ASSIS E A PARÁBOLA DOS TRÊS ANÉIS


 

 

1. A Igreja celebra no dia 4 de Outubro a memória de S. Francisco de Assis.

 

2. A colina de Assis, com vistas sobre o Tibre e o Topino, ficará para sempre ligada ao irmão Francisco, por isso Francisco de Assis, que aí nasceu e morreu (1182-1226). Era rico. A sua juventude foi cheia de festas e folguedos. Mobilizado para a guerra, foi feito prisioneiro, adoeceu, e passou longos tempos de convalescença… e meditação. Num processo complexo, que se veio a consumar em 1208, uns dizem que em 9 de Fevereiro, outros que em 24 de Abril, ao ouvir proclamar o Evangelho de Mateus 10,6-14, fez-se luz na sua alma, e Francisco fez-se pobre e irmão de todos, para a todos saber levar a paz de Cristo.

 

3. Muitos seguiram os caminhos de Francisco. Pouco antes da sua morte, sentindo-se já sem forças, Francisco juntou à sua volta os muitos irmãos que o seguiam, despediu-se deles, e disse-lhes mais ou menos isto: «Irmãos, vamos ver se começamos a fazer alguma coisa, porque até agora ainda não fizemos nada».

 

4. Assis evoca, portanto, o Santo dos caminhos da paz, o irmão Francisco, o muito que fez e o muito que está ainda sempre por fazer. Reunindo em Assis os seus irmãos, em 1986, e de novo, no dia 24 de Janeiro de 2002, João Paulo II disse a este mundo violento que está ainda tanta coisa por fazer nos domínios da paz, da justiça e do perdão. E convidou-nos a deixar «soprar» o vento novo do Espírito, capaz de avivar as brasas da fraternidade em cada homem, debaixo de qualquer céu.

 

5. Esta mobilização pela paz como «trabalho de casa» para todos os homens e mulheres lembra-me a «história dos três anéis», que é uma novela que circulava na Idade Média entre os judeus de Espanha, que aparece recolhida no Decamaron, de Boccaccio (1313-1375), e que atingiu a máxima dimensão com o escritor alemão Gotthold Ephraim Lessing (1729-1781) que a incluiu no seu poema dramático Nathan der Weise [= «Natã, o sábio»], escrito em 1779.

 

6. A novela dos três anéis conta-nos que havia, no Oriente, um homem muito rico, que possuía um anel que tinha o condão de tornar feliz e querido por Deus e pelos homens aquele que o usasse. Ao longo de muitas gerações, o precioso anel transitou sempre de pai para filho, sendo herdado pelo filho predilecto. Até ao dia em que um pai se encontrou na difícil situação de ter de escolher o herdeiro do anel entre três filhos igualmente queridos. Para resolver a situação, aquele pai optou por mandar fazer, às escondidas, mais dois anéis iguais, no aspecto, ao original. Pouco antes de morrer, aquele pai entregou a cada filho um anel, ficando cada um deles a pensar que tinha sido o escolhido pelo pai para herdar o precioso anel. Mas quando os três filhos se encontraram frente a frente, cada um com o seu anel, aperceberam-se logo de que tinha havido falcatrua, e começou logo ali a guerra pelo reconhecimento do anel verdadeiro. Depois de muitos anos de guerra e sofrimento, os três irmãos decidiram comparecer perante um juiz, para que este dirimisse a questão. Depois de ouvir a história das virtualidades do anel, segundo a qual o anel verdadeiro tinha o condão de tornar o seu portador querido pelos outros, o juiz quis então saber qual dos três irmãos era o mais querido pelos outros. Como nenhum dos três ousasse responder, o juiz compreendeu que estava perante três malvados merecedores de castigo. Mas, em vez de os castigar, achou melhor tecer algumas considerações: «Pensai que o vosso pai não vos enganou, mas que não quis submeter-se à tirania de um único anel verdadeiro». E deu-lhes um conselho: «Adiemos a questão de saber qual é o único anel verdadeiro, e que cada um se esforce, entretanto, por fazer com que o seu anel seja verdadeiro, procurando ser querido pelos outros. E lá há-de um dia vir um juiz, daqui a milhares de anos, que, analisando o que entretanto conseguirdes fazer, ditará a sentença definitiva».

 

7. Foi num dia de Fevereiro de 1209, talvez no dia 9, que Francisco de Assis encontrou o caminho do amor, da paz e da fraternidade. É bom que o vento de Assis se reacenda outra vez no coração deste mundo. E há tanta coisa por fazer pela paz, meu irmão de Outubro. E ainda estás a tempo de fazer com que o teu anel seja o verdadeiro.

  

António Couto

Uma resposta a ASSIS E A PARÁBOLA DOS TRÊS ANÉIS

  1. P.CASIMIRO diz:

    EU SOU UM DOS LEITORES MAIS INTERESSADOS DO BISPO COUTO E ACOMPANHAREI SEMPRE SEUS ENSINAMENTOS.
    QUE BOM TER UM COMPANHEIRO ASSIM DE IDEIAS CLARAS E DE NOVIDADES TÃO IBNTERESSANTES. P.CASIMIRO BRASIL

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