A revelação de Deus e a universalidade da salvação na tradição sapiencial


I. TEXTUALIDADE E IDENTIDADE DO SAPIENCIAL BÍBLICO

Classificam-se habitualmente com o nome de «Sapienciais» os seguintes Livros do Antigo Testamento: Job, Salmos, Provérbios, Qohelet (ou Eclesiastes), Cântico dos Cânticos, Sabedoria e Ben Sira (ou Eclesiástico). Esta arrumação é hoje manifestamente insuficiente, pois há muitos outros textos esparsos no corpo do Pentateuco e dos Livros Históricos e Proféticos – nomeadamente os Livros do Génesis, Rute, Tobias, Judite, Ester, Macabeus, Daniel, Baruc e Jonas – que apresentam marcas de teor sapiencial. Mas vistas as coisas mais a fundo, teremos de reconhecer que é o inteiro Livro da Bíblia que apresenta um travejamento sapiencial, dado que, nas palavras argutas de Baruc e de Ben Sira, «a Sabedoria é o Livro» (Ecli 24,23; Br 4,1).

A Sabedoria é como a respiração: não se dá por ela
Se nos ajustarmos à arrumação clássica, a primeira coisa que se pode dizer da Sabedoria é o quanto é fácil não falar da Sabedoria. A locução «A Lei e os Profetas» diz todo o Antigo Testamento, sem que seja necessário acrescentar «os Sábios». A Sabedoria é amiúde considerada expletiva ou decorativa, pelo que tem sido muitas vezes marginalizada ou até omitida nos estudos do Antigo Testamento1 . Os Provérbios recolhidos por Salomão, por Ezequias ou por Jesus Ben Sira, são, com certeza, interessantes. Mas um provérbio não é uma revelação. O domínio do provérbio é o do já dito. A língua é o que já lá está antes de nós, e o provérbio, que é a mais pequena moeda da conversação e a mais pequena medida da poesia2 , é o que já está na língua3 .
É ainda fácil não falar da Sabedoria, porque a Sabedoria desce à nossa terra e se insinua nas pregas do nosso quotidiano. A Sabedoria é a vida no que a vida tem de mais elementar. É aquilo em que não pensamos, tão natural o achamos. Como quando respiramos. A Sabedoria não tem idade. É o que continua lá desde sempre4. Simplesmente. A matéria da Sabedoria faz a conversação que se tem com os mais pequenos, com quem está a começar, as crianças e os pobres. A Sabedoria é o regresso a casa, ao elementar, à família, ao lar, à sociedade do homem e da mulher, e da criança que os continua5 . É o regresso ao tempo de nascer, de crescer e de morrer e de acreditar na própria existência, que é a esperança na forma mais radical que se possa conceber6 . O tempo da Sabedoria é, muitas vezes, um tempo sem grande história, sem acontecimentos. Um tempo sem acontecimentos não se conta; canta-se. O tempo da poesia não é o tempo das datas; é o tempo das estações7 . Ao longo do Livro dos Provérbios, de Job, de Qohelet, os Sábios podem escrever acerca da Sabedoria e de Deus como se nada soubessem da história bíblica8.
Nesse sentido, Job é um estrangeiro, um homem simplesmente, e o nome de YHWH apenas por uma vez aparece na boca das personagens do Livro, e é porque é citado um provérbio que o contém: «YHWH o deu, YHWH o tirou! Bendito seja o nome de UHWH!» (Jb 1,21).

Com os filhos de Adam
Remontando ao antes da criação do mundo (Br 3,38; Pr 8,22-31; Ecli 24,9; Sb 9,9), a Sabedoria posta-se bem a montante de Israel9 , estabelecendo a sua morada entre os filhos de Adam (benê ’adam) (Pr 8,31), entre todos os povos e nações (Ecli 24,6-7), muito antes de se estabelecer entre os filhos de Abraham, o primeiro Israelita que aparece sobre a terra dos homens, quando já decorre o annus mundi 2021, ano em que escuta o apelo de YHWH e se põe a caminho da terra que YHWH lhe fará ver (Gn 2,4)10 .
De facto, naquela parte da Bíblia que vai da Criação até Noé, e um pouco além de Noé, não se fala de Israel uma única vez. Não sendo a história de Israel, dado que, nesse período, Israel ainda não existia, é, porém, a história que Israel relata: «relação» de Israel com o seu começo, as Nações11 . E essa história que Israel relata deixa passar mais de 2000 anos até que apareça um Israelita sobre a terra. E a verdade é que, durante todo esse tempo, a humanidade já se relaciona com Deus, sem, para tanto, necessitar da mediação de Israel. Ainda não há o povo eleito, mas já há eleitos que permanecerão como modelos para sempre. É o caso de Abel, de Henoc, de Noé. Portanto, afirmar, sem mais, que o Deus do Antigo Testamento é o Deus de Israel e dos Judeus, é uma afirmação radicalmente insuficiente. Para não dizer radicalmente incompetente. Nem se trata de retirar mérito a Israel ou aos Judeus. Pelo contrário. Falando assim, estamos, na verdade, a trair Israel, mostrando que escutámos mal o seu relato, pois é mérito e honra dos filhos de Israel que o Livro Santo, por eles escrito, tenha um conteúdo universal tão declarado. Na verdade, os 11 primeiros Capítulos do Génesis desempenham um papel fundador, pelo que cairíamos num enorme contra-senso se fôssemos levados a pensar que este início da história humana é relatado para ser abandonado logo de seguida. Equivaleria a pensar que Deus amou a humanidade saída de Adam para nada. Simplesmente para a rejeitar logo que, a seu tempo, escolhesse Abraão. Uma tal concepção seria pecar contra o Espírito. E contra a letra12.

Na verdade, a literatura bíblica de teor sapiencial é universal e faz eco constantemente dos 11 primeiros Capítulos do Génesis. Isto não impede essa literatura de ter reflectido sobre a eleição, exactamente porque a substância da eleição é a relação do eleito com a universalidade das nações. Podemos mesmo afirmar que a Bíblia inteira respira por esta função universal da Sabedoria. A Sabedoria é o pulmão da Bíblia13 .

Travejamento do Livro e seu movimento figural
Atravessemos o Livro, acompanhando um pouco o seu movimento figural.
A Bíblia abre com Adam. Adam é o Homem criado à imagem do Deus Um, e vê-se melhor em contraponto com os animais e a multiplicidade das suas espécies. O animal é múltiplo. O Homem é um. Adam é um modo simples e maravilhoso de dizer que todos os homens são irmãos. Não está lá escrito com todas as letras: «Todos os homens são irmãos». Mas o texto guarda e faz notar uma pergunta não formulada: «Porque é que temos todos um só Homem como pai?» Só aquele que descobre a resposta: «Nós somos todos irmãos» – esse, e só esse – atinge a verdade do relato. Saber que temos todos o mesmo pai não serve de nada, se daí não tiramos a conclusão da fraternidade universal14 .
Mas também o termo imagem ganha um sentido muito forte no contexto do confronto com os animais. É aí que ficamos a saber que a vida não é suficiente para fazer do Homem imagem de Deus, pois também as plantas e os animais têm o poder de se reproduzir, próprio dos seres vivos. O facto de ser «macho e fêmea» tão-pouco é suficiente, pois também isso se verifica no mundo animal. É a unidade do humano que o constitui à imagem de Deus. Porque Deus é Um. Mas vê-se ainda que esta unidade do humano não é um dado simplesmente adquirido. É uma missão e uma tarefa sempre a cumprir. Adam recebe a missão de dominar os animais, impedindo que eles se devorem uns aos outros (Gn 1,28-30). Vê-se nos interstícios do texto que, sem o domínio de Adam, os animais se devorariam uns aos outros, precisamente porque eles não são irmãos como os homens. Mas está também nos interstícios do texto, que é fruto de uma constatação porque sempre tardio em relação aos factos, que a unidade do humano já foi quebrada, e que o Homem é agora, como hoje se vê, não imagem de Deus pela sua unidade, mas imagem do animal pelas suas divisões. Se o Homem se tornou imagem do animal, então já não o domina, mas imita-o. É o reino da violência. As nações são tão diferentes como as espécies. As fronteiras podem conter a violência, mas não a podem curar. E o mesmo se pode dizer das leis e das nossas «convenções de razão» ou acordos, capazes de conter, mas incapazes de curar a nossa violência que continua a alastrar cada vez mais15 .
Neste ponto, surge Noé, novo Adam, que domina e ordena os animais, salvando-os. Reúne-os na arca, de que ele é o único mestre a bordo, à imagem de Deus. Navega com ele uma nova criação. Abraão, Jacob, José, Moisés, o Cordeiro que, no Egipto, morre em vez do filho, Salomão, o Servo justo que cura os nossos pecados (Is 52,13-53,12), o Filho do Homem por 93 vezes nomeado em Ezequiel, e que é Ezequiel, profeta frágil, que fala frágil e se estatela face à brutalidade de um povo de dura cerviz, o Filho do Homem de Dn 7,13-14 que domina pela doçura as “Bestas” enormes que são os impérios totalitários, idolátricos e inumanos (Neobabilónia, Média, Pérsia, Grécia) (Dn 7,17-18). Enfim o Filho do Homem dos Evangelhos, por 82 vezes nomeado, e que é Jesus, que se expõe à nossa violência, sorvendo-a por amor até ao fim, soberania frágil, firme, do amor. Aí está, à distância devida de Gn 1 e do Homem de Gn 1, o Filho do Homem, o último Adam, Sabedoria de Deus, Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus, que não matará os animais. Não vingará Abel, mas ocupará o seu lugar. Ocupará mesmo o lugar do Cordeiro, animal pacífico, que não mata ninguém, e que simplesmente é morto. O seu sangue não curava as nossas raivas. Apenas suspendia no ar a espada do castigo (Lv 26,25). O Cordeiro de Deus assume e abraça as nossas raivas. Dissolve-as, anula-as, transfigura-as pelo amor. A Sabedoria de Deus reúne os seus filhos.

II. O TEMOR DE DEUS É O PRINCÍPIO DA SABEDORIA

Como em tudo na vida, também na Escritura se deve entrar por uma porta aberta. E, de preferência, acolhedora. Essa porta existe na Escritura. Chama-se Sabedoria. A Sabedoria faz os seus convites nos lugares frequentados, às portas das cidades, nas praças, nos caminhos de acesso (Pr 8,1-3). A Sabedoria está onde está o povo (Pr 8,31). A Sabedoria convida a entrar em sua casa. Mas uma vez que «a Sabedoria é o Livro» (Ecli 24,23; Br 4,1), a casa da Sabedoria é o Livro. A Sabedoria é o Livro, o que não quer dizer que seja um tratado. A Sabedoria não é um tratado. Também não é a letra ou o som, múltiplos por natureza. A Sabedoria é o sentido dessa letra e desse som16 . A Sabedoria é Uma (Sb 7,27), como Deus é Um. O Verbo Único de Deus não faz vibrar o ar; não se lhe capta o som; só lhe captamos o sentido17 . Como se entra, então, na Sabedoria? Podemos formular a pergunta de outra maneira: como se entra no Livro?

Deixemos o Livro responder: «O temor de Deus é o princípio da Sabedoria» (Pr 1,7; 9,10; 15,33; Jb 28,28; Sl 111,10; Ecli 1,14). Segundo esta resposta, a porta de entrada no Livro ou na Sabedoria é o temor de Deus. Na condição de se compreender o sentido desta locução técnica das Escrituras. O temor de Deus não é nenhum dos medos que nos assaltam nem sequer a normal obediência ou reverência a Deus devida, como é vulgar dizer-se18 . É um frémito, um estremecimento, um calafrio que acompanha todo o amor verdadeiro. Diz a Escritura: «Tu és bela, minha amada, terrível como um exército em ordem de batalha» (Ct 6,4). O que se diz da amada pode dizer-se da Escritura. Refere, na verdade, o Cântico dos Cânticos que «O amor é forte, é como a morte» (Ct 8,6).
A morte e o amor. Há fundamentalmente dois tipos de temor: o temor da morte e o temor do amor. «Da morte, do temor da morte nasce e se eleva todo o conhecimento»: é assim que abre o incipit da «Estrela da Redenção», de Franz Rosenzweig, denunciando o cheiro a amoníaco das estratégias dicotómicas da filosofia, que dividem o homem em alma e corpo, e a humanidade em homem e mulher, condenando a mulher à pura geração dos corpos mortais (cada nascimento não é senão contribuir para o aumento dos que hão-de morrer) e elevando o homem à geração das ideias imortais, único remédio para tà fysiká19 . Parafraseando Rosenzweig, a Bíblia nasceria, não «da morte, do temor da morte», mas «do amor, do temor do amor», salientando o mundo luminoso, tenro, terno e frágil do nascimento e da vida verdadeira. O amor verdadeiro faz nascer do alto e de outra maneira. É assim que se entra na Sabedoria ou no Livro.

Ensaiemos uma segunda resposta: «Princípio da Sabedoria: adquire a Sabedoria» (Pr 4,7). Outro passo precisa ainda o princípio da aquisição: «Princípio da aquisição: adquire uma mulher» (Ecli 36,24). São dois provérbios que se esclarecem mutuamente. Pela esposa, a Sabedoria é mais do que uma imagem, do mesmo modo que, pela Sabedoria, a esposa é mais do que ela mesma: aponta para o amor que ela inspira, de que ela não é o princípio.
É por isso que, nos primeiros Capítulos dos Provérbios, a instrução da Sabedoria pode resumir-se toda à interdição do adultério, enquanto acto pelo qual dois seres se consideram como tomados ou apreendidos, possuídos, um pelo outro, e não como recebidos20 . Segundo a Sabedoria, o adultério é o grande pecado, porque mina a relação conjugal que vincula o Homem a Deus, relação selada na letra da Lei e continuamente reclamada pelos profetas21 .
O princípio da Sabedoria é a própria Sabedoria. A Sabedoria não provém da natureza nem se herda. A Sabedoria é dom de Deus. Desde dentro da acção humana, a Sabedoria declara o seu sentido: tudo é recebido22 . Tem de ser a Sabedoria a tomar a iniciativa e a convidar para entrar em sua casa. Porta aberta desde dentro. De outro modo, o adágio: «Princípio da Sabedoria: adquire a Sabedoria» (Pr 4,7) ficaria para sempre incumprido23 . Esta máxima declara, na verdade, a impotência do homem. Entenda-se a impotência do poderoso e do autosuficiente. Declara-se aqui que a Sabedoria não se compra por meio nenhum. «Ao lado dela, todo o ouro do mundo não passa de um punhado de areia» (Sb 7,9).
A Sabedoria dá-se a quem a pede24 . Mas não é à Sabedoria que se dirige o pedido. É aí que se estabelece a diferença última entre a Sabedoria e o ídolo. Rezar à Sabedoria equivaleria a arruinar a sua essência. É àquele que dá que é preciso pedir (Sb 9,1-10)25 . Os caminhos da Sabedoria são os caminhos que ela mesma empreende para vir ao encontro do Homem26 . Quer dizer que não há caminho nosso que leve à Sabedoria, não há acessos feitos para ela, não há estrada nem sinalização, porque a Sabedoria não é capturável. Ela é a graça vinda de Deus. E o conhecimento das Escrituras, sendo Sabedoria, é graça de Deus, e, como tal, sempre «preveniência» e «precedência» (Sb 6,16)27 . Não capturável, mas desejável, e acessível só por amor, se o homem se deixar transformar ele mesmo em amor pela oração, leitura e empenho da vida e do coração. Novo nascimento. Desejar ler bem as Escrituras é desejar o divino. É por isso que é preciso rezar para ler bem as Escrituras. Diz, de facto, a Constituição Dogmática Dei Verbum:
«A leitura da Sagrada Escritura deve ser acompanhada da oração, para que estabeleça o colóquio entre Deus e o homem» (n.º 25).

O que é divino obtém-se pela oração. Se o pudéssemos obter por nós mesmos, não haveria nenhuma razão para o chamar divino. Seria então simplesmente humano28 .
A Escritura é o Deus inesperado29 . Abre-se ou dá-se a todo aquele que abre a sua vida a uma verdade diferente daquela que ele pode dominar30 . É, por isso, que o Concílio considera oportuno que mesmo entre os «não-cristãos» a Bíblia seja difundida com sabedoria (sapienter) (DV, n.º 25). Todos podem acolher o amor e nascer de novo. Para outra maneira de viver.

Se Deus escolhe um ou alguns, é para levarem a todos o amor libertador que receberam e que devem viver e testemunhar. Trata-se de uma situação «escandalosa» que tanto pode levar à libertação como à inveja. De facto, alguém pode ser tentado a dizer: «Porque é que Deus escolheu apenas um?» «E porquê a ele, e não a mim?» Imaginemos, em vez deste procedimento, o seguinte cenário: «Deus diz a todos os homens: “Eu amo todos os homens”». Ficaríamos no domínio do imaginário e do insignificante: ninguém ouviria nem prestaria atenção. Imaginemos outro cenário: «Deus diz a alguém: “Eu amo todos os homens; comunica-lhes”». Não seria suficiente. Sentir-nos-íamos vítimas de uma abstracção: bastaria às pessoas saber que são amadas; mas em que é que o enviado se apoiaria para dar esta informação? Na realidade, com a estratégia da eleição, Deus diz a um, a Abraão ou a Jesus: «Eu amo-te, estou contigo, quero que todos o saibam, e que, sabendo-o, te bendigam»31 , e que, bendizendo-te, se libertem de raivas, ódios e violências, e nasçam como cidadãos de um mundo novo. Deus não salva o homem sem o homem.

III. LER O LIVRO, OUVIR A SABEDORIA, NASCER PARA OUTRA INTIMIDADE

Refere acertadamente a Constituição Dogmática Dei Verbum32 :

«Para escrever os livros sagrados, Deus escolheu e serviu-se de homens na posse das suas faculdades e capacidades, para que, agindo neles e por eles, pusessem por escrito, como verdadeiros autores, tudo aquilo e só aquilo que Ele queria» (n.º 11).

Este expressivo modo de dizer remete-nos para a finíssima lição do Prólogo da Carta aos Hebreus, onde lemos:

«1Muitas vezes e de muitos modos, antigamente, falou Deus aos pais nos profetas (en toîs prophêtais); 2nestes dias que são os últimos, falou-nos em um Filho (en hyiô)» (Hb 1,1-2).

Finíssimo dizer confirmado um pouco mais à frente, no Capítulo Quarto da mesma Carta aos Hebreus, onde lemos:

«7Tornou Deus a fixar outro dia, um hoje, quando há muito disse em David (en David), como acima dissemos: “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações”» (Hb 4,7).

Falou Deus aos pais nos profetas. Falou-nos em um Filho. Disse em David. A finíssima, e, talvez por isso, não recebida lição da Dei Verbum e da Carta aos Hebreus ensina-nos então que Deus fala por Moisés, David, Jeremias ou Paulo, mas fala-nos ainda mais em Moisés, David, Jeremias ou Paulo. Quer isto dizer que Moisés, David, Jeremias ou Paulo são obra viva de Deus antes que o sejam os seus ditos, os seus escritos ou as suas cartas. Sem equívocos: a intimidade de Deus com os autores bíblicos precede o dito e o escrito. É o dito e o escrito, o livro ou as cartas, que brotam dessa intimidade. Entenda-se: Deus não fala ao homem do cimo de uma montanha ou do alto de uma muralha vertical e inacessível. Não é esta a autoridade das Escrituras.

Note-se que a locução «falar em» não é habitual em português. Mas tão-pouco o é em grego ou em hebraico. Em grego como em hebraico, diz-se habitualmente que Deus falou «através de» ou «por intermédio de» (diá ou en cheirí em grego; beyad em hebraico) . Falar em, e não só através de, leva-nos para o domínio da intimidade e da graça e da liberdade. Da Sabedoria. Do Sentido. As palavras não são teoremas. A palavra dirige-se a alguém. O teorema não se dirige a ninguém. Há quem queira as coisas tão seguras, que preferiria que a Palavra de Deus fosse expressa em algarismos ou equações! Mas, na Bíblia, toda a palavra do céu que nos atinge passa pela terra, por um ponto concreto no espaço e no tempo. Não basta que nos interessemos com aquilo que é dito; é preciso sobretudo prestar atenção a quem diz. Deixar dizer. Ouvir dizer. Até que o sentido irrompa para além do som. Nascerá assim em nós um Homem novo à imagem do Deus Um e da Sabedoria Uma. À imagem do Verbo (lógos), que é nascimento, porque é Filho. Filho eterno. Nasce eternamente. E grava em nós a sua imagem, se abrirmos o coração à sua luz, lume, sentido, filialidade. Renascemos pelo seu nascimento. Novo nascimento34 . Diz tranquilamente o Prólogo do Quarto Evangelho:

«12Àqueles que o receberam (élabon autón), deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus (tékna theoû), aos que acreditam no seu nome; 13esses não nasceram do sangue nem da vontade da carne nem da vontade do homem, mas de Deus» (Jo 1,12-13).

Viver recebendo-se como um filho ou uma filha. Sempre. Vida sempre nova. Sempre a jorrar da intimidade do coração de Deus. Intimidade a intimidade. Sabedoria.

António Couto

NOTAS
___________________________
[1] Estado da situação em H. G. REVENTLOW, Problems of Old Testament Theology in the Twentieth Century, Londres, SCM, 1985, p. 168s.; ver também G. VON RAD, Israël et la Sagesse, Genebra, Labor et Fides, 1972, p. 17.

[2] P. BEAUCHAMP, L’Un et l’Autre Testament. Essai de Lecture (tomo I), Paris, Seuil, 1976 (nova impressão, 2000), p. 109.

[3] P. BEAUCHAMP, L’Un et l’Autre Testament, I, p. 106.

[4] P. BEAUCHAMP, L’Un et l’Autre Testament, I, p. 109.

[5] P. BEAUCHAMP, L’Un et l’Autre Testament, I, p. 107.

[6] P. BEAUCHAMP, Testament biblique. Recueil d’articles parus dans Études. Préface de Paul Ricoeur, Paris, Bayard, 2001, p. 80 e 99. Ver também J. L. SKA, La strada e la casa. Itinerari biblici, Bolonha, EDB, 2001, p. 49, citando frases célebres de Tagore («Cada criança vem ao mundo com uma mensagem: Deus ainda não está cansado dos homens») e de Françoise Mallet-Joris («O maior acto de fé é dar à luz um filho»).

[7] P. BEAUCHAMP, L’Un et l’Autre Testament, I, p. 109. [8] P. BEAUCHAMP, L’Un et l’Autre Testament, I, p. 117.

[9] P. BEAUCHAMP, L’Un et l’Autre Testament, I, p. 118.

[10] De facto, Abraão nasce no annus mundi 1946 (Gn 11,26), para emigrar no annus mundi 2021 (Gn 12,4). J. BLENKINSOPP, Il Pentateuco. Introduzione ai primi cinque libri della Bibbia, Brescia, Queriniana, 1996, p. 63; J. L. SKA, Introduzione alla lettura del Pentateuco. Chiavi per l’interpretazione dei primi cinque libri della Bibbia, Roma, Dehoniane, 1998, p. 37.

[11] P. BEAUCHAMP, Pages exégétiques, Paris, Cerf, 2005, p. 437.

[12] P. BEAUCHAMP, Parler d’Écritures Saintes, Paris, Seuil, 1987 (nova impressão, 2003), p. 90.

[13] P. BEAUCHAMP, Parler d’Écritures Saintes, p. 107.

[14] P. BEAUCHAMP, Parler d’Écritures Saintes, p. 76.

[15] P. BEAUCHAMP, Parler d’Écritures Saintes, p. 86 e 93.

[16] P. BEAUCHAMP, Parler d’Écritures Saintes, p. 68-69.

[17] P. BEAUCHAMP, L’Un et l’Autre Testament, I, p. 130.

[18] G. VON RAD, Israël et la Sagesse, p. 81s.

[19] Este sistema filosófico, com as suas dicotomias (alma-corpo; homem-mulher), o seu individualismo e a sua auto-suficiência, pode muito bem ser a estratégia ou o dique que o homem foi erguendo ao longo dos séculos contra o medo da morte. Mas a Bíblia ensina-nos a ver a vida a partir da sua condição «natal» e relacional, com todas as consequências que daí derivam. Franz Rosensweig denuncia muito bem este tipo de pensamento dicotómico no incipit da sua «Estrela da Redenção». Mas o mesmo fazem hoje várias mulheres, de que aqui destaco Hannah Arendt e Adriana Cavarero, que trazem para a cena do pensamento dados que têm de ser considerados, acentuando a condição da «natalidade», a importância do «relacional» do masculino e do feminino, etc. Ver sobretudo F. ROSENZWEIG, La stella della redenzione, Génova, Marietti, 3.ª impressão da 2.ª ed., 1998, citação na p. 3; H. ARENDT, La vita della mente, Bolonha, Il Mulino, 1987; H. ARENDT, A condição humana, Lisboa, Relógio d’Água, 2001; A. CAVARERO, Dire la nascita, in Diotima. Mettere al mondo il mondo, Milão, La Tartaruga, 1990, p. 93-121; A. CAVARERO, Nonostante Platone, Roma, Editori Riuniti, 1990, p. 93-122; A. CAVARERO, Un soggetto femminile oltre la metafisica della morte, in P. CORDIN, G. COVI, P. GIACOMONI, A. NEIGER (eds.), Femminile e maschile tra pensiero e discorso, «Labirinti» 12, Trento, Editrice Università degli Studi di Trento, 1995, p. 15-28; A. CAVARERO, Politica e violenza. La radice greca, in Quaderni di S. Apollinare (Serie «Scuola della Pace»), n.º 7, p. 1-27 (este caderno, gentilmente cedido pela autora, diz respeito a um seminário que ocorreu no Centro Sant’Apollinare, nos dias 25-26 de Novembro de 1995); V. CHIZZOLA, Nascere e perire. Prospettive differenti per un’analisi della finitezza?, in Annali di studi religiosi, 5, 2004, Bolonha, EDB, p. 175-191; F. DE LUISE, Il sapere di Diotima sul crinale dei dualismi, in Annali di studi religiosi, 5, 2004, p. 260-271; M. DURST, Hannah Arendt e le interpretazioni femministe e al femminile del suo pensiero. Una circolarità virtuosa, in Annali di studi religiosi, 5, 2004, p. 295-308; C. DI SANTE, L’io ospitale, Roma, Lavoro / Esperienza, 2001, p. 20-21; C. DI SANTE, Lo straniero nella bibbia. Saggio sull’ospitalità, Troina, Città Aperta, 2002, p. 71-73; C. DI SANTE, Parole di luce. Segnavia dello Spirito, Villa Verucchio, Pazzini, 2005, p. 49

[20] P. BEAUCHAMP, L’Un et L’Autre Testament, I, p. 126.

[21] P. BEAUCHAMP, L’Un et l’Autre Testament, I, p. 155.

[22] P. BEAUCHAMP, L’Un et l’Autre Testament, I, p. 120.

[23] P. BEAUCHAMP, L’Un et l’Autre Testament, I, p. 155.

[24] P. BEAUCHAMP, L’Un et l’Autre Testament, I, p. 120.

[25] P. BEAUCHAMP, L’Un et l’Autre Testament, I, p. 120-121; M. GILBERT, Les cinq livres des Sages. Proverbes – Job – Qohélet – Ben sira – Sagesse, Col. «Lire la Bible» 129, Paris, Cerf, 2003, p. 239 e 242.

[26] P. BEAUCHAMP, L’Un et l’Autre Testament, I, p. 155.

[27] P. BEAUCHAMP, Le proverbe et le répons, in L. PANIER (ed.), Le temps de la lecture. Exégèse biblique et sémiotique. Recueil d’hommages pour Jean delorme, Paris, Cerf, 1993, p. 379-380 [= P. BEAUCHAMP, Pages exégétiques, p. 260].

[28] P. BEAUCHAMP, Parler d’Écritures Saintes, p. 38.

[29] P. BEAUCHAMP, Parler d’Écritures Saintes, p. 41.

[30] P. BEAUCHAMP, Parler d’Écritures Saintes, p. 42.

[31] Para esta temática muito concreta da eleição, ver P. BEAUCHAMP, Cinquante portraits bibliques. Dessins de Pierre Grassignoux, Paris, Seuil, p. 16-17.

[32] Para quanto segue, ver P. BEAUCHAMP, Parler d’Écritures Saintes, p. 16-27.

[33] A. VANHOYE, Situation du Christ. Hébreux 1-2, «Lectio Divina» 58, Paris, Cerf, 1969, p. 59.

[34] P. BEAUCHAMP, Parler d’Écritures Saintes, p. 69.

Os comentários estão fechados.

%d bloggers like this: