1. Lê-se exemplamente no Evangelho de Marcos: «13E ELE sobe para a montanha e chama para SI aqueles que ELE queria, e andaram para ELE. 14E ELE fez Doze, para que estivessem com ELE, e para ELE os enviar a pregar 15e ter autoridade para expulsar os demónios» (Marcos 3,13-15).
2. O centro é claramente Jesus. É Ele que chama quem quer. É para Ele que
se dirigem os que são chamados. É Ele que os FAZ (verbo da criação, só usado neste contexto, aqui, em todos os Evangelhos). O seu serviço é PRIMEIRO, PRIMEIRO, PRIMEIRO, estar com Jesus, e só depois serem por Ele enviados numa missão frágil-forte de mostrar sem demonstrar, testemunhar com a vida (é essa a metodologia da pregação, verbo kêrýssô) e limpar ódios e raivas e ciúmes e invejas e mentiras e violências (os demónios de ontem e de sempre) e estabelecer o amor e a paz e a alegria e a concórdia e a verdade.
3. Hoje, a Igreja Una e Santa proclama e escuta o Evangelho de Marcos 6,6b-13, cujo início soa assim: «7E chamou os doze, e começou a enviá-los dois a dois, e dava-lhes autoridade sobre os espíritos impuros. 8E ordenou-lhes que não levassem para o caminho senão um bastão: nem pão, nem alforge, nem dinheiro na cintura; 9que fossem calçados com sandálias, e não levassem duas túnicas…».
4. Salta à vista que este episódio significativo da missão confiada aos Doze (Marcos 6,6b-13) segue o primeiro episódio que transcrevemos (Marcos 3,13-15). Mas é ainda notório que o episódio de hoje se situa, situação não casual, entre o desprezo de Jesus na sua pátria (Marcos 6,1-6) e o martírio de João Baptista (Marcos 6,14-21). Fica claro que, no Evangelho de Marcos, a missão se desenrola entre o desprezo e o martírio.
5. Mas é ainda claro que a missão dos Doze parte sempre de Jesus, e não deles ou de nós: foi Ele que os começou a enviar. E o facto de os enviar dois a dois é ainda sinal claro de que ninguém vai em nome próprio com uma mensagem própria (na Evangelização não há lugar para franco-atiradores), mas como testemunhas de uma mensagem que receberam de Jesus (Deuteronómio 19,15; João 8,17). «Dois a dois» permite ainda identificar a presença de um terceiro, que é mesmo o fundamental: «Onde estiverem dois ou três reunidos em meu Nome, Eu estarei no meio deles» (Mateus 18,20). Com Jesus no meio: passo fundamental. Mateus 10,10 manda retirar também as sandálias (só Mateus): é outra forma de dizer que o missionário vai sempre acompanhado do Deus santo. Ver a atitude de Moisés e de Josué no Sinai e na Terra Prometida (Êxodo 3,5; Josué 5,15). A intensidade do Evangelho, a santidade, a de Deus e a nossa, «a “medida alta” da vida cristã ordinária» (João Paulo II).
6. É santo o caminho do Evangelho. Sacudir o pó dos pés, ao sair das localidades não acolhedoras (Marcos 6,11), reclama a remoção do pó profano e impuro num caminho santo.
7. Salta ainda à vista que estes missionários nada devem levar, excepto a mensagem que lhes é confiada. «Nem pão, nem alforge, nem dinheiro, nem duas túnicas» (Marcos 6,8-9). Vão acompanhados e guiados pela providência de Deus que é o seu sustento, conforme a lição de Jesus e do Servo (Isaías 42,1); mas ver também Elias, que bebe da torrente e é alimentado pelos corvos (1 Reis 17,4-6), e o Rei messiânico que, a caminho, bebe da torrente (Salmo 110,7).
8. Mas é ainda de notar que esta primeira missão apareça fora de tempo e lugar: na verdade, não é dito para onde Jesus tenha enviado estes missionários, nem onde e por quanto tempo tenham pregado. Tão-pouco somos informados da reacção dos seus ouvintes, nem da forma como foram recebidos. Parece tudo propositadamente esfumado. Clara e luminosa, ao contrário, é a relação dos Doze com Jesus: é Ele que os escolhe e chama para estarem sempre com Ele (Marcos 3,13-14); é Ele que os envia e lhes dá autoridade (Marcos 6,7), e é a Ele que retornam para lhe relatar o que fizeram (Marcos 6,30: próximo domingo). João Baptista (Marcos 1,2-4) e Jesus (Marcos 9,37) foram enviados por Deus. Os Doze são enviados por Jesus. Modo claro de o Evangelho mostrar que Jesus assume o lugar de Deus, Ele é Deus. Nós somos sempre apenas enviados. Mas não estamos sós. Nem perdidos. Mas amados.
António Couto
Julho 12, 2009 ás 10:59 pm |
Mesmo depois de hoje (e já ontem) ter lido, meditado e até apresentado ao Povo de Deus a mensagem do Evangelho deste Domingo, dá gosto, no final deste dia, poder ler de novo e com novo gosto este texto do evangelho e, a partir desta reflexão de D. António Couto, poder fazer nova leitura e colher nova mensagem, mais profunda e sedimentada, e tudo isto a partir da serenidade a que o texto da Palavra de Deus sempre nos convida.
Por isso, obrigado D. António Couto…
Agradeço e peço que prossiga, sempre e sempre, com estas suas reflexões, não só como mensageiro de Deus, mas ajudando muitos mais a sê-lo com este seu contributo. Por isso, bem-haja.
Julho 14, 2009 ás 6:26 pm |
Boa tarde,
!! “entre o desprezo e o martírio”!!
Aquilo que nos é proposto interiorizar para conseguir, mesmo que insuficientemente. O mesmo esforço (de TODOS) que nos é sugerido pelo Santo Padre para este Ano Sacerdotal, pois só assim, sem vergonhas ou respeitos humanos, poderemos, alguma vez fragilizar, (não digo vencer – missão impossível?), os demónios que nos impedem conhecer que somos TODOS enviados, que não caminharemos sós, nem nos sentiremos perdidos, porque, afinal e sempre, em qualquer/nosso tempo e lugar, já fomos escolhidos.
Haja coragem para dar o primeiro passo, mesmo que pequenino, nesse percurso que nos foi/é revelado-para-seguir, com Deus ao lado, ou ao Seu colo, (como crianças de tenra idade que ainda somos).
Abraço grande,
Elisa
Julho 15, 2009 ás 9:38 am |
Não estamos sós nem perdidos mas amados.
Entre o martírio e o desprezo para quem iremos nós Senhor ?
Onde não há não vale a pena procurar.
Julho 15, 2009 ás 6:00 pm |
O projecto que Deus traçou para a Humanidade é perfeito.
Somos sempre, apenas enviados, mas amados e escolhidos e para testemunhar uma mensagem de Jesus.
Tudo está preparado!!
Só temos de confiar, estar atentos, fazermo-nos puros, tentar sacudir impurezas?
Estará ao nosso alcance, sermos chamados em “MISSÃO”?
A propósito ouvia na rádio, directamente de Fátima, na noite de 13/07 (passado Domingo)e como proposição para este ano de 2009:
“Os puros de coração verão a Deus”.
Confiar e permanecer à escuta.
Se Deus/Jesus quiserem, ACONTECE.
É belo tudo isto!!
Julho 15, 2009 ás 10:41 pm |
Permita-me a partilha suscitada pelas palavras apresentadas no menu:
A Palavra lida e escutada, assim como as palavras que estende nesta mesa de partilha, medito-as à luz daquilo que me acontecerá daqui a uns meses; Partirei para uma primeira experiência missionária em Taiwan!
A única certeza é a incerteza do para onde ir e que fazer; a resposta encontro-a na Palavra encarnada que se (pro)põe no centro (assim como à frente, como chama, e atrás, como nuvem!).
É um desafio que implicará mudanças e certezas de Amor (amar e ser amado) na incerteza de cada passo da caminhada.
É fruto do estar com (estar junto) que já conta cerca de nove anos de formação para a missão.
Findos os estudos académicos, nomeadamente a tese, por lá nos encontraremos em Cristo!
Até lá, vemo-nos por aqui!
José Carlos Pereira
Julho 16, 2009 ás 11:33 am |
Companheiro de Viagem (José Carlos Pereira), estamos todos na mesma barca, embora alguns sintam mais que outros os açoites de certas tempestades. Coragem… A Missão é nobre e bela, e torna nobre e bela toda a pessoa que nela aceita participar e por ela se deixa possuir… Um abraço de Comunhão, em missão.
Julho 15, 2009 ás 10:54 pm |
Caríssimo Amigo,
A missão é d’Ele. É d’Ele a seara. Nós apenas entramos na missão d’Ele. E Ele sabe, ama, e chama. Vá com alegria. Vá com Deus. E diga Deus. Lá, em Taiwan, e aqui. O melhor para si. A. Couto.
Julho 16, 2009 ás 4:15 pm |
Muito obrigado pelas palavras de comunhão e união na missão!
Assim como o personagem bíblico que estou a analisar, Sansão, terei de encontrar a força que vem do interior, o íntimo mais íntimo, pois só assim se descobre o verdadeiro agir em nome dELE e na alegria dELE! É uma marca indelével que não se pode contornar, pois está cunhada na carne, no coração!
Abraço,
José Carlos Pereira
Julho 16, 2009 ás 7:00 pm |
Meu irmão desconhecido,
A inveja é um pecado, mas … como gostaria de estar no seu lugar, e poder ser enviada também, para África, e sentir que as saudades-sonhos voltam a ser a realidade alegre e feliz que vivi nos primeiros vinte anos da minha vida.
Sei que o tempo não volta para trás, que aqui,na minha paróquia, também posso ser missionária e que, provavelmente não voltarei lá. Os caminhos do Senhor são rectos, (apesar de invisíveis aos olhos humanos) e, da mesma forma como a vida me surpreendeu com a vinda para cá, para poder CRESCER, ainda pode ter surpresas para mim. Esperarei cada dia procurando ver o Ramo da Amendoeira.
Por isso a minha “inveja” senão uma palavra de ânimo e encorajamento. Afinal, tem a dita de ser mais um dos “escolhidos”.
Que o Espírito de Deus o acompanhe sempre.
Elisa
Julho 16, 2009 ás 9:55 pm |
OLÁ!
Mais uma reflexão sobre o evangelho,em dia 12 e sobre os 12 Apóstolos, que foram escolhidos por Jesus para a missão de divulgar a palavra de CRISTO. Eles largaram tudo e seguiram sem nada ou quase nada. Na verdade tinham aquilo que falta a muitos de nós. Teremos que estar mais disponíveis,muito mais disponiveis e provavelmente poderemos também ser os “escolhidos”.
Obrigado D. António Couto.
(Que esta mesa de palavras,possa passar a mesa de actos.) Até sempre.