Caminhos de pedagogia evangélica


Os Evangelhos sabem que a história de Jesus que transmitem é a história da manifestação de Deus entre nós. E que não é apenas a história de um homem sábio e justo que nos vem ensinar, ainda que de modo exemplar, como devemos estar diante de Deus. Isso já nós sabíamos e estamos já aptos a saber antes de ouvir ou de ler qualquer Evangelho. Não seria notícia, portanto. Notícia, e boa, é que Jesus tenha vindo mostrar-nos, não como nós devemos estar diante de Deus, mas como é que Deus está diante de nós, em relação a nós. Não como nós nos devemos comportar com Deus, mas antes disso, sempre antes disso, como é que Deus se comporta connosco. É este o espaço da inaudita notícia e da surpresa1. 

E para nos mostrar Deus, Jesus desce ao nosso nível. Não subjuga o homem com ensinamentos altissonantes e evidências esmagadoras capazes de produzir efeitos automáticos independentemente do homem, mas antes solicita e estimula a nossa inteligência, vontade e sensibilidade, de modo a sabermos dar a nossa resposta acolhedora2 , fazendo as operações mentais e afectivas necessárias para nos implicarmos correctamente na notícia comunicada, na associação apenas evocada, na pergunta formulada, no olhar e dizer que nos penetra e diz e institui, no gesto que nos surpreende e provoca.

Cenário I: Jesus, a mulher da Samaria e os discípulos (Jo 4)

Preparando o grande encontro de Jesus com a mulher da Samaria (Jo 4), em que os dois se envolvem no diálogo mais longo de todo o Evangelho3 , com sete intervenções de Jesus e seis da mulher da Samaria, o narrador anotava que Jesus «deixou a Judeia e voltou novamente para a Galileia» (Jo 4,3), acrescentando logo com rigorosa precisão: «Era preciso passar pela Samaria» (Jo 4,4). O leitor atento, mas incauto, após um rápido relance de olhos pelo mapa da Palestina do tempo de Jesus, em que vê alinhadas, de sul para norte, a Judeia, a Samaria e a Galileia, dirá logo que sim, que se trata de uma correcta precisão geográfica, dado que, para alguém se deslocar da Judeia para a Galileia, terá por força que passar pela Samaria. E o certo é que, ao tempo de Jesus, a viagem normal da Judeia para a Galileia não se fazia passando pela Samaria. A Samaria era terreno orologicamente acidentado e socialmente perigoso. A viagem da Judeia para a Galileia (e da Galileia para a Judeia) fazia-se normalmente atravessando o Jordão para oriente junto de Damyiah, um pouco a norte de Jericó, percorrendo depois o terreno plano do além-Jordão, para atravessar de novo o Jordão, agora para ocidente, junto de Bet-Shean, um pouco a sul do mar da Galileia4 . A anotação «Era preciso passar pela Samaria» não é, portanto, uma precisão geográfica, mas teológica5 .
«Era preciso passar pela Samaria» como «era preciso que o Filho do Homem fosse entregue à morte e ao terceiro dia ressuscitasse dos mortos». Condescendência de Deus. Misericórdia de Deus. Homeopatia de Deus. Pedagogia de Deus, que vem ao nosso encontro, descendo ao lugar onde nós estamos, para desde aí, e não sem o nosso consentimento, encetar connosco o caminho da salvação.
Mas a anotação de que «era preciso passar pela Samaria», serve ainda para pôr Jesus em caminho montanhoso, carreando para o leitor novas evocações. E então, caminhando «sobre os montes», Jesus coloca-se no cone de luz do mensageiro de boas notícias de Is 52,7:

«7Como são belos, sobre os montes, os pés do mensageiro que traz boas novas a Sião» (Is 527).

Mas também do noivo do Cântico dos Cânticos, de quem a noiva recita:

«8A voz do meu amado: ei-lo que vem correndo sobre os montes» (Ct 2,8).

O próprio facto de Jesus se sentar com tempo (ekathézeto: imperf. de kathézomai) junto do poço de Jacob coloca-nos logo num cenário de graça e dom de Deus, pois, no caixilho do deserto, um poço de água é sempre sinal do amor premuroso de Deus6 . Mas o poço evoca ainda um cenário de noivado, levando o leitor a entrever os cenários conhecidos de Isaac e Rebeca (Gn 24), de Jacob e Raquel (Lia) (Gn 29), de Moisés e Séfora, em que, na realidade, a mulher que vem ao poço é a futura esposa7 . A anotação de que «Era por por volta do meio dia» (à letra: hora sexta) (Jo 4,6), fornece-nos outra preciosa evocação e coloca-nos na pista do noivo do Cântico dos Cânticos, a quem a noiva implora:

«7Avisa-me, amado da minha alma: onde apascentas, onde descansas o rebanho ao meio dia» (à letra: hora sexta) (Ct 1,7).

À beira do cumprimento do amor. Tendo preparado meticulosamente a cena, em cujo centro está Jesus – e está lá sempre –, o narrador desvia agora o nosso olhar para uma mulher da Samaria que vem8 , sobraçando um cântaro, para tirar água (Jo 4,7), e faz-nos logo assistir a um dos mais belos e finos diálogos de toda a Escritura. Adiantando-se à mulher com o inesperado pedido: «Dá-me de beber» (Jo 4,7), Jesus rompe logo ali duas fronteiras – a fronteira social e religiosa que separava judeus e samaritanos, e a fronteira que separava então o homem da mulher –, pondo-se ao nível daquela mulher. Já sabemos que começa aqui um imenso diálogo sobre o dom, em que este pedinte transforma em pedinte a mulher, revelando-se a ela como o verdadeiro dador de água viva, isto é, de vida. Conduzindo sempre o diálogo, como quando diz: «Vai chamar o teu marido e vem aqui» (Jo 4,16), este profundo conhecedor dos corações, como só Deus sabe ser, leva aquela mulher a dizer «Não tenho marido» (Jo 4,17)9 , confissão logo confirmada e explicitada por Jesus, que lhe diz: «Falaste bem: ‘não tenho marido’. Na verdade, tiveste cinco maridos, e o que tens agora não é teu marido» (Jo 4,17-18).
Que experiência será esta de nos sentirmos ditos, adivinhados?10 O leitor atento, mas incauto, contentar-se-á, talvez, com a simples aritmética, mas se fizesse as operações mentais e afectivas reclamadas pelo texto, seria levado a compreender que aquela mulher da Samaria, que agora não tem marido, que já teve cinco, e que o que tem agora, e que é o sexto, não é seu marido… [Teve cinco, o que tem agora e que não é seu marido, é o sexto…] está agora perante o sétimo homem, o noivo definitivo, o Messias suspeitado (Jo 4,25) e confesso: «Sou eu, que falo agora contigo!» (Jo 4,26)11 .
Esta mulher da Samaria, encontrada e conduzida por Jesus, fez o seu percurso. Notável percurso. Veio para tirar água de um poço. Trazia um cântaro. Mas depois de descobrir o dom de Deus que nos precede, a mulher deixou ficar o cântaro antigo e a água antiga e correu à cidade com uma notícia feliz (Jo 4,28).

Sintomaticamente os discípulos de Jesus não assistiram a este imenso diálogo de Jesus com a mulher da Samaria sobre o dom de Deus que nos precede. Logo no princípio, o narrador informa o leitor de que «os seus discípulos tinham ido à cidade comprar mantimentos» (Jo 4,8). E só regressam mesmo no final do diálogo, mas ainda a tempo de se admirarem de ver Jesus a falar com uma mulher (Jo 4,27), e de a verem correr para a cidade, não para comprar o que quer que seja, mas para levar a grande notícia.
Quanto aos discípulos de Jesus, acabados de chegar da cidade e do shopping, o narrador anota criteriosamente que nenhum, de facto, lhe perguntou: «de que falas com ela?» (Jo 6,27). Ficamos, portanto, a saber que estes discípulos nada quiseram saber da boca de Jesus acerca do diálogo com a mulher da Samaria, e que se limitaram a dizer-lhe, porventura com o intuito até de lhe tapar a boca12 : «Rabbi, come» (Jo 4,31), ao que Jesus respondeu: «Tenho, para comer, um alimento que vós não conheceis» (Jo 4,32). Uma vez mais salta à vista do leitor atento que estes discípulos não tenham manifestado o mínimo desejo para tentar saber da boca de Jesus qualquer coisa mais acerca desse alimento desconhecido. Em vez disso, o narrador mostra-nos uns discípulos completamente despistados, que nada perguntam a Jesus nem querem ouvir Jesus falar, se é que não querem mesmo impedi-lo de falar, e que se entretêm a perguntar uns outros: «Porventura, alguém lhe terá trazido alguma coisa de comer?» (Jo 4,33).

O cenário está repleto de boa pedagogia. Jesus desce ao nível da mulher da Samaria: precede-a e espera por ela, vive para ela e por causa dela, foi à Samaria por causa dela, acolhe-a e respeita-a, conhece-a e di-la, ajuda-a a conhecer-se e a dizer-se, pede-lhe e pede-a, ensina-a a pedir e a receber, dá-lhe e dá-se, sugere-lhe novos caminhos, surpreende-a, faz com que mude a vida toda, ensina-a a correr de alegria para a cidade. Não com o saco das compras…
Os discípulos, esses, são muito semelhantes a nós. Saem quando Jesus começa a falar. Estão fora de cena o tempo quase todo. O mundo deles é a cidade e o mercado da cidade. Os verbos que conjugam são comprar e comer. Não dão a Jesus oportunidade de falar. Ouvem-se apenas uns aos outros em circuito fechado. São insensíveis. Como é que Jesus despertará a atenção desta geração consumista, auto-suficiente, despreocupada, indiferente e sem causas?

Cenário II: Jesus, a multidão e os discípulos (Jo 6)

Dois Capítulos à frente (Jo 6), diz-nos o narrador que Jesus subiu à montanha, que se sentou lá com os seus discípulos, e que uma grande multidão acorria a Jesus (Jo 6,3.5). É nessas circunstâncias que Jesus retoma o tema do alimento. Descendo agora ao nível dos discípulos, Jesus diz a Filipe: «Onde (póthen) compraremos (agorázô) pão para que eles comam?» (Jo 6,5). De facto, o verbo «comprar» é corrente nos lábios dos discípulos, mas é estranho na boca de Jesus. No cenário anterior, de Jesus e da Samaritana, os discípulos passam quase o tempo todo a comprar, enquanto Jesus fala de dar e dá-se mesmo.
Na chamada «primeira multiplicação dos pães», que podemos ler nos Evangelhos de Mateus e de Marcos, Jesus recusa mesmo a solução de «comprar» (agorázô), avançada pelos discípulos, e propõe a de «dar» (dídômi) (Mt 14,15-16; Mc 6,36-37)13 . Por que será, então, que Jesus fala agora de «comprar», ainda para mais conjugando o verbo na 1.ª pessoa do plural, Ele incluído: «Onde compraremos»? Mas a questão não é apenas sobre comprar. É sobre «Onde comprar». Esse «Onde» (póthen) já tinha sido usado em Jo 2,9, em que o narrador nos informava de que o chefe-de-mesa «não sabia ‘de onde’ (póthen) era» a água feita vinho. E, mais à frente, em polémica com os fariseus, Jesus afirma: «Eu sei ‘de onde’ (póthen) venho; vós, porém, não sabeis ‘de onde’ (póthen) venho» (Jo 8,14). E na cena da cura do cego de nascença, os fariseus acabam por afirmar acerca de Jesus: «Esse não sabemos ‘de onde’ (póthen) é» (Jo 9,29), ao que o cego curado responde, apontando a cegueira deles : «Isso é espantoso: vós não sabeis ‘de onde’ (póthen) Ele é; e, no entanto, Ele abriu-me os olhos!» (Jo 9,30). E Isabel também exclama: «‘De onde’ (póthen) a mim isto: “Que venha a mãe do meu Senhor ter comigo?”» (Lc 1,43).
Retornando à pergunta feita a Filipe: «Onde comparemos pão para que eles comam?» (Jo 6,5), o narrador anota outra vez com perspicácia que Jesus disse isto para pôr Filipe à prova, pois bem sabia o que havia de fazer (Jo 6,6). Com esta anotação, o narrador deixa-nos declaradamente perante uma pergunta pedagógica, pelo que ficamos à espera de saber se Filipe reúne ou não competência para resolver o problema.
Não temos de esperar muito tempo. Filipe é rápido a fazer contas, e diz logo que duzentos denários14 de pão não chegam para que cada um receba ainda que seja só uma migalhinha (Jo 6,7). O leitor atento, mas incauto, é com certeza levado a concordar com Filipe. Se a pergunta é: «Onde comprar pão», o leitor pensará logo certamente como Filipe no dinheiro e no super-mercado. E será também levado a concluir que, para tanta gente, feitas as contas em termos de mercado, pouco ou nada haverá a fazer. Mas o «leitor implícito» ou «leitor modelo», que a análise narrativa ou narratologia define como aquele que está apto a fazer as operações mentais e afectivas que o mundo do relato dele requer, terá certamente estranhado que Filipe se tenha deixado levar tão depressa pelo verbo «comprar» da pergunta de Jesus15 , dado que se trata de um verbo que Jesus não só não usa, como até recusa.
André, que estava ali ao lado e que também terá ouvido a pergunta, passa a Jesus a informação preciosa de que havia ali um rapazito (paidárion)16 que tinha cinco pães de cevada e dois peixinhos, mas apressou-se logo a minar a utilidade do achado, dada a imensa desproporção entre tão pouco alimento e tanta gente (Jo 6,8-9). Se a lógica de mercado de Filipe o levou – e a nós com ele – a desistir rapidamente de apresentar uma solução positiva à pergunta de Jesus, a lógica de André levou-o – e a nós outra vez também com ele – a desvalorizar os dons que descobrimos nos outros, nomeadamente nos nossos irmãos mais pequeninos.
Parece agora claro para o leitor que a pergunta de Jesus: «Onde compraremos pão para que eles comam?», não obteve de Filipe a resposta adequada, e que a ajuda de André tão-pouco se terá revelado satisfatória.
Filipe ouviu a pergunta de Jesus. E André, pelos vistos, também a ouviu. Mas nem Filipe nem André sabiam que se tratava de uma prova. Só o leitor o sabe, porque foi disso informado pelo narrador. E então a pergunta agora é: e eu e tu, leitores informados, será que sabemos resolver a questão que Filipe e André deixaram sem resposta? Ou será que preferimos prestar toda a nossa atenção ao desempenho de Jesus, dado que também fomos informados de que ele sabia bem o que havia de fazer? A acção de Jesus reclama a nossa atenção.

Soberanamente, Jesus, que bem sabia o que havia de fazer, ordenou àqueles discípulos, com certeza estupefactos, que fizessem reclinar (anapíptô) as pessoas (ánthrôpoi) para comer (Jo 6,10). O verbo usado, anapíptô, implica mesmo dispor-se à mesa para comer17 . O narrador anota agora que «os homens (ándres) eram em número de cerca cinco mil», a que acrescenta a sugestiva anotação de que «havia muita erva (chórtos) naquele lugar» (Jo 6,10). Depois, Jesus, que preside à mesa, RECEBEU (lambánô) os pães, e TENDO DADO GRAÇAS (eucharistéô), DISTRIBUIU-OS (diadídômi) ele mesmo18 aos que estavam reclinados à mesa (anakeiménois), e o mesmo fez com os peixinhos, tanto quanto queriam (Jo 6,11). Ficamos a saber que Jesus recolheu a informação preciosa de André acerca dos pães e dos peixinhos do rapazito, e que, ao contrário de André, não os depreciou. E quando todos foram saciados (eneplêsthêsan)19 , Jesus, que preside à mesa, deu ordens aos seus discípulos para que reunissem (synágô) os pedaços que sobraram (perisseúô). Note-se que o verbo usado para dizer «sobrar» é o verbo perisseúô, que implica o excesso que ultrapassa toda a medida e a abundância que transborda, tornando curtas todas as normas e regras20 . É assim normal que o narrador nos informe de que, com os pedaços que sobraram, os discípulos encheram doze cestos (Jo 6,12-13), símbolo da plenitude transbordante e inesgotável21 .
De notar que, aos olhos atónitos dos discípulos e dos nossos, Jesus não fez uma operação de «multiplicação» dos pães, mas de «divisão» e «com-divisão», «partilha» dos pães! O milagre de Jesus – aquilo que suscita surpresa e maravilha – não consiste em aumentar a quantidade do pão (que permanece a mesma), mas em abrir os olhos aos seus discípulos e a nós que, como cegos, só conhecemos e pensamos na lógica do vender e do comprar, e não chegamos a saborear a lógica da gratuidade, que é a do nosso Pai celeste que faz nascer o sol para os bons e para os maus. Entrar nesta lógica é acreditar na força do dom, e ir por este mundo consumista, partindo o pão e dividindo-o, com a clara consciência de que onde isto acontecer, não só se instaura o necessário para todos («todos comeram e foram saciados»), mas instaura-se igualmente o «excesso», a superabundância da graça («os discípulos encheram doze cestos»)22 .
A multidão, porém, face ao sucedido, não viu o «excesso», a superabundância da graça (Rm 5,20; 1 Tm 1,14), mas tornou-se apenas materialmente dependente de Jesus, procurando-o por toda a parte (Jo 6,24), como se de verdadeira fonte de rendimento se tratasse (velha lógica consumista). E, quando o encontra no «outro lado do mar» (Jo 6,25)23 , é duramente recriminada por Jesus, com estas palavras solenes: «Em verdade, em verdade, vos digo: “vós procurais-me, não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e vos enchestes (chortázô)”» (Jo 6,26)24 . E continua: «Trabalhai, não pelo alimento que perece, mas pelo que permanece até à vida eterna» (Jo 6,27).

Pouco depois, Jesus revelará: «Eu sou o pão da vida» (Jo 6,35.48) e «Eu sou o pão vivo descido do céu» (Jo 6,41.51), e retirará daí um rol de consequências em termos da sua carne e do seu sangue dados para a vida do mundo. Jesus compreende então que os judeus e os seus discípulos murmuravam por causa disso (Jo 6,61), e o narrador informa-nos que muitos deles se afastaram de Jesus (Jo 6,66). É então a hora decisiva de Jesus perguntar aos Doze: «Vós também quereis ir embora?» (Jo 6,67), ao que Simão Pedro responderá exemplarmente: «Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna» (Jo 6,68).

