SITUAÇÕES AD GENTES NA IGREJA EM PORTUGAL

Outubro 7, 2008

1. Introdução: a missão de coração a coração

 

Em 2004, por ocasião dos 1250 anos do martírio de S. Bonifácio, Apóstolo da Alemanha, o Cardeal Karl Lehmann, Arcebispo de Mogúncia (Mainz), dirigiu à sua Diocese uma Carta Pastoral, intitulada Testemunho missionário, em que se lê:

 

«Tornámo-nos um mundo velho. Deixámo-nos vencer pelo cansaço (…). É necessário um radical revigoramento missionário da nossa Igreja. Não se trata apenas de reformar as estruturas. É preciso começar por cada um de nós. Se não estivermos entusiasmados pela profundidade e pela beleza da nossa fé, não podemos verdadeiramente transmiti-la nem aos vizinhos nem aos filhos nem às gerações futuras. (…) É necessário também ganhar outras pessoas para a nossa fé cristã e arrastar os cristãos que cederam ao cansaço ou que até abandonaram a Igreja (…). Devemos difundir verdadeiramente o Evangelho de casa em casa, de coração a coração»[1].

 

Nesta Carta Pastoral, o Cardeal Lehmann traça um quadro realista de uma Igreja que parece envelhecida e cansada, mas aponta também, com mestria e clarividência, as coordenadas que devem moldar o rumo do futuro: não basta reformar por fora estruturas e edifícios; é preciso reformar por dentro, mudar o coração, acendê-lo com a luz nova de Cristo e do seu Evangelho.

A Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, n.º 46 (Paulo VI, 8 de Dezembro de 1975), depois de falar da importância da pregação feita para todos, refere logo também a validade e a importância da transmissão «de pessoa para pessoa». E a Nota Pastoral da CEI, significativamente intitulada O rosto missionário das paróquias num mundo em mudança (n. 6)[2], acentua que «para a evangelização é essencial a comunicação de crente para crente, de pessoa a pessoa», aspecto que volta a ser salientado na recente Nota doutrinal sobre alguns aspectos da evangelização, n.º 11, da Congregação para a Doutrina da Fé, de 3 de Dezembro de 2007[3].

No mesmo sentido, na cerimónia de encerramento do Congresso Internacional realizado em Roma, de 09 a 11 de Março de 2006, para celebrar e reflectir sobre o Decreto Conciliar Ad Gentes, no quadragésimo ano da sua promulgação (07 de Dezembro de 1965), referiu o Papa Bento XVI, entre outras coisas, que:

 

«Não são, de facto, somente os povos não-cristãos e as terras distantes, mas também os âmbitos sócio-culturais, e, principalmente os corações, os verdadeiros destinatários da actividade missionária do Povo de Deus».

 

E, nas palavras proferidas antes da Oração do Angelus do 80.º Dia Missionário Mundial (22.10.2006), Bento XVI acentuou esta dinâmica, afirmando agora que «A missão parte do coração».

 

Identidade, intimidade e íntimo dizer de um Deus que nos ama: «Por isso, vou falar-lhe ao coração» (Os 2,16), e nos programa: «Falai ao coração de Jerusalém!» (Is 40,2). Leia o resto deste artigo »

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