Deus fala em nós


1. Refere acertadamente a Constituição Dogmática Dei Verbum que, «para escrever os livros sagrados, Deus escolheu e serviu-se de homens na posse das suas faculdades e capacidades, para que, agindo neles e por eles, pusessem por escrito, como verdadeiros autores, tudo aquilo e só aquilo que Ele queria» (n.º 11).
Este expressivo modo de dizer remete-nos para a finíssima lição do Prólogo da Carta aos Hebreus, onde lemos:

«1Muitas vezes e de muitos modos, antigamente, falou Deus aos pais nos profetas (en toîs prophêtais); 2nestes dias que são os últimos, falou-nos em um Filho (en hyiô)» (Hb 1,1-2).

Finíssimo dizer confirmado um pouco mais à frente, no Capítulo Quarto da mesma Carta aos Hebreus, onde lemos:

«7Tornou Deus a fixar outro dia, um hoje, quando há muito disse em David (en David), como acima dissemos: “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações”» (Hb 4,7; cf. Sl 95,7-8).

Falou Deus aos pais nos profetas. Falou-nos em um Filho. Disse em David. A finíssima, e, talvez por isso, não recebida lição da Dei Verbum e da Carta aos Hebreus ensina-nos então que Deus fala por Moisés, David, Jeremias ou Paulo, mas fala-nos ainda mais em Moisés, David, Jeremias ou Paulo. Quer isto dizer que Moisés, David, Jeremias ou Paulo são obra viva de Deus antes que o sejam os seus escritos ou as suas cartas. Sem equívocos: a intimidade de Deus com os autores bíblicos precede o escrito. É o escrito, o livro ou as cartas, que brota dessa intimidade. Entenda-se: Deus não fala ao homem do cimo de uma montanha ou do alto de uma muralha vertical e inacessível. Não é esta a autoridade das Escrituras.

2. Note-se que a locução “falar em” não é habitual em português. Mas tão-pouco o é em grego ou em hebraico. Em grego como em hebraico, diz-se habitualmente que Deus falou “através de” ou “por intermédio de” (diá em grego; beyad em hebraico). Falar em, e não só através de, leva-nos para o terreno da intimidade e da graça e da liberdade. Da Sabedoria. As palavras não são teoremas. A palavra dirige-se a alguém. O teorema não se dirige a ninguém. Há quem queira as coisas tão seguras, que preferiria que a Palavra de Deus fosse expressa em algarismos! Mas, na Bíblia, toda a palavra do céu que nos atinge passa pela terra, por um ponto concreto no espaço e no tempo. Não basta que nos interessemos com aquilo que é dito; é preciso sobretudo prestar atenção a quem diz.

3. Dizer é, portanto, sobretudo dizer com a vida. E o missionário é aquele que aprende a ouvir a voz de Deus, deixando que ela se imprima, não só no papel, mas na sua vida. Só assim a pode exprimir, exprimindo-se, até à dádiva da vida.

4. Estamos a celebrar 75 anos de vida missionária. É a hora de tomarmos consciência de que o missionário é aquele que dá a vida por amor até ao fim. Todos os dias. Sendo todos os dias testemunha viva d’Ele. E dentro destes parâmetros altos, esta é a hora de lembrarmos os nossos cinco companheiros que por amor deram toda a sua vida, escrevendo, com certeza, as páginas mais belas da nossa Sociedade Missionária: P. MANUEL ARMINDO DE LIMA, morto em Angola, em 3 de Fevereiro de 1982; P. ALÍRIO BAPTISTA, morto em Moçambique, em 20 de Novembro de 1983; Ir. ARTUR AUGUSTO PAREDES, morto em Angola, em 6 de Janeiro de 1985; P. ANTÓNIO DA ROCHA, morto em Moçambique, em 17 de Janeiro de 1989; P. MANUEL JOAQUIM CRISTÓVÃO, morto em Moçambique, em 21 de Janeiro de 1991.

5. Ensina-nos, Senhor, neste ano de graça, a viver por amor todos os dias. Até ao fim.

António Couto

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