O NATAL NA HISTÓRIA


1. Foi no século II, e com intenções sincréticas, que o gnóstico egípcio Basílides e seus discípulos introduzem a celebração da Epifania, em que celebravam o Baptismo de Jesus (para eles, o Verbo veio sobre o homem Jesus no Baptismo e não no nascimento de Jesus), a verdadeira manifestação de Deus no mundo. A festa gnóstica da Epifania foi colocada em 6 de Janeiro, pois nessa data já se celebravam diversas festas pagãs em honra de Adónis, Dionísio e Osíris. Às festas pagãs, os gnósticos contrapõem a manifestação de Cristo nas águas do Jordão.

 

2. Em princípios do século IV, a festa da Epifania de Jesus consta já no calendário da Grande Igreja, que junta, no entanto, à celebração do Baptismo de Jesus também a celebração do seu Nascimento. Assim, a noite de 5 para 6 de Janeiro era particularmente reservada à celebração do Nascimento de Jesus, celebrando-se o Baptismo no dia 6.

 

3. A celebração do Nascimento de Jesus em 25 de Dezembro, dissociada da Epifania em 6 de Janeiro, verifica-se pela primeira vez em Roma, provavelmente entre os anos 325 e 354: a primeira menção regista-se na Cronografia de Philocalus (1.ª ed. em 336?). Para a dissociação do Nascimento de Jesus do âmbito da Epifania, e para a sua celebração como Festa independente, muito contribuiu a necessidade de acentuar, contra gnósticos e docetas, que Deus se fez homem no Nascimento de Jesus. Para que esta Festa do Natal se passasse a realizar em 25 de Dezembro, terá contribuido o facto de os romanos celebrarem em 25 de Dezembro a Festa do Sol (solstício de Inverno), em que o dia começa a ganhar terreno à noite. Ao facto não será também alheia a posição do imperador Constantino, fervoroso adepto do culto do Sol e simpatizante do cristianismo (na verdade, só renegou o paganismo, baptizando-se, no leito de morte), que via com bons olhos os dividendos políticos que lhe poderiam advir de um tal sincretismo religioso. Neste sentido, tinha já Constantino oficializado o descanso dominical, no ano 321, numa altura em que o «Dia do Senhor» era já conhecido por «Dia do Sol».

 

4. Grande impacto no mundo cristão teve o Natal de 1223. O responsável foi S. Francisco de Assis que construiu um presépio numa colina de Greccio (Itália).

 

5. Muitas foram as considerações astronómico-simbólicas arranjadas para situar e explicar o nascimento de Jesus em 25 de Dezembro ou noutras datas. Todas sem fundamento válido.

Os indícios mais seguros de que dispomos continuam a ser os que constam nos Evangelhos da Infância de Mateus (Mt 1-2) e Lucas (Lc 1-2). Os dados sóbrios que aí encontramos, permitem-nos situar com muita probabilidade o Nascimento de Jesus nos anos 7-6 a.C., num estábulo anexo à “sala de hóspedes” superlotada de uma casa de Belém de Judá, certamente pertença da família de José. De notar que Lucas tem em vista mesmo uma “sala de hóspedes” (grego katályma: Lc 2,7), e não uma “hospedaria”, como é vulgar dizer-se. Lucas fala de uma “hospedaria” no contexto da parábola do bom samaritano, mas usa o termo grego pandocheíon (Lc 10,34). A arquelogia mostrou que o traçado das casas da Judeia contemplava muitas vezes uma sala de hóspedes, que apresentava um simples banco rochoso a toda a volta, para facultar o descanso das pessoas em trânsito, abrindo ao fundo para um estábulo, onde se guardavam os animais, que atravessavam, para o efeito, a sala de hóspedes.

O quadro histórico da estrela (tríplice conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes, que teve lugar no ano 7 a.C., fenómeno previsto e registado nos observatórios astronómicos da Babilónia e do Egipto e comprovado pormenorizadamente por Kepler), e a normal curiosidade dos sábios por ocasião desse extraordinário acontecimento astronómico, são aproveitados redaccionalmente por Mateus, o que é coisa perfeitamente verosímil.

Igualmente verosímil é o aproveitamento redaccional por Lucas do quadro histórico do recenseamento do mundo romano, ordenado por César Augusto (27 a.C.-14 d.C.), sendo Pôncio Sulpício Quirino prefeito romano da Síria. É sabido que Quirino ocupa o cargo de prefeito da Síria apenas durante 6 d.C., sendo então que liquida os bens de Arquelau, filho de Herodes o Grande (37 a.C.-4 a.C.), anexando definitivamente a Judeia ao Império Romano. Porém, o recenseamento tinha sido iniciado, qual «descriptio prima» em 7-6 a.C. por Sêncio Saturnino (9-6 a.C.). Se se fala apenas em Quirino, é porque o recenseamento fica normalmente conhecido pelo nome daquele que o levou a cumprimento em 6 d.C., e não daquele que o iniciou em 7-6 a.C..

De quanto fica dito no referente aos caixilhos históricos aproveitados por Mateus e Lucas, podemos adiantar como data provável para o Nascimento de Jesus os anos 7-6 a.C..

 

6. A era cristã actualmente em vigor foi fixada no século VI pelo monge xiita Dionísio o Pequeno com um pequeno erro de cálculo de 6-7 anos. O monge Dionísio não o podia saber então, mas nós sabemos hoje com rigor que a morte de Herodes o Grande ocorreu em Abril do ano 4 a.C. nas suas termas de Jericó. Jesus teria então 2-3 anos, e teria nascido nos anos 6 ou 7 a.C.. Note-se que 6 ou 7 a.C. não significa 6 ou 7 antes do Nascimento de Cristo, mas antes da era cristã fixada pelo monge Dionísio.

 

7. É seguro que Jesus nasceu no nosso mundo, e nele enxertou a mais poderosa carga de amor que se possa imaginar. Tão forte que mudou a história. É esta a verdade lancinante do Natal. O comércio, esse chegou muito depois.

 

António Couto

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: