JESUS, SANTUÁRIO DE DEUS PARA O HOMEM


Esta XXX Semana Bíblica Nacional tem como pano de fundo o tema genérico «O SANTUÁRIO, ESPAÇO DE EVANGELIZAÇÃO». Dentro desse horizonte, o dia de hoje é presidido pelo grande texto do Evangelho de João «E O VERBO FEZ-SE CARNE (Kaì ho lógos sàrx egéneto) E HABITOU (eskênôsen: aor. de skênóô / shakan) ENTRE NÓS (en hêmîn), e nós VIMOS (etheasámetha: aor. de theáomai) a sua GLÓRIA (tên dóxan autoû)» (Jo 1,14), que todos os comentaristas lêem no seguimento-cumprimento da comunicação de Deus a Moisés no Sinai: «Farão para mim um SANTUÁRIO (miqdash) e EU HABITAREI (shakan) no MEIO DELES (betôkam)» (Ex 25,8), e do discurso da Sabedoria: «Aquele que me criou fez repousar a minha HABITAÇÃO (tèn skênên mou), / e disse: “em Jacob instala a tua HABITAÇÃO (kataskênóô)”» (Ecli 24,8)[1].É neste trânsito bíblico, orientado para o terminal da grande praça joanina, que insiro a comunicação que me foi pedida, e que tem por título «JESUS, SANTUÁRIO DE DEUS PARA O HOMEM». Basta pôr lado a lado os títulos acabados de referir, e que parecem colidir uns com os outros: «SANTUÁRIO, ESPAÇO DE EVANGELIZAÇÃO», e «JESUS, SANTUÁRIO DE DEUS PARA O HOMEM», Santuário-espaço e Santuário-pessoa, para se concluir que não é fácil circular no meio deste trânsito.

I. Do SANTUÁRIO-ESPAÇO para o SANTUÁRIO-PESSOA

O tema que me é pedido situa-se no estuário do trânsito bíblico e coloca diante de nós JESUS COMO O SANTUÁRIO, portanto, o Santuário-pessoa. Analisarei, neste âmbito, sobretudo dois textos joaninos significativos: Jo 2,13-22 e Jo 4,19-24. Textos de Lucas, Marcos, Isaías, Amós e outros serão também objecto de estudo, ou, por vezes, somente de uma simples evocação. No final, intentarei formular alguns desafios que a temática nova do JESUS-SANTUÁRIO lança à temática do SANTUÁRIO-ESPAÇO.Antes mesmo de entrar pelos textos referidos, lembro aqui que, na versão massorética (TM), o Salmo 150 abre com «Alleluia! Louvai Deus no seu Santuário (beqodshô)» (Sl 150,1), a que a tradução grega (LXX), seguida pela Vulgata (Vg), aporta uma notável actualização: «Alleluia! Louvai Deus nos seus santos (en toîs hagíois autoû / in sanctis eius)»[2]. Trânsito do SANTUÁRIO-ESPAÇO para o SANTUÁRIO-PESSOA.

1.1. Jo 2,13-22 ou o novo SANTUÁRIO que é JESUS

Escutemos atentamente o texto de Jo 2,13-22:

«2,13E estava próxima a Páscoa dos judeus, e JESUS subiu a Jerusalém. 14E ENCONTROU (heûren: aor2 de heurískô) no TEMPLO (hierón) os vendedores (pôloûntas: part. de pôléô) de bois e ovelhas e pombas, e os cambistas sentados. 15E, tendo feito um chicote de cordas, expulsou todos do TEMPLO (hierón), as ovelhas e os bois, bem como os cambistas, espalhou as moedas, derrubou as mesas, 16e disse aos que vendiam as pombas: “Tirai isto daqui! Não façais da CASA DO MEU PAI (oíkos toû patrós mou) CASA de COMÉRCIO (oíkos emporíou)”. 17Recordaram-se os discípulos d’ELE que está escrito: “O zelo da tua CASA (toû oíkou sou) me devorará”. 18Responderam então os judeus e disseram-LHE: “Que sinal nos mostras de que podes fazer estas coisas?” 19Respondeu JESUS e disse-lhes: “Destruí este SANTUÁRIO (naós), e em três dias o levantarei (egeírô)”. 20Disseram então os judeus: “Em quarenta e seis anos foi edificado este SANTUÁRIO (naós), e tu em três dias o levantarás (egeírô)?” 21Isto, porém, dizia do SANTUÁRIO do seu corpo (toû naoû toû sômatos autoû). 22Quando, pois, foi ressuscitado dos mortos (êgérthê), recordaram-se os discípulos d’ELE que tinha dito isto, e acreditaram na Escritura e na palavra que JESUS tinha dito» (Jo 2,13-22).

