1. Maria aparece muitas vezes, na iconografia, com o Menino nos braços e um olhar de graça suavemente iluminado. O movimento dos braços mostra a ternura maternal de quem embala e segura o Menino Jesus, ou a alegria evangelizadora de quem apresenta e oferece Jesus a este mundo, reclamando de cada um de nós mãos carinhosas e seguras, coração maternal, olhar de graça.
2. É fácil ler, no contexto da iconografia, uma grande cumplicidade entre Maria e Santo António de Lisboa, de Pádua ou de todo o mundo. Vê-se bem que também Santo António aparece com o Menino nos braços: umas vezes, segurando Jesus com os dois braços; outras vezes, com um braço segurando Jesus, e no outro ostentando um livro, o Livro, o Livro da Palavra de Deus, que tão bem viveu e tão bem soube dizer; outras vezes ainda, ostentando Jesus sentado sobre o Livro, Senhor do Livro, como o Anjo de Mateus sentado sobre a pedra do sepulcro (Mt 28,2). Belíssimas figurações de amor e luz. Maria olhando pelo Menino Jesus ou convidando-nos a olhar pelo Menino Jesus. Santo António de Lisboa ostentando o Menino Jesus e o Livro, mostrando bem com que amor soube ler a Escritura, e convidando-nos a acolher o Menino que atravessa em contraluz toda a Escritura, e a ler a Escritura em contraluz acolhendo em cada página, não apenas sons e sílabas e palavras e frases, mas um Rosto e um Nome, JESUS.
3. Maria e Santo António de Lisboa. Os dois com o Menino Jesus nos braços e no coração, nos lábios, na vida. Eles tomaram conta de Jesus com amor, tomaram conta do amor. Ou foi o amor que tomou conta deles? Na verdade, são eles que seguram Jesus, ou é Jesus que os segura a eles? Somos nós que seguramos a Palavra de Deus, ou é a Palavra de Deus que nos segura a nós? Frágil, forte segurança, a segurança-confiança do amor, forte como a morte o amor (Ct 8,6).
4. É por esta imagem de um Menino ao colo de uma Mãe, seguro-confiante na força do amor maternal que cuida dele sempre, que, em termos bíblicos, entramos no caminho da Verdade (J. GOLDSTAIN, Le monde des psaumes, Paris, Source, 1964, p. 391 e 393. Verdade, na Bíblia hebraica, diz-se ’emet, cuja etimologia remete para segurança, firmeza, confiança (’emunah, ’aman, ’amen). Diz então o Livro que Santo António segura no braço com o Menino em cima que o lugar mais verdadeiro do mundo, portanto, a maior fonte de segurança do mundo, são os braços de uma Mãe ou de um Pai que ternamente seguram um bebé.
5. A verdade é, portanto, a verdade do Amor que não engana, o mais puro amor que existe. A analogia do amor materno e paterno abre para Deus, que o mesmo Livro diz que ama com amor perfeito. S. Paulo dirige-se a nós desta maneira, ao escrever as primeiras linhas da primeira página do Novo Testamento:
«1,4(…) Irmãos AMADOS por Deus (êgapêménoi hypò [toû] theoû)» (1 Ts 1,4).
A locução «AMADOS» apresenta-se no tempo perfeito passivo (êgapêménoi: part. perf. passivo de agapáô), e traduz, portanto, um amor novo, vindo de Deus, que começou a amar e a amar continua ainda hoje, pois é esse o sentido do perfeito grego.
6. É por isso que Deus, amor perfeito e permanente – o mesmo ontem, hoje e sempre (Hb 13,8) –, não mente, não engana, não seduz. Ele é a Sabedoria, Ele é a luz. Ele chama, Ele ama, Ele dá a Sabedoria, Ele alumia. A nossa luz é reflexa, a nossa sabedoria é recebida, recebido é o amor com que amamos. Não o amor da sabedoria. Mas a sabedoria do amor. «Deus governa o mundo com as palmas das suas mãos» (Sir 18,3), em que está tatuado o nosso rosto e o nosso nome (Is 49,16), e tem sempre as suas «mãos abertas sobre nós» (Sl 139,5). Mãos de amor.
7. Como Maria e como Santo António, experimentemos também viver de coração aberto e de mãos abertas para acolher e saborear o dom de Deus (Hb 6,4) e experimentar a beleza da Palavra de Deus (Hb 6,5). Maria e Santo António, com o Livro e o Menino, representam uma nova cultura, não assente na mentira, na esclerose ou dureza do coração, no poder e na violência, mas na ternura, no amor, na suavidade e na verdade.
8. Santo António de Lisboa, Nossa Senhora do Rosário de Fátima, ensinai-nos a viver com o Livro da Palavra de Deus e o Menino nos braços e no coração. Ámen.
António Couto

Junho 19, 2009 ás 5:01 pm |
Olá,
Enquanto lia, ia sentindo esse amor de mãe pelos filhos nos braços, e verifiquei que ele existe, no coração, apesar de já não os poder ter assim, ao colo, pequenos, indefesos.
Quando pego na minha neta ao colo e a abraço, quando ela adoece, quando ri e está feliz ou quando já faz traquinices, esse amor continua presente, é reavivado, é multiplicado e arrisco a dizer, é infinitamente grande. (será por isso que se diz que as avós são mães duas vezes?)
Ao ler o teu texto, inconscientemente fiz comparações e vi que o meu humano amor de mãe, é apenas um pedacinho do amor de Deus que, no teu texto, vês nas imagens expressivas da Virgem e de Santo António (e também e logo no de todos os santos).
Senti-me amada, quando me vi nas palmas das mãos de Deus, no Seu colo, nos seus braços, pois é assim, que o vejo e que o expresso, mesmo de longe, na memória, no pensamento e na alegria de ouvir e ver os meus filhos e neta (e agora com as tecnologias).
Obrigada, António Couto, (ou de Lisboa, ou de Pádua). Tu também pegas em mim ao colo muitas vezes. Com a tua palavra, com a Palavra que tão bem conheces e nos ensinas a conhecer, mesmo na imagem desse Menino no colinho de Sua mãe ou no de todas as mães. Conseguiste, sem querer, fazer com que eu visse o dia de Santo António como dia da Mãe, dia de todas as mães, dia de Deus (e do Seu Amor por nós.
Abraço grande
Elisa
Junho 19, 2009 ás 11:39 pm |
Que bela imagem de amor e de ternura, seja o Menino em Maria, seja o Menino em Santo António.
Também é difícil ver quem dá e quem recebe. Ambas as cenas atestam a vida, envolvida em candura e ternura; ambas realçam também a reciprocidade de um amor que é feito de laços e de comunhão.
Obrigado, Bom Jesus, pelo dom da vida e pela tua mensagem de vida que enche de mais vida a vida que Tu nos dás…
Junho 23, 2009 ás 12:16 pm |
Obrigada pela beleza extasiante destas palavras.
Mais um apelo ao verdadeiro sentido da maternidade.
Será sinal para um certo caminho a percorrer,
sucessivamente adiado! O amor de Deus em acção.
Profundamente agradecida.