TENTAÇÕES DE JESUS EM MATEUS 4,1-11


Debrucemo-nos sobre as tentações messiânicas de Jesus ou a prova que abre para o seu ministério messiânico, analisando Mt 4,1-11. Comecemos por ler atentamente o texto:

 «4,1Então Jesus foi levado para o deserto pelo Espírito para ser tentado (peirázô) pelo diabo. 2E, tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, no fim, teve fome. 3E, tendo-se aproximado o tentador (peirázôn), disse-lhe: “SE FILHO DE DEUS TU ÉS, diz para que estas pedras se tornem pães”.

 4Mas ele, respondendo, disse:

“Está escrito (gégraptai: perf. pass. de gráphô): ‘Não só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’”.

 5Então, leva-o consigo o diabo para a cidade santa, e colocou-o sobre o pináculo do Templo, 6e diz-lhe: “SE FILHO DE DEUS TU ÉS, atira-te para baixo; está escrito, na verdade, que ‘aos seus anjos ordenará a teu respeito, e sobre as mãos te levarão para que não tropece em alguma pedra o teu pé’”.

 7Dizia-lhe Jesus:

“Ainda está escrito: ‘Não tentarás o Senhor, teu Deus’”.

8Novamente o leva consigo o diabo sobre um monte muito alto, e mostra-lhe todos os reinos do mundo e a sua glória, 9e disse-lhe: “Tudo isto darei a ti, se, caindo, ME ADORARES (proskynéô)”.

 10Diz-lhe então Jesus: “Vai-te, Satanás;

está escrito, na verdade: ‘O Senhor, teu DEUS, ADORARÁS, e a Ele só prestarás culto’”.

 11Então deixa-o o diabo, e eis que os anjos vieram e serviam-no» (Mt 4,1-11).

 

Algumas anotações que se impõem:

 1) Vendo atentamente em contra-luz, por detrás deste aparentemente enigmático episódio do Evangelho, vislumbra-se a presença de importantes elementos da história bíblica de Israel. Trata-se das tentações no deserto, da travessia do Jordão, das grandes figuras de Israel: a) Moisés e Elias; b) a entrada em cena do novo do Rei nos primórdios da monarquia de Israel: Saul, David, Salomão; c) o herói investido pelo Espírito nos primórdios de Israel: Oteniel, Jefté, Gedeão, Sansão, Saul.

A evocação dos «quarenta dias e quarenta noites» sem comer, mais do que Israel enquanto povo, lembra as figuras singulares de Moisés (Ex 24,18; 34,28; Dt 9,9 e 18) e Elias (1 Rs 19,8)[1]. Os itinerários (o de Israel e o de Jesus) também não apresentam a mesma sequência: Israel foi tentado no deserto, antes de atravessar o rio Jordão; Jesus atravessa o Jordão, e só depois é tentado no deserto. A razão do adiamento da tentação no deserto na história de Jesus talvez se fique a dever à entrada em cena de outro elemento importante que se encontra na história de Israel, e que consiste no motivo da entrada em cena do Rei. Na verdade, nos primórdios da realeza de Israel, após a investidura, só depois de superadas importantes provas, o Rei fica cabalmente habilitado para o desempenho da sua missão. Veja-se o caso de Saul: após a unção real (1 Sm 10,1), é chamado a libertar a cidade de Jabes de Galaad das mãos do amonita Naás (1 Sm 11,1-11); tendo tido sucesso, é logo aclamado rei pelo povo (1 Sm 11,12-15). Veja-se o caso de David: depois de ser ungido rei por Samuel (1 Sm 16,13), derrota o gigante filisteu Golias (1 Sm 17,1-54), e começa a ser cantado e vislumbrado como rei (1 Sm 18,6-8). Veja-se o caso de Salomão: ungido rei pelo sacerdote Sadoc (1 Rs 1,38-40), procede logo com sucesso ao famoso julgamento da criança disputada por duas mães (1 Rs 3,16-28). Note-se ainda que, em não poucos episódios destes primórdios bíblicos, é o Espírito que anima os heróis de Israel, dando-lhes força para vencer os inimigos de Israel: é o caso de Oteniel (Jz 3,10), Gedeão (Jz 6,34), Jefté (Jz 11,29), Sansão (Jz 14,19; 15,14), Saul (1 Sm 11,6).