O leitor que seguiu atentamente tudo desde o princípio, desde a primeira pergunta pedagógica de Jesus: «Onde compraremos pão para que eles comam?», e que assistiu ao falhanço das respostas dos discípulos, e que terá, porventura, verificado a sua própria incapacidade para responder, e que prestou depois toda a atenção ao desempenho de Jesus, e que viu entretanto a deserção de judeus e discípulos decepcionados, terá com certeza compreendido a última resposta de Simão Pedro: «Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna», como a verdadeira resposta à primeira pergunta pedagógica de Jesus25 . Com a resposta de Pedro, fica estabelecida a conjunção entre palavra e alimento26 . Mas falta ainda um agrafo que explique aquele estranho verbo «comprar», estranhamente usado por Jesus. É um trabalho de casa que o leitor competente tem de fazer sozinho. E nem é difícil, pois ele sabe que é preciso conhecer as Escrituras. Percorrendo-as, encontrará esta passagem de Isaías:

«1Todos vós que tendes sede, vinde às águas!/ Vós, que não tendes dinheiro, vinde!/ Comprai (agorázô LXX) cereal e comei!/ Comprai cereal sem dinheiro,/ e sem pagar, vinho e leite./ 2(…) Ouvi-me, ouvi-me, e comei o que é bom!» (Is 55,1-2).

Está aqui o elo que faltava: o verbo comprar, significativamente não agrafado com dinheiro27 . Comprar cereal sem dinheiro. Mas esta lição de Isaías reforça ainda a conjunção entre palavra e alimento, com aquela proposta: «Ouvi-me, ouvi-me, e comei!», que soa também a abrir o Livro do grande profeta: «Se vierdes e escutardes, o melhor da terra (tûb ha’arets) comereis» (Is 1,19), clarificada pelo confronto: «Mas se vos recusardes (ma’na) e vos rebelardes (marah), será a espada que vos comerá» (Is 1,20)28 . Mas também sai esclarecida ainda aquela disjunção mostrada por Jesus entre «o alimento que perece» e «o que permanece até à vida eterna» (Jo 6,27). O que perece é a «erva» (ou «feno») (chórtos) que compramos com dinheiro e nos cala a boca e enche (chortázô) o estômago (cf. Jo 6,26). O que permanece é a palavra que Deus diz, e que é por nós ouvida, recebida e respondida. Mas esta disjunção, a que podemos agora acrescentar a sugestiva anotação de que «havia muita erva (chórtos) naquele lugar» (Jo 6,10), pode ainda ser melhor explicitada se lermos outro texto de Isaías:

«6(…) Toda a carne é erva (chórtos),/ e toda a sua graça como a flor do campo./ 8Seca a erva (chórtos) e murcha a flor,/ mas a palavra do Senhor permanece para sempre» (Is 40,6.8).

Os leitores super-competentes, vulgo exegetas, gostam de ver na anotação de que «havia muita erva naquele lugar» a evocação do Sl 23(22),229 :

«2O Senhor é meu pastor, nada me falta:/ num lugar de ‘erva verde’ (tópos chlóês) me faz repousar».

Nem reparam que o vocabulário não é o do Salmo.
O leitor instruído nas Escrituras saberá agora responder à estranha pergunta de Jesus: «Onde compraremos pão para que eles comam?». É claramente em Deus.

Também este cenário transborda de pedagogia. Jesus que, no cenário anterior, desceu ao nível da mulher da Samaria para ganhar a mulher da Samaria, desce agora ao nível dos discípulos para ganhar os discípulos. A iniciativa é sempre de Jesus. Os discípulos tinham ficado na linha do comprar. É aí que Jesus os vai buscar, formulando a pergunta: «Onde compraremos pão, para que eles comam?» Vimos atrás que o verbo «comprar» é estranho na boca de Jesus, mas usual na dos discípulos. Usando agora o verbo «comprar», Jesus desce ao nível dos discípulos. Não, porém, simplesmente para dizer com eles, mas para os levar a dizer com ele. Depois de muitos mal-entendidos e deserções, uma última interpelação de Jesus acaba por lhes dar a oportunidade de se dizerem com Jesus. A multidão é levada pelo interesse meramente material, tornando-se dependente, no mau sentido, de Jesus. É duramente recriminada por Jesus. O leitor encontra, neste cenário, um jogo de muitas surpresas, de muitos olhares. É o que mais tem a ganhar, se verdadeiramente entrar no jogo do relato.

