SITUAÇÕES AD GENTES NA IGREJA EM PORTUGAL


1. Introdução: a missão de coração a coração

 

Em 2004, por ocasião dos 1250 anos do martírio de S. Bonifácio, Apóstolo da Alemanha, o Cardeal Karl Lehmann, Arcebispo de Mogúncia (Mainz), dirigiu à sua Diocese uma Carta Pastoral, intitulada Testemunho missionário, em que se lê:

 

«Tornámo-nos um mundo velho. Deixámo-nos vencer pelo cansaço (…). É necessário um radical revigoramento missionário da nossa Igreja. Não se trata apenas de reformar as estruturas. É preciso começar por cada um de nós. Se não estivermos entusiasmados pela profundidade e pela beleza da nossa fé, não podemos verdadeiramente transmiti-la nem aos vizinhos nem aos filhos nem às gerações futuras. (…) É necessário também ganhar outras pessoas para a nossa fé cristã e arrastar os cristãos que cederam ao cansaço ou que até abandonaram a Igreja (…). Devemos difundir verdadeiramente o Evangelho de casa em casa, de coração a coração»[1].

 

Nesta Carta Pastoral, o Cardeal Lehmann traça um quadro realista de uma Igreja que parece envelhecida e cansada, mas aponta também, com mestria e clarividência, as coordenadas que devem moldar o rumo do futuro: não basta reformar por fora estruturas e edifícios; é preciso reformar por dentro, mudar o coração, acendê-lo com a luz nova de Cristo e do seu Evangelho.

A Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, n.º 46 (Paulo VI, 8 de Dezembro de 1975), depois de falar da importância da pregação feita para todos, refere logo também a validade e a importância da transmissão «de pessoa para pessoa». E a Nota Pastoral da CEI, significativamente intitulada O rosto missionário das paróquias num mundo em mudança (n. 6)[2], acentua que «para a evangelização é essencial a comunicação de crente para crente, de pessoa a pessoa», aspecto que volta a ser salientado na recente Nota doutrinal sobre alguns aspectos da evangelização, n.º 11, da Congregação para a Doutrina da Fé, de 3 de Dezembro de 2007[3].

No mesmo sentido, na cerimónia de encerramento do Congresso Internacional realizado em Roma, de 09 a 11 de Março de 2006, para celebrar e reflectir sobre o Decreto Conciliar Ad Gentes, no quadragésimo ano da sua promulgação (07 de Dezembro de 1965), referiu o Papa Bento XVI, entre outras coisas, que:

 

«Não são, de facto, somente os povos não-cristãos e as terras distantes, mas também os âmbitos sócio-culturais, e, principalmente os corações, os verdadeiros destinatários da actividade missionária do Povo de Deus».

 

E, nas palavras proferidas antes da Oração do Angelus do 80.º Dia Missionário Mundial (22.10.2006), Bento XVI acentuou esta dinâmica, afirmando agora que «A missão parte do coração».

 

Identidade, intimidade e íntimo dizer de um Deus que nos ama: «Por isso, vou falar-lhe ao coração» (Os 2,16), e nos programa: «Falai ao coração de Jerusalém!» (Is 40,2).

 

 

2. Das «missões» para «a missão», das «situações» ad gentes para «a situação» ad gentes

 

A Carta Apostólica Redemptoris Missio (João Paulo II, de 7 de Dezembro de 1990) anotava, no n.º 32, uma profunda mudança política, económica, social e religiosa no mundo, que tinha os seus reflexos também na mudança operada ao nível do vocabulário missionário. Assim se tinha passado, por exemplo, das «missões», no plural, para a «missão», no singular.

Afigura-se-me que, no que diz respeito ao título desta comunicação, igual sensibilidade nos fará mudar agora de «situações ad gentes» para «situação ad gentes». Na verdade, o Portugal de hoje apresenta-se de alto a baixo tranquilamente paganizado, marcado pela instalação e posse. Ser pagão significa «fixar-se», quase cravar-se na terra[4], sendo que pagus designa o marco, a estaca de marcação cravada na terra[5]. A diferença entre um cristão e um pagão, é que o pagão usa o mundo como coisa sua, sem bênção e sem dom, «sem esperança e sem Deus no mundo» (Ef 2,12)[6], enquanto que o cristão vê o mundo, não como «uma coisa em si»[7], mas «através de Deus», com bênção e com dom, «com esperança e com Deus no mundo». Num mundo fortemente marcado pela  posse e pelo consumismo e pelo egocentrismo, em que as possibilidades do eu são vencer ou sucumbir, cada um luta para se salvar a si mesmo. Num mundo assim, em que perder não faz sentido, o inédito da Cruz é «obsceno», no sentido etimológico: fica «fora da cena» do nosso imaginário[8]. Neste contexto, é em toda a latitude, e não apenas nesta ou naquela situação, que é necessário anunciar a morte do Senhor até que Ele venha (1 Cor 11,26). Entenda-se bem que a morte do Senhor que anunciamos não está presa a nenhum sentido fúnebre, nem rastro de dolorismo, sofrimento pelo sofrimento, heroicidade do tipo kamikaze ou outro, de quem luta e morre para libertar o seu povo da opressão de outros povos. A morte do Senhor que anunciamos é vida dada, dádiva de amor, bondade pura, beleza transparente e permanente para todos.

