Variações sobre o Evangelho


1. Aproximou-se um homem habituado ao uso inveterado da verdade, o seu olhar varrendo toda a fraude das palavras. Aproximou-se firme e impoluto. Esquadrinhou as faces oxidadas da mentira. Olhou depois o chão como quem abre um sepulcro, e lentamente desenhou o puro rosto da verdade sobre a areia.

2. Levantou depois os olhos azulados. À sua frente havia apenas céu. Para onde tinham ido os impostores? Quem é que tem medo da verdade? Baixou de novo os olhos e guardou na areia seca do deserto dois loiros grãos de trigo, dois pedaços de azul, duas lágrimas, duas palavras interditas.

3. Cresceram as cidades. A música dos pássaros ensonava os olhos das crianças. Na folha fria da almotolia ardia apenas uma lágrima de alegria. Partimos em demanda da alegria. Grande era o mundo que nos davam. Tanta cidade a conquistar. Felizes era o que seríamos no dia em que vergássemos as altas aves da alegria. Ser feliz era uma cidade a conquistar. Vencemos a distância. Conquistámos os pontos mais altos do verão. A posse de cidades sucedia-se. Mas a cidade da alegria… onde estava a cidade da alegria? Ser feliz era um pássaro que víamos passar todos os dias, que víamos poisar sobre os telhados, às vezes sobre a água pura das nascentes. Era um pássaro livre, silencioso, fugidio. Fugia das cidades conquistadas. Dizíamos então: “eu dava a vida por aquele pássaro!” Envenenados pela sede das mãos inacabadas, rapidamente esvaziámos as rubras, turvas taças da alegria. Ensonados também, transidos de cansaço, embebedados, cegos, de tanto olhar a luz, caímos exaustos no deserto, o coração submisso a estas mãos intransponíveis.

4. Aproximou-se um homem habituado ao uso inveterado de levar as mãos ao rosto, de colher as palavras uma a uma, de as soltar como pássaros, às vezes como pedras. Sentou-se sobre a areia. Pegou em dois loiros grãos de trigo, dois pedaços de azul, duas lágrimas, duas palavras interditas.

5. “Por toda a parte procurais o reino de Deus”, disse. Disse. E desdobrando largamente as mãos como quem dá à luz o coração, preparou uma mesa no deserto, acomodou a multidão à roda do silêncio, repartiu a palavra pelas mãos, rugosas e sedentas e abertas, carregadas de terra e de verdade, os olhos vergados sobre as mãos, o coração rendido à flor dos lábios.

6. “Olhai! Um camponês pegou numa semente pequenina. Pequenina. Olhou-a em suas mãos deitada. Acariciou-a. Enterrou-a no campo mais verde, no campo mais ao sol das suas terras. Da semente nasceu uma planta. A planta cresceu. A planta deu flor. A planta cresceu, floriu, vestiu-se de festa. Em seus verdes, verdes ramos vinham abrigar-se os pássaros do céu. Era nos dias mais doirados de Setembro, quando já a claridade se esvanece e os pássaros se sentam à lareira de uma árvore carregada de alegria”. O nosso camponês foi de visita à sua planta. Tinha crescido. Levantou os olhos. Ficou extasiado. Era agora uma casa habitada com luzes em todas as janelas. Baixou os olhos, debruçado sobre a vida, extasiado com a vida, reconciliado com a vida. Pegou nas suas mãos de outrora, no seu coração de outrora. Era uma semente pequenina. Pequenina. Acariciou-a. Virou-a e revirou-a à outra luz do coração. Amou-a de preferência ao oiro, à luz do sol, às espigas mais loiras da seara. “É aqui que tudo principia”, disse. Disse. “A primeira manhã autêntica do mundo. É como se tivesse nascido hoje”.

7. Regressou feliz a sua casa. Entrou em sua casa. Sentou-se comovido à lareira. Aproximou-se um homem habituado ao uso inveterado da verdade. Bateu à porta e disse: “Hoje quero ficar em tua casa, cear contigo a ceia da amizade! Sabes: nas minhas mãos ardentes e despidas, há um fruto de lume e de alegria que não pode esperar que nasça o dia”.

8. “O reino de Deus não está aqui ou ali”, disse. Disse. “Os mais belos lugares do mundo: onde estão os mais belos lugares do mundo? Onde mora a esperança? Que língua fala a paz? Que avião tomar para a justiça? Que moeda vigora no amor? Onde estão as fronteiras da alegria? Que cores tem a bandeira da verdade?”

9. Pegou depois numa criança, num pedaço de pão e numa taça. Levantou os olhos e as mãos onde nitidamente pulsava um coração. E ergueu um brinde ao céu. Baixou depois os olhos e as mãos, ungidos já para a dádiva suprema. E ardentemente desejou o vinho novo do reino a chegar. Requisitou, por isso, para isso, o coração, as mãos, a boca, de quantos o estavam a escutar. E antes de partir e de ficar, definitivamente Deus Connosco, abriu ainda à multidão novos caminhos, diurnos, matutinos: “Já sei que não sabeis pedir o pão; tereis de aprender com os meninos”.

10. “Traz as tuas mãos pequenas e abertas, onde caiba só o coração. Sabes? O coração é uma cidade. Ou se preferes: o coração é a última cidade. Ou ainda: no coração começa a liberdade. Ou se preferes: no coração começa a tempestade”.

11. A multidão levou as mãos à boca, ao coração. Restaram doze cestos de palavras.

António Couto

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