAUCHAMP, Le Récit, la Lettre et le Corps, p. 125.

[12] P. BEAUCHAMP, Le Récit, la Lettre et le Corps, p. 297; P. BEAUCHAMP, L’Un et l’Autre Testament, II, p. 419.

[13] P. BEAUCHAMP, Le Récit, la Lettre et le Corps, p. 303.

[14] Ver ainda, no final de Jo 13, Pedro que se propõe «depor» (títhêmi) a vida por Cristo (vv. 37e 38), o que se pode considerar como uma inclusão literária com Jo 13,4. M. PERRONI, Il racconto della lavanda dei piedi (Gv 13): tra sincronia e diacronia, in Studia Patavina, 50, 2003, p. 66.

[15] J. P. HEIL, Blood and Water. The Death and Resurrection of Jesus in John 18-21, Washington, The Catholic Biblical Association of America, 1995, p. 88.

[16] T. FEDERICI, Per conoscere Lui e la potenza della Resurrezione di Lui. Per una lettura teologica del Lezionario. II. Ciclo B, Nápoles, Dehoniane, 1987, p. 267-269.

[17] P. BEAUCHAMP, La loi de Dieu, p. 185 e 247; P. BEAUCHAMP, Pages exégétiques, p. 251.

[18] P. BEAUCHAMP, Psaumes nuit et jour, Paris, Seuil, 1980 [nova impressão, 2001], p. 52.

[19] A partir de Mt 5,23-24: «23Portanto, se estiveres para oferecer o teu dom sobre o altar, e ali te recordares que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, 24deixa lá o teu dom diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão, e depois, quando vieres, oferece o teu dom». P. BEAUCHAMP, La Loi de Dieu, p. 130-131.

[20] P. BEAUCHAMP, Psaumes nuit et jour, p. 48-49.

[21] P. BEAUCHAMP, Le Récit, la Lettre et le Corps, p. 297.

[22] P. BEAUCHAMP, Psaumes nuit et jour, p. 241; R. MEYNET, Mort et ressuscité selon les Écritures, Paris, Bayard, 2003, p. 154.

[23] P. BEAUCHAMP, Le Récit, la Lettre et le Corps, p. 125.

[24] P. BEAUCHAMP, La Loi de Dieu, p. 131 e 225.

[25] P. BEAUCHAMP, Le Récit, la Lettre et le Corps, p. 297.

[26] P. BEAUCHAMP, Le Récit, la Lettre et le Corps, p. 297-298.

[27] P. BEAUCHAMP, L’Un et l’Autre Testament, II, p. 419.

[28] P. BEAUCHAMP, L’Un et l’Autre Testament. I. Essai de lecture, Paris, Seuil, nova impressão, 2000, p. 199.

[29] P. BEAUCHAMP, L’Un et l’Autre Testament, II, p. 420.

[30] P. BEAUCHAMP, Le Récit, la Lettre et le Corps, p. 119.

[31] P. BEAUCHAMP, Le Récit, la Lettre et le Corps, p. 119.

[32] P. BEAUCHAMP, Le Récit, la Lettre et le Corps, p. 120.

[33] P. BEAUCHAMP, Le Récit, la Lettre et le Corps, p. 127.

[34] P. BEAUCHAMP, Cinquante portraits bibliques. Dessins de Pierre Grassignoux, Paris, Seuil, 2000, p. 213; P. BEAUCHAMP, Conférences. Une exégèse biblique, Paris, Facultés Jésuites de Paris, 2004, p. 66.

[35] D. M. TUROLDO, G. RAVASI, Opere e giorni del Signore. Commento alla letture liturgiche, Cinisello Balsamo, Paoline, 1989, p. 222.

[36] P. BEAUCHAMP, Le Récit, la Lettre et le Corps, p. 120.

[37] P. BEAUCHAMP, Lecture et relectures du quatrième chant du Serviteur. D’Isaïe à Jean, in J. VERMEYLEN (ed.), The Book of Isaiah – Le Livre d’Isaïe. Les oracles et leurs relectures. Unité et complexité de l’ouvrage, BETL LXXI, Lovaina, Leuven University Press – Peeters, 1989, p. 331.

[38] P. BEAUCHAMP, Le Récit, la Lettre et le Corps, p. 124.

[39] P. BEAUCHAMP, L’Un et l’Autre Testament, II, p. 425; P. BEAUCHAMP, Le Récit, la Lettre et le Corps, p. 109.

[40] P. BEAUCHAMP, Le Récit, la Lettre et le Corps, p. 124-125.

[41] P. BEAUCHAMP, Le Récit, la Lettre et le Corps, p. 307.

[42] P. BEAUCHAMP, Le Récit, la Lettre et le Corps, p. 307.

[43] P. BEAUCHAMP, Le Récit, la Lettre et le Corps, p. 318.

[44] P. BEAUCHAMP, Le Récit, la Lettre et le Corps, p. 293.

[45] P. BEAUCHAMP, Le Récit, la Lettre et le Corps, p. 318.

[46] P. BEAUCHAMP, Le Récit, la Lettre et le Corps, p. 126.

[47] P. BEAUCHAMP, Le Récit, la Lettre et le Corps, p. 126.

[48] P. BEAUCHAMP, Le Récit, la Lettre et le Corps, p. 126.

[49] P. BEAUCHAMP, Le Récit, la Lettre et le Corps, p. 126-127.

[50] P. BEAUCHAMP, Le Récit, la Lettre et le Corps, p. 127.

[51] P. BEAUCHAMP, Le Récit, la Lettre et le Corps, p. 127.

[52] P. BEAUCHAMP, Psaumes nuit et jour, p. 41.

[53] M. KORKHEIMER, Sul concetto di Bildung, in Studi di filosofia della società, Turim, Einaudi, 1981, p. 193.


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