Entrelaçados na missão d’Ele


1. Na tarde daquele primeiro dia da semana, o Ressuscitado convoca-nos para a missão nova e frágil da paz e do perdão e do sopro criador:

«21Disse-lhes então Jesus outra vez: “A paz convosco! Como me enviou (apéstalken) o Pai, também Eu vos envio (pémpô)”» (Jo 20,21). 22E tendo dito isto, soprou (enephýsêsen) e diz-lhes: “Recebei o Espírito Santo. 23Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, serão retidos”» (Jo 20,21-23).

Como em muitas outras passagens, o uso do verbo apostéllô (enviar) acentua o papel do “enviado”, que é Jesus, do mesmo modo que o uso do verbo pémpô (também enviar) sublinha o papel do “enviante”, que, neste caso, continua a ser Jesus. Por outro lado ainda, o envio de Jesus apresenta-se no perfeito grego, pelo que a sua missão começou e continua. Não terminou. Ele continua em missão. A nossa missão está no presente. O presente da nossa missão aparece, portanto, agrafado à missão de Jesus, e não faz sentido sem ela e sem Ele: «Como me enviou o Pai, também eu vos envio». Nós implicados e imbricados n’Ele e na missão d’Ele, sabendo nós que Ele está connosco todos os dias (cf. Mt 28,20).

2. Assim a missão nova e frágil da paz e do perdão e do sopro criador foi-se espalhando pelas diferentes parcelas do mundo. É a primeira etapa da missão. Durante a Idade Média, pensou-se mesmo que o Evangelho já tinha chegado ao mundo inteiro, e que o mundo inteiro era cristão. Mas as grandes descobertas dos séculos XV e XVI vieram mostrar a existência de um vasto mundo que ainda não conhecia o Evangelho. Deu-se então início à segunda etapa da missão. E então as grandes Ordens Religiosas (Jesuítas, Dominicanos, Franciscanos) começaram a partir da Europa (“território de cristandade”) para os territórios não evangelizados (“territórios de missão”). Este esforço de missionação recebeu um novo impulso nos séculos XIX e XX com o contributo de Institutos especializados (Padres Brancos, Combonianos, Espiritanos, Oblatos de Maria Imaculada, Sociedades Missionárias de Vida Apostólica, entre as quais está a nossa Sociedade Missionária da Boa Nova). Este imenso esforço de missionação tinha o seu centro de organização e orientação em Roma, onde, em 1572, foi criada a Comissão Pontifícia “De Propaganda Fide”, convertida em Congregação “De Propaganda Fide” em 1622. Será transformada em Congregação para a Evangelização dos Povos em 1967.

3. Com o Concílio Vaticano II abre-se a terceira etapa da missão. O Decreto “Ad Gentes” (AG), de 7 de Dezembro de 1965, afirma logo a abrir que “A Igreja é por sua natureza missionária” (n.º 1), e convoca a Igreja inteira para a tarefa missionária. Este aspecto será desenvolvido e acentuado por documentos posteriores, como a Exortação Apostólica “Evangelii Nuntiandi” (EN), de 8 de Dezembro de 1975, de Paulo VI, o Documento “Diálogo e Missão” (DM), de 10 de Junho de 1984, do Secretariado para os não-cristãos, a Carta Apostólica “Redemptoris Missio” (RM), de 7 de Dezembro de 1990, de João Paulo II, a Instrução “Diálogo e Anúncio” (DA), de 19 de Maio de 1991, do Pontifício Conselho para o Diálogo inter-Religioso e da Congregação para a Evangelização dos Povos. Todos estes Documentos insistem em que a missão é tarefa da Igreja toda e de cada uma das Igrejas, que a missão diz respeito a todos os cristãos, a todas as dioceses e paróquias, instituições e associações eclesiais, aos bispos, aos prebíteros, aos religiosos e aos fiéis leigos. Para esta terceira etapa da missão, todos, mesmo todos, estamos convocados. E todos não somos demais. Em 1965, o Concíclio calculava em 2000 milhões o número de não-cristãos (AG, 10). Vinte e cinco anos depois, em 1990, João Paulo II refere que este número quase duplicou (RM, 3). A missiografia actual diz-nos hoje que esse número já ultrapassa os 4000 milhões.

4. Nenhum de nós, que se diz discípulo de Jesus Cristo, pode ficar descansado e de braços cruzados. A missão sempre nova e frágil da paz e do perdão e do sopro criador diz-nos respeito a todos. É para isso que o Senhor está connosco todos os dias.

António Couto

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