A TERRA DE QUE PRECISA UM HOMEM


1. Pode ler-se, num dos mais belos contos do grande escritor russo Leão Tolstoi, a terrível história de Pahóm, um modesto camponês, que vivia feliz com a mulher e os filhos, e cuja única consumição era não ter terra suficiente. De facto, o seu gado invadia, de vez em quando, os prados de uma vizinha que possuía uns 120 hectares de terras, e o carrancudo feitor não tardava em cobrar ao camponês as respectivas multas. Até que um dia, a vizinha pôs as suas terras à venda, e o feitor preparava-se para as comprar. Os camponeses ficaram inquietos a pensar no inevitável aumento das multas caso o feitor se tornasse no dono das terras. A única maneira de evitar esse obstáculo era juntarem-se e comprarem eles mesmos as terras. Mas não se conseguiram pôr de acordo, e cada um comprou segundo as suas posses, tendo acordado com a vizinha metade a pronto, e o resto um ano depois.

 

2. Um comprou 20 hectares, outros 10, outros menos. Pahóm consultou a mulher. Investiram as suas poupanças, puseram um filho a trabalhar, venderam um cavalo, pediram emprestado, o suficiente para Pahóm comprar um campo de 15 hectares. Agora que tinha terra sua, Pahóm ficou feliz outra vez. Tinha agora terreno suficiente para cultivar e para o seu gado pastar à vontade. Mas nem tudo eram rosas. Como que se voltou o feitiço contra o feiticeiro. Agora era o gado dos vizinhos pobres que invadia as terras de Pahóm. Ao princípio, Pahóm tolerava esse pecado. Mas, com o andar do tempo, Pahóm começou a perder a paciência, levou os vizinhos a tribunal, e as coisas complicaram-se. Ameaçaram queimar-lhe a casa. Pahóm tinha agora mais terras do que dantes, mas vivia muito pior.

 

3. Foi por esta altura que se levantou o rumor de que muita gente ia sair da aldeia. A ambição voltou a atacar Pahóm: «Se muitos se fossem embora, mais terra ficaria livre, e Pahóm poderia então arredondar a sua propriedadezinha; então é que seria viver à farta, e sem consumições!» Estava Pahóm nestes pensamentos, quando calhou de chegar a sua casa um camponês vindo de fora, que estava de viagem, e a quem Pahóm deu hospedagem. À ceia, puseram-se a conversar. Afinal, o forasteiro vinha de além-Volga, onde tinha trabalhado, e contou a Pahóm que havia muita gente a demandar aquelas paragens, pois lá havia muita terra, e tão boa que o centeio crescia à altura de um cavalo. Havia casos de camponeses que lá chegaram sem nada, e logo receberam 75 hectares de boa terra, de tal modo que já estavam ricos. O peito de Pahóm inflamou-se de cobiça: «Para que hei-de eu continuar neste buraco, se no além-Volga se vive tão bem? Vou vender tudo, e, com o dinheiro, vou começar a vida nessa terra de sonho!»

 

4. Depois de se informar melhor, Pahóm partiu para o além-Volga. Os dirigentes da aldeia concederam-lhe 375 hectares de terras fabulosas. Pahóm construiu casas, comprou gados, cultivou os campos. Estava incomparavelmente melhor do que antes. No 2.º ano, ainda alugou novos terrenos, tanta era a sua ambição de possuir mais e mais… No 3.º ano, Pahóm comprou mais um terreno de 500 hectares por 1500 rublos. Mas já estava a ficar cansado. Também ali havia disputas por causa das terras. Foi então que passou pela casa de Pahóm um comerciante, que vinha da terra dos Baquires, que era muito longe, e disse a Pahóm que tinha lá comprado 5000 hectares de boa terra apenas por 1000 rublos. – «Há por lá mais terra do que a que se pode percorrer num ano de marcha» – disse o comerciante. Ardeu outra vez de cobiça o peito de Pahóm, que pensou consigo: «Na terra dos Baquires, posso eu comprar dez vezes mais terra do que aqui, e pelo mesmo dinheiro!»

 

5. Mal o comerciante o deixou, logo Pahóm começou os preparativos para a viagem à terra dos Baquires. Partiu com um criado. Muitos dias depois, chegaram às tendas dos Baquires. Pahóm ofereceu presentes ao chefe, e falaram das terras. O chefe disse logo que Pahóm podia ficar com a terra que quisesse. Pahóm quis logo saber o preço, e o chefe respondeu-lhe: «O nosso preço é sempre o mesmo: 1000 rublos por dia». – «Por dia? Que medida é essa? Quantos hectares?» – perguntou Pahóm. – «Isso não sabemos; vendemos terra ao dia; é tua a terra a que puderes dar a volta, a pé, num dia; e são 1000 rublos por dia», – retorquiu o chefe. Pahóm ficou fora de si: – «Mas num dia pode-se andar muito!…». O chefe riu-se: – «Pois será toda tua! Com uma condição: se não voltares no mesmo dia ao ponto de partida, perdes o dinheiro». Pahóm ficou contentíssimo, e decidiu partir na manhã seguinte. Nem dormiu naquela noite só de pensar na quantidade de terra que conseguiria abarcar…

 

6. Antes do nascer do sol, lá estavam no cimo da colina os Baquires, Pahóm e o seu criado. – «Olha para isto» – disse o chefe –, «tudo o que vês é nosso; poderás ficar com o que quiseres». O chefe colocou no chão o barrete de pele de raposa, e disse: – «O sinal é este; partes daqui e voltas aqui; é tua toda a terra a que deres a volta até ao pôr-do-sol». Pahóm depositou o dinheiro no barrete, e, ao primeiro raio de sol, partiu, com a pá aos ombros para marcar o percurso. Um quilómetro andado, fez o primeiro buraco, e amontoou os torrões, para servir de sinal. Andou, andou, andou… Marcou, marcou, marcou… Cada vez as terras lhe pareciam melhores! Era uma pena perdê-las! O sol queimava. Pahóm começava a sentir o cansaço. Tinha os pés cortados… Continuou a andar cada vez com mais dificuldade. Mas não podia perder terrenos tão bons. Já esgotado, olhou o sol. Estava já perto do crepúsculo, e Pahóm ainda longe da colina. O sol caía para o horizonte, e Pahóm subia para a colina. – «E se chego tarde?» Estugou o passo, atirou fora o casaco, as botas, o cantil; ficou só com a pá para se apoiar. Pahóm Já mal podia andar. O sol punha-se. Pahóm soltou um grito: «Tudo em vão!», e ia parar, quando ouviu os gritos dos Baquires, e se lembrou que, de lá, do alto da colina, ainda se via o sol. Trepou pela colina. Lá estava o barrete e o chefe a rir-se, de mãos na barriga. Pahóm soltou um grito, as pernas falharam-lhe, e foi com as mãos que agarrou o barrete.

 

7. – «Grande homem, grande homem!» – gritou o chefe. – «A terra que ele ganhou!» O criado de Pahóm veio a correr e tentou levantá-lo, mas viu que o sangue lhe corria da boca. Pahóm morrera. Os Baquires davam estalos com a língua, para mostrar a pena que sentiam. O criado pegou na pá, fez uma cova em que coubesse Pahóm, e meteu-o dentro. Sete palmos de terra: não precisava de mais.

 

8. Pensa nisto, meu irmão de Novembro!

 

António Couto

Anúncios

2 Responses to A TERRA DE QUE PRECISA UM HOMEM

  1. Quantos não estarão imbuídos do espírito ambicioso de Pahóm ? Esta sociedade do consumo, do mais ter, do mais mostrar, do inventar novas “necessidades” até onde pode levar o homem senão à morte da sua humanidade ? Haja que grite, nem que seja em voz baixa, para que nos apercebamos dos equívocos em que nos enredamos…

  2. «Terra que vejas e Casa em que caibas»
    «Perde o soberbo a vista e o ingrato a memória»

    velhos provérbios, velhos provérbios…

%d bloggers like this: