A riqueza vital da Oração a partir dos Salmos


 

1. Pórtico de entrada: títulos, nomes, tonalidade

Do português ao latim, ao grego, depois ao hebraico: Salmos, Psalmi, Psalmoí. No singular, Salmo, Psalmus, Psalmós. Nos LXX, o grego psalmós (de psállein = «tocar um instrumento de corda») é usado para traduzir o termo hebraico mizmôr, que aparece como título de um Salmo por 57 vezes, e que designa sempre um cântico acompanhado por instrumentos de cordas1 .


Os instrumentos de cordas são a harpa e a cítara, binómio hebraico nebel wekinnôr2 . Os LXX traduzem sempre «harpa» (nebel) por psaltêrion3 , e traduzem «cítara» (kinnôr) habitualmente por kithára, mas, de vez em quando, também por psaltêrion (Sl 49,5; 149,3). O vocábulo psaltêrion designa, pois, antes de mais, um instrumento de música. E é altamente sintomático que alguns manuscritos dos LXX, como testemunha o códice Alexandrino, do século V, tenham adoptado mesmo como título do Livro dos Salmos, não o já referido Psalmoí, mas Psaltêrion4 . Se Psalmoí já dizia, através do hebraico mizmôr, «cântico ao som de instrumentos musicais», o termo Psaltêrion deixa claro que a música instrumental faz parte integrante, e não pode ser retirada, do canto dos Salmos5 .
Por seu lado, a tradição hebraica adoptou, numa fase tardia, o termo tehillîm [= louvores, laudes, hinos] para titular o Livro dos Salmos6 . Estando o nome hebraico tehillîm formado sobre a forma piel, intensiva, do verbo halal [= louvar], fica também claro que os Salmos não são apenas para dizer mecanicamente, mas para viver intensamente, empenhando todas as fibras do nosso ser. Paul Beauchamp di-lo de forma exemplar: «Há um rumor e um resplendor de festa que chegam à alma pelo simples gesto de abrir o Saltério. Festa na cidade, e não apenas cerimónia privada no santuário. O povo que cantava os Salmos não se encerrava para o fazer. Cantava a pleno sol»7 . «Não é fácil encontrar nos Salmos o “a sós com Deus”»8 . Recitar o Saltério pela óptica do louvor, como reclama a titulatura hebraica de tehillîm, é encher o coração de amor e de gratuidade, e dizer a Deus uma pura palavra de alegria e exultação, sem qualquer nota interesseira: «Um louvor pronunciado para obter qualquer alguma coisa seria como uma moeda falsa»9 .
Dizer então «Salmos» ou «Saltério» é dizer intensidade, vida, energia, canto, música, alegria, prazer, festa, ainda que, por vezes, dorida. Mas dizer a quem? Os dois grandes interlocutores da Bíblia são Deus e o Homem. Deus fala ao Homem. O Homem responde a Deus. Na Lei e nos Profetas, é Deus que fala ao homem; nos Salmos – e na chamada literatura sapiencial em geral –, é o homem que responde a Deus10 . Outra vez a frase limpa de Paul Beauchamp: «Enquanto a Lei e os Profetas dizem “tu” ao homem, os Salmos dizem “eu” a Deus» 11, que é então o verdadeiro TU do meu dizer laudante, como canta o Salmo 22: «TU que habitas nos louvores de Israel» (Sl 22,4)12 .
Os Salmos são, pois, no meio do caminho tantas vezes difícil e tortuoso da vida, como que a «partitura poética da vida», «poesia divina» (teopoesia) inspirada, transformante, que opera transformação e não se limita a passar informação. É assim que o «eu» que fala no fim do Salmo é muitas vezes um «eu» diferente do que inicia o Salmo13 .

2. A casa do Saltério

O Saltério parte, pois, do Homem visitado e felicitado por Deus: «Felizes os que habitam na tua casa, louvando-Te sempre» (Sl 84,5). É a sua música, a sua alegria, a sua dor, a sua angústia, a sua raiva, a sua súplica, o seu louvor, o seu amor.
Música, alegria, angústia, raiva, amor? Sim, porque no amor é tudo amor: também as lágrimas, também as raivas, também a astúcia, oh a astúcia do amor!14 É o homem concreto a dizer-se a Deus, a expor-se a Deus. É óbvio que não se pode tratar de uma exposição neutra ou de um qualquer desabafo descolorido e desarticulado, pois se o homem do Saltério se expõe a Deus, é porque já foi encontrado por Deus, agraciado por Deus, dito por Deus. Já se escutou de Deus, já se recebeu de Deus. Neste sentido, refere outra vez certeiramente Paul Beauchamp, que «a matéria prima da oração dos Salmos» – e de toda a oração – «é descobrir que o mundo e a vida são um dom de Deus, e que só depois dessa descoberta é que saberemos louvar a Deus, que nos dá a vida, mesmo no momento em que no-la pede»15 .
Nasce assim, no coração orante e desde o coração orante, um mundo novo. De acordo com o belo e penetrante dizer de Franz Rosenzweig, a oração institui uma nova ordem no mundo, ilumina o mundo. Não no sentido de que, rezando, recebemos uma luz nova para ver o mundo, mas no sentido de que, rezando, vemos o mundo iluminado pela luz nova e primeira da criação16 , o mundo «sete vezes» bom, dito e ordenado pela Palavra de Deus. Surge assim perante os nossos olhos o «estado de criação», onde resplandece a benevolência de Deus. Este mundo novo e bom, Primeiro e Último, vem pôr em crise o nosso violento «estado de natureza», ainda que mais tarde amenizado pelas nossas «convenções» de razão17 . Este nosso mundo «segundo» e «penúltimo», egoísta e egocêntrico, fechado sobre si próprio, ordenado pelo nosso sentido subjectivo (produzido pelo «eu») e trans-subjectivo (produzido pela colectividade e pela cultura a que pertence o «eu»), é assim atravessado e posto em crise pelo sentido objectivo que Deus deu ao homem e ao mundo, que provém de fora do «eu» e do seu mundo18 , e que é o sentido como extra e como éschaton e como agápê e vontade boa ou bondade, que faz de cada homem, não um produtor de sentido, mas um receptor obediente e responsável19 .

O Saltério parte, pois, do homem que se expõe a Deus, que responde a Deus. Entremos pelo Salmo 1:

1F-E-L-I-Z o HOMEM
que não caminhou no conselho dos malvados,
e no caminho dos pecadores não se deteve,
e na morada dos insolentes não se sentou.
2Mas antes na INSTRUÇÃO de YHWH (está) o seu prazer
e a sua INSTRUÇÃO R-E-C-I-T-A dia e noite.
3Ele será como uma ÁRVORE plantada junto dos ribeiros de água,
que o seu FRUTO dará no seu tempo,
e a sua folhagem não murchará.
Tudo o que fizer S-E-R-Á B-E-M S-U-C-E-D-I-D-O.

4N-Ã-O A-S-S-I-M os MALVADOS,
mas antes como PALHA que um vento dispersa.
5É assim que
não se levantarão os malvados no julgamento
e os pecadores na assembleia dos justos;
6pois YHWH conhece o caminho dos justos,
mas o caminho dos malvados P-E-R-D-E-R – S-E – Á.

Acabo de fazer uma reprodução simples, sem canto e sem música, do Salmo 1, que abre o Livro dos Salmos ou Saltério. Mesmo assim, dá para entender que, nos seis versículos que compõem este Salmo, perpassa uma oposição fundamental entre o HOMEM e os MALVADOS, separados pelo fosso cavado entre os três primeiros e os três últimos versículos. Assim, a primeira parte (vv. 1-3) começa por declarar FELIZ o HOMEM que, dia e noite, RECITA20 a tôrah de YHWH, e termina asseverando que «tudo o que fizer SERÁ BEM SUCEDIDO». Em contraponto, a segunda parte (vv. 4-6) abre com o judicial «NÃO ASSIM OS MALVADOS», e termina asseverando que o seu caminho se PERDERÁ21 .
Em poucas palavras, o homem que se dedica à tôrah é feliz e terá sucesso, mas os malvados perder-se-ão. Os malvados (resha‘îm) são os «fora-de-lei», no sentido bíblico do termo «lei»22 . Os pecadores (haththa’îm) fazem coisas más; os malvados (resha‘îm) são maus23 . São os «sem Deus», fechados em si mesmos, auto-suficientes, «que fazem da sua força a sua lei» (Sb 2,11). Dito de outra maneira: são os idólatras, aqueles que vivem em circuito fechado, sendo ao mesmo tempo donos e escravos de si mesmos24 .
Esta oposição fundamental sai ainda reforçada pelo recurso às imagens vegetais. O HOMEM que se dedica à tôrah é comparado a uma ÁRVORE plantada, portanto de pé, junto das águas, que tem raiz e que dá FRUTO. Em contraponto, os MALVADOS são como a PALHA que o vento dispersa, sem raiz e sem fruto: a PALHA é a casca do fruto. Uns estão seguros e são fecundos, felizes, são bem sucedidos, crescem na vertical, modulam o vento, o sopro, a respiração: só assim podem r-e-c-i-t-a-r a tôrah25 ; outros são levados pelo vento, são estéreis, perdem-se e disperdem-se, não se seguram nem se levantam26 .
Os dois pólos desta oposição são, pois, o HOMEM e os MALVADOS, e o fosso que os separa é tão cavado, que, depois de descrever o HOMEM nos três primeiros versículos, o quarto versículo abre logo com o brutal «Não assim (lo’-ken) os malvados», que é como quem diz que, para descrever os malvados, basta negar o que antes foi afirmado sobre o homem. Daqui até se dizer que os malvados têm em si alguma coisa de inumano vai um pequeno passo, que outros Salmos se encarregarão de dar, descrevendo os malvados com traços de animais selvagens27 .
É assim que os vemos descritos como leões de boca escancarada (Sl 7,3; 10,9; 17,12; 22,14.22, 35,17; 57,5; 58,7), como pesados touros de Basã (Sl 22,13), como búfalos de grandes chifres (Sl 22,22), como vespas carregadas de veneno (Sl 118,12), como cães atiçados (Sl 22,17.21; 59,7.15). Trata-se de uma «caça ao contrário», em que as feras se servem dos cães para perseguir, cercar e caçar o homem28 . Em boa verdade, esta irrupção dos animais na cena significa que passou a hora da palavra e que chegou a hora do medo, do ódio e da brutalidade29 .
De facto, o malvado é aquele que não sabe modular o sopro ou a respiração (neshamah [= narinas], nephesh [= garganta])30 . Não modula o vento, mas é por ele disperso. Modular o vento ou o sopro traduz-se na doçura da palavra31 . Falar é a arte de modular o sopro. É assim que Deus cria. É assim que o homem se torna com-criador. O malvado não sabe modular o sopro. Não fala, portanto; mas grita e ameaça e mata. Não domina o animal ou a animalidade, como manda o Génesis 1,26.28. Pelo contrário, deixa-se dominar pelo animal32 .
E deixando-se dominar pelo animal, passa a ser à imagem do animal, e não à imagem de Deus. É assim que Caim se deixa dominar pelo instinto (teshûqah) do pecado (haththa’ah) à sua porta deitado (Gn 4,7), como se de um leão se tratasse: «O leão está à espreita da presa: assim está o pecado para aqueles que praticam a injustiça» (Ecli 27,10)33 . E é assim que Caim se torna assassino34 . Não modula o sopro. Não fala. De forma penetrante, a narrativa de Caim prossegue, em Gn 4,8a, com: «Disse Caim a Abel, seu irmão» (wayy’omer qayin ’el hebel ’ahîw). «Disse Caim a Abel, seu irmão»! Mas, em boa verdade – oh ousadia do texto – Caim não disse nada. Entre este anunciado dizer de Caim e o passo seguinte: «E Caim lançou-se sobre Abel, seu irmão, e matou-o» (Gn 4,8b), fica um gritante vazio no texto hebraico, que as antigas versões se esforçaram por preencher, introduzindo a habitual locução: «Vamos para o campo» (LXX) ou «Saiamos fora» (Vg)35 .
Mas a omissão é intencional36 . Bem o compreendeu Judas quando, na sua Carta, diz certeiramente que «aqueles que seguem o caminho de Caim» são «como os animais sem palavra» (hôs tà áloga zôa) (Jd 10-11)37 . De facto, a besta que há em Caim não fala, mas grita e trucida e come o outro! (Gn 4,8)38 , usando os mesmos meios que o leão utiliza para dominar a sua presa39 .
Caim não dá espaço ao outro: nem sequer o estreito espaço da palavra! A palavra precisa de tempo40 , pois toda a palavra verdadeira é desejo de outra palavra41 . Desejo de outra palavra. O desejo é um saber que não se sabe, impulso para um dom que vem de fora, que simplesmente nos compete receber, pois um dom não o podemos conseguir por nós mesmos42 , não cabe em nenhuma previsão, não pertence ao horizonte das possibilidades do «eu»43 . Por isso, toda a palavra verdadeira que articulamos pede admissão à passagem estreita pela qual se apresenta depois de uma palavra e antes de outra palavra, ao mesmo tempo que emite uma declaração atestando que não está contaminada pela totalidade44 . Verdadeiramente, «A palavra vale mais do que um presente» (Ecli 18,17-18)45 .
O Homem que recita a tôrah, que modula o sopro, que é habitado pela doçura da palavra, face ao malvado (Ecli 33,14), que é como um animal sem palavra, habitado pela inumanidade e pela violência, que concebe delitos e dá à luz a desgraça e a morte (Jb 15,35; Sl 7,15; Tg 1,15), ou, por outras palavras, que concebe feno e dá à luz palha (Is 33,11).
O seio deste confronto entre o Homem e o Malvado é uma das «situações vitais» da súplica46 . Ouçamos a voz do Homem, que expõe a Deus a sua situação angustiada, implorando o necessário socorro:

«Vê quantos são os meus inimigos,
que me detestam com ódio violento» (Sl 25,19).

«Presta atenção ao meu clamor,
porque me sinto esmagado.
Livra-me dos meus perseguidores,
porque são mais fortes do que eu» (Sl 142,7).

«8(O malvado) Monta emboscadas nos povoados,
e às escondidas mata o inocente.
Os seus olhos espiam o miserável.
9Emboscado no esconderijo como leão no covil,
emboscado para capturar o pobre:
captura o pobre e arrasta-o na sua rede» (Sl 10,8-9).

«2Salva-me, ó Deus,
que a água me chega ao pescoço.
3Estou enterrado numa lama profunda,
e já não tenho pé» (Sl 69,2-3).

«15Arranca-me da lama, para que não me afunde.
Liberta-me dos que me odeiam e das águas sem fundo.
16Que não me arraste a corrente das águas,
que o redemoinho não me engula,
que não se feche a boca do poço sobre mim» (Sl 69,15-16).

Catadupa de imagens. Palavras angustiadas ditas a Deus, para que Deus intervenha na vida deste pobre. Não se trata – note-se bem – de angústia à solta, incontrolada, mas modulada, dita a Deus, traduzida em palavras sinceras e sentidas, rezadas, tocadas, cantadas.

É verdade, no entanto, que, no auge deste confronto desigual, o Homem que reza vai, por vezes, mais longe, chegando a implorar vingança contra os seus inimigos:

«7Ó Deus, quebra-lhes os dentes na boca,
arranca as presas dos leões, ó YHWH!
8Que se diluam como águas que se vão,
murchem como erva calcada47 ,
9como lesma que se derrete ao andar,
como aborto que não chega a ver o sol!
11Que se alegre o justo ao ver a vingança (naqam),
e lave os seus pés no sangue do malvado» (Sl 58,7-9.11).

«8Que os seus dias sejam poucos
e o seu emprego ocupado por outro;
9que os seus filhos fiquem órfãos
e a sua mulher viúva» (Sl 109,8-9).

«8Filha de Babel, ó devastadora,
feliz aquele que te devolver
o mal que nos fizeste!
9Feliz aquele que agarrar e esmagar
os teus filhos contra a rocha!» (Sl 137,8-9).

Não se trata de um programa de acção, mas de lírica que desafoga sentimentos48 . São pedaços dos chamados salmos de vingança, imprecação ou execração, que correspondem a sentimentos humanos que por vezes nos habitam. Mas são também sentimentos inumanos que podem levar-nos a matar desde que a oportunidade surja para darmos livre curso à violência que ruminamos49 . É estranho que, para lidar com esta sede de vingança, sejam habitualmente apontadas apenas duas saídas: ou o recalcamento ou a acção50 . Em mundo cristão, impõe-se normalmente uma certa moral voluntarista que defende que a vingança é um mau sentimento, e que, como tal, não se deve fazer, mas calar e esconder pelo recalcamento. Vai nesse sentido a censura das Igrejas que baniram da sua oração diária os Salmos ou versículos imprecatórios por os julgarem indignos do homem e de Deus ou, como diz a Instrução Geral sobre a Liturgia das Horas, «por uma tal ou qual dificuldade de ordem psicológica»51 .
Estranho mesmo é que a Bíblia tenha acolhido na sua oração estes gritos de raiva e estes apelos à vingança, mostrando que este sentimento não é indigno do homem nem de Deus. Com este procedimento, a Bíblia aponta para o sentimento de vingança que se anida no coração do homem um caminho diferente da acção ou do recalcamento, do fazer vingança ou do escondê-la. Aponta o caminho da palavra. A vingança não se deve fazer nem esconder. A Bíblia ensina que se deve dizer. E dizê-la não é já começar a humanizá-la? E se Caim tivesse falado mesmo para o seu irmão… Será que o teria ainda matado? Para além do fazer vingança ou de a esconder pelo recalcamento, a Bíblia e o Saltério apontam um caminho diferente: o caminho da palavra como única via para humanizar o que há em nós de inumano52 . O estreito caminho da palavra, a modulação do sopro, a oração, a música, o canto: eis a via inteligente que a Bíblia e o Saltério apontam para dominar e humanizar o animal que há em nós.

O Homem que reza no Saltério vai pelo caminho da palavra. Por isso, recita a tôrah, isto é, tem na tôrah a sua raiz e a sua seiva; e é cantando e tocando o Saltério (Sl 57,8), que o mesmo é dizer, cantando-se e tocando-se, modulando-se, que o Homem se vai decantando – «no Saltério resolvo o meu enigma / o meu problema» (Sl 49,5) –, até que do seu íntimo ressoe como única melodia o puro louvor: HALLeLÛ YAH! [= LOUVAI YAH!], «minha força e meu canto YAH» (‘azzî wezimrat YAH) (Ex 15,2; Sl 118,14), «porque para sempre é o seu amor» (Sl 136), litania por 26 vezes repetida, gematria do Nome “YHWH” [= 10 + 5 + 6 + 5], cujo valor numérico é 2653 , como quem diz que o assunto deste Salmo 136 é o conteúdo do Nome de YHWH – amor (hesed) para sempre (le‘ôlam) –, e é essa eternidade de amor que o salmista, que passa, quer cantar54 , e intercalar na sua história, salvando-a.
É assim que chegamos ao Salmo 150, que encerra o Saltério, já sem raivas nem ódios, mas com um imenso louvor no coração e nos lábios:

1aHALLeLÛ YAH!

1bLOUVAI Deus no seu santuário.
1cLOUVAI-O no firmamento da sua força.

2aLOUVAI-O nas suas obras grandes.
2bLOUVAI-O conforme a imensidão da sua grandeza.

3aLOUVAI-O com o clamor da trompa.
3bLOUVAI-O com harpa e cítara.
4aLOUVAI-O com tamborim e dança.
4bLOUVAI-O com cordas e flauta.
5aLOUVAI-O com címbalos de som.
5bLOUVAI-O com címbalos de aclamação.
6aTudo o que respira LOUVE YAH.

6bHALLeLÛ YAH!

Louvai, louvai, louvai… Imperativo factitivo55 dez vezes repetido. Monotonia admirável. Lembra e responde aos dez dizeres com que Deus criou o mundo e o homem (Gn 1,1-2,4a) e às dez palavras do Decálogo (Ex 20,2-17; Dt 5,6-21)56 . Dez ou doze57 ou treze58 . Pura, imensa e intensa melodia, que começa como acaba, acaba como começa: HALLeLÛ YAH! Inclusão literária59 . Círculo perfeito do louvor.
A ESTRUTURA da doxologia que fecha o Hallel da manhã (Sl 146-150) e o inteiro Saltério apresenta uma INTRODUÇÃO, que é um convite ao louvor (1a), e uma CONCLUSÃO (6b), que é ainda um convite ao louvor. Louvor permanente e ininterrupto. O CORPO (1b-6a) desta admirável doxologia apresenta-se articulado em três partes: o LUGAR do louvor (1bc), os MOTIVOS do louvor (2ab), as PESSOAS do louvor (3-6a).
O LUGAR do louvor é «no seu santuário» (beqodshô) e «no firmamento da sua força» (bireqîa‘ ‘uzzô). Santuário terrestre60 – com a extraordinária actualização dos LXX, que traduzem «nos seus santos» (en toîs hagíois autoû) – e santuário celeste, fonte da nossa força e da nossa música: «minha força e meu canto YAH» (‘azzî wezimrat YAH) (Ex 15,2; Sl 118,14).
Os MOTIVOS do louvor são as «obras grandes» (gebûrôt) e a «imensidão da sua grandeza» (kirôb gudlô). Aí estão sempre diante do laudante as maravilhas de Deus: a criação, o chamamento dos nossos pais e o nosso, a libertação de Israel e a nossa, a admirável travessia de tantos desertos, a hospedagem na sua casa (Sinai), a sua Presença no meio de nós (Tenda da Reunião), o dom do seu alimento, da sua Palavra e do seu Perdão, a Terra Prometida e dada… e recebida (?), a Incarnação, Paixão, Morte e Ressurreição do seu Filho, a sua Igreja, a nossa vida dada… e recebida (?)… A «sua grandeza sem medida» (Sl 145,3) reclama da nossa parte um louvor sem medida, imenso e intenso, que começa e não termina mais.
As PESSOAS do louvor são aqui indicadas pelos instrumentos tocados. Surge em primeiro lugar (primeiro círculo do louvor à volta do «Santo dos Santos») a trompa, que é o «corno do carneiro» (shôphar), cujo som se faz irromper para assinalar as teofanias de YHWH (Ex 19,16.19; 20,18), as chamadas «guerras de YHWH» e suas encenações litúrgicas (Js 6,4-6.8-9.13.16), o «Dia de YHWH» (Sf 1,16; Zc 9,14), o Ano Jubilar (Lv 25,9-10), os tempos festivos (Sl 47,6; 81,4; 98,6), e, no NT (sálpinx)61 , os tempos escatológicos (Mt 24,31; 1 Cor 15,52; 1 Ts 4,16). O som do shôphar anuncia um tempo novo, decisivo, em que Deus está em acção. No AT, são os SACERDOTES que tocam o shôphar62 ; no NT, são os anjos.
O segundo círculo do louvor é ocupado pelos LEVITAS, a quem compete exclusivamente tocar a harpa e a cítara (nebel wekinnôr) no átrio de Israel63 , o átrio do Templo destinado à música dos Salmos, desejo ardente de todo o piedoso israelita: «Acordai, harpa e cítara! Quero acordar a aurora!» (Sl 108,3). Esta alegria não é possível lá onde não mora YHWH, em terra pagã, na Babilónia (Sl 137,3-4). Lá, as nossas harpas podem ser dependuradas (Sl 137,2) como instrumentos vazios e inúteis. Serão de novo retomadas na «aula» celeste para acompanhar a alegria dos redimidos que cantam um cântico novo (Ap 5,8; 14,1-4).
No terceiro círculo do louvor, deparamos com o tamborim (tôph) e a dança (mahôl). Quem está por detrás do tamborim, que é uma espécie de pandeireta, que se segura e percute com as mãos, e dos movimentos de dança, são as MULHERES, como se pode verificar em múltiplos textos (Ex 15,20 (Maria, irmã de Aarão, e as mulheres); Jz 11,34 (filha de Jefté); 1 Sm 18,6-7a (as mulheres vêm vitoriar David); Sl 68,26 (virgens = ‘alamôt). Não sendo as únicas que dançam – mas a «dança» denominada mahôl é tipicamente feminina64 –, as mulheres são praticamente as únicas que, na Bíblia, tocam o tamborim65 . Este círculo feminino mostra-nos também, no Templo, o átrio das mulheres.
O quarto círculo reclama a presença dos MÚSICOS (nogenîm), que tocam instrumentos de corda (minnîm) difíceis de identificar (o termo só aparece aqui e no Sl 45,9), a flauta (‘ugab), os címbalos de som (tsiltselîm shama‘), talvez uma espécie de «castanholas» de madeira, e os címbalos de aclamação (tsiltselîm terû‘ah), que bem podem ser uns pratos de metal semelhantes à moderna bateria, que marca o ritmo musical66 . Estes címbalos, todavia, apenas acompanham o grito de júbilo designado terû‘ah, que tem o povo por sujeito, e que abre o quinto círculo do louvor.
O quinto círculo é então formado pelo POVO fiel que, com os seus gritos ruidosos de emocionada alegria (terû‘ah) – «a palavra terû‘ah significa aclamação, grito não articulado em significado»67 – testemunha a presença actuante de Deus nas chamadas «guerras de YHWH» (Ex 14,10; Js 6,5; 1 Sm 4,6; Ez 21,27) e noutras circunstâncias em que se constata e afirma a presença de Deus (Lc 1,42). Um «grito não articulado em significado» é sempre intraduzível. Por aproximação, os LXX traduziram terû‘ah por alalagmós: não falar, Lallwort, de características infantis, que nos permite desenhar um sexto círculo nesta imensa sinfonia do louvor: as CRIANÇAS.
Mas abre-se ainda um sétimo círculo em que entram todas as CRIATURAS. «Tudo o que respira» (kol hanneshamah) designa todas as criaturas (Ap 5,13)68 . Na Bíblia não há natureza. Tudo são criaturas, que levantam o seu louvor para o Criador (Sl 93,3; 96,11-12; 98,8; 114; Is 55,12). E S. Paulo fala do «“rosto tenso” (apokaradokía) da criação que espera a revelação dos filhos de Deus» (Rm 8,19; cf. Fl 1,20)69 .
O louvor é, sobre a terra, o que mais se parece com a eternidade70 . Na verdade, o louvor é para sempre (Sl 111,10), e implica a plenitude do som (panóplia de instrumentos), da voz e do movimento (dança)71 , plena modulação do sopro e do gesto, acabada humanização da nossa humanidade. O louvor dobra-se sobre si mesmo como uma folha, uma página. O vinco, o sulco, é a súplica, a lamentação, porventura a imprecação, que brotam do homem concreto que sofre e que respira. Mas a súplica, a lamentação, porventura a imprecação, sempre assentes na relação pessoal e confiante do Homem com Deus, desdobram um tecido contínuo, que é o louvor, desde agora e para sempre72 . Eu implicado agora na imensa geração do louvor. Não simplesmente «como antes», recebendo e confirmando o testemunho das gerações passadas:

«Em ti confiaram os nossos pais,
confiaram e tu os libertaste» (Sl 22,5).

Uma tal tradição de libertação e de louvor não seria mais do que um simples analgésico, levando-nos porventura a ver a nossa dor como apenas um mau momento que há-de ser ultrapassado.
A esperança do Homem do Saltério não tem por objecto um simples «como antes», mera cadeia de repetição. O bom intérprete compreende que a esperança do Homem do Saltério não é «depois como antes», mas «antes como depois». O modelo está no futuro. O louvor do Saltério é uma profecia73 , que soa assim: «Cantai a YHWH um canto novo (shîr hadash)» (Sl 33,3; 96,1; 98,1; 149,1),/ «E pôs na minha boca um canto novo» (Sl 40,4),/ «Um canto novo quero cantar-te» (Sl 144,9)74 .
Deixemos então ressoar em nós os acordes do Salmo 145, um condensado alfabético, «sopa» de letras, de verbos, de títulos, de atributos divinos, de pronomes, porta de charneira do Saltério, que se fecha sobre quanto está para trás75 , resumindo, que se abre para quanto vem depois, sumariando:

(א)1Eu quero exaltar-TE, DEUS m-e-u, ó REI,
e quero BENDIZER o TEU NOME eternamente e sempre.
(ב)2O dia todo quero BENDIZER-TE,
e quero louvar o TEU NOME eternamente e sempre.

(ג)3GRANDE é YHWH e louvável muito,
e para a s-u-a grandeza não há medida.
(ד)4Uma geração enaltece à outra as TUAS obras
e as TUAS obras grandes narram.
(ה)5Esplendor de glória é a TUA majestade,
e os factos das TUAS maravilhas quero celebrar.
(ו)6E a força das TUAS acções terríveis dizem,
e a TUA grandeza quero descrever.
(ז)7A recordação da TUA grande bondade difundem,
e a TUA justiça aclamam.

(ח)8GRATIFICANTE e MISERICORDIOSO é YHWH,
LENTO PARA A IRA e GRANDE DE AMOR.
(ט)9BOM é YHWH para todos,
e a s-u-a misericórdia está em todas as s-u-a-s obras.
(י)10Louvem-TE, YHWH, as TUAS obras todas,
e os TEUS fiéis TE BENDIGAM.
(כ)11A glória do TEU reino digam,
e das TUAS obras grandes falem.
(ל)12Para anunciar aos filhos do homem as TUAS obras grandes,
e a glória do esplendor do TEU reino.
(מ)13aO TEU reino é reino de todos os séculos,
e o TEU domínio em toda a geração e geração.

[(נ)(13b)FIEL é YHWH em todas as s-u-a-s palavras,
BONDOSO em todas as s-u-a-s obras.]
(ס)14AMPARO é YHWH para todos os que caem,
E SOCORRO para todos os que andam vergados.
(ע)15Os olhos de todos em TI esperam,
pois és TU que lhes dás o alimento no tempo oportuno.
(פ)16Abres a TUA mão,
E sacias o desejo de todos os seres vivos.

(צ)17JUSTO é YHWH em todos os s-e-u-s caminhos,
e BONDOSO em todas as s-u-a-s obras.
(ק)18PRÓXIMO é YHWH de todos os que o chamam,
de todos os que o chamam na verdade.
(ר)19O querer daqueles que o temem faz,
o s-e-u grito escuta e os salva.
(ש)20GUARDA é YHWH de todos os que o amam,
mas todos os ímpios destrói.

(ת)21O Louvor de YHWH fala a m-i-n-h-a boca,
e BENDIGA toda a carne o s-e-u NOME santo,
eternamente e sempre.

O carácter de resumo-sumário patente neste Salmo determina a sua têmpera tardia, bem como a sua linguagem aparentemente convencional76 . Trata-se, de facto, de um extraordinário compêndio de viver face a Deus e de dizer tudo a Deus e de Deus. Tudo e de todas as maneiras. É ainda o único Salmo explicitamente intitulado tehillah77 , termo que também surge a fechar (v. 21), e que dará depois, como já vimos, na sua forma masculina plural (tehillîm), o nome ao inteiro Livro dos Salmos. Tratando-se de um Salmo alfabético, nota-se a ausência da letra nûn no TM, logo a seguir ao v. 13. O texto que apresentamos em 13b foi acrescentado a partir de antigas versões, nomeadamente do manuscrito 11QPs de Qumran e do códice Sinaítico (séc. V)78 . A estrutura aparece realçada pela disposição do texto, em que se destacam a Introdução (1-2) e a Conclusão (21), encaixilhando o Corpo do Salmo em que são visíveis estrofes alternadas em que a marca distintiva são os enunciados sobre Deus com os pronomes em 3.ª pessoa (3 / 8-9 / 13b-14 / 17-20), a que se seguem glosas ou desenvolvimentos com os pronomes em 2.ª pessoa (4-7 / 10-13a / 15-16)79 . A estrutura assim relevada revela-se perfeitamente concêntrica: A-B-C-B’-C’-B’’-C’’-B’’’-A’, em que A assinala a Introdução e a Conclusão, B a linha dos enunciados com os pronomes em 3.ª pessoa, e C a linha das glosas ou desenvolvimentos com os pronomes em 2.ª pessoa. Nesta estrutura concêntrica, é fácil identificar o seu centro em C’, que assinala a glosa ou desenvolvimento documentado nos vv. 10-13a, bem como a inclusão formada pela Introdução e pela Conclusão, em que se repetem ideias e vocabulário. Importante ainda é verificar que o termo-chave «BENDIZER» (barak) aparece estrategicamente colocado: na Introdução (vv. 1-2), no Centro (v. 10) e na Conclusão (v. 21), afectando progressivamente o Orante, os fiéis e a inteira criação, em círculos cada vez mais amplos80 . É sabida a importância bíblica da BÊNÇÃO, que une num círculo inquebrável Deus e o Homem, o Homem e Deus, e os Homens entre si, estendendo-se a sua influência benfazeja à inteira criação. É de barak que se desdobram os verbos eulogéô e eucharistéô, em que assenta a Eucaristia81 .
O Salmo apresenta um denso tecido de pronomes pessoais: 25 de 2.ª pessoa (tu, te, ti, teu, tua, teus, tuas), 9 de 3.ª pessoa (seu, sua, seus, suas), 2 de 1.ª pessoa (meu, minha), que atestam bem a pessoalidade que o atravessa: relação pessoal, tu a tu, do orante com o seu Deus.
O Salmo está igualmente repleto de verbos da gama do louvor: exaltar, bendizer, louvar, enaltecer, narrar, celebrar, dizer, descrever, difundir, aclamar, falar, anunciar. Fica-se com a impressão de que o orante folheou o dicionário à procura de sinónimos.
É ainda impressionante a riqueza de atributos divinos que assomam no texto: Deus meu (linguagem da aliança), rei, nome, grande, gratificante e misericordioso82 , lento para a ira, grande de amor, bom, fiel, bondoso, amparo, socorro, justo, próximo, guarda. E o orante não pode esquecer nunca que os atributos de Deus, ainda que se enunciem no indicativo, chegam sempre a nós no imperativo. O conhecimento de Deus atinge-nos sempre como mandamento, como uma mitswah83 .

O louvor é para sempre, mas interrompe-se, pois o homem que canta os Salmos e se canta e decanta nos Salmos é o que menos se parece com a eternidade84 . Porque morre. E mesmo quando se salva da morte, é sempre antes de morrer que tal sucede85 . Se não fosse assim, como poderia dizer o seu louvor?86 Cristo, porém, levou até à morte as palavras dos Salmos que tinham sido ditas deste lado da morte. E ao ressuscitar, como primogénito de entre os mortos, devolveu-nos essas palavras que nos tinha pedido emprestadas87 , carregadas «agora» do louvor verdadeiro e eterno. Só uma novidade que nunca será substituída por outra novidade introduz no mundo um «agora» permanente88 .
Ao vinco da página, que representa a súplica no louvor, podemos agora acrescentar o sulco da morte. E devemos saber que, quando nos fixamos no passado, esquecendo a novidade da salvação, aí não está Deus. Mas se se tratar de uma salvação que apague o vinco da súplica ou o sulco da angústia e da morte, também aí não está Deus e tão-pouco há salvação89 . Não há salvação mais além da nossa morte se ela não arrebatar também o mais aquém da nossa morte90 .

3. O sabor da Liturgia das Horas

É desde o Salmo 1, desde o princípio, que os termos «caminho» (derek) e «caminhar» (halak) entram na música do Saltério, nos passos do Salmista. Como entram também o pão, a água, o ódio, a raiva, a alegria, a esperança, a dor, a morte, a harpa, a viola e a guitarra, o tamborim, a flauta, os bombos, o terû‘ah. Oração de todas as horas. De todas as circunstâncias. «Salmos noite e dia». Súplica e louvor. Pouco importa o meu estado de ânimo e o estar de acordo com o meu estado de ânimo, porque esta é a oração de toda a humanidade e com toda a humanidade, que me faz sair ao encontro do pobre, do rico, do perseguido, do perseguidor, do humilhado, do doente, do são, do moribundo, do sem-Deus, do que anseia por Deus, do justo, do malvado, do jovem, do idoso, da criança. Rezar é dizer «eu» em vez e no lugar dos meus irmãos91 . Verdadeira operação de coração aberto. Modulação do sopro e do gesto. Palavra, canto, música e dança. Intensidade. Como dizem os hebreus, hitlahabut92 , com uma chama dentro, com um lume dentro. Eu continuamente a arder, fogo sempre aceso no caminho, no altar (Lv 6,6)93 , pão sempre a sair do forno, exposição permanente a Deus e aos irmãos.

Tanta riqueza abandonada. Tanta vida fossilizada à beira do caminho. Que música nos habita? Como nos dizemos? Como ouvimos? Se não ouvimos, também não falamos. Que o surdo é também mudo, é uma constatação basilar da experiência humana94 .
Procuramos instruir-nos sobre os Salmos, como recomenda a Constituição sobre a Sagrada Liturgia, n.º 90? Os Pastores de almas celebram comunitariamente na igreja, nos domingos e festas mais solenes, as Horas principais, sobretudo as Vésperas, como recomenda a mesma Constituição sobre a Sagrada Liturgia, n.º 100? Respeitamos a têmpera musical dos salmos em todas as circunstâncias em que os recitamos, mesmo individualmente ou em silêncio, como sugere a Instrução Geral sobre a Liturgia das Horas, n.º 103? Ou limitamo-nos a carregar o «Ofício», como um peso que nos foi imposto e um dever que há que cumprir, ou a despachar o «Breviário», coisa abreviada e rápida devido aos nossos muitos afazeres e por comodidade?95

António Couto

NOTAS
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[1] P. AUVRAY, Los salmos, in H. CAZELLES (ed.), Introducción crítica al Antiguo Testamento, Barcelona, Herder, 1981, p. 523; L. SABOURIN, Le Livre des Psaumes traduit et interprété, Monte Real – Paris, Bellarmin – Cerf, 1988, p. 23.31; R. SMEND, La formazione dell’Antico Testamento, Bréscia, Paideia, 1993, p. 246-247; S. TERRIEN, The Psalms. Strophic Structure and Theological Commentary, Grand Rapids, Eerdmans, 2003, p. 10.28; E. ZENGER, Il libro dei Salmi, in E. ZENGER (ed.), Introduzione all’Antico Testamento, edição italiana da 5.ª edição alemã integralmente revista, reelaborada e aumentada (Kohlhammer, 2004), Brescia, Queriniana, 2005, p. 531.

2] A harpa (nebel) é, desde K. Galling, a lira horizontal, e a cítara (kinnôr) é a lira vertical. Estes instrumentos eram utilizados no culto exclusivamente pelos Levitas. L. JACQUET, Les Psaumes et le coeur de l’homme. Étude textuelle, littéraire et doctrinale (101-150), Vol. III, Gembloux, J. Duculot, 1979, p. 755; L. SABOURIN, Le Livre des Psaumes, p. 619.

[3] R. SMEND, La formazione dell’Antico Testamento, p. 246; E. SKUIJ, Musical instruments in Psalm 150, in J. KRASOVEC (ed.), The Interpretation of the Bible. The International Symposium in Slovenia, Sheffield, Sheffield Academic Press, 1999, p. 1121; E. ZENGER, Il libro dei Salmi, p. 531.

[4]P. AUVRAY, Los salmos, p. 523; J. L. CRENSHAW, The Psalms. An Introduction, Grand Rapids, Michigan / Cambridge, Eerdmans, 2001, p. 3.

[5] Veja-se, a propósito, a Instrução Geral sobre a Liturgia das Horas, n.º 103: «Os salmos nem são leituras nem orações em prosa; são poemas de louvor. Por isso, embora admitindo que às vezes hajam sido recitados em forma de leitura, todavia, dado o seu género literário, com razão são designados em hebraico pelo termo Tehillîm, quer dizer, “cânticos de louvor”, e em grego psalmoí, ou seja, “cânticos acompanhados ao som do saltério”. De facto, todos os salmos possuem um certo carácter musical, que determina o modo como devem ser executados. E assim, ainda mesmo quando o salmo é recitado sem canto, ou até individualmente ou em silêncio, a sua recitação terá de conservar este carácter musical».

[6] E. S. GERSTENBERGER, Psalms, Part I, with an Introduction to Cultic Poetry, «The Forms of the Old Testament Literature» XIV, Grand Rapids, Eerdmans, 2.ª edição, 1991 (1.ª ed., 1988), p. 16.

[7] P. BEAUCHAMP, Psaumes nuit et jour, Paris, Seuil, 1980, p. 210.

[8] P. BEAUCHAMP, Psaumes nuit et jour, p. 100.

9] P. BEAUCHAMP, Testament biblique. Recueil d’articles parus dans Études. Préface de Paul Ricoeur, Paris, Bayard, 2001, p. 35-36.

[10] P. BEAUCHAMP, L’Un et l’Autre Testament. I. Essai de lecture, Paris, Seuil, 1976 [nova impressão, 2000], p. 142; A. RANON, «L’anima mia spera nella sua parola»: i salmi come Ant-wort (risposta) ad una parola già pronunciata, in A. N. TERRIN (ed.), Scriptura crescit cum orante. Bibbia e Liturgia – II, Pádua, Messaggero, 1993, p. 115-130.

[11] P. BEAUCHAMP, Psaumes nuit et jour, p. 34.

[12] No 1.º Templo habitava entre os querubins, sobre o «propiciatório» da arca (Ex 25,10-22). Com a destruição do Templo e o desaparecimento da arca, habita agora, presença dinâmica, entre os louvores de Israel: ’attah yôsheb tehillôt yisra’el.

[13] E. ZENGER, I salmi come spartito musicale della vita, in Annali di studi religiosi, 5, 2004, Bolonha, EDB, 2004, p. 543.

[14] P. BEAUCHAMP, Psaumes nuit et jour, p. 96.

[15] P. BEAUCHAMP, Psaumes nuit et jour, p. 98.

[16] F. ROSENZWEIG, La stella della redenzione, Génova, Marietti, 3.ª impressão da 2.ª edição, 1998, p. 288; C. DI SANTE, Vedere con gli ochi della Bibbia. Temi di spiritualità, Turim, Elle Di Ci, 1999, p. 77-78.

[17] P. BEAUCHAMP, Testament biblique, p. 174-176.

[18] C. DI SANTE, Responsabilità. L’io-per-l’altro, Roma-Fossano, Lavoro-Esperienza, 1996, p. 39; C. DI SANTE, Il Padre Nostro. L’esperienza di Dio nella tradizione ebraico-cristiana, Assis, Cittadella, 1995, p. 165;

[19] C. DI SANTE, Il futuro dell’uomo nel futuro di Dio. Ripensare l’escatologia, Turim, Elle Di Ci, 1994, p. 66. C. DI SANTE, Il futuro, p. 61.

[20]De facto, o verbo hagah não significa «meditar», como se traduz habitualmente, mas, mais do que isso, «balbuciar» ou «recitar». O sentido de «recitar» é sobretudo sugerido pelo contexto de Js 1,8: «Que não se afaste o livro desta instrução (tôrah) da tua boca; recita-o (hagah) dia e noite…». L. SABOURIN, Le Livre des Psaumes, p. 78.

[21] A. WÉNIN, Le Livre des Louanges. Entrer dans les Psaumes, Bruxelas, Lumen Vitae, 2001, p. 68-69.

[22] A. WÉNIN, Le Livre des Louanges, p. 71.

[23] M. BUBER, Il cammino del giusto. Riflessioni su alcuni Salmi, Milão, Gribaudi, 1999, p. 67.

[24] P. BEAUCHAMP, D’une montagne à l’autre. La Loi de Dieu, Paris, Seuil, 1999, p. 57.

[25] Tem razão P. Beauchamp, quando escreve que «recitar é respirar, e não se pode viver sem alento». P. BEAUCHAMP, Le Récit, la Lettre et le Corps. Essais bibliques, Paris, Cerf, nova edição aumentada, 1992, p. 108.

[26] A. WÉNIN, Le Livre des Louanges, p. 76-77.

[27] A. WÉNIN, Le Livre des Louanges, p. 71.

[28] A. WÉNIN, Le Livre des Louanges, p. 32.104-105; P. BEAUCHAMP, Psaumes nuit et jour, p. 223-224.

[29] P. BEAUCHAMP, Psaumes nuit et jour, p. 224.

[30] Realismo da linguagem bíblica. Na verdade, o primeiro significado de nephesh é ‘garganta’ ou o ‘pescoço por dentro’. E é fácil de ver que a garganta é fundamental para a vida do ser humano e do animal, pois é por lá que passa o alimento e a respiração. Sem comer, sem beber e sem respirar, morre o ser humano e morre o animal. Nephesh tem, pois, o significado primário de ‘garganta’, mas diz também de forma estupenda o homem vivo. É o seu segundo e pleno significado. É ‘garganta’ e é ‘vida’. H. SEEBASS, nephesh, in G. J. BOTTERWECK, H. RINGGREN, H.-J. FABRY (eds.), Theological Dictionary of the Old Testament, Vol. IX, Grand Rapids, Eerdmans, 1998, p. 504s.; M. ROSE, Une herméneutique de l’Ancien Testament. Comprendre – se comprendre – faire comprendre, Genebra, Labor et Fides, 2003, p. 434-435.

[31] P. BEAUCHAMP, Le Récit, la Lettre et le Corps, p. 263; P. BEAUCHAMP, Création et fondation de la loi en Gn 1,1-2,4a. Le don de la nourriture végétale en Gn 1,29s, in L. DEROUSSEAUX (ed.), La Création dans l’Orient Ancien, Paris, Cerf, 1987, p. 141.144.146.147.168; P. BEAUCHAMP, D’une montagne à l’autre. La Loi de Dieu, p. 59-61; A. WÉNIN, Pas seulement de pain… Violence et alliance dans la Bible, Paris, Cerf, 1998, p. 35.

[32] P. BEAUCHAMP, Création et fondation de la loi en Gn 1,1-2,4a, p. 159.168.

[33] Conforme a lição do Livro do Eclesiástico 27,10, «o leão está à espreita da presa: e assim está o pecado também».

[34] P. BEAUCHAMP, Le Récit, la Lettre et le Corps, p. 264.

[35] Assim os LXX, o Pentateuco Samaritano e a versão Siríaca: «Vamos para o campo»; Vulgata: «Saiamos fora»; Targum Neofiti: «Saiamos os dois para os campos». E. BIANCHI, Adamo, dove sei? Commento esegetico-spirituale ai capitoli 1-11 del libro della Genesi, Magnano, Comunità di Bose, Qiqajon, 2ª ed., 1994, p. 219; C. WESTERMANN, Genesis 1-11. A Continental Commentary, Minneapolis, Fortress Press, 1994, p. 302.

[36] J. A. SOGGIN, Genesi 1-11, Génova, Marietti, 1991, p. 97.

[37] A. WÉNIN, Pas seulement de pain…, p. 37.

[38] A. WÉNIN, Pas seulement de pain…, p. 75.

[39] P. BEAUCHAMP, Psaumes nuit et jour, p. 160.

[40] P. BEAUCHAMP, L’Un et l’Autre Testament. Accomplir les Écritures, Tomo II, Paris, Seuil, 1990, p. 26.

[41] A. WÉNIN, Pas seulement de pain…, p. 36.

[42] P. BEAUCHAMP, Psaumes nuit et jour, p. 146.

[43] S. LABATE, La sapienza dell’amore. In dialogo con Emmanuel Levinas, Assis, Cittadella, 2000, p. 244.

[44] P. BEAUCHAMP, L’Un et l’Autre Testament, II, p. 23.

[45] P. BEAUCHAMP, Testament biblique, p. 38.

[46] G. RAVASI, Storia di un’anima (Lettura del Salmo 73), in E. BORGHI (ed.), Leggere la Bibbia oggi. Dal testo alla vita, Milão, Àncora, 2001, p. 53.

[47] Tradução conjectural que corrige o TM hitstsaw [= “as suas flechas”] para hatsîr [= “erva”], aproximando o conteúdo do Sl 58,8 do Sl 37,2 e Sl 129,6, em que a mesma comparação se aplica aos malvados. L. SABOURIN, Le Livre des Psaumes, p. 270.272; L. ALONSO SCHÖKEL, C. CARNITI, Salmos. I. (Salmos 1-72). Traducción, introducciones y comentario, Estella, Verbo Divino, 1994, p. 782-783.

[48] L. ALONSO SCHÖKEL, C. CARNITI, Salmos, I, p. 794; L. ALONSO SCHÖKEL, C. CARNITI, Salmos. II. (Salmos 73-150). Traducción, introducciones y comentario, Estella, Verbo Divino, 1999, p. 1568.

[49] A. WÉNIN, Le Livre des Louanges, p. 117.

[50] A. WÉNIN, Le Livre des Louanges, p. 117.

[51] Instrução Geral sobre a Liturgia das Horas, n.º 131. Os Salmos censurados por inteiro são os Salmos 58(57), 83(82) e 109(108). Além de diversos versículos de outros Salmos.

[52] A. WÉNIN, Le Livre des Louanges, p. 118.143-144.

[53] J. ELIAS, The Haggadah. Passover Haggadah with Translation and a new Commentary based on Talmudic, Midrashic, and Rabbinic Sources, Nova Iorque, Mesorah Publications, 31980, p. 189.

[54] P. BEAUCHAMP, Psaumes nuit et jour, p. 192.

[55] Praticamente é um duplo imperativo. Para o pronunciar, o Salmista sai fora de si e convida os outros a sairem fora de si para se encontrarem juntos a louvar a Deus.

[56] A. WÉNIN, Le Livre des Louanges, p. 95.

[57] Se incluirmos os dois hallelû yah [= louvai YHWH] que abrem e fecham o Salmo 150 (vv. 1a e 6b), os dois censurados, sem razão que se vislumbre, do Livro da Liturgia das Horas!

[58] Se contarmos também o jussivo tehallel [= louve], patente no v. 6a. Poderíamos ter assim, de acordo com a exegese rabínica, uma alusão aos treze atributos de YHWH revelados a Moisés em Ex 34,6-7. G. RAVASI, Il Libro dei Salmi (101-150). Commento e attualizzazione, Vol III, Bolonha, EDB, 3.ª ed., 1986, p. 998.

[59] D. A. DORSEY, The Literary Structure of the Old Testament. A Commentary on Genesis-Malachi, Grand Rapids, Baker Books, p. 186.

[60] Designa o Templo de Jerusalém, único lugar onde o culto pode ser plenamente realizado no pós-exílio. Em consonância com o mito do centro ou umbigo da terra, o Lugar Santo faz a junção dos céus e da terra, um pouco à semelhança do cordão umbilical, ainda não cortado, de um recém-nascido. S. TERRIEN, The Psalms, p. 928-929.

[61] Desde os LXX que sálpinx traduz shôphar. E. SKUIJ, Musical instruments in Psalm 150, p. 1120.

[62] R. ARCONADA, Los Salmos, in J. LEAL (ed.), Los Salmos y los Libros salomónicos, «La Sagrada Escritura. Texto y comentario. Antiguo Testamento», IV, Madrid, BAC, 1969, p. 430.

[63] Atrás, nota 2. Estes instrumentos musicais têm também uso profano, sendo aí certamente outros os intérpretes.

[64] M. R. CAPPELLINI, La Bibbia a passo di danza. Alcune considerazioni rabbiniche contemporanee sulla danza biblica nella tradizione ebraica, in Studia Patavina, 52, 2005, p. 575-588, esp. p. 580.

[65] E. SKUIJ, Musical instruments in Psalm 150, p. 1123; E. S. GERSTENBERGER, Psalms, Part 2, and Lamentations, «The Forms of the Old Testament Literature» XV, Grand Rapids, Eerdmans, 2001, p. 459. O cenário de 1 Sm 10,5 pode talvez ser referido como um dos poucos passos em que o tamborim pode ser tocado por homens.

[66] E. SKUIJ, Musical instruments in Psalm 150, p. 1126; L. SABOURIN, Le Livre des Psaumes, p. 619.

[67] L. ALONSO SCHÖKEL, C. CARNITI, Salmos, II, p. 1669.

[68] L. SABOURIN, Le Livre des Psaumes, p. 619; P. PRIGENT, L’Apocalypse de Saint Jean, Genebra, Labor et Fides, nova edição revista e aumentada, 2000, p. 199.

[69] O termo apokaradokía, de apo + kara + déchomai [= fora de + cara (rosto) + esticar], mostra o gesto de quem alonga o pescoço para ver o que vai suceder e traduz bem as criaturas como pessoas. D. MOO, The Epistle to the Romans, «The New International Commentary on the New Testament», Grand Rapids, Eerdmans, 1996, p. 513; J. A. FITZMYER, Lettera ai Romani. Commentario critico-teologico, Casale Monferrato, Piemme, 1999, p. 603-604.

[70] P. BEAUCHAMP, Psaumes nuit et jour, p. 112.

[71] A. WÉNIN, Le Livre des Louanges, p. 95.

[72] P. BEAUCHAMP, Psaumes nuit et jour, p. 102.

[73] Instrução Geral sobre a Liturgia das Horas, n.º 109.

[74] P. BEAUCHAMP, Psaumes nuit et jour, p. 103.

[75] Há quem veja este Salmo, no plano da composição, como o Salmo conclusivo do V Livro dos Salmos (107-145). E. ZENGER, Li libro dei Salmi, p. 538-539.

[76] L. ALONSO SCHÖKEL, C. CARNITI, Salmos, II, p. 1635; E. S. GERSTENBERGER, Psalms, Part 2, p. 436.

[77] L. SABOURIN, Le Livre des Psaumes, p. 603; S. TERRIEN, The Psalms, p. 904; E. S. GERSTENBERGER, Psalms, Part 2, p. 433.

[78] O texto hebraico soaria assim: ne’eman YHWH bekol-debarayw wehasîd bekol ma‘asayw.

[79] A estrutura apresentada aproxima-se da que oferece E. S. GERSTENBERGER, Psalms, Part 2, p. 432-433. A única diferença reside na colocação do v. 13 (TM), correspondente ao que assinalo em 13a. Gerstenberger, que usa apenas o texto massorético, não colmatando a lacuna da letra nûn, junta o v. 13 com o v. 14, fazendo desses dois versículos um enunciado. A estrutura que apresento coloca o v. 13 (TM) juntamente com os vv. 10-12, formando uma glosa ou desenvolvimento, pois todos têm os pronomes em 2.ª pessoa. Justifica-se, neste sentido, como mais adequada a estrutura que apresento.

[80] L. SABOURIN, Le Livre des Psaumes, p. 602.

[81] C. DI SANTE, La preghiera eucaristica erede e interprete della berakah, in A. N. TERRIN (ed.), Scriptura crescit cum orante. Bibbia e liturgia – II, Pádua, Messagero, 1993, p. 131-150; C. DI SANTE, L’eucaristia terra di benedizione. Saggio di Antropologia Biblica, Bolonha, EDB, 1987. A locução «gratificante e misericordioso» (hannûn werahûm), por esta ordem ou ao contrário, aparece na Bíblia hebraica por treze vezes, e é sempre reservada a Deus. O único lugar em que se poderia considerar atribuir tal locução ao homem justo seria no Sl 112,4. Mas mesmo aí, parece ser a Deus que diz respeito. Ver L. ALONSO SCHÖKEL, C. CARNITI, Salmos, II, p. 1388. Ver também A. J. HESCHEL, L’Uomo non è solo. Una filosofia della religione, Milão, Mondadori, 2001, p. 131; I. M. SANS, Autorretrato de Dios, Bilbau, Universidad de Deusto, 1997, p. 107-123.

[82] E. LEVINAS, Difficile Libertà, Brescia, La Scuola, 2000, p. 77.

[84]P. BEAUCHAMP, Psaumes nuit et jour, p. 112-113.

[85] P. BEAUCHAMP, Psaumes nuit et jour, p. 115.

[86] A. WÉNIN, Le Livre des Louanges, p. 62.

[87] P. BEAUCHAMP, Psaumes nuit et jour, p. 247.

[88] P. BEAUCHAMP, Psaumes nuit et jour, p. 250.

[89] P. BEAUCHAMP, Psaumes nuit et jour, p. 232.

[90] P. BEAUCHAMP, Psaumes nuit et jour, p.129.

[91] P. BEAUCHAMP, Psaumes nuit et jour, p. 24-25.

[92] M. BUBER, La leggenda del Baal-Shem, Milão, Gribaudi, 2.ª ed., 1998, p. 15-19.

[93] Fogo perene (tamîd), com lenha seleccionada. Testemunha a presença permanente de Deus no Templo. G. DEIANA, Levitico. Nuova versione, introduzione e commento, Milão, Paoline, 2005, p. 93.

[94] P. BOVATI, La dottrina dell’ascolto nell’Antico Testamento, in Ascolto – Docilità – Supplica (DSBP), 5, Roma, Borla, 1993, p. 19.

[95] T. FEDRICI, Per conoscere Lui e la potenza della Resurrezione di Lui. Per una lettura teologica del Lezionario, Nápoles, Dehoniane, 1987, p. 326.

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