Cenário III: Jesus e os pães em Marcos

Mudamos de cenário. Depois de termos feito um interessante percurso pedagógico pelo Evangelho de João, atravessando nomeadamente o grande Capítulo 6, torna-se agora quase obrigatório entrar também no Evangelho de Marcos, na chamada «secção dos pães» (Mc 6,30-8,21)30 . O assunto continua a ser o pão. O registo de leitura continua a ser o pedagógico.
É sabido que o Evangelho de Marcos menciona o nome «Jesus» por 81 vezes31 . Mas há uma grande mancha de texto, entre 6,30 e 8,27, constituída por 89 versículos – o equivalente a mais de 13 % do texto de Marcos, que é composto por 671 vv. –, em que o nome «Jesus» está ausente32 . Foi mencionado pela última vez a abrir a «primeira multiplicação dos pães», em 6,30, e sê-lo-á de novo apenas a abrir o episódio «no caminho», em 8,27, pórtico da secção central do Evangelho de Marcos, intitulada «O seguimento de Jesus no caminho» (Mc 8,(22)27-10,27)33 . O nome «Jesus» esteve cuidadosamente ausente durante a «secção dos pães», demarcada pelas duas «multiplicações dos pães» (6,30-8,21), e ainda durante a cena da cura do cego de Betsaida Julia (Mc 8,22-26). E enquanto o nome «Jesus» está ausente, o nome «pão» (ártos) emerge no relato com uma frequência inusitada, fazendo-se ouvir por 17 vezes!34
O leitor competente, também dito «leitor implícito» ou «leitor implicado» ou «leitor modelo», de Marcos, que é aquele que é capaz de fazer as operações mentais e afectivas exigidas para se envolver correctamente no mundo do relato para chegar à fé verdadeira, é levado a ler, a ver, «Jesus nos pães». É toda uma secção em que os pães exprimem Jesus35 . Caminho que o «leitor real» deve fazer para se transformar em «leitor implícito».
Este procedimento de fazer emergir o «pão» «escondendo» Jesus, em ordem a levar o leitor a ver e a ler Jesus no pão, revela a técnica pedagógica de Marcos, que escreve o seu Evangelho, provavelmente em Roma (seguindo, traduzindo e escrevendo o Evangelho de Pedro?), nos conturbados anos da guerra judaica (65-75), numa altura em que as comunidades cristãs eram minoritárias e se encontravam diluídas na sociedade imperial romana, cuja xenofobia é proverbial36 . Conhecem, por isso, a perseguição e a repressão, quer por parte dos romanos, que confundem cristãos com judeus, quer por parte dos judeus bem colocados na sociedade romana, que vêem a «seita» da Galileia no seguimento dos zelotas, e a acusam como bode expiatório dos trágicos acontecimentos da guerra judaica. São tempos de resistência e de angústia, em que a traição anda à solta: «Serei ei?» (Mc 14,10-11; 18,21). De resto, os cristãos guardam na memória a morte violenta dos seus dirigentes: Pedro e Paulo em Roma uns dez anos antes, Tiago, filho de Zebedeu, e Tiago, irmão do Senhor, em Jerusalém, respectivamente nos anos 44 e 62.
Num mundo em que ser cristão não era fácil, compreende-se o grau de exigência que Marcos requer do discípulo de Jesus para o seguir «no caminho» até ao fim (Mc 8,27-10,52). Compreende-se também, neste contexto, a técnica narrativa do «segredo», comummente dito messiânico, que atravessa o inteiro relato. Não é que Jesus não queira que se diga e que se saiba quem ele é; o que se pretende é evitar todo o dizer tradicional e convencional, fácil, por ouvir dizer, que não implica a pessoa naquilo que diz. Marcos pretende que o discípulo de Jesus se implique naquilo que diz, descobrindo Jesus e descobrindo-se face a Jesus, dizendo Jesus e dizendo-se face a Jesus, no duro caminho da Galileia até à Cruz37 .
Em boa verdade, só estamos aptos a dizer Jesus, quando nos dizemos face a Jesus. Dizer Jesus é testemunhar toda a novidade de Jesus, o que implica a divinização da sua humanidade no extremo da sua incarnação levada até ao extremo. Dizermo-nos face a Jesus, implica a nossa adesão concreta a essa novidade. É então que nascemos como novos sujeitos de dizer. Dizer Jesus, dizendo-se face a Jesus só pode ser um acontecimento pessoal. Ninguém pode dizer Jesus, por interposto dizer. Daí, o silêncio imposto por Jesus a todos os que falam sem O dizerem e sem se dizerem. Daí, também o não-dizer das mulheres atónitas perante o mundo novo da Ressurreição (16,8). «Na verdade, tinham medo» (ephoboûnto gár) (16,8), comentário certeiro do narrador, que reclama assim o medo da velha Sara (ephobêthê gár) (Gn 18,15 LXX), quando se apercebeu de que tremia toda face à inaudita promessa de maternidade que lhe chegava de Deus! Todos precisamos de tempo para nos dizermos, isto é, para nascermos, face ao imenso impacto da última e decisiva novidade: a Ressurreição38 .
Esconder Jesus, mostrar o pão. Até que o leitor nasça, com espanto e tremor, como novo sujeito de dizer, descobrindo Jesus no pão. A descoberta é de tal modo nova e implicativa, que é mesmo preciso experimentá-la. A técnica do «segredo» impede que alguém venha a saber por interposto dizer, facilmente, só de cor, sem estremecer, sem fazer a experiência de nascer pessoalmente face a Jesus como novo sujeito de dizer39 .
João 6, em que claramente Jesus proclama: «Eu sou o pão vivo que desceu do céu» (Jo 6,41.51), e Marcos 6,30-8,21, em que, através do procedimento de esconder Jesus e mostrar o pão, é o leitor que é desafiado a descobrir Jesus no pão. Se assumimos atrás que os discípulos de Jesus, em João, parecem muito semelhantes à «geração do mercado» de hoje, o mesmo podemos agora dizer comparando as comunidades cristãs de Marcos com as do nosso tempo. Também hoje, as Igrejas voltam a ser minoritárias, diluídas no meio de uma sociedade pagã e indiferente. Por vezes, são mesmo perseguidas até ao sangue, como vimos em El Salvador, no Chile, no Zaire, na Polónia, no Vietname, no Cambodja, na Etiópia, na Algéria, e em muitos outros lugares. E é por isso, com certeza, que Marcos volta hoje a ser muito lido40 . Estranho é que o Evangeliário dominical do Ano Litúrgico B interrompa a proclamação do Evangelho de Marcos no Domingo 16.º, em que se lê Mc 6,30-34, precisamente à entrada da «secção dos pães», para ser retomado no Domingo 22.º, em que se proclama o texto entrecortado de Mc 7,1-8.14-15.21-23. Nos Domingos 17.º a 21.º proclama-se Jo 6!, talvez por parecer uma catequese mais explícita sobre a Eucaristia. Já vimos que Jo 6 é importante, quer pelos conteúdos quer pelo notável envolvimento pedagógico. Mas não pode substituir a «secção dos pães», de Marcos, os seus notáveis conteúdos e a sua peculiar envolvência pedagógica. O leitor de hoje precisa de um e do outro. A impressão que dá – e é pena – é que se optou por Jo 6, por parecer mais claro, quando comparado com a enigmática «secção dos pães» de Marcos!

Cenário IV: comunicar em parábolas

Refere o Evangelho de Marcos que Jesus «não falava senão em parábolas» (Mc 4,34). A comunicação em parábolas é frágil. Não se impõe pela força da autoridade ou do raciocínio. Não tem por função subjugar o ouvinte, mas conceder-lhe a dádiva da liberdade, para que ele possa acolher ou rejeitar aquela palavra frágil. A parábola é a palavra verdadeira. A palavra verdadeira é desejo de outra palavra: dá a palavra e pede a palavra. Tanto pode provocar a maior revolução da nossa vida, como pode passar completamente desapercebida ou ser imediatamente rejeitada41 .
A vocação e missão de Isaías, narrada em Is 6,9-13, é, neste domínio, paradigmática. De falar frágil, Isaías recebe a estranha missão, à primeira vista totalmente votada ao fracasso, de falar para embotar o coração do povo, para lhe tapar os ouvidos e os olhos, para que não veja com os olhos nem oiça com os ouvidos, para que não compreenda, não se converta e não seja curado… Até quando, pergunta Isaías? E YHWH responde: até que as cidades fiquem desertas, as casas vazias, o solo se reduza a um ermo, YHWH remova para longe os seus homens… até que fique só um «resto», um «toco» (matstsebet) que será uma semente santa! Jesus Cristo, o Profeta definitivo, que «não falava senão em parábolas» (Mc 4,34), assumiu sobre si esta missão, aparentemente votada ao fracasso, de Isaías (Mt 13,14-15) e de todos os profetas, desde Abel até Zacarias (Lc 11,50-51; cf. Mt 23,35)42 , todos igualmente maltratados e assassinados.
Finíssima parábola da palavra e do profeta, que reclama, em belíssimas inclusões, dentro do Livro de Isaías o Servo de YHWH, dito «“raiz” (shoresh) que brota “da terra seca” (me’erets tsîyah)» (Is 53,2), o rebento do tronco de Jessé (Is 11,1), o deserto que floresce e se enche de torrentes de água (Is 35; 41,18-20; 43,19-20; 48,21), e fora do Livro de Isaías, mas ainda dentro do Livro, Cristo que nasce verdadeiramento do madeiro seco, como um fruto. Mas, ao contrário do outro fruto da árvore do Génesis (Gn 3,6), não inflama a cobiça, mas cura-a43 . De facto, tal como no aspecto disforme e nas feridas do Servo de YHWH, nós soubemos finalmente ver (Is 52,14-15) as nossas transgressões (Is 53,4.6.8.11.12) e a nossa cura (Is 53,5)44 , assim também vendo agora o «espectáculo» (theôría) (Lc 23,48) de Cristo, «exposto por escrito (proegráphê), crucificado (estaurôménos) diante dos (nossos) olhos (kat’ ophthalmoús)» (Gl 3,1)45 , «Escritura» que concentra e interpreta em si toda a «Escritura»46 , nós regressamos batendo no peito (Lc 23,48; cf. Ap 1,7), curados pelas suas feridas (1 Pe 2,24).
A Cruz é uma parábola para os olhos. Ela expõe o espectáculo do nosso pecado, da nossa cobiça, da nossa inveja e da nossa malvadez (quem crucificou aquele inocente?), mas também e sobretudo o espectáculo do perdão de Deus47 . Jesus tinha, de facto, dito: «Quando eu for levantado (hypsóô) da terra, atrairei (hélkô) todos a mim» (Jo 12,32). E já antes tinha associado o seu «levantamento» com o da cobra no deserto: «Como Moisés levantou (hypsóô) a cobra no deserto (Nm 21,8-9), assim é necessário (deî) que seja levantado (hypsóô) o Filho do Homem» (Jo 3,14). Através desta associação, o corpo de Jesus sobre a Cruz é interpretado como o corpo da cobra (nu como o dele) fixado num poste. A cobra que se dissimula e esconde é imagem adequada do pecado. A exibição («elevação») daquilo que estava dissimulado retira-lhe a sua nocividade: é assim que se processa a cura. Também o Servo de YHWH será «elevado» (hypsóô) por Deus (Is 52,13). A sobreposição da cobra e do Servo e do Filho mostra-os como imagens do pecado. Sobre o Filho, ver ainda Rm 8,3 (enviado numa «carne semelhante à do pecado»); Gl 3,13 («feito maldição» por nós); 2 Cor 5,21 («fê-lo pecado por causa de nós»)48 .
O narrador do Quarto Evangelho, aquando da «exposição» de Cristo na Cruz, cita a Escritura, que diz: «Hão-de ver (ideîn) aquele que trespassaram» (Jo 19,37; cf. Zc 12,10)! É sabido que, no Quarto Evangelho, este verbo ver (ideîn), donde deriva identidade, implica um ver para além das aparências para alcançar o íntimo de uma coisa ou de alguém, a sua identidade49 . A Cruz, que é sabedoria (sophía) de Deus (1 Cor 1,18-25), faz ver que a malvadez existe, e que é preciso vê-la, descobri-la, reconhecê-la, denunciá-la, para dela sermos curados. A Cruz faz ver ainda que Deus ama com um amor tão radicalmente subversivo que oferece o perdão à nossa malvadez, quebrando assim a espiral da nossa violência, em que à violência apenas tínhamos para oferecer mais violência. A Cruz é um espectáculo que converte50 .
Na sua poderosa impotência, o Crucificado é a parábola que faz ver (ideîn) até perder de vista, até onde a vista não alcança, bem dentro de nós, a crueza da nossa malvadez, e n’Ele, em Deus, a força subversiva e nova do amor e do perdão.
A parábola é frágil. Não é impositiva. Não arromba portas. Bate à nossa porta, para que possamos abri-la por dentro.

António Couto

NOTAS
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1 B. MAGGIONI, Le parabole evangeliche, Milão, Vita e Pensiero, 1992, p. 13 e 250.
2 É este o discurso inteligente de Bruno Maggioni sobre as parábolas. B. MAGGIONI, Le parabole evangeliche, p. 8-9; B. MAGGIONI, Era veramente uomo. Rivisitando la figura di Gesù nei Vangeli, Milão, Àncora, 2001, p. 7.
3 R. VIGNOLO, Personaggi del Quarto Vangelo. Figure della fede in San Giovanni, Milão, Glossa, p. 145.
4 M. ORSATTI, Giovanni: il vangelo “ad alta definizione”, Milão, Àncora, 1999, p. 69.
5 X. LÉON-DUFOUR, Lectura del Evangelio de Juan (Jn 1-4), I, Salamanca, Sígueme, 2.ª ed., 1993, p. 270-271; R. VIGNOLO, Personaggi del Quarto Vangelo, p. 131.
6 A. MARCHADOUR, Les personnages dans l’évangile de Jean. Miroir pour une christologie narrative, «Lire la Bible» 139, Paris, Cerf, 2005, p. 78.
7 J. L. SKA, Jésus et la Samaritaine (Jn 4). Utilité de l’Ancien Testament, in Nouvelle Revue Théologique, 118, 1996, p. 642-643 [= J. L. SKA, La strada e la casa. Itinerari biblici, Bolonha, EDB, 2001, p. 197].
8 Se a mulher da Samaria vem buscar água à «hora sexta», ficamos perante um cenário completamente fora do comum. A essa hora ninguém vai buscar água. Gn 24,11 precisa que o servo de Abraão chegou ao poço «à tardinha (le‘et ‘ereb), à hora em que as mulheres saem para tirar água do poço». J. L SKA, Jésus et la Samaritaine (Jo 4), p. 643-644 [= J. L. SKA, La strada e la casa, p. 198].
9 É usual no narrador do IV Evangelho assinalar situações negativas, para depois operarando uma «peripécia», as transformar em excessivamente positivas: é o caso da anotação de Maria em Caná: «Não têm vinho» (Jo 2,3). Terão vinho em excesso. É o caso do doente que não é curado porque não tem ninguém que o lance à água (Jo 5,7). Terá cura em excesso. É o caso dos discípulos que à pergunta de Jesus: «Tendes alguma coisa de comer?», respondem: «Não» (Jo 21,5). Terão comida em excesso. Assim também a mulher da Samaria que diz: «Não tenho marido», encontrará o noivo definitivo.
10 Somos conhecidos antes de nos conhecermos (1 Cor 13,12; Gl 4,9); somos ditos antes de nos dizermos. Aquele que ajusta completamente o seu dizer ao dizer de Deus é o «justo» (tsadîq) segundo a Escritura. G. CAPPELLETTO, In cammino con Israele. Introduzione all’Antico Testamento – 1, Pádua, Messaggero, 1997, p. 147. Ver esta técnica da «antecipação» ou «adivinhação» também em Jo 1,45-49 («Eis um verdadeiro israelita. – Donde me conheces?» e Jo 20,15 («Mulher, porque choras? A quem procuras?».
11 M. GIRARD, Jésus en Samarie (Jean 4,1-42). Analyse des structures stylistiques et du processus de symbolisation, in Église et Théologie, 17, 1986, p. 275-310, esp. p. 302-304; J. L. SKA, Jésus et la Samaritaine (Jn 4), p. 646 [= J. L. SKA, La strada e la casa, p. 201].
12 Para falar, é preciso libertar a boca. A. WÉNIN, Pas seulement de pain… Violence et Alliance dans la Bible, Paris, Cerf, 1998, p. 92.
13 X. LÉON-DUFOUR, Lectura del Evangelio de Juan (Jn 5-12), II, Salamanca, Sígueme, 2.ª ed., 1995, p.85.
14 Um denário corresponde ao salário de um dia. Duzentos denários ultrapassa o salário de seis meses. J. MATEOS, J. BARRETO, Il Vangelo di Giovanni. Analisi linguistica e commento esegetico, Assis, Cittadella, 5.ª ed., 1995, p. 291.
15 X. LÉON-DUFOUR, Lectura del Evangelio de Juan (Jn 5-12), II, p. 85-86.
16 Diminuitivo de paîs.
17 X. LÉON-DUFOUR, Lectura del Evangelio de Juan (Jn 5-12), II, p. 87; Y. SIMOENS, Secondo Giovanni. Una traduzione e un’interpretazione, Bolonha, Dehoniane, 2000, p. 317.
18 Note-se o cunho muito pessoal do presidente desta mesa, que distribui pessoalmente a comida. Nos Sinópticos (Mt 14,19; Mc 6,41; Lc 9,16), são os discípulos que procedem à distribuição. X. LÉON-DUFOUR, Lectura del Evangelio de Juan (Jn 5-12), II, p. 88-89.
19 Aoristo passivo de empímplêmi.
20 Th. BRANDT, Plenitud, sobreabundancia, in L. COENEN, E. BEYREUTHER, H. BIETENHARD (eds.), Diccionario Teologico del Nuevo Testamento, III, Salamanca, Sígueme, 1983, p. 367-370.
21 X. LÉON-DUFOUR, Lectura del Evangelio de Juan (Jn 5-12), II, p. 89-90.
22 Ver a inteligente reflexão de C. DI SANTE, Eucaristia. L’amore estremo, Villa Verucchio, Pazzini, 2005, p. 110-112.
23 Expressão recorrente no texto (vv.1.17.22.25). Atravessar para a outra margem é sinal de vida nova.
24 Termo depreciativo formado de chórtos [= erva, feno] (1 Cor 3,12). M. ZERWICK, M. GROSVENOR, A grammatical analysis of the greek New Testament, Roma, Biblical Institute Press, 1981, p. 304; X. LÉON-DUFOUR, Lectura del Evangelio de Juan (Jn 5-12), II, p. 105.
25 X. LÉON-DUFOUR, Lectura del Evangelio de Juan (Jn 5-12), II, p. 86.
26 A. WÉNIN, Pas seulement de pain…, p. 236-237.
27 X. LÉON-DUFOUR, Lectura del Evangelio de Juan (Jn 5-12), II, p. 86.
28 A. WÉNIN, Pas seulement de pain…, p. 234.
29 F. J. MOLONEY, The Gospel of John, Collegeville, Minnesota, The Liturgical Press, 1998, p. 198.
30 Este título de «secção dos pães» deriva do emprego da palavra «pão», que une entre si diferentes episódios: primeira «multiplicação» dos pães (6,30-34); discussão sobre as tradições dos fariseus (7,1-23); cura da filha da mulher siro-fenícia (7,24-30); segunda «multiplicação» dos pães (8,1-10); discussão sobre o fermento dos fariseus (8,14s.). B. STANDAERT, L’Évangile selon Marc. Commentaire, Paris, Cerf, 2.ª edição revista e aumentada, 1997, p. 87-91; Y. SIMOENS, L’onction eucharistique et la cène nuptiale selon Mc 14,1-31, in P. BOVATI, R. MEYNET (eds.), Ouvrir les Écritures. Mélanges offerts à Paul Beauchamp à l’occasion de ses soixante-dix ans, Paris, Cerf, 1995, p. 247-248.254-255; J.-Fr. BAUDOZ, Le repas du Seigneur d’après la section des pain en Marc (Mc 6,6b-8,30), in M. QUESNEL, Y.-M. BLANCHARD, Cl. TASSIN (eds.), Nourriture et repas dans les milieux juifs et chrétiens de l’antiquité. Mélanges offerts au Professeur Charles Perrot, Paris, Cerf, 1999, p. 91-106; A. SACCHI, «Lascia prima che si sazino I figli…» (Mc 7,27a). Gesù e i gentili nel Vangelo di Marco, in R. FABRIS (ed.), La Parola di Dio cresceva (At 12,24). Scritti in onore di Carlo Maria Martini nel suo 70º compleanno, Bolonha, Dehoniane, 1998, p. 137-154; Cl. TASSIN, “Pour vous, qui suis-je?” (Mc 8,29): Stratégies marciennes de la révélation de Jésus, in Studia Missionalia, 50, 2001, p. 6, e nota 13. Como se vê, a demarcação da secção é que pode ser objecto de pequenas divergências. Sacchi refere 6,30-8,26) (p. 138.150-152).
31 Contra 150 vezes (Mateus), 89 vezes (Lucas) e 237 vezes (João). R. VIGNOLO, Personaggi del Quarto Vangelo, p. 131, nota 206.
32 G. CLAUDEL, La Confession de Pierre. Trajectoire d’une péricope évangélique, Paris, Gabalda, 1988, p. 98.170.230; Y. SIMOENS, L’onction eucharistique et la cène nuptiale selon Mc 14,1-31, p. 247-248; J.-Fr. BAUDOZ, Le repas du Seigneur d’après la section des pain en Marc (Mc 6,6b-8,30), p. 93.
33 O tema do «caminho» (hodós) estrutura verdadeiramente toda esta Parte central do Evangelho de Marcos, fazendo a sua aparição em lugares estratégicos: Mc 8,27; 9,33-34; 10,17.32.46.52. B. STANDAERT, L’Évangile selon Marc, p. 102; B. VAN IERSEL, Marco. La lettura e la risposta. Un commento, Brescia, Queriniana, 2000, p. 68-75; G. SEGALLA, Redacción y teología de los evangelios sinópticos, in R. FABRIS (ed.), Problemas y perspectivas de las ciencias biblicas, Salamanca, Sígueme, 1983, p. 323-324.
34 B. STANDAERT, L’Évangile de Marc, p. 87; J.-Fr. BAUDOZ, Le repas du Seigneur d’après la section des pain en Marc (Mc 6,6b-8,30), p. 95. Os passos são os seguintes: Mc 6,37.38.41[2x].43.52; 7,2.5.27; 8,4.5.6.14[2x].16.17.19. Ainda poderíamos acrescentar as 4 menções dos «pedaços» de pão (klásmata) (6,43; 8,8.19.20), bem como a menção das «migalhas» (psichíon) (7,28).
35 Y. SIMOENS, L’onction eucharistique et la cène nuptiale selon Mc 14,1-31, p. 247-248.
36 B. STANDAERT, L’évangile selon Marc, p. 17-19.
37 J. DELORME, Prises de parole et parler vrai dans un récit de Marc (1,21-28), in P. BOVATI, R. MEYNET (eds.), Ouvrir les Écritures, p. 179-199, esp. p. 192-199.
38 G. O’COLLINS, The Fearful Silence of Three Women (Mark 16,8c), in Gregorianum, 69, 1988, p. 502-503; R. H. LIGHTFOOT, The Gospel Message of Mark, Oxford, Oxford University Press, 1950, p. 88-91; G. P. PERON, Seguitemi! Vi farò diventare pescatori di uomini (Mc 1,17). Gli imperativi ed esortativi di Gesù ai discepoli come elementi di un loro cammino formativo, Roma, LAS, 2000, p. 249-250; R. VIGNOLO, Una finale reticente: interpretazione narrativa di Mc 16,8, in Rivista Biblica, 38, 1990, p. 156.
39 A. COUTO, Como uma dádiva. Caminhos de antropologia bíblica, Lisboa, Universidade Católica Editora, 2002, p. 205-213.
40 B. STANDAERT, L’Évangile selon Marc, p. 22.
41 A verdadeira palavra e o verdadeiro dizer não carregam uma evidência que esmaga ou subjuga o ouvinte. Antes, no seu aspecto frágil e aberto, solicitam a inteligência e a implicação do ouvinte, pedindo-lhe uma resposta que não seja uma imposição, mas um acolhimento livre, verdadeiramente humano. B. MAGGIONI, Parabole evangeliche, p. 8-9; B. MAGGIONI, Era veramente uomo, p. 7.
42 Lucas inclui explicitamente Abel entre os profetas. Assim, temos o primeiro e o último assassínios de profetas relatados na Bíblia hebraica, respectivamente Gn 4,8 e 2 Cr 24,20-22, dado que o Livro do Génesis abre o cânon da Bíblia hebraica e o 2 Livro das Crónicas fecha-o.
43 P. BEAUCHAMP, L’Un et l’Autre Testament. II. Accomplir les Écritures, Paris, Seuil, 1990, p. 156.
44 P. BEAUCHAMP, D’Une montagne à l’autre, La loi de Dieu, Paris, Seuil, 1999, p. 230-231.
45 P. BEAUCHAMP, Le récit, la lettre et le corps. Essais bibliques, Paris, Cerf, nova edição aumentada, 1992, p. 87.
46 P. BEAUCHAMP, Jésus Christ n’est pas seul. L’accomplissement des Écritures dans la Croix, in Recherches de Science Religieuse, 65, 1977, p. 259-262; Ch. REYNIER, Le langage de la croix dans le corpus paulinien, in J. SCHLOSSER (ed.), Paul de Tarse. Congrès de l’ACFEB (Strasbourg, 1995), Paris, Cerf, 1996, p. 361-373.
47 P. BEAUCHAMP, La loi de Dieu, p. 230-245; B. MAGGIONI, Era veramente uomo, p. 158-167.
48 P. BEAUCHAMP, La loi de Dieu, p. 230-232.
49 B. MAGGIONI, Era veramente uomo, p. 151.
50 B. MAGGIONI, Era veramente uomo, p. 159-160.

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