 

Mas comecemos pela reflexão que corre na Carta Apostólica que acabei de referir. Lê-se no n.º 37, alínea b), que «Hoje a imagem da missão ad gentes está talvez a mudar». A formulação é prudente. Mas a mudança é clara, e aparece descrita nos seguintes termos no n.º 37, alíneas b) e c): «Nos tempos modernos, a actividade missionária desenvolveu-se sobretudo nas regiões isoladas, longe dos centros civilizados e inacessíveis por dificuldades de comunicação, de língua e de clima». É verdade que não se devem «descuidar os grupos humanos mais marginalizados», mas é igualmente verdade que os «lugares privilegiados deveriam ser agora as grandes cidades», «os jovens», «as migrações», «os refugiados», «as situações de pobreza» ou «desumanas», «o mundo das comunicações», «o vastíssimo areópago da cultura», e ainda aquilo que o n.º 38, por sinal bastante esquecido, refere como o mundo do chamado «ressurgimento religioso» que emerge nas sociedades secularizadas e consumistas em que se manifesta a angustiante procura de sentido, a necessidade de vida interior, o desejo de aprender novas formas e meios de concentração e de oração.

 

Notaram certamente que a Redemptoris Missio fala de missão e de situações. De missão talvez a mudar, e mostra logo uma série de situações que postulam mesmo a mudança.

 

 

3. O campo da missão é o mundo humano. As pessoas da missão são a Igreja toda e todas as Igrejas

 

Anota bem a CEI,  num Documento Pastoral intitulado «O empenhamento missionário da Igreja italiana»[9]:

 

«num longo período, depois do renascimento missionário do século XIX, a obra das missões privilegiou o anúncio do Evangelho em vista da salvação das almas e da plantatio ecclesiae entre os povos ainda não-cristãos» e «desenvolvia-se sobretudo à margem da vida eclesial, sendo delegada quase completamente em instituições específicas, e, como tal, estava pouco inserida na comunidade eclesial local, a qual, não deixando embora de cooperar na obra missionária, não se sentia directa e explicitamente responsável por ela» (n.º 6).

 

Voltemos agora ao n.º 32 da Redemptoris Missio, há pouco apenas evocado a propósito da mudança, ao nível do vocabulário missionário, das «missões», no plural, para a «missão», no singular. Lemos assim:

 

«A integração das “missões” na missão da Igreja, o confluir da missiologia para a eclesiologia, e a inserção de ambas no plano trinitário da salvação, deu um novo ar à própria actividade missionária, não concebida já como tarefa à margem da Igreja, mas antes inserida no âmago da sua vida, como compromisso fundamental de todo o Povo de Deus».

 

Lógico. Teológico. Perfeito. Reclamando a lição densa e magistral do n.º 2 do Decreto Ad Gentes, de 7 de Dezembro de 1965, do Concílio Vaticano II. Diz assim:

 

«A Igreja peregrina é, por sua natureza, missionária, visto que tem a sua origem, segundo o desígnio de Deus Pai, na “missão” do Filho e do Espírito Santo. Este desígnio brota do “amor fontal”, isto é, da caridade de Deus Pai».

 

Mas este dizer diz o que diz a Escritura, que é assim também reclamada. «Deus é amor» (1 Jo 4,8 e 16), não só em si e para si, dentro das paredes douradas da sua eternidade, do seu céu, mas também para nós. Ama-nos com amor perfeito (1 Ts 1,4)[10]. Por isso, nos envia o seu Filho (1 Jo 4,10), que é «o primeiro e o maior evangelizador»[11], e o Espírito Santo, que é o «protagonista da evangelização»[12] ou «da missão»[13].

