NESTE NATAL APOSTA NA PAZ

Dezembro 13, 2008

 

Neste Natal aposta na paz

Limpa o teu olhar de traves e de medos

De torpedos

Deita fora as velhas espingardas

Despede os guardas

Sê simples e frontal

Feliz Natal!

 

1. Os Evangelhos afirmam, de maneira inequívoca, o nascimento de Jesus em Belém da Judeia (Mateus 2; Lucas 2). Para tanto, o Evangelho de Lucas mostra-nos José e Maria a partirem de Nazaré, na Galileia, para se irem recensear em Belém, na Judeia, pois o Imperador César Augusto tinha ordenado o recenseamento do inteiro «mundo habitado», a chamada oikouménê, e cada um devia registar-se na sua terra de origem. Nesse sentido, o Evangelho afirma também as origens betlemitas de José (Lucas 2,4). Fica então por explicar o facto de José, natural de Belém, ter fixado residência em Nazaré. E somos levados a presumir que José teria partido de Belém para Nazaré no quadro da política da colonização da Galileia muito estimulada desde a época de Alexandre Janeu (103-76 a.C.). Assim se repovoava e se rejudaizava a Galileia, ao tempo ocupada por uma população de origens etnicamente diversificadas.

 

2. Tendo, pois, partido para Belém, José e Maria, que estava grávida (Lucas 2,5), foram naturalmente procurar abrigo na casa da família de José. O Evangelista, sempre cuidadoso nos pormenores, anota, todavia, que «não havia lugar para eles na sala» (Lucas 2,7b). Na «sala». O texto grego emprega para «sala» o termo katályma. Katályma não é uma «hospedaria», como vulgarmente se diz. Quando quer dizer «hospedaria», o texto grego do mesmo Evangelho emprega o termo pandocheîon (Lucas 10,34). Katályma é uma «sala», a «sala de hóspedes» da casa de família em que José e Maria procuraram abrigo. E foi assim que, não havendo lugar apropriado na «sala de hóspedes» da casa, Maria deu à luz no estábulo anexo à mesma «sala», o lugar onde os ocupantes da «sala de hóspedes» deixavam os animais. É assim também compreensível que Jesus seja deitado na manjedoura (Lucas 2,7a).

 

3. Estamos, portanto, longe do ambiente de uma gruta de montanha, em que habitualmente montamos o cenário do presépio. Estamos no curral anexo à «sala de hóspedes» de uma casa normal de Belém. É esse o cenário do Natal. Esse curral ainda hoje pode ver-se na cripta da Basílica da Natividade, em Belém. É um rectângulo de 12,30 metros de comprimento por 3,50 metros de largura, que as grandiosas construções de Constantino (ano 326) e de Justiniano (ano 540), entretanto surgidas, sempre respeitaram. Esse estreito rectângulo continua a guardar e a mostrar a mais estreme e pura página de amor algum dia escrita sobre a terra.

 

4. Um curral como cenário do nascimento de Jesus. Cenário pobre. Rico de amor e de ternura. Os olhos tranquilamente fchados do Menino que serenamente dorme. Os olhos atentamente carinhosos e cariciosamente vigilantes de Maria e de José. Os olhos sempre meigos e mansos dos animais do curral. Chegam entretanto os pastores, igualmente pobres, igualmente ricos. Chegam os Magos com presentes, como que a dizer que é este o Rei verdadeiro, que leva a cumprimento a figura de Saul, primeiro Rei de Israel, «a quem não foram levados presentes» (1 Samuel 10,27). Parece-me ver que ali mesmo ao lado estamos nós, bem aconchegados nas nossas casas ricas e fechadas. Ali mesmo ao lado estamos nós. Ali mesmo ao lado. Vejo que chega entretanto Herodes. Vem com ar sombrio e olhar carregado. Bate à nossa porta. E entra. É como se nos conhecêssemos desde há muito tempo. Conspiramos. Da cumplicidade dos olhares saem gritos e barulhos. Olhar assim é como terçar armas. Ali ao lado a paz mais estreme. Aqui a guerra. De que lado estás tu, meu irmão de Dezembro?

 

António Couto

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VAI ATÉ BELÉM

Dezembro 13, 2008

 

Neste Natal vai até Belém

Vence o mal com o bem

Na tua história

Entrará o Rei da glória

Não deixes ir embora

O único rei que não reina desde fora.

 

1. No Livro de Isaías 42,1-4, perícope conhecida como «Primeiro Canto do Servo», Deus apresenta o seu Servo com um conjunto de notas de singular brandura, de que realço, em 42,2: «Não fará ouvir desde fora a sua voz». Comentando este passo em Difficile liberté. Essais sur le judaïsme, Emmanuel Levinas, com a sua habitual finura, diz do Messias que «é o único rei que não reina desde fora». Entenda-se: não empunha a espada, não impõe a força, não lança impostos, não age por decreto. Traz consigo um domínio novo, que se insinua mansamente e sana a nossa velha e estafada humanidade desde o coração.

 

2. É nesse novo coração iluminado que se acende a música dos anjos nos campos de Belém. Atónitos, os pastores decantam essa luz e trauteiam essa música. É assim, em bicos de pés e cântaros de luz, pássaros de dança e música estelar, que vão até Belém. Encontram o amor que os embalava. Levam-no de volta para os campos. Os pesados guardas, se bem que interpelados, nada entendem (cf. Cântico dos Cânticos 3,3-4; 5,7). Ídolos metalizados. Insensíveis. Nenhuma música inebria as estátuas de alegria.

 

3. O Natal é intransitivo. O mapa desenrola-se por dentro. Alta tensão, toda a atenção no coração. Só o Amor pode dissolver este nevão. Só o Bem pode vencer o mal (cf. Romanos  12,21). O Bem não combate. Se combatesse, já não seria Bem. Seria mal. Mais mal, portanto, adviria. Só o Bem pode vencer, sem combater, este combate. Só o Amor. O Amor ama também o mal. É aí que o vence.

 

4. Entremos por aí. Escreveu recentemente (2004) o Cardeal Karl Lehmann, Arcebispo de Mogúncia (Mainz), em Carta Pastoral à sua Diocese, por ocasião dos 1250 anos da morte de S. Bonifácio, Apóstolo da Alemanha: «Tornámo-nos um mundo velho. Deixámo-nos vencer pelo cansaço […]. É necessário um radical revigoramento missionário da nossa Igreja. Não se trata apenas de reformar as estruturas. É preciso começar por cada um de nós. Se não estivermos entusiasmados pela profundidade e pela beleza da nossa fé, não podemos verdadeiramente transmiti-la nem aos vizinhos nem aos filhos nem às gerações futuras. […] É necessário também ganhar outras pessoas para a nossa fé cristã e arrastar os cristãos que cederam ao cansaço ou que até abandonaram a Igreja […]. Devemos difundir verdadeiramente o Evangelho de casa em casa, de coração a coração».

 

5. Nesta Carta Pastoral, o Cardeal Lehmann traça um quadro realista de uma Igreja que parece envelhecida e cansada, mas aponta também, com mestria e clarividência, as coordenadas que devem moldar o rumo do futuro: não basta reformar por fora estruturas e edifícios; é preciso reformar por dentro, mudar o coração, acendê-lo com a luz nova de Cristo e do seu Evangelho.

 

6. Por isso também, meu irmão de Dezembro, vai até Belém. Estamos mesmo à beirinha do Natal. Tempo de abrir o coração para celebrar o nascimento do único Rei que não reina desde fora.

 

António Couto