O AMOR NÃO VOLTA AO PÓ

Novembro 15, 2008

 

 

1. «O Senhor-Deus modelou o homem do pó do solo, e soprou nas suas narinas um alento de vida, e o homem tornou-se um ser vivo» (Génesis 2,7).

 

2. Descrição de sonho. Um Deus que modela com as suas mãos o homem da nossa terra pura e fecunda. O húmus, a humildade, o homem. Tecido de húmus, de humildade, modelado e embalado pelas mãos maternais de Deus. Acariciado, mimado, animado, pelo sopro puro de Deus: beijo de Deus no rosto do homem. Eis o homem.

 

3. Alguns Livros à frente, no final do Deuteronómio, continuamos a ler, para feliz espanto nosso, que «Moisés, servo de Deus, morreu ali, na terra de Moab, à boca de Deus» (Deuteronómio 34,5), depois de, no Livro dos Números (12,8), Deus ter já aparecido a declarar: «Falo com ele (Moisés) boca a boca».

 

4. Nenhuma distância. Tamanha intimidade. Tanto carinho. Quando nasce. Durante a vida toda. Também na morte. Note-se bem que o homem não é só pó. É pó modelado e soprado,/ beijado,/ sustentado pelo alento puro e amoroso de Deus. O homem é, portanto, pó e amor. E o amor não volta ao pó, pois «o amor é forte,/ é como a morte» (Cântico dos Cânticos 8,6), «liberta da morte» (Tobias 12,9; Provérbios 10,2; 11,4; Dn 4,24). Quem acolhe o amor de Deus não fica, pois, perdido nas páginas do pó (Jeremias 17,13), mas é recolhido pelas mãos carinhosas de Deus nas páginas do livro da vida (Salmo 87,5; Isaías 4,3; Daniel 12,1; Malaquias 3,16; Lucas 10,20; Apocalipse 20,12).

 

5. Contrasta absolutamente com o que vemos descrito nos mitos mesopotâmicos antigos, nomeadamente no Enuma Elish e no poema de Atra-hasis. Também aí os deuses modelam o homem a partir da terra. Mas não se trata de terra pura e fecunda, carregada de humildade. É, antes, terra amassada com o sangue e restos dos deuses maus, assassinados pelos deuses ditos bons. Como se pudessem ser bons os deuses violentos e assassinos! De qualquer modo, nesses textos mitológicos mesopotâmicos, o homem nasce tristemente de uma acção de limpeza que os deuses levaram a efeito no seu seio. É fruto, não de mãos de amor, mas de mãos assassinas e ensanguentadas, que, depois de varrerem o lixo do seu seio, o despejaram no homem, como se de um saco de lixo ou de um contentor se tratasse! Nenhum amor nestes deuses violentos, nenhum amor neste homem, que não é mais do que o caixote de lixo da divindade. Fruto da violência, mal feito, feito de mal, este homem é mau e mesquinho e violento por natureza, marionete nas mãos dos deuses violentos, vítima revoltada e violenta de deuses tirânicos e prepotentes. Sem liberdade e sem graça, sem humanidade, sem humildade, sem amor. Uma espécie de robot violento e metalizado, irresponsável, impassível, insensível, inculpável. In-culpável: o mal que o afecta é um mal natural; não é sequer mal moral, pois este supõe e requer a liberdade.

 

6. Ler o homem e ler o mundo, ler este homem e ler este mundo: gesto que não pode ser feito sem respeitar a intencionalidade do criador, que me deu a mim mesmo por amor, para que eu me receba por amor, e me deu o mundo por amor, para que eu o receba por amor. Ao contrário do que possamos pensar, receber não é um gesto fácil; é um gesto difícil que requer inteligência e coragem. Implica que eu compreenda que não tenho em mim o meu fundamento, que não tenho nenhum direito sobre mim nem sobre o mundo, que eu não sou meu e que o mundo não é meu, que eu não sou dono de mim nem dono do mundo, que não posso dar-lhes o sentido que eu quiser.

 

7. Quando leio, por exemplo, os cantos dos Lusíadas, devo esforçar-me por compreender e respeitar a intencionalidade e o sentido que Camões lhes deu. Os cantos dos Lusíadas têm um sentido, antes de receberem o sentido que eu lhes possa, porventura, dar. É evidente que uma criança que vê o livro dos Lusíadas sobre a mesa, pode entreter-se a rasgar as suas folhas para fazer aviões, barquinhos ou chapéus. Essa actividade lúdica é também dar um sentido ao livro dos Lusíadas, mas não é certamente respeitar o sentido dos Lusíadas. Da mesma forma, um ignorante ou um mal-intencionado pode pegar no livro dos Lusíadas e atirá-lo para a fogueira ou para o lixo. Também não é certamente respeitar o sentido dos Lusíadas.

 

8. Note-se que eu posso fazer hoje mais ou menos a mesma coisa com o «livro da criação», o grande livro do homem e do mundo. Posso não respeitar o sentido da criação, e imprimir-lhe então o meu sentido, o sentido que me interessa dar-lhe segundo os meus desejos e caprichos.

 

9. Este mundo por amor criado e por amor dado ao homem, embrulhado em papel de presente, recebido pelo homem com amor e «reconhecimento», constrasta também absolutamente com o mundo dos mitos mesopotâmicos antigos, surgido da violência e morte. Aí, o céu e a terra são as duas metades da carcassa do monstro primordial Tiamat, vencido pelo deus Marduk. Mundo mau, mal feito, feito de mal, habitado pelo mal, por deuses maus e homens maus em permanente desassossego e luta, mundo sem solução, sem salvação.

 

10. Pergunto-me muitas vezes se este nosso mundo, este mundo que vemos hoje, não se parece mais com o mundo em negativo e cheio de sucata dos mitos mesopotâmicos do que com o mundo bom, sete vezes bom, criado e dado ao homem por amor, que encontramos nas páginas da Bíblia.

 

11. O sentido é o amor, que não volta ao pó. O amor liberta da morte, meu irmão de Novembro.

 

António Couto

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CONGRESSO MISSIONÁRIO NACIONAL 2008

Novembro 12, 2008

Na página em branco

poisam as palavras:

amor, paz, pão, comunicação.

 

Na página em branco

poisam as estradas,

pontes, horizontes, escolas para o meu irmão:

hifenização.

 

Na página em branco

poisam os sorrisos, os sonhos, a missão:

a ternura de um Deus que quis precisar da minha mão.

 

Um vinco na página, uma dobra,

transforma as palavras em mensagem,

que a aragem do Espírito fará chegar a ti.

Evangelização, missão coração a coração.

 

Abres a página dobrada sobre o vinco:

as palavras saltarão para o teu colo,

para o teu rosto, para o teu regaço,

para o teu sorriso, para a tua mão.

 

Estão vivas as palavras, meu irmão,

estão vivas.

Acordam quando tu as lês,

todos os dias,

quando desdobras a página, o coração,

onde dormem suavemente enternecidas.

 

Um vinco na página.

Aí está o Congresso, não de gesso,

mas um gesto aberto e de tenra comunhão.

 

Senhora da Anunciação, que corres ligeira sobre os montes,

vela por nós, fica à nossa beira.

É bom ter a esperança como companheira.

 

Vai, meu irmão!

Vai, minha irmã!

Não deixes para amanhã

a beleza dos teus passos sobre os montes:

Vive a missão, rasga horizontes!

 

António Couto


A TERRA DE QUE PRECISA UM HOMEM

Novembro 3, 2008

1. Pode ler-se, num dos mais belos contos do grande escritor russo Leão Tolstoi, a terrível história de Pahóm, um modesto camponês, que vivia feliz com a mulher e os filhos, e cuja única consumição era não ter terra suficiente. De facto, o seu gado invadia, de vez em quando, os prados de uma vizinha que possuía uns 120 hectares de terras, e o carrancudo feitor não tardava em cobrar ao camponês as respectivas multas. Até que um dia, a vizinha pôs as suas terras à venda, e o feitor preparava-se para as comprar. Os camponeses ficaram inquietos a pensar no inevitável aumento das multas caso o feitor se tornasse no dono das terras. A única maneira de evitar esse obstáculo era juntarem-se e comprarem eles mesmos as terras. Mas não se conseguiram pôr de acordo, e cada um comprou segundo as suas posses, tendo acordado com a vizinha metade a pronto, e o resto um ano depois.

 

2. Um comprou 20 hectares, outros 10, outros menos. Pahóm consultou a mulher. Investiram as suas poupanças, puseram um filho a trabalhar, venderam um cavalo, pediram emprestado, o suficiente para Pahóm comprar um campo de 15 hectares. Agora que tinha terra sua, Pahóm ficou feliz outra vez. Tinha agora terreno suficiente para cultivar e para o seu gado pastar à vontade. Mas nem tudo eram rosas. Como que se voltou o feitiço contra o feiticeiro. Agora era o gado dos vizinhos pobres que invadia as terras de Pahóm. Ao princípio, Pahóm tolerava esse pecado. Mas, com o andar do tempo, Pahóm começou a perder a paciência, levou os vizinhos a tribunal, e as coisas complicaram-se. Ameaçaram queimar-lhe a casa. Pahóm tinha agora mais terras do que dantes, mas vivia muito pior.

 

3. Foi por esta altura que se levantou o rumor de que muita gente ia sair da aldeia. A ambição voltou a atacar Pahóm: «Se muitos se fossem embora, mais terra ficaria livre, e Pahóm poderia então arredondar a sua propriedadezinha; então é que seria viver à farta, e sem consumições!» Estava Pahóm nestes pensamentos, quando calhou de chegar a sua casa um camponês vindo de fora, que estava de viagem, e a quem Pahóm deu hospedagem. À ceia, puseram-se a conversar. Afinal, o forasteiro vinha de além-Volga, onde tinha trabalhado, e contou a Pahóm que havia muita gente a demandar aquelas paragens, pois lá havia muita terra, e tão boa que o centeio crescia à altura de um cavalo. Havia casos de camponeses que lá chegaram sem nada, e logo receberam 75 hectares de boa terra, de tal modo que já estavam ricos. O peito de Pahóm inflamou-se de cobiça: «Para que hei-de eu continuar neste buraco, se no além-Volga se vive tão bem? Vou vender tudo, e, com o dinheiro, vou começar a vida nessa terra de sonho!»

 

4. Depois de se informar melhor, Pahóm partiu para o além-Volga. Os dirigentes da aldeia concederam-lhe 375 hectares de terras fabulosas. Pahóm construiu casas, comprou gados, cultivou os campos. Estava incomparavelmente melhor do que antes. No 2.º ano, ainda alugou novos terrenos, tanta era a sua ambição de possuir mais e mais… No 3.º ano, Pahóm comprou mais um terreno de 500 hectares por 1500 rublos. Mas já estava a ficar cansado. Também ali havia disputas por causa das terras. Foi então que passou pela casa de Pahóm um comerciante, que vinha da terra dos Baquires, que era muito longe, e disse a Pahóm que tinha lá comprado 5000 hectares de boa terra apenas por 1000 rublos. – «Há por lá mais terra do que a que se pode percorrer num ano de marcha» – disse o comerciante. Ardeu outra vez de cobiça o peito de Pahóm, que pensou consigo: «Na terra dos Baquires, posso eu comprar dez vezes mais terra do que aqui, e pelo mesmo dinheiro!»

 

5. Mal o comerciante o deixou, logo Pahóm começou os preparativos para a viagem à terra dos Baquires. Partiu com um criado. Muitos dias depois, chegaram às tendas dos Baquires. Pahóm ofereceu presentes ao chefe, e falaram das terras. O chefe disse logo que Pahóm podia ficar com a terra que quisesse. Pahóm quis logo saber o preço, e o chefe respondeu-lhe: «O nosso preço é sempre o mesmo: 1000 rublos por dia». – «Por dia? Que medida é essa? Quantos hectares?» – perguntou Pahóm. – «Isso não sabemos; vendemos terra ao dia; é tua a terra a que puderes dar a volta, a pé, num dia; e são 1000 rublos por dia», – retorquiu o chefe. Pahóm ficou fora de si: – «Mas num dia pode-se andar muito!…». O chefe riu-se: – «Pois será toda tua! Com uma condição: se não voltares no mesmo dia ao ponto de partida, perdes o dinheiro». Pahóm ficou contentíssimo, e decidiu partir na manhã seguinte. Nem dormiu naquela noite só de pensar na quantidade de terra que conseguiria abarcar…

 

6. Antes do nascer do sol, lá estavam no cimo da colina os Baquires, Pahóm e o seu criado. – «Olha para isto» – disse o chefe –, «tudo o que vês é nosso; poderás ficar com o que quiseres». O chefe colocou no chão o barrete de pele de raposa, e disse: – «O sinal é este; partes daqui e voltas aqui; é tua toda a terra a que deres a volta até ao pôr-do-sol». Pahóm depositou o dinheiro no barrete, e, ao primeiro raio de sol, partiu, com a pá aos ombros para marcar o percurso. Um quilómetro andado, fez o primeiro buraco, e amontoou os torrões, para servir de sinal. Andou, andou, andou… Marcou, marcou, marcou… Cada vez as terras lhe pareciam melhores! Era uma pena perdê-las! O sol queimava. Pahóm começava a sentir o cansaço. Tinha os pés cortados… Continuou a andar cada vez com mais dificuldade. Mas não podia perder terrenos tão bons. Já esgotado, olhou o sol. Estava já perto do crepúsculo, e Pahóm ainda longe da colina. O sol caía para o horizonte, e Pahóm subia para a colina. – «E se chego tarde?» Estugou o passo, atirou fora o casaco, as botas, o cantil; ficou só com a pá para se apoiar. Pahóm Já mal podia andar. O sol punha-se. Pahóm soltou um grito: «Tudo em vão!», e ia parar, quando ouviu os gritos dos Baquires, e se lembrou que, de lá, do alto da colina, ainda se via o sol. Trepou pela colina. Lá estava o barrete e o chefe a rir-se, de mãos na barriga. Pahóm soltou um grito, as pernas falharam-lhe, e foi com as mãos que agarrou o barrete.

 

7. – «Grande homem, grande homem!» – gritou o chefe. – «A terra que ele ganhou!» O criado de Pahóm veio a correr e tentou levantá-lo, mas viu que o sangue lhe corria da boca. Pahóm morrera. Os Baquires davam estalos com a língua, para mostrar a pena que sentiam. O criado pegou na pá, fez uma cova em que coubesse Pahóm, e meteu-o dentro. Sete palmos de terra: não precisava de mais.

 

8. Pensa nisto, meu irmão de Novembro!

 

António Couto