É nesta missão do Filho e do Espírito, que brota do «amor fontal» do Pai, que a Igreja toda é chamada a entrar. E é por isso que «a Evangelização é uma questão de amor»[14] inadiável e não delegável[15]. Amor intenso, amor que dá vida, dando a vida. Não é por acaso que amor (agápê) e luta (agôn) têm a mesma etimologia. Paradoxo do amor: o amor faz-te feliz, matando-te! Quanto mais amas, lutas, e te matas a amar, mais te encontras: «Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; ao contrário, quem perder a sua vida por causa de mim, salvá-la-á» (Lc 9,24). Aí está o verdadeiro ícone do amor, Cristo, que não se salvou a si mesmo para me salvar a mim, morrendo por amor de mim. Amor novo e subversivo, amor divino, que faz passar da morte para a vida:

 

«3,14Nós sabemos que passámos (metabebêkamen: perf. de metabaínô) da morte para a vida, porque amamos (agapômen) os irmãos. Quem não ama, permanece na morte» (1 Jo 3,14).

 

As deduções surgem em cascata. A missão como compromisso fundamental, portanto, baptismal (Redemptoris Missio, nº 71), donde se segue «que a Igreja toda e cada uma das Igrejas é enviada aos não-crentes» (Redemptoris Missio, nº 62), não a título excepcional, mas normal, como muito bem se expressa a propósito um Documento «Diálogo e Missão», do Secretariado para os não-cristãos, de 10 de Junho de 1984[16]. Leio:

 

«Cada Igreja particular é responsável de toda a missão. E mesmo cada cristão, em virtude do baptismo, é chamado a exercê-la de certo modo toda» (n.º 14),

 

sendo que

 

«a missionariedade é para cada cristão expressão normal da sua fé» (n.º 10).

 

Fica assim superada a mentalidade delegacionista, extrinsecista, epidérmica e episódica da missão. Hoje, e volto a citar a o Documento Pastoral «O Empenhamento missionário da Igreja italiana», da CEI, onde se lê:

 

«É a Igreja particular, enquanto tal, que é o sujeito primeiro da missionariedade»[17].

 

E ainda:

 

«O esforço missionário não pode ser deixado a algumas pessoas, instituições ou organismos especializados, que, todavia, são indispensáveis. Tão-pouco pode ser assumido e desenvolvido unicamente no quadro de movimentos espontâneos e voluntários, mesmo se a sua contribuição é desejada e preciosa»[18].

 

A este tema da Igreja como sujeito de missão não delegável, voltou com nova intensidade a Carta Apostólica «Novo Millenio Ineunte», de João Paulo II (6 de Janeiro de 2001), onde se lê, evocando S. Paulo:

 

«Esta paixão (Ai de mim se não evangelizar!»: 1 Cor 9,16) não deixará de suscitar na Igreja uma nova missionariedade, que não poderá ser delegada a um grupo de “especialistas”, mas deverá corresponsabilizar todos os membros do povo de Deus. Quem verdadeiramente encontrou Cristo, não pode guardá-Lo para si; tem de O anunciar» (n.º 40).

 

Este texto aparece citado na íntegra no n.º 33 das Orientações Pastorais do Episcopado Italiano para o primeiro decénio de 2000, num Documento programático intitulado «Comunicar o Evangelho num mundo em mudança», de 29 de Junho de 2001[19].

 

Esta missão não delegável, e que, por isso, nos compromete necessariamente a todos, foi assim dita recentemente por Bento XVI:

 

«A Igreja é missionária no seu conjunto e em cada um dos seus membros»[20].

 

E Paulo VI tinha já traçado fundo e bem o perfil evangelizador, não alienável, da Igreja, com estas palavras impressivas:

 

«Evangelizar constitui, de facto, a graça e a vocação própria da Igreja, a sua identidade mais profunda. A Igreja existe para Evangelizar»[21].

 

E numa recente Nota Pastoral, a Conferência Episcopal Italiana fixou com eloquente beleza e precisão o absolutamente inegociável da missão da Igreja, ponto para aquém do qual não pode regredir sob pena de não se reconhecer:

 

«A Evangelização é o fundamento de tudo e deve ter o primado sobre tudo; nada a pode substituir e nenhuma outra tarefa se pode antepor-lhe»[22].

 

E de novo a Conferência Episcopal Italiana volta a fazer referência a esta temática da aposta total na missionação, tratando-a agora no contexto específico da paróquia, no n.º 1 (reforçado depois no n.º 6) de outra Nota Pastoral, significativamente intitulada «O rosto missionário das paróquias num mundo em mudança», de 30 de Maio de 2004[23], que transcrevemos:

 

«A paróquia será tanto mais capaz de redefinir a sua tarefa missionária no seu próprio território quanto mais saiba projectar-se no horizonte do mundo, sem delegar apenas em alguns a responsabilidade da evangelização dos povos» (n.º 1 e 6).