Reunindo na sua pessoa estes motivos (travessia do Jordão, tentações no deserto, acção do Espírito, entrada em cena do Rei novo) e enfrentando no deserto o principal e subreptício inimigo e saindo vencedor desse combate, Jesus apresenta-se como o verdadeiro Israel e o verdadeiro Rei[2].

 2) A narrativa das tentações está entrecortada por citações bíblicas colocadas na boca de Jesus. Na realidade, trata-se de três citações do Livro do Deuteronómio, citadas por ordem inversa daquela em que se encontram no Livro, respectivamente Dt 8,3, Dt 6,16 e Dt 6,13. Vejamos a razão de ser desta aparentemente estranha sequência. Tudo se resolve se nos perguntarmos qual o episódio da história de Israel que subjaz a cada uma das três citações do Livro do Deuteronómio. A primeira, Dt 8,3, remete para o episódio do DOM DO MANÁ, descrito em Ex 16. A segunda, Dt 6,16, evoca o DOM DA ÁGUA que brota da rocha, descrito em Ex 17,1-7, que retrata o momento em que Israel «tenta» (nasah TM / peirázô LXX) o seu Deus (Ex 17,2 e 7). A terceira, Dt 6,13, evoca a história do BEZERRO DE OURO, descrita em Ex 32. No Livro do Êxodo, sim, os episódios encontram-se na ordem correcta: Ex 16, Ex 17 e Ex 32. Atente-se no diagrama a seguir:

Dt 8,3

Dt 6,16 Dt 6,13
Ex 16 Ex 17 Ex 32

 Feitos estes acertos e consideradas as evocações, o significado do episódio das tentações de Jesus (Mt 4,1-11) torna-se mais claro: Jesus revive três das experiências principais do povo no deserto: a FALTA DE PÃO (Ex 16), a FALTA DE ÁGUA (Ex 17) e a FALTA DE DEUS (Ex 32), saindo vencedor onde o povo sai vencido[3].

 3) Note-se, por outro lado, que Jesus se retira para o deserto, onde está de passagem, e não para aí permanecer e reunir aí o verdadeiro povo de Deus, como sucede, por exemplo, com os Essénios[4].

 4) Note-se também que as tentações, as três, incidem sobre a condição de Jesus como Filho de Deus, na tentativa de o desvincular do Pai[5].

 5) O monte muito alto (4,8) não é geograficamente controlável, ainda que tenha sido colocado nas vizinhanças de Jericó pelos eremitas no século IV e tenha recebido o nome de Quarantena no século XII[6]; é, porém, teologicamente significativo, como lugar da Revelação[7]; nesse sentido, tem a sua antítese em 17,1 (Transfiguração), 28,16 (lugar do encontro com o Ressuscitado) e 5,1 (monte da Revelação).

 6) Os «reinos deste mundo», DOM DO DIABO, aparecem em contraponto com o «Reino dos Céus», DOM DE DEUS[8], muitas vezes mencionado neste Evangelho.

 7) De notar ainda que Jesus não é solicitado pelo diabo a escolher entre Deus e o poder, ou entre Deus e a riqueza. A tentação é muito mais subtil, actual e inquietante: trata-se de atingir o poder, e, uma vez alcançado, usá-lo também para glória de Deus![9]

 António Couto


[1] C. S. KEENER, A Commentary on the Gospel of Mathew, Grand Rapids, Eerdmans, 1999, p. 138.

[2] J.-L. SKA, Cose nuove e cose antiche (Mt 13,52). Pagine scelte del Vangelo di Matteo, Bolonha, EDB, 2004, p. 53-55.

[3] J.-L. SKA, Cose nuove e cose antiche (Mt 13,52), p. 55-56.

[4] P. BONNARD, L’Évangile selon Saint Matthieu, Neuchâtel – Paris, Delachaux & Niestlé, 1963, p. 42-43.

[5] R. SCHNACKENBURG, The Gospel of Matthew, Grand Rapids, Eerdmans, 2002, p. 37.

[6] R. SCHNACKENBURG, The Gospel of Matthew, p. 38.

[7] G. BOSCOLO, Il Cristo maestro secondo Matteo, in Studia Patavina, 50, 2003, p. 286.

[8] J. NOLLAND, The Gospel of Matthew. A Commentary on the Greek Text, Grand Rapids – Bletchley, Eerdmans – Paternoster, 2005, p. 167.

[9] B. MAGGIONI, Il racconto di Matteo, Assis, Cittadella, 9.ª ed., 2006, p. 54.
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