Algumas observações:

1) O episódio aparece situado e datado. O lugar é Jerusalém e o seu Templo. O tempo é a Festa da Páscoa. Ora, uma FESTA é, na tradição bíblica, um ENCONTRO marcado (mô‘ed) , plural mô‘adîm, de ya‘ad [= marcar um encontro]. Um ENCONTRO marcado com Deus e com os outros[3]. Sendo um ENCONTRO marcado com Deus e com os outros, então é sempre um espaço de alegria, de filialidade e de fraternidade. E se a FESTA é de peregrinação, como é a PÁSCOA, aqui referida [as outras duas são as SEMANAS ou PENTECOSTES e as TENDAS], então a alegria, a filialidade e a fraternidade são ainda mais intensas, dado que FESTA de peregrinação se diz, na língua hebraica, hag, plural hagîm. E hag deriva de hûg, que significa círculo, e, portanto, família, lareira, encontro, alegria, música, roda, dança, vida[4].ENCONTRO marcado com Deus, espaço de alegria, filialidade, fraternidade.

2) ENCONTRO, filialidade, fraternidade: marcas acentuadas por JESUS que, em vez de Templo de pedra (hierón), diz CASA (oíkos) – com particular afecto, CASA DO MEU PAI[5] –, sendo a CASA paterna o lugar do ENCONTRO e da intimidade, e não das coisas, da superficialidade, da banalidade, do consumismo, do mercado. Nos paralelos de Mateus, Marcos e Lucas, citando Is 56,7, JESUS fala do Templo usando a expressão forte «A MINHA CASA» (ho oîkós mou) (Mt 21,13; Mc 11,17; Lc 19,46).

É neste sentido que o Livro dos Actos nos mostra a comunidade-mãe de Jerusalém a frequentar assiduamente o Templo, salientando, no entanto, que a sua maneira de prestar culto a Deus acontecia nas CASAS. Do Templo para as CASAS (Act 2,46). Não se trata de uma simples mudança de lugar, mas de uma diferente concepção do espaço: não se trata de um espaço local, mas relacional. O novo espaço cultual é a comunidade que vive fraternalmente. A extensão deste espaço chama-se comunhão[6].

3) Sintomático é que, postos estes pressupostos, o texto refira, não que JESUS ENCONTROU filhos e irmãos, mas que ENCONTROU vendedores e comerciantes, contra a profecia de Zc 14,21, que refere que «Não haverá mais vendedor na CASA de YHWH dos exércitos naquele dia». «A CASA DO MEU PAI», «A MINHA CASA», e o MERCADO são lugares incompatíveis. São maneiras diferentes de ocupar o espaço.

Encaixa aqui à maravilha a crítica de Amós, num dos seus mais refinados ataques contra o vazio religioso de Israel. Diz Amós:

«2,7Um homem e o seu pai vão à (halak ’el) JOVEM (na‘arah), de modo a profanar (lema‘an hallel) o meu NOME SANTO» (Am 2,7).

O sintagma «vão à jovem» tem sido normalmente compreendido como indicação de relações sexuais. Nesse sentido, há quem veja neste sintagma uma alusão ao incesto, condenado em Lv 20,11-12, ou ainda o abuso cometido contra uma jovem escrava reduzida à função de prostituta doméstica (cf. Ex 20,7-11)[7]. Todavia, o verbo halak construído com a preposição ’el nunca é utilizado para falar de relações sexuais, e é empregado muitas vezes para indicar uma PEREGRINAÇÃO (cf. Gn 22,3.5.6.8; Ex 3,18; 5,3; 8,23; Dt 26,2; 1 Rs 2,3.5; Is 2,3.5; Jr 3,6; Qo 4,17)[8]. Por outro lado, na bíblia hebraica, o termo na‘arah designa habitualmente uma jovem, e não uma prostituta (zônah), nem uma prostituta sagrada (qedeshah).