 

 

4. O rosto missionário da Igreja em Portugal neste mundo em mudança

 

É seguro que não estamos sozinhos no mundo. É igualmente seguro que as mudanças atravessam a nossa sociedade e a nossa Igreja. E quanto ao rosto missionário, se, eventualmente concluirmos que as tintas do retrato se encontram esbatidas, podemos sempre ver com esperança o que outras Igrejas já pensam e fazem no velho continente europeu.

Nesse sentido, a Conferência Episcopal Italiana acaba de produzir, em Nota Pastoral recente (29 de Junho de 2007)[24], afirmações intensamente missionárias, programáticas para a dinâmica das paróquias:

 

«Interpelam-nos os imensos horizontes da missão ad gentes, paradigma da evangelização também no nosso País» (n.º 9).

 

«Pedimos, portanto, aos Centros missionários diocesanos que, juntamente com outras realidades de animação missionária, ajudem a tornar possível que a missionariedade atravesse todos os âmbitos da pastoral e da vida cristã» (n.º 9).

 

E na bela Nota Pastoral que já referimos, intitulada O rosto missionário das paróquias num mundo em mudança, de 30 de Maio de 2004, referem os Bispos italianos acerca da dinâmica da paróquia:

 

«Quanto mais a paróquia for capaz de redefinir a sua tarefa missionária no seu território, tanto mais saberá projectar-se no horizonte do mundo, sem delegar apenas em alguns a responsabilidade da evangelização dos povos. Não poucas experiências têm sido felizmente levadas a cabo nestes anos: intercâmbio de pessoal apostólico, viagens de cooperação entre as Igrejas, ajuda em projectos de solidariedade e desenvolvimento, geminações de esperança nas difíceis fronteiras da paz, projectos educativos de novos estilos de vida, denúncia do dramático abuso a que são submetidas as crianças. Mais do que um empenhamento ulterior, a missão ad gentes é um enriquecimento para a pastoral, uma ajuda às comunidades em ordem à conversão de objectivos, métodos, organização, e em responder com confiança ao mal-estar que muitas vezes se experimenta» (n.º 6).

 

E, contra os hábitos instalados de pensar que primeiro está a vida interna da paróquia, e só depois, lá bem no fim, se sobrarem forças e meios, se pode pensar na missão ad gentes, os bispos italianos advertem:

 

«A missão ad gentes não é apenas o ponto conclusivo do empenho pastoral, mas o seu constante horizonte e o seu paradigma por excelência»[25].

 

Mas também em Portugal se ouviram vozes apontando esta dinâmica nova. Basta ouvir um pequeno extrato do n.º 3 Discurso que o Papa João Paulo II proferiu na Cerimónia da chegada a Portugal, no Aeroporto da Portela, no dia 10 de Maio de 1991. Disse então o Papa:

 

«A primeira das prioridades pastorais da Igreja em Portugal é edificar comunidades vivas de fé, de amor e de dinamismo missionário».

 

Este texto aparece citado na íntegra no n.º 2 da Nota Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa sobre o Ano Missionário, de 6 de Janeiro de 1998.

 

Retenhamos também um pequeno extracto do n. º 5 do Discurso de João Paulo II aos Bispos de Portugal, em Fátima, em 12 de Maio de 1991. São estas as palavras do Papa:

 

«Da Cova da Iria parece desprender-se uma luz consoladora, cheia de esperança, que diz respeito aos factos que caracterizam o fim do segundo milénio (…). Será, pois, necessário despertar e alimentar em todas as comunidades uma viva consciência missionária».

 

Também este texto aparece citado no n.º 3 da já atrás referida Nota Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa sobre o Ano Missionário.

 

 

4.1. Propostas concretas

Um breve elenco:

 

1. Criar «Centros missionários diocesanos e paroquiais que, juntamente com outras realidades de animação missionária, ajudem a tornar possível que a missionariedade atravesse todos os âmbitos da pastoral e da vida cristã»[26].

 

2. «Que a visita pastoral, que os Bispos devem fazer, de modo a percorrer, pelo menos de cinco em cinco anos toda a Diocese (CIC, cân. 396, § 1.), constitua uma válida ocasião para manter alta a consciência missionária e a efectiva capacidade evangelizadora de cada comunidade paroquial»[27].

No mesmo sentido, o Papa Bento XVI, na sua mensagem para o próximo Dia Missionário Mundial, a celebrar no dia 19 de Outubro deste Ano de 2008, não deixa de lembrar aos Bispos que o seu «compromisso consiste em tornar missionária toda a comunidade diocesana»[28].

 

3. É imperioso constituir, preparar e formar grupos consistentes de evangelização, uma verdadeira rede de evangelização, que, no coração do mundo, sinta a alegria de levar o Evangelho a todos os sectores da vida, desde a família, à escola, ao trabalho, à solidão, à dor… Diz assim o Documento, já citado, intitulado Comunicar o Evangelho num mundo em mudança[29]: «Temos necessidade de leigos que estejam dispostos a assumir ministérios com fisionomia missionária em todos os campos da pastoral, tornando-se catequistas, animadores, responsáveis de “grupos de escuta” nas casas, visitadores das famílias, acompanhantes de casais jovens» (n.º 62).

 

4. É imperioso levar o Evangelho a todas as idades e a todas as classes sociais da nossa sociedade.

 

5. Não podemos mais ficar de braços cruzados mais ou menos tranquilamente à espera de que nos procurem dentro da igreja, da sacristia ou do salão paroquial. A prioridade, hoje, é sair ao encontro das pessoas, lá onde elas se encontram. É desde Jesus que é necessário dar prioridade à ovelha perdida, e dedicar-lhe tempo e carinho.

 

6. A Igreja de hoje tem de saber amar o mundo de hoje e as pessoas de hoje. E começar já a fazê-lo, em vez de nos lamentarmos de que as pessoas de hoje já não nos procuram nem compreendem nem gostam de nós.

 

7. «A paróquia, que é a casa de Deus no meio das casas dos homens, assumirá esta tarefa com alegria e entusiasmo, enchendo de primeiro anúncio todas as acções pastorais» já existentes e organizando outras com criatividade e eficácia: a) a catequese; b) a celebração eucarística; c) a homilia; d) o testemunho da caridade; e) as festas; f) as peregrinações; g) criando centros de escuta do Evangelho; h) programando bem acções de preparação para o matrimónio; i) o tempo de espera e o nascimento dos filhos; j) o pedido do baptismo (e outros sacramentos) para os filhos; k) estando evangelicamente presente nas situações de dificuldade da família; l) prestando atenta solicitude ao fenómeno das migrações; m) sabendo estar evangelicamente presente nos/e através dos mass-media; n) na cultura; o) na evangelização do tempo livre; p) nas situações da pobreza, da solidão, da exclusão, da dor e da morte…[30].

 

8. Não nos podemos esquecer que o objectivo da evangelização não é evangelizar as pessoas durante o tempo determinado de um qualquer curso organizado, mas evangelizar as pessoas até as transformarmos em evangelizadoras, isto é, até que elas sintam a necessidade e a alegria de se transformarem em evangelizadoras.

 

9. Também temos de ter presente que um jovem evangelizador é, com certeza, a pessoa mais apta para levar o Evangelho a outro jovem.

 

10. Idênticas mudanças nas estruturas pastorais, com o objectivo de que o Evangelho chegue a todos constam também da Declaração Final do III Congresso Missionário Americano (CAM 3), que acaba de se realizar em Quito, no Equador. A título de exemplo: a) opção forte em ordem à formação e acompanhamento das famílias cristãs, para que sejam evangelizadoras e missionárias com a sua vida, a sua fidelidade e comunhão; b) formação integral do laicado, com especial incidência nos jovens, sobretudo nos domínios espiritual, pastoral e missionário; c) importância da formação e evangelização dos/e nos meios de comunicação social…

 

 

4.2. O papel fundamental dos fiéis leigos

 

Pelo elenco que acabamos de apresentar, já se vê que os fiéis leigos vão ver chegar a sua hora mais bela[31], e que os ministros ordenados terão de aprender novas línguas, dedicando-se muito mais e melhor à oração, estudo, formação, acompanhamento.

O Decreto Ad Gentes salienta, no n.º 21, a importância decisiva dos fiéis leigos (a ponto de a afirmar que a Igreja não está verdadeiramente fundada sem a sua acção), do testemunho que devem dar, e o cuidado que se deve pôr na sua formação:

 

«A Igreja não está fundada verdadeiramente, nem vive plenamente, nem é o sinal perfeito de Cristo entre os homens se, com a hierarquia, não existe e trabalha um laicado autêntico. De facto, sem a presença activa dos leigos, o Evangelho não pode gravar-se profundamente nos espíritos, na vida e no trabalho de um povo. Por isso, é necessário, desde a fundação da Igreja, prestar grande atenção à formação de um laicado cristão amadurecido (…). O principal dever deles, homens e mulheres, é o testemunho de Cristo, que eles têm obrigação de dar, pela sua vida e palavra, na família, no grupo social, no meio profissional»[32].

 

E Paulo VI, na Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, n.º 70, salienta alguns aspectos importantes da acção evangelizadora dos fiéis leigos:

 

«O campo próprio da sua actividade evangelizadora é o mundo vasto e complicado da política, da realidade social e da economia, mas também da cultura, das ciências e das artes, da vida internacional, dos “mass media” e, ainda outras realidades abertas à evangelização, como são o amor, a família, a educação das crianças e dos adolescentes, o trabalho profissional e o sofrimento[33]».

 

Os Documentos referidos (apenas alguns entre muitos) mostram que a acção dos fiéis leigos é determinante sempre. É-o particularmente hoje, na Igreja que está em Portugal, que os deve acarinhar, estimular e promover.

Nesse sentido, não podemos deixar de tirar todas as conclusões da lição do Papa aos Bispos portugueses na recente Visita ad Limina (Novembro de 2007). Partindo da constatação de que «a confissão mais frequente nos lábios dos cristãos foi a falta de participação na vida comunitária», Bento XVI referiu, sem meios termos, que «é preciso mudar o estilo de organização da comunidade eclesial portuguesa e a mentalidade dos seus membros», e acrescentou que, na «eclesiologia de comunhão na senda do Concílio», os clérigos e os leigos devem tomar consciência de que «todos somos um, desde quando fomos baptizados e integrados na família dos filhos de Deus, e todos somos corresponsáveis pelo crescimento da Igreja».

 

 

5. Um rumo: participação, comunhão, santidade e missão

 

Começamos por lembrar a viva exortação que, na Carta Apostólica Novo Millenio Ineunte, de 6 de Janeiro de 2001, o Papa João Paulo II dirigiu às Igrejas particulares:

 

«É nas Igrejas locais que se podem estabelecer as linhas programáticas concretas – objectivos e métodos de trabalho, formação e valorização dos agentes da pastoral, busca dos meios necessários – que permitam levar o anúncio de Cristo às pessoas, plasmar as comunidades, permear em profundidade a sociedade e a cultura através do testemunho dos valores evangélicos. Por isso, exorto vivamente os Pastores das Igrejas particulares, valendo-se do contributo das diversas componentes do povo de Deus, a delinear com confiança as etapas do caminho futuro, sintonizando as opções de cada comunidade diocesana com as das Igrejas limítrofes e as da Igreja universal» (n.º 29).

 

Neste sentido, o Papa apontou mesmo «algumas prioridades pastorais», abrindo o elenco com a santidade:

 

«Em primeiro lugar, não hesito em dizer que o horizonte para que deve tender todo o caminho pastoral é a santidade» (n.º 30),

 

que define logo como

 

«a “medida alta” da vida cristã ordinária» (n. 31).

 

E o Papa Bento XVI prosseguiu este programa, na sua primeira viagem apostólica internacional, na XX Jornada Mundial da Juventude, em Colónia. No Discurso proferido na Vigília com os Jovens, na Esplanada de Marienfeld, em Colónia, em 20 de Agosto de 2005, Bento XVI desafiou os Jovens assim:

 

«Somente dos santos, somente de Deus vem a verdadeira revolução, a mudança decisiva do mundo».

 

 

5.1. O que é a santidade?

 O Deus bíblico manifesta-se sempre atento e compassivo para com o seu povo e comprometido na libertação de todas as escravidões. É quanto se pode ver neste texto paradigmático do Livro do Êxodo, em que Deus se apresenta a Moisés e programa de outra maneira a vida de Moisés:

 «3,7YHWH disse: “Eu bem VI a opressão do meu povo que está no Egipto, e OUVI o seu grito diante dos seus opressores; CONHEÇO, na verdade, os seus sofrimentos. 8DESCI a fim de o libertar da mão dos egípcios e de o fazer subir desta terra para uma terra boa e espaçosa, para uma terra que mana leite e mel (…)”

10E agora, VAI; Eu te envio ao Faraó, e faz sair do Egipto o meu povo, os filhos de Israel» (Ex 3,7-8.10).

 O Deus bíblico revela aqui a sua identidade, não afirmando-se e defendendo-se à volta do seu «eu», do seu «céu», resguardando-se dentro das portas douradas da sua eternidade, mas DESCENDO até à alteridade do outro, de quem «VÊ a opressão», «OUVE o grito», «CONHECE os sofrimentos», tem em vista uma solução ou resposta.

Extraordinário retrato da SANTIDADE de Deus, que saindo de si por amor, mostra a sua santidade. É um Deus, não agarrado a si, mas que sai de si. Um Deus Santo (qadôsh) é, de acordo com a mais aceite etimologia de qadôsh, um Deus «separado»[34]: não «separado» do mundo por amor criado, nem do ser humano, pois sobre ele se debruça com premura; mas «separado» sobretudo de si mesmo, saindo de si mesmo, para vir ao nosso encontro, tanto se interessa por nós[35]. Nestes dois sentidos, o Deus Santo nada tem a ver com o conceito de divindade do mundo grego e de outros mundos, que divinizam a inteira natureza e encerram a divindade ciosamente nas paredes douradas da sua divindade. Um Deus Santo que santifica, isto é, que nos chama a sair de nós para irmos ao encontro dos outros, por amor.

Deus SANTO, que santifica. Face às situações angustiosas do seu Povo, Deus nunca responde alguma coisa. Deus responde sempre, não alguma coisa, mas alguém. Quem é aqui, no caso concreto da opressão do Egipto, a resposta de Deus? É Moisés, que é convidado a sair de si, por amor, como Deus.

E hoje quem é a resposta de Deus para os dramas do seu povo? Temos de dizer, não há escapatória, que somos nós. Devemos nós também sair de nós, por amor, para irmos ao encontro dos nossos irmãos.

Aí estão, em paralelo, lado a lado, a santidade e a missão. O Deus da missão e em missão é o Deus Santo, Santo, Santo.

Que o Deus da missão e em missão, o Deus Santo, nos santifique.

 

António Couto


[1] Texto na Revista quinzenal Il Regno, 17, 2004, p. 544.

[2] CONFERÊNCIA EPISCOPAL ITALIANA, Nota Pastoral Il volto missionario delle parrocchie in un mondo che cambia, de 30 de Maio de 2004.

[3] CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, Nota dottrinale su alcuni aspetti dell’evangelizzazione, 3 de Dezembro de 2007.

[4] M. BLANCHOT, Infinito Intrattenimento, Turim, Einaudi, 1977, p. 167-168.

[5] A. ERNOUT, A. MEILLET, Dictionnaire Étymologique de la Langue Latine. Histoire des mots, Paris, nova edição revista, corrigida e aumentada, 1939, p. 722-723.

[6] Marcador que atravessa a Carta Encíclica Spe salvi, de Bento XVI, de 30 de Novembro de 2007. Vejam-se os números 2, 3, 23, 27 e 44.

[7] É sintomático que o hebraico bíblico não conheça um termo equivalente para o nosso termo «coisa». De facto, a palavra dabar, que no hebraico posterior veio também a significar «coisa», no hebraico bíblico aparece a significar: discurso, palavra, mensagem, relato, notícia, conselho, pedido, promessa, decisão, sentença, tema, história, dito, expressão, afazer, ocupação, accões, boas acções, acontecimentos, modo, maneira, razão, causa, mas nunca «coisa». Ver A. J. HESCHEL, Il Sabato. Il suo significato per l’uomo moderno, Cernusco, Garzanti, 2001, p. 11.

[8] Ver as páginas interessantíssimas de S. FAUSTI, L’Idiozia. Debolezza di Dio e salvezza dell’uomo, Milão, Àncora, 2001, p. 53 e 57-58.

[9] CONFERÊNCIA EPISCOPAL ITALIANA, Documento Pastoral L’impegno missionario della Chiesa italiana, de 21 de Abril de 1982.

[10] Em 1 Ts 1,4, Paulo dirige-se com afecto aos cristãos de Tessalónica, usando a expressão «irmãos amados por Deus», em que «amados» (êgapêménoi) se apresenta no particípio perfeito passivo do verbo agapáô, traduzindo assim um amor novo, vindo de Deus, que começou a amar e a amar continua ainda hoje, pois é esse o sentido do perfeito grego.

[11] PAULO VI, Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, de 8 de Dezembro de 1975, n.º 7; CONFERÊNCIA EPISCOPAL ITALIANA, Comunicare il Vangelo in un mondo che cambia. Orientamenti pastorali dell’Episcopato Italiano per il primo decennio del 2000, n.º 33, de 29 de Junho de 2001.

[12] PAULO VI, Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, de 8 de Dezembro de 1975, n.º 75.

[13] JOÃO PAULO II, Carta Apostólica Redemptoris Missio, de 7 de Dezembro de 1990, n.º 21, e título do Capítulo III.

[14] CONFERÊNCIA EPISCOPAL ITALIANA, Nota Pastoral «Rigenerati per una speranza viva» (1 Pe 1,3): testimoni del grande «Sì» di Dio all’uomo, de 29 de Junho de 2007, n.º 9.

[15] JOÃO PAULO II, Carta Apostólica Novo Millenio Ineunte, de 6 de Janeiro de 2001, n.º 40.

[16] SECRETARIADO PARA OS NÃO-CRISTÃOS, Documento L’atteggiamento della Chiesa di fronte ai seguaci di altre religioni. Riflessioni e orientamenti su dialogo e missione, de 10 de Junho de 1984.

[17] CONFERÊNCIA EPISCOPAL ITALIANA, L’impegno missionario della Chiesa italiana, n.º 22, alínea d), de 21 de Abril de 1982.

[18] CONFERÊNCIA EPISCOPAL ITALIANA, L’impegno missionario della Chiesa italiana, n.º 30, de 21 de Abril de 1982.

[19] CONFERÊNCIA EPISCOPAL ITALIANA, Comunicare il Vangelo in un mondo che cambia. Orientamenti pastorali dell’Episcopato Italiano per il primo decennio del 2000, de 29 de Junho de 2001.

[20] BENTO XVI, Mensagem para o 45.º dia Mundial de Oração pelas Vocações, 13 de Abril de 2008, n.º 8.

[21] PAULO VI, Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, de 8 de Dezembro de 1975, n.º 14.

[22] CONFERÊNCIA EPISCOPAL ITALIANA, Questa è la Nostra Fede. Nota pastorale sul primo annuncio del Vangelo, de 15 de Maio de 2005, n.º 2.

[23] CONFERÊNCIA EPISCOPAL ITALIANA, Nota Pastoral Il volto missionario delle parrocchie in un mondo che cambia, de 30 de Maio de 2004.

[24] CONFERÊNCIA EPISCOPAL ITALIANA, Nota Pastoral «Rigenerati per una speranza viva» (1 Pe 1,3): testimoni del grande «Sì» di Dio all’uomo, de 29 de Junho de 2007.

[25] CONFERÊNCIA EPISCOPAL ITALIANA, Comunicare il Vangelo in un mondo che cambia. Orientamenti pastorali dell’Episcopato Italiano per il primo decennio del 2000, n.º 32, de 29 de Junho de 2001; CONFERÊNCIA EPISCOPAL ITALIANA, Nota Pastoral Il volto missionario delle parrocchie in un mondo che cambia, n.º 1 e 6, de 30 de Maio de 2004.

[26] CONFERÊNCIA EPISCOPAL ITALIANA, Nota Pastoral «Rigenerati per una speranza viva» (1 Pe 1,3): testimoni del grande «Sì» di Dio all’uomo, de 29 de Junho de 2007, n.º 9.

[27] CONFERÊNCIA EPISCOPAL ITALIANA, Questa è la Nostra Fede. Nota pastorale sul primo annuncio del Vangelo, de 15 de Maio de 2005, n.º 21.

[28] BENTO XVI, Servos e Apóstolos de Jesus Cristo (Mensagem para o Dia Missionário Mundial 2008), de 11 de Maio de 2008, n.º 4.

[29] CONFERÊNCIA EPISCOPAL ITALIANA, Comunicare il Vangelo in un mondo che cambia. Orientamenti pastorali dell’Episcopato Italiano per il primo decennio del 2000, de 29 de Junho de 2001.

[30] Todas as sugestões foram retiradas de CONFERÊNCIA EPISCOPAL ITALIANA, Questa è la Nostra Fede. Nota pastorale sul primo annuncio del Vangelo, de 15 de Maio de 2005, n.º 21 e 23.

[31] Cito, neste contexto, D. Francesco Lambiasi, bispo de Rimini (Itália), que, para deixar claro o papel absolutamente insubstituível dos fiéis leigos, disse (eu ouvi) e escreveu (eu li) assim: «A evangelização ou a farão os leigos ou não se fará». L. ALICI, F. LAMBIASI, Ho qualcosa da dirti. Due lettere a un prete e a un laico, Roma, AVE, p. 45.

[32] CONCÍLIO VATICANO II, DecretoAd Gentes, de 7 de Dezembro de 1965, n.º 21.

[33] PAULO VI, Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, de 8 de Dezembro de 1975, n.º 70.

[34] W. KORNFELD, qadôsh, in G. J. BOTTERWECK, H. RINGGREN, H.-J. FABRY (eds.), Theological Dictionary of the Old Testament, Vol. XII, Grand Rapids, Eerdmans, 2003, p. 523.

[35] C. DI SANTE, La rinascita dell’utopia, Roma, Lavoro, 2000, p. 82.

Uma resposta a SITUAÇÕES AD GENTES NA IGREJA EM PORTUGAL

  1. Parabéns, sr. D. António Couto. Leio sempre os seus textos com todo o interesse, os quais revelam um bispo santo, sábio e apaixonado por Jesus Cristo e pela evangelização.
    Aproveito para comunicar também o meu blog: http://operfumededeus.blogspot.com

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