APRENDER COM AS CRIANÇAS


 

1. Dentro da tradição do pensamento ocidental, Bento de Espinosa mostrou na sua Ética, Parte III, Proposição VI (tradução portuguesa, Lisboa, Relógio d’Água, 1992, p. 275-276), através do célebre conatus essendi [= esforço para permanecer no ser], que é próprio do indivíduo – o homem como o cão, a pedra, a árvore – lutar pela sua auto-conservação ou permanência (ou perseverança) no ser.

 

2. Penso ser nesse horizonte de apego ao seu bem-estar e comodidade, que os jovens adultos de hoje evitam os filhos, pois os consideram cada vez mais como um impecilho à sua perseverança no ser, isto é, ao seu conforto e bem-estar, como alguém que vem desarranjar o seu mundo, tempo, horário, comodidade.

 

3. Mas Setembro traz de novo para a rua as crianças que há, a caminho da escola ou de regresso a casa. E cabe aqui a palavra certeira do poeta francês Charles Péguy (1873-1914), morto em 5 de Setembro de 1914, no dealbar da primeira guerra mundial: «Mandam-se os filhos à escola, diz Deus,/ mas penso que é para que esqueçam o pouco que sabem./ Estaria muito mais correcto mandar à escola os pais,/ porque são eles que precisam dela,/ admitindo sempre que fosse eu o mestre dessa escola».

 

4. Charles Péguy foi sempre uma criança deslumbrada, encandeado pela esperança. Escreveu, no Pórtico do mistério da segunda virtude, que a esperança é como uma menininha que todas as manhãs nos vem trazer o café à cama e dar os bons dias. Tem sempre e só nove anos. É a mais nova das suas irmãs (fé e caridade). Pequenina e frágil como a chama de uma vela, no meio das duas irmãs mais velhas, parece, à primeira vista, que é levada por elas; mas, na verdade, é ela, na irrequieta graciosidade dos seus nove anos, que as empurra. É ela que nos empurra. Frágil como a chama de uma vela, ela é, todavia, forte, de tal modo que nenhuma tempestade, nem sequer a morte, a consegue apagar.

 

5. Frágil, forte esperança. Menininha irrequieta que vai na procissão saltando à corda. Chama que nos anima e nos aquece. Esfuziante graciosidade que pode transformar a nossa vida de gente grande e importante em dádiva de amor e de alegria ou simples dança de roda. Lúcida obstinação daqueles que se atrevem a pensar que o mundo será melhor amanhã. Ou coragem generosa daqueles que decidem lançar a mão ao arado, sabendo que só os seus filhos farão a colheita. Visão longimirante e tranquila daqueles que sabem que o futuro não é apenas o que resta do nosso presente, que há que ciosamente acautelar do estorvo das crianças, mas que sabem que as crianças é que são o futuro grande e verdadeiro.

 

6. Meu irmão de Setembro, já sabes que a escola vai abrir por estes dias. Deixa-te guiar pela pequena esperança. Fica atento como quem espera e se espanta. Levanta os olhos. Dança. Quem sabe? Quando o mestre é Deus e a lógica a do Evangelho, bem «pode a semente germinar antes do campo/ e a espiga amadurar antes do tempo!» Fica atento! Na língua hebraica, «estar atento» diz-se significativamente sîm leb [= «pôr o coração»]. Só estamos verdadeiramente atentos às pessoas ou coisas em quem ou em que pomos o coração. É urgente estar atento, amar, vigiar. O nosso coração pode ficar embotado, posto apenas na sedução, no dinheiro, no prazer. Uma paixão pode cegar-nos. Considera a triste lição de Fortaleza (Brasil), quando, em 12 de Agosto de 2001, seis portugueses foram sequestrados, roubados, massacrados e enterrados ainda vivos no chão de uma barraca.

 

 

António Couto

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