Talvez tenhamos aqui uma indicação irónica: um homem e o seu pai, em vez de irem ao Templo para rezar a DEUS, vão ver a JOVEM, como sucede ainda hoje nas igrejas! Então, o que leva ao Templo já não é DEUS, mas a JOVEM! Perversão, não tanto sexual, mas cultual, total, perversão de sentido[9]. Não admira que, neste contexto, apareça Deus a dizer que o seu NOME SANTO é profanado (hillel).

4) No texto que estamos a analisar, o Templo é dito com três vocábulos diferentes – hierón, oíkos e naós – com significações diferentes: edifício de pedra, casa familiar, santuário (ou lugar da presença de Deus).

5) Quando, num dos típicos «mal-entendidos» do IV Evangelho, JESUS diz: «Destruí este SANTUÁRIO (naós), e em três dias o levantarei (egeírô)» (v. 19), os judeus não conseguem distinguir entre o naós pessoal que JESUS levantará em três dias e o hierón feito de pedra que demorou 46 anos a construir (v. 20)[10]. Em claro contraponto, o narrador explica bem, num genitivo epexegético[11], que JESUS «dizia isto do SANTUÁRIO do seu corpo» (toû naoû toû sômatos autoû) (v. 21). Entenda-se: do SANTUÁRIO que é o seu corpo. Com esta explicação do narrador, fica claro que é JESUS o «lugar» da adoração de Deus, a verdadeira «Casa de Deus» (cf. Jo 1,51)[12], o SANTUÁRIO de Deus, como diz o título desta comunicação.

A anotação do narrador, no v. 22, faz-nos ver ainda que foi também assim que entenderam os discípulos a partir da Ressurreição de Jesus. Lição para os leitores: num tempo em que já não há Templo em Jerusalém, os leitores crentes do IV Evangelho experimentam a PRESENÇA de JESUS Ressuscitado como o seu verdadeiro «Templo»[13].

Marcos, no seu estilo intenso e conciso, acentua muito bem esta novidade. A narrativa da Paixão e Morte de JESUS a que nos faz assistir nos Capítulos 14 e 15 impõe-se pela sua grandeza (119 vv. sobre um total de 677 vv.), quase um quinto do Evangelho, para cobrir um período de apenas 24 horas[14]. Frequentando atentamente a narrativa, impõe-se cada vez mais que os principais momentos deste processo correm ao ritmo das principais horas da liturgia no Templo: tércia, sexta e nona. É como se o narrador nos quisesse dizer que a verdadeira liturgia se cumpre agora no Calvário, num lugar público, e já não no recinto sagrado do Templo[15].

Mas há dois momentos no relato da Paixão que Marcos ainda quer salientar. O primeiro acontece durante a acusação levada a cabo pelas testemunhas. Vale a pena ler três versículos do seu texto:

«14,56Muitos, na verdade, testemunhavam falso contra Ele, e os testemunhos não eram concordes. 57E alguns, levantando-se, testemunhavam falso contra Ele, dizendo: 58“Nós ouvimo-lo dizer: ‘Eu destruirei este SANTUÁRIO (naós), feito por mãos humanas (cheiropoíêton), e em três dias edificarei outro (állon), não feito por mãos humanas (cheiropoíêton)’”» (Mc 14,56-58).

Fica claro que Marcos sublinha que a acusação era falsa. Mas o modo como ela é formulada mostra as intenções do narrador que aproveita a acusação para dizer o que ele verdadeiramente pensa. E aqui é que reside a novidade. O Templo que será destruído é qualificado como «feito por mãos humanas», uma expressão que a polémica judaica reservava para os ídolos «vazios». E o Templo que será edificado por JESUS é dito «outro» (állos), expressão que diz diversidade de número, e não apenas de qualidade[16]. Trata-se, não de uma simples purificação ou renovação, mas de uma verdadeira substituição com a explosão do espaço sagrado. Já atrás mostrámos o procedimento certeiro de acertar os momentos fortes da Paixão de Jesus pelas horas da liturgia do Templo. O verdadeiro culto saía assim do estreito e estrito recinto do Templo para um lugar público, o Calvário. Esta abertura de espírito e largueza de vistas é um específico de Marcos: na verdade, no chamado relato da «purificação» do Templo, Marcos faz explodir o Templo, alargando o espaço da presença de Deus a todos os povos. Ele é o único que prolonga a citação de Is 56,7 até à expressão «para todos os povos»: «A minha casa será chamada casa de oração para todos os povos» (Mc 11,17)[17].

E a concluir este relato da paixão e morte de Jesus, Marcos anota ainda, tal como Mateus e Lucas, um aspecto de grande valor simbólico:

«15,38E o véu do Santuário (naós) foi dividido (eschístê: aor. pass. de schízô) em dois, de alto (ánôthen) a baixo» (Mc 15,38).

O verbo está na forma passiva, e, portanto, é Deus o sujeito da acção[18], que assim se põe do lado de Jesus contra os que passam fazendo troça. Véu rasgado pelas mãos de Deus. Jesus tinha razão: com a sua morte, o Templo terminou e abre-se uma nova perspectiva. Lê-se no Livro do Êxodo que, «Para o lado de dentro do véu farás entrar a Arca do Testemunho; o véu servirá de separação entre o lugar santo e o Santo dos Santos» (Ex 26,33). Na realidade, o véu delimitava / separava a zona mais reservada e sagrada do Templo (o Santo dos Santos), impedida a toda a gente, com excepção do sumo sacerdote. Mas, com a cruz, cai toda a delimitação[19]. Segundo a Carta aos Hebreus, «no interior do véu, como nosso precursor, entrou Jesus» (Hb 6,19-20). E lê-se na Carta aos Efésios, que Jesus reuniu os de longe e os de perto, pois, com a sua Cruz, derrubou o muro divisório, abrindo a uns e a outros o acesso ao Pai, fazendo-nos familiares de Deus (Ef 2,13-19). O Templo já não é, assim, lugar de separação, mas de universalidade[20].

1.2. Jo 4,19-24 ou a verdadeira adoração como orientação da vida para o PAI

Importa uma vez mais começar por ler o texto com atenção:

«4,19Disse-lhe a MULHER: “Senhor (kýrie), VEJO (theôréô) que tu és um Profeta. 20Os nossos pais ADORARAM (prosekýnêsan: aor. de proskynéô) neste monte (en tô orei toútô), mas vós dizeis que é em Jerusalém (en Hierosolýmois) O LUGAR (ho tópos) onde é preciso ADORAR (proskyneîn deî)”. 21Disse-lhe JESUS: “Acredita em mim (písteué moi), MULHER, porque vem a hora em que nem neste monte nem em Jerusalém ADORAREIS (proskynêsete) o PAI. 22Vós ADORAIS (proskyneîte) o que não conheceis; nós ADORAMOS (proskynoûmen) o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. 23Mas vem a hora – e é agora – em que os verdadeiros ADORADORES (proskynêtaí) ADORARÃO (proskynêsousin) o PAI em Espírito e Verdade (en pneúmati kaì alêtheía), pois são esses os ADORANTES (proskynoûntas) que o PAI PROCURA (zêteî). 24Deus é Espírito, e os ADORANTES (proskynoûntas) d’Ele é preciso (deî) que o ADOREM (proskyneîn) em Espírito e Verdade”» (Jo 4,19-24).

Algumas observações:

1) Entra pelos olhos e pelos ouvidos. Estamos perante o lugar bíblico que oferece mais vezes a locução «ADORAR» por metro quadrado.

2) É porque começa a «ver» em Jesus um Profeta, e «como profeta, ele deve saber»[21], que a mulher da Samaria traz para o diálogo a velha controvérsia que opunha Samaritanos e Judeus acerca do verdadeiro lugar (tópos) da adoração (proskýnêsis): este monte (Garizim) ou Jerusalém (Jo 4,20). Discussão antiga.

3) Solução nova trazida por Jesus, que ultrapassa qualquer lugar exterior pela intimidade pessoal. É o PAI que é preciso adorar (proskynéô). Adorar (proskynéô que, em 164 sobre 171 vezes, traduz o hebraico hishtahawah, forma hitpael de shahah)[22] o PAI significa orientar a vida toda para o PAI. Proskynéô, como hishtahawah, significa beijar, prostrar-se, ajoelhar-se, inclinar-se, querendo sempre significar com este gesto a total orientação da vida para o PAI, única direcção da nossa vida[23]. É então só como «filhos» que podemos adorar o «PAI». E o PAI não é uma montanha, um lugar ou um santuário; é uma pessoa que actua, que chama, que ama[24]. Note-se bem que o nome «PAI» é introduzido por Jesus, não pela mulher. É Jesus o revelador do rosto paternal de Deus[25].

Lendo atentamente a obra lucana, mas esta leitura pode alargar-se a todo o NT e à inteira Escritura dos dois Testamentos, diz bem Alberto Casalegno que o verdadeiro culto «não se realiza num lugar definido, mas na relação vital com uma pessoa»[26].

4) Por isso mesmo, a adoração verdadeira não é um movimento espontâneo nosso para um deus-placebo, que sirva para satisfazer o nosso ego. A adoração verdadeira só pode brotar em nós como RESPOSTA FILIAL[27]. A iniciativa é do PAI. O texto diz, de forma estupenda, que é o PAI que «PROCURA» (zêteî)[28] os seus adorantes (proskynoûntai) ou adoradores (proskynêtaí) (Jo 4,23)[29], sendo que esta última palavra só se encontra aqui, esta única vez, em toda a Escritura[30].

De resto, a inteira resposta de Jesus abre com o pessoalíssimo apelo à mulher a acreditar nele: «Acredita em mim, mulher» (písteué moi, gýnai) (Jo 4,21), a primeira vez que se ouve este imperativo em todo o Evangelho[31]. «Em mim», em Jesus, Jesus é o «lugar» novo da verdadeira adoração, o Filho: é assumindo a posição de filho que se adora.

5) Diz muito acertadamente Bruno Maggioni: «De acordo com o vocabulário de João, o Espírito não é uma realidade espiritual que se opõe ao corpo, uma realidade interior que se opõe à realidade exterior. Por conseguinte, o culto no Espírito não é o culto interior, espiritual, individual, em contraposição com o culto exterior e público. O Espírito é a força divina (mas por que não chamar-lhe amor?), que levanta o homem da sua impotência, colocando-o no único lugar em que verdadeiramente se encontra o Pai. E este lugar é a Verdade que, para João, é o desígnio salvífico de Deus que se revelou-desvelou-aconteceu em Jesus. Mais concretamente, a verdade é o diálogo de comunhão que une aqueles que acreditam (Jo 17). Desta comunhão, Jesus é a transparência, a manifestação plena e concreta, verificável. Neste sentido, pode verdadeiramente dizer-se que Jesus é a Verdade (egô eimi… hê alêtheia) (Jo 14,6). O lugar onde adorar Deus é, então, Jesus»[32]. Ele é o templo novo[33], «outro (állos)[34], não feito por mãos humanas» (Mc 14,58), em claro contraponto com o anterior, «feito por mãos humanas», expressão que a polémica judaica reservava aos ídolos «vazios»[35].

Neste sentido, Jesus não é apenas o caminho que conduz ao Pai, mas o lugar, o único lugar em que o Pai se nos mostra: «Quem me viu, viu o Pai» (Jo 14,9), diz Jesus a Filipe. De resto, um e (kaí) epexegético une, no nosso texto, o Espírito à Verdade (en pneúmati kaì alêtheía) – o Espírito, isto é, a Verdade –, logo transformado em genitivo (tò pneûma tês alêtheías: o Espírito da Verdade) em Jo 14,17, para vir a toda a luz na Primeira Carta de João: «O Espírito é a Verdade» (tò pneûmá estin hê alêtheia) (1 Jo 5,6).

Um texto que assinala uma nova direcção no culto.

II. DESAFIOS que o SANTUÁRIO-PESSOA pode fazer ao SANTUÁRIO-ESPAÇO

1. Encontro pessoal, filial, fraternal, de alegria. Encontro marcado pelo PAI. É ELE que nos PROCURA. Toda a oração/adoração verdadeira é em nós resposta desde um filho, desde o FILHO. O SANTUÁRIO-ESPAÇO tem de oferecer/proporcionar este ENCONTRO.

2. O filho que responde, começa por ver e ouvir, receber, acolher. O SANTUÁRIO-ESPAÇO deve ser o lugar, a CASA, não de pedra, mas de intimidade, com a mesa posta e a lareira acesa, que faculte a correcta VISÃO e boa AUDIÇÃO. O IV Evangelho emprega cinco formas verbais diferentes para mostrar a progressão do «ver» que conduz à fé[36]: 1) registra, em primeiro lugar, com o verbo blépô, o facto físico de ver simplesmente desde fora alguma coisa ou alguém (Jo 20,1)[37]; 2) vem, em segundo lugar, o verbo theôréô, que significa «observar» com atenção, curiosidade e surpresa, como quem vê atentamente um espectáculo (theôría) em movimento, vendo e revendo, em ordem a chegar à fé (2,23; 4,19; 20,6.12.14)[38]; 3) em terceiro lugar, verifica-se o verbo theáomai, que carrega um forte tom intencionalmente contemplativo (cf. Jo 1,14.38)[39]; 4) o verbo que traduz a visão da fé plena é o perfeito do verbo horáô, ou seja, heôraka (cf. Jo 20,18.25.29), que se traduz por «vi, e continuo a ver»[40]; 5) mas deve prestar-se igualmente atenção ao aoristo segundo de horáô, que é eîdon, infinito ideîn, que implica uma visão nova e profunda, para além das aparências, interior, não necessariamente ocular, dado ter a ver com a identidade[41]. No mesmo sentido, e assente na mesma raiz id, se situa o verbo oîda, conhecer. Não designa, porém, um conhecimento estudado e adquirido – que se diz com o verbo ginôskô –, mas um conhecimento directo, recebido (cf. Jo 7,15)[42]. A boa AUDIÇÃO, expressa com o verbo akoúô, faz passar do ouvir físico para a docilidade do coração, de modo a facultar que a Palavra entre e ressoe no coração fiel[43].

3. A importância do silêncio habitado. O VERBO de Deus não faz vibrar o ar. Não se lhe capta o som. Só lhe captamos o SENTIDO[44]. E o SENTIDO, que se saiba, nunca faz barulho. A PALAVRA de Deus é um som que nunca se ouviu,/ um silêncio que nunca se calou[45]. O SENTIDO tem de correr e escorrer pelo SANTUÁRIO.

4. Um SANTUÁRIO-ESPAÇO cheio de filhos e de irmãos. Sem vendedores e sem mercado. Sem perversão de SENTIDO: em que todos estejam orientados para DEUS, e não para a JOVEM.

5. Um SANTUÁRIO-ESPAÇO sem restrições, sem véu: «CASA de oração para todos os povos». Véu rasgado pelas mãos de Deus. Não costure o homem o que Deus rasgou.

António Couto

[1] M.-J. LAGRANGE, Évangile selon Saint Jean, Paris, Gabalda, 1948, p. 21; R. SCHNACKENBURG, El Evangelio según san Juan. Versión y comentário, I, Barcelona, Herder, 1980, p. 285; X. LÉON-DUFOUR, Lectura del Evangelio de Juan. I (Jn 1-4), Salamanca, Sígueme, 2.ª ed., 1993, p. 93-94; G. ZEVINI, Commentaire spirituel de l’Évangile de Jean, I, Paris – Monte Real, Médiaspaul, 1995, p. 32; F. J. MOLONEY, The Gospel of John, Collegeville, The Liturgical Press, 1998, p. 39.
[2] A. COUTO, A riqueza vital da oração a partir dos Salmos. O sabor da liturgia das horas, in Igreja e Missão, 197, 2004, p. 237-238
[3] G. DEIANA, Levitico. Nuova versione, introduzione e commento, Milão, Paoline, 2005, p. 244-245 e 254; J. ELIAS, The Haggadah. Passover Haggadah / with translation and a new commentary based on Talmudic, Midrashic, and Rabbinic Sources, Nova Iorque, Mesorah Publications, 3.ª ed., 1980, p. 58.
[4] J. ELIAS, The Haggadah, p. 58.
[5] F. J. MOLONEY, The Gospel of John, p. 77.
[6] B. MAGGIONI, Il culto nel Nuovo Testamento, in S. A. PANIMOLLE (ed.), Culto Divino-Liturgia, Vol. 12 do Dizionario di Spiritualità biblico-patristica. I grandi temi della S. Scrittura per la «Lectio Divina», Roma, Borla, 1996, p. 104-105; A. CASALEGNO, Gesù e il tempio. Studio redazionale di Luca-Atti, Brescia, Morcelliana,1984, p. 206.
[7] G. RAVASI, I Profeti, Milão, Àncora, 4.ª ed., 1998, p. 44.
[8] P. BOVATI, R. MEYNET, Le Livre du prophète Amos, Paris, Cerf, 1994, p. 77, e nota 15.
[9] Ver a fina análise de P. BOVATI, R. MEYNET, Le Livre du prophète Amos, p. 77.89-90.
[10] F. J. MOLONEY, The Gospel of John, p. 78 e 82.
[11] F. J. MOLONEY, The Gospel of John, p. 82; R. SCHNACKENBURG, El Evangelio según san Juan, p. 403.
[12] R. SCHNACKENBURG, El Evangelio según san Juan, p. 403.
[13] F. J. MOLONEY, The Gospel of John, p. 79.
[14] Começa pelas 15h00 de 14 de Nisan (5.ª feira) com a preparação da ceia (14,12), pelas 18h00 dá-se início à ceia (6.ª feira, 15 de Nisan), pelas 21h00 estão no Getsemani (14,26), pelas 24h00 tem lugar a prisão de Jesus (14,43), pelas 03h00 a terceira negação de Pedro (14,70-72), pelas 06h00 tem lugar o processo diante de Pilatos (15,1), pelas 09h00 a crucifixão (15,25: 3.ª hora), pelas 12h00 as trevas cobrem a terra (15,33: 6.ª hora), pelas 15h00 dá-se a morte de Jesus (15,34: 9.ª hora), pelas 18h00 a sepultura (15,42). O quadro cronológico aqui apresentado pode ver-se em E. R. MARTINEZ, La sequela di Gesù Cristo nel Vangelo secondo Marco, Roma, Pontificia Università Gregoriana, 2.ª ed., 2000, p. 107.
[15] B. MAGGIONI, Il culto nel Nuovo Testamento, p. 103.
[16] G. BIGUZZI, Io distruggerò questo tempio. Il tempio e il giudaismo nel vangelo di Marco, Roma, Urbaniana University Press, 1987, p. 123.
[17] B. MAGGIONI, Il culto nel Nuovo Testamento, p. 103.
[18] K. STOCK, Marco. Commento contestuale al secondo Vangelo, Roma, Edizioni ADP, 1.ª reimpressão da primeira ed. (2003), 2006, p. 343.
[19] B. WITHERINGTON III, The Gospel of Mark. A Socio-Rhetorical Commentary, Grand Rapids – Cambridge, Eerdmans, 2001, p. 400.
[20] B. MAGGIONI, Il culto nel Nuovo Testamento, p. 103-104; B. MAGGIONI, I racconti evangelici della Passione, Assis, Cittadella, 2.ª ed., 1995, p. 277-278.
[21] R. H. LIGHTFOOT, St. John’s Gospel, Oxford, Oxford University Press, 1956, p. 123.
[22] M. GIAMPICCOLO, Presenza, ascolto, visione, p. 170.
[23] M. GIAMPICCOLO, Presenza, ascolto, visione. Adorazione e culto a Dio in prospettiva ecumenica, Pádua, Messaggero, 1998, p. 169, nota 169; F. J. MOLONEY, The Gospel of John, p. 128-129.133; H. SCHÖNWEISS, proskynéô, adorar, prostrarse, in L. COENEN – E. BEYREUTHER – H. BIETENHARD (eds.), Diccionario Teológico del Nuevo Testamento, Vol. III, Salamanca, Sígueme, 1983, p. 222-223.
[24] F. J. MOLONEY, The Gospel of John, p. 129.
[25] B. MAGGIONI, La brocca dimenticata. I dialoghi di Gesù nel vangelo di Giovanni, Milão, Vita e Pensiero, 2.ª reimpressão da 1.ª ed. (1992), 2003, p. 56.
[26] A. CASALEGNO, Gesù e il tempio, p. 204.
[27] S. B. MARROW, The Gospel of John. A reading, Nova Iorque, Paulist Press, 1995, p. 55.
[28] Zetéô (procurar) assume aqui o significado forte de quem se esforça e luta para obter, mostrando um Deus que procura o homem com paixão, e se esforça, como que lutando, para o encontrar. B. MAGGIONI, La brocca dimenticata, p. 56.
[29] M. GIAMPICCOLO, Presenza, ascolto, visione, p. 28; K. C. BARRET, The Gospel according to St. John, Londres, S. P. C. K., 2.ª ed., 1978, p. 238; T. OKURE, The Johannine Approach to Mission: A Contextual Study of John 4,1-42, Tubinga, J. C. B. Mohr, 1988, p. 116; F. J. MOLONEY, The Gospel of John, p. 129.
[30] M. GIAMPICCOLO, Presenza, ascolto, visione, p. 28.
[31] R. VIGNOLO, Personaggi del Quarto Vangelo. Figure della fede in San Giovanni, Milão, Glossa, 1995, p. 165.
[32] B. MAGGIONI, Il culto nel Nuovo Testamento, p. 106.
[33] I. DE LA POTTERIE, Studi di Cristologia Giovannea, Génova, Marietti, 3.ª ed., 1992, p. 75.
[34] Állos exprime diversidade de número, não apenas de qualidade. G. BIGUZZI, Io distruggerò questo tempio, p. 123.
[35] B. MAGGIONI, Il culto nel Nuovo Testamento, p. 102.
[36] E. A. ABBOTT, Johannine Vocabulary. A Comparison of the Words of the Fourth Gospel with those of the Three, Londres, Adam & Charles Black, 1905, p. 104-114, n.º 1597-1611; M. A. PHILLIPS, Faith and Vision in the Fourth Gospel, in F. L. CROSS (ed.), Studies in the Fourth Gospel, Londres, Mowbray, 1957, p. 83-96; C. TRAETS, Voir Jésus et le Père en Lui selon l’Évangile de Saint Jean, Roma, Libreria Editrice dell’Università Gregoriana, 1967, p. 34-35, nota 2; I. DE LA POTTERIE, Studi di Cristologia Giovannea, p. 294-295; J. CABA, Cristo ora al Padre. Estudio exegético-teológico de Jn 17, Madrid, BAC, 2007, p. 505, nota 41.
[37] C. TRAETS, Voir Jésus, p. 41; I. DE LA POTTERIE, Studi di Cristologia Giovannea, p. 294; J. CABA, Cristo ora al Padre, p. 505, nota 41.
[38] C. TRAETS, Voir Jésus, p. 37-38 e 41-42; I. DE LA POTTERIE, Studi di Cristologia Giovannea, p. 294; F. BLANQUART, Le premier jour (Jn 20), Paris, Cerf, 1991, p. 37; R. VIGNOLO, Personaggi del Quarto Vangelo, p. 164, nota 269; B. MAGGIONI, Era veramente uomo. Rivisitando la figura di Gesù dei Vangeli, Milão, Àncora, 2001, p. 158; B. MAGGIONI, La brocca dimenticata, p. 55; J. CABA, Cristo ora al Padre, p. 505, nota 41.
[39] C. TRAETS, Voir Jésus, p. 37-38 e 43-44; I. DE LA POTTERIE, Studi di Cristologia Giovannea, p. 294-295; B. MAGGIONI, La brocca dimenticata, p. 19; J. CABA, Cristo ora al Padre, p. 505, nota 41.
[40] C. TRAETS, Voir Jésus, p. 45; I. DE LA POTTERIE, Studi di Cristologia Giovannea, p. 295; J. CABA, Cristo ora al Padre, p. 505, nota 41.
[41] C. TRAETS, Voir Jésus, p. 41; B. MAGGIONI, Era veramente uomo, p. 151.
[42] E. A. ABBOTT, Johannine Vocabulary, p. 120-125, nº 1621-1629; I. DE LA POTTERIE, Studi di Cristologia Giovannea, p. 304-315; B. MAGGIONI, La brocca dimenticata, p. 60; J. CABA, Cristo ora al Padre, p. 232, e nota 158.
[43] I. DE LA POTTERIE, Studi di Cristologia Giovannea, p. 293.
[44] P. BEAUCHAMP, L’Un et l’Autre Testament. Essai de Lecture (tomo I), Paris, Seuil, 1976 (nova impressão, 2000), p. 130; P. BEAUCHAMP, Psaumes nuit et jour, Paris, Seuil, 1980 [nova impressão, 2001], p. 164.
[45] P. BEAUCHAMP, L’Un et l’Autre Testament, I, p. 159.

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