VAI ATÉ BELÉM

Dezembro 13, 2008

 

Neste Natal vai até Belém

Vence o mal com o bem

Na tua história

Entrará o Rei da glória

Não deixes ir embora

O único rei que não reina desde fora.

 

1. No Livro de Isaías 42,1-4, perícope conhecida como «Primeiro Canto do Servo», Deus apresenta o seu Servo com um conjunto de notas de singular brandura, de que realço, em 42,2: «Não fará ouvir desde fora a sua voz». Comentando este passo em Difficile liberté. Essais sur le judaïsme, Emmanuel Levinas, com a sua habitual finura, diz do Messias que «é o único rei que não reina desde fora». Entenda-se: não empunha a espada, não impõe a força, não lança impostos, não age por decreto. Traz consigo um domínio novo, que se insinua mansamente e sana a nossa velha e estafada humanidade desde o coração.

 

2. É nesse novo coração iluminado que se acende a música dos anjos nos campos de Belém. Atónitos, os pastores decantam essa luz e trauteiam essa música. É assim, em bicos de pés e cântaros de luz, pássaros de dança e música estelar, que vão até Belém. Encontram o amor que os embalava. Levam-no de volta para os campos. Os pesados guardas, se bem que interpelados, nada entendem (cf. Cântico dos Cânticos 3,3-4; 5,7). Ídolos metalizados. Insensíveis. Nenhuma música inebria as estátuas de alegria.

 

3. O Natal é intransitivo. O mapa desenrola-se por dentro. Alta tensão, toda a atenção no coração. Só o Amor pode dissolver este nevão. Só o Bem pode vencer o mal (cf. Romanos  12,21). O Bem não combate. Se combatesse, já não seria Bem. Seria mal. Mais mal, portanto, adviria. Só o Bem pode vencer, sem combater, este combate. Só o Amor. O Amor ama também o mal. É aí que o vence.

 

4. Entremos por aí. Escreveu recentemente (2004) o Cardeal Karl Lehmann, Arcebispo de Mogúncia (Mainz), em Carta Pastoral à sua Diocese, por ocasião dos 1250 anos da morte de S. Bonifácio, Apóstolo da Alemanha: «Tornámo-nos um mundo velho. Deixámo-nos vencer pelo cansaço […]. É necessário um radical revigoramento missionário da nossa Igreja. Não se trata apenas de reformar as estruturas. É preciso começar por cada um de nós. Se não estivermos entusiasmados pela profundidade e pela beleza da nossa fé, não podemos verdadeiramente transmiti-la nem aos vizinhos nem aos filhos nem às gerações futuras. […] É necessário também ganhar outras pessoas para a nossa fé cristã e arrastar os cristãos que cederam ao cansaço ou que até abandonaram a Igreja […]. Devemos difundir verdadeiramente o Evangelho de casa em casa, de coração a coração».

 

5. Nesta Carta Pastoral, o Cardeal Lehmann traça um quadro realista de uma Igreja que parece envelhecida e cansada, mas aponta também, com mestria e clarividência, as coordenadas que devem moldar o rumo do futuro: não basta reformar por fora estruturas e edifícios; é preciso reformar por dentro, mudar o coração, acendê-lo com a luz nova de Cristo e do seu Evangelho.

 

6. Por isso também, meu irmão de Dezembro, vai até Belém. Estamos mesmo à beirinha do Natal. Tempo de abrir o coração para celebrar o nascimento do único Rei que não reina desde fora.

 

António Couto


A RESPOSTA DE DEUS HOJE SOMOS NÓS

Dezembro 7, 2008

1. «A primeira vez que levei o meu filho mais novo, Danny, a ver gansos e pombas no parque vizinho, ele correu para fora do carro, e gritou: “Papá, olha, olha!” Eu tinha necessidade daquela lição. Nunca tinha parado a contemplar a maravilha daquelas cores e daqueles voos… Como pessoas tragicamente deprimidas, já não somos sequer capazes de nos debruçarmos à janela para ver o que se passa lá fora. “Olha, olha!”, dizem-nos insistentemente Danny e as Escrituras». Isto conta Daniel Marguerat no seu belo livro O coração ético da tradição hebraico-cristã, Assis, Cittadella, 1998.

 

2. História com história. «Esta é a história de (Aarão e) Moisés no dia em que falou YHWH a Moisés no monte Sinai» (Números 3,1).

 

«3,1Moisés estava a apascentar o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote de Madiã. Conduziu o rebanho para além do deserto, e chegou à montanha de Deus, ao Horeb. 2O anjo de YHWH apareceu-lhe numa chama de fogo, do meio da sarça. Ele olhou e viu, e eis que a sarça ardia no fogo, e a sarça não era devorada. 3Moisés disse: “Vou DESVIAR-ME DO CAMINHO para ver esta visão grande: POR QUE RAZÃO não arde a sarça?” 4YHWH viu que ele se DESVIAVA DO CAMINHO para ver; e Deus chamou-o do meio da sarça, e disse: “Moisés! Moisés!” Ele disse: “Eis-me aqui!”» (Êxodo 3,1-4).

 

A história de Moisés é uma história como as outras, e não é uma história como as outras. Conduzindo o rebanho, VIU uma VISÃO grande, e, com o intuito de VER mais e melhor, saiu do seu caminho, deixou o seu rebanho. Com uns grandes olhos desejosos de VER e habitado por um grande PORQUÊ, Moisés aparece como uma criança à medida do Evangelho (Marcos 10,13-16). Ouviu uma voz que o chamava, e respondeu de pronto: «Eis-me aqui!» A história de Moisés não começa quando nasce, não descreve os seus projectos, não elenca os seus sucessos. A história de Moisés é a história de uma VISÃO que o provoca e da PALAVRA de Deus que o convoca, e que ele ousa VER e a que ousa RESPONDER.

 

3. O Deus bíblico manifesta-se sempre atento e compassivo para com o seu povo e comprometido na libertação de todas as escravidões. É quanto se pode ver neste texto paradigmático do Livro do Êxodo:

 

«3,7YHWH disse: “Eu bem VI a opressão do meu povo que está no Egipto, e OUVI o seu grito diante dos seus opressores; CONHEÇO, na verdade, os seus sofrimentos. 8DESCI a fim de o libertar da mão dos egípcios e de o fazer subir desta terra para uma terra boa e espaçosa, para uma terra que mana leite e mel…” 10E agora VAI; Eu te envio ao Faraó, e FAZ SAIR do Egipto o meu povo, os filhos de Israel» (Êxodo 3,7-8.10).

 

O Deus bíblico revela aqui a sua identidade, não afirmando-se e defendendo-se à volta do seu «eu», do seu «céu», resguardando-se dentro das portas douradas da sua eternidade, mas DESCENDO até à alteridade do outro, de quem «VÊ a opressão», «OUVE o grito», «CONHECE os sofrimentos», tem em vista uma solução ou resposta.

Face ao grito de Israel, qual será a resposta de Deus? A resposta de Deus não será alguma coisa, porque Deus nunca responde alguma coisa. Deus responde sempre ALGUÉM! Será MOISÉS. Quando o seu povo grita, Deus responde sempre da mesma maneira. Responde com MOISÉS, com os PROFETAS, e, finalmente, com JESUS CRISTO.

 

4. Mas também hoje, quando o seu povo grita, Deus continua a responder da mesma maneira, chamando os discípulos de Jesus Cristo e toda a sua Igreja para socorrer e libertar os seus filhos. É neste «ponto de vida» que se situam também os cristãos e os missionários que devem sempre, como Moisés, saber desviar-se do seu caminho, para VER, OUVIR e RESPONDER melhor à Palavra que os convoca e os provoca. Os cristãos e os missionários entraram num desafio assim há muitos anos. Muitos deram a vida por se terem desviado do caminho para VER, OUVIR e RESPONDER melhor. Que o Senhor da messe nos mantenha atentos, compassivos, comprometidos e fiéis.

 

5. «Olha, olha!», dizem-nos a cada passo Danny e as Escrituras.

 

António Couto


O NATAL NA HISTÓRIA

Dezembro 6, 2008

1. Foi no século II, e com intenções sincréticas, que o gnóstico egípcio Basílides e seus discípulos introduzem a celebração da Epifania, em que celebravam o Baptismo de Jesus (para eles, o Verbo veio sobre o homem Jesus no Baptismo e não no nascimento de Jesus), a verdadeira manifestação de Deus no mundo. A festa gnóstica da Epifania foi colocada em 6 de Janeiro, pois nessa data já se celebravam diversas festas pagãs em honra de Adónis, Dionísio e Osíris. Às festas pagãs, os gnósticos contrapõem a manifestação de Cristo nas águas do Jordão.

 

2. Em princípios do século IV, a festa da Epifania de Jesus consta já no calendário da Grande Igreja, que junta, no entanto, à celebração do Baptismo de Jesus também a celebração do seu Nascimento. Assim, a noite de 5 para 6 de Janeiro era particularmente reservada à celebração do Nascimento de Jesus, celebrando-se o Baptismo no dia 6.

 

3. A celebração do Nascimento de Jesus em 25 de Dezembro, dissociada da Epifania em 6 de Janeiro, verifica-se pela primeira vez em Roma, provavelmente entre os anos 325 e 354: a primeira menção regista-se na Cronografia de Philocalus (1.ª ed. em 336?). Para a dissociação do Nascimento de Jesus do âmbito da Epifania, e para a sua celebração como Festa independente, muito contribuiu a necessidade de acentuar, contra gnósticos e docetas, que Deus se fez homem no Nascimento de Jesus. Para que esta Festa do Natal se passasse a realizar em 25 de Dezembro, terá contribuido o facto de os romanos celebrarem em 25 de Dezembro a Festa do Sol (solstício de Inverno), em que o dia começa a ganhar terreno à noite. Ao facto não será também alheia a posição do imperador Constantino, fervoroso adepto do culto do Sol e simpatizante do cristianismo (na verdade, só renegou o paganismo, baptizando-se, no leito de morte), que via com bons olhos os dividendos políticos que lhe poderiam advir de um tal sincretismo religioso. Neste sentido, tinha já Constantino oficializado o descanso dominical, no ano 321, numa altura em que o «Dia do Senhor» era já conhecido por «Dia do Sol».

 

4. Grande impacto no mundo cristão teve o Natal de 1223. O responsável foi S. Francisco de Assis que construiu um presépio numa colina de Greccio (Itália).

 

5. Muitas foram as considerações astronómico-simbólicas arranjadas para situar e explicar o nascimento de Jesus em 25 de Dezembro ou noutras datas. Todas sem fundamento válido.

Os indícios mais seguros de que dispomos continuam a ser os que constam nos Evangelhos da Infância de Mateus (Mt 1-2) e Lucas (Lc 1-2). Os dados sóbrios que aí encontramos, permitem-nos situar com muita probabilidade o Nascimento de Jesus nos anos 7-6 a.C., num estábulo anexo à “sala de hóspedes” superlotada de uma casa de Belém de Judá, certamente pertença da família de José. De notar que Lucas tem em vista mesmo uma “sala de hóspedes” (grego katályma: Lc 2,7), e não uma “hospedaria”, como é vulgar dizer-se. Lucas fala de uma “hospedaria” no contexto da parábola do bom samaritano, mas usa o termo grego pandocheíon (Lc 10,34). A arquelogia mostrou que o traçado das casas da Judeia contemplava muitas vezes uma sala de hóspedes, que apresentava um simples banco rochoso a toda a volta, para facultar o descanso das pessoas em trânsito, abrindo ao fundo para um estábulo, onde se guardavam os animais, que atravessavam, para o efeito, a sala de hóspedes.

O quadro histórico da estrela (tríplice conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes, que teve lugar no ano 7 a.C., fenómeno previsto e registado nos observatórios astronómicos da Babilónia e do Egipto e comprovado pormenorizadamente por Kepler), e a normal curiosidade dos sábios por ocasião desse extraordinário acontecimento astronómico, são aproveitados redaccionalmente por Mateus, o que é coisa perfeitamente verosímil.

Igualmente verosímil é o aproveitamento redaccional por Lucas do quadro histórico do recenseamento do mundo romano, ordenado por César Augusto (27 a.C.-14 d.C.), sendo Pôncio Sulpício Quirino prefeito romano da Síria. É sabido que Quirino ocupa o cargo de prefeito da Síria apenas durante 6 d.C., sendo então que liquida os bens de Arquelau, filho de Herodes o Grande (37 a.C.-4 a.C.), anexando definitivamente a Judeia ao Império Romano. Porém, o recenseamento tinha sido iniciado, qual «descriptio prima» em 7-6 a.C. por Sêncio Saturnino (9-6 a.C.). Se se fala apenas em Quirino, é porque o recenseamento fica normalmente conhecido pelo nome daquele que o levou a cumprimento em 6 d.C., e não daquele que o iniciou em 7-6 a.C..

De quanto fica dito no referente aos caixilhos históricos aproveitados por Mateus e Lucas, podemos adiantar como data provável para o Nascimento de Jesus os anos 7-6 a.C..

 

6. A era cristã actualmente em vigor foi fixada no século VI pelo monge xiita Dionísio o Pequeno com um pequeno erro de cálculo de 6-7 anos. O monge Dionísio não o podia saber então, mas nós sabemos hoje com rigor que a morte de Herodes o Grande ocorreu em Abril do ano 4 a.C. nas suas termas de Jericó. Jesus teria então 2-3 anos, e teria nascido nos anos 6 ou 7 a.C.. Note-se que 6 ou 7 a.C. não significa 6 ou 7 antes do Nascimento de Cristo, mas antes da era cristã fixada pelo monge Dionísio.

 

7. É seguro que Jesus nasceu no nosso mundo, e nele enxertou a mais poderosa carga de amor que se possa imaginar. Tão forte que mudou a história. É esta a verdade lancinante do Natal. O comércio, esse chegou muito depois.

 

António Couto


O AMOR DE CRISTO TOMOU CONTA DELE

Dezembro 3, 2008

S. FRANCISCO XAVIER

07.04.1506 – 03.12.1552

el-cristo-de-la-sonrisa6 

1. O Evangelho é uma Notícia boa e feliz vinda de Deus

O EVANGELHO (eu-aggélion) é uma Notícia boa e feliz, surpreendente, desconcertante e transformante que, vinda de fora, invade e transforma a nossa vida. Mostram bem essa nova e boa realidade os versos do profeta e místico anónimo do Exílio, que a crítica conhece por Dêutero-Isaías:

 

«52,7Como são belos sobre os montes os pés/ do EVANGELISTA (mebasser),/ que nos põe à escuta (mashmîa‘) da PAZ (shalôm),/ um EVANGELISTA (mebasser) de BONDADE (tôb),/ que nos põe à escuta (mashmîa‘) da SALVAÇÃO (yeshû‘ah),/ que diz a Sião:/ “REINA O TEU DEUS!” (malak ’elohayik)» (Is 52,7).

 

2. Essa Notícia boa e feliz transforma a nossa vida e gera comunhão

Os conteúdos desta Notícia boa e feliz são, como se vê, a PAZ, a BONDADE e a SALVAÇÃO, que brotam do REINADO efectivo de Deus. Mas a vocação de uma tal Notícia é encher a vida da cidade até ao cimo e transvasar, transformando assim a cidade de evangelizada e felicitada em evangelizadora e felicitadora. Diz outra vez o anónimo profeta do Exílio:

 

«52,8A voz das tuas sentinelas,/ elas levantam a voz,/ juntas gritam de ALEGRIA,/ porque olhos nos olhos elas vêem,/ é YHWH que volta (shûb) a Sião./

9ALEGRAI-VOS,/ gritai de ALEGRIA todas juntas,/ ruínas de Jerusalém,/ porque FAZ GRAÇA (niham) YHWH ao seu povo,/ Ele REDIME (ga’el) Jerusalém./

10Descobre YHWH o seu braço santo,/ aos olhos de todas as nações./ Verão todos os confins da terra/ a SALVAÇÃO (yeshû‘ah) do nosso Deus» (Is 52,8-10).

 

«40,9Sobe a uma alta montanha, EVANGELISTA (mebasseret) Sião,/ levanta com força a tua voz, EVANGELISTA (mebasseret) Jerusalém;/ levanta-a, não temas,/ diz às cidades de Judá:/ “Eis o vosso Deus,/ 10eis o Senhor YHWH!/ Com poder Ele vem,/ no seu braço a soberania para Ele,/ eis o Seu salário com Ele,/ e a Sua recompensa diante d’Ele./ 11Como um pastor o seu rebanho apascenta,/ com o Seu braço, reúne-o,/ no Seu colo os cordeiros carrega,/ as ovelhas que amamentam conduz com carinho» (Is 40,9-11).

 

A presença Gratificante, Redentora e Salvadora de DEUS no meio de nós é a verdadeira causa da ALEGRIA que invade a vida da cidade, e que deve ser comunicada a todas as cidades e nações.

 

3. JESUS, o Evangelho em pessoa

É com a proclamação dessa Notícia que abre o EVANGELHO de JESUS, que é JESUS:

 

«1,14Depois de João ter sido preso, VEIO (êlthen) JESUS para a Galileia, proclamando (kêrýssôn) o EVANGELHO de Deus (tò euaggélion toû theoû), 15e dizendo (légôn): “Completou-se (peplêrôtai: perf. pass. de plêróô) o tempo e fez-se próximo (êggiken: perf. de eggízô) o REINO de DEUS (basileía toû Theoû). CONVERTEI-VOS (metanoeîte) e ACREDITAI (pisteúete) no EVANGELHO”» (Mc 1,14-15).

 

A Notícia transvasa agora de JESUS. Ele anuncia que se virou uma página no tempo, com a proximidade agora permanente (perfeito grego) de DEUS que REINA. Esta proximidade excede todas as nossas esperas. Trata-se, de facto, de uma proximidade que não se espera nem se sabe. Não se programa. Não há um movimento de aproximação de nós a ela. É ela que se aproxima de nós. Precede-nos. Surpreende-nos. Graça preveniente. Ciência do não-saber. O Dom verdadeiro não se sabe. Não se produz do nosso lado. Vem ao nosso encontro ultrapassando-nos (Mc 6,48; cf. Ex 33,20-23; 34,5-6; 1 Rs 19,11-13; Jb 9,11) e provocando em nós novas atitudes: «CONVERTEI-VOS e ACREDITAI no EVANGELHO» (Mc 1,15).

 

4. Paulo, encontrado por Cristo, comunicador de Cristo: a outra rede da missão

S. Paulo está em linha com o anónimo profeta do Exílio e com JESUS. Foi encontrado por JESUS CRISTO (Fl 3,12). Está depois desse encontro, vive dele, em plena ALEGRIA (Jo 3,29; 15,11) – «Para mim viver é CRISTO» (Fl 1,21); «Ai de mim se não anunciar o EVANGELHO!» (1 Cor 9,16) – e dá testemunho dos efeitos desse encontro: «O REINO de DEUS (…) é Justiça e Paz e Alegria no Espírito Santo» (Rm 14,17). Vida nova. E o autor do Livro dos Actos dos Apóstolos fecha o Livro deixando Paulo em Roma «A anunciar o REINO de DEUS e a ensinar as coisas acerca do SENHOR JESUS CRISTO» (Act 28,31). Última imagem de Paulo. Imagem de corpo inteiro e a tempo inteiro, que retrata bem este extraordinário EVANGELIZADOR, que serve o EVANGELHO com CORAÇÃO MATERNO e PATERNO, portanto, com tempo e total dedicação e persistência e paciência, como ele próprio testemunha, escrevendo à comunidade cristã, por ele fundada, em Tessalónica:

 

«2,7(…) Tornámo-nos crianças no meio de vós, COMO UMA MÃE que acalenta os próprios filhos. 8Tanto bem vos queríamos, que desejávamos dar-vos, não apenas o EVANGELHO de DEUS, mas também a nossa própria vida, pois tornaste-vos queridos (agapêtoí) para nós. 9Recordais-vos, de facto, irmãos, da nossa fadiga e do nosso esforço, trabalhando de noite e de dia, para não sermos pesados a nenhum de vós. Foi assim que vos pregámos o EVANGELHO de DEUS. 10Vós sois testemunhas, e Deus também o é, de quão puro, justo e irrepreensível tem sido o nosso modo de proceder para convosco, os que acreditais. 11Bem sabeis  como exortámos (parakaléô) a cada um de vós, COMO UM PAI aos seus próprios filhos. 12Exortando-vos (parakaléô) e consolando (paramythéomai) e dando testemunho (martýromai), para que caminheis de modo digno a Deus, que vos está a chamar (kaloûntos) ao seu REINO e à sua glória» (1 Ts 2,7-12).

 

Paulo sabe também rodear-se de MUITOS e BONS COOPERADORES (synergoí), a quem trata com elevada estima e entranhado afecto, como documenta o chamado «Capítulo das Saudações» no final da Carta aos Romanos (Rm 16,1-15), sabendo ainda animá-los e estimulá-los, alegrando-se com a alegria deles, como sucede com Tito (2 Cor 2,12-13; 7,5-16).

 

5. Francisco Xavier, testemunha de outra alegria e de outra confiança

S. Francisco Xavier, proclamado Padroeiro Universal das Missões (Pio X) e apontado como «Apóstolo mundial dos tempos modernos» (João Paulo II), de quem celebrámos há dois anos os quinhentos anos do seu nascimento (07.04.1506 – 07.04.2006), postou-se, na esteira de Paulo, no humilde e fiel seguimento de Cristo, vivendo de Cristo (Fl 1,21), impelido pelo AMOR de Cristo (2 Cor 5,14) e pelo SIM de Cristo – que «não foi SIM e não, mas unicamente SIM» (2 Cor 1,19) –, testemunha da ALEGRIA nova de Cristo (Lc 10,21; 1 Pe 1,8) e cooperador dessa ALEGRIA (2 Cor 1,24). Viveu apenas 46 anos sobre esta terra (07.04.1506 – 03.12.1552). 46 anos anos plenos de CRISTO, de AMOR e de ALEGRIA. Partiu de Lisboa em 07 de Abril de 1541, dia em que completava 35 anos, para uma viagem de 20.000 km, rumo a Goa, onde desembarcou mais de um ano depois, em 06 de Maio de 1542, após paragem de quase meio ano (Setembro de 1541 até Fevereiro de 1542) na Ilha de Moçambique para o restabelecimento dos doentes, enquanto se esperava por ventos favoráveis à navegação. Desde essa data até à sua morte, ocorrida na Ilha de Sanchoão, às portas da China, na madrugada do dia 03 de Dezembro de 1552, vão 10 anos e quase 07 meses de uma desmedida dedicação aos outros, sobretudo aos pobres e doentes, testemunhando com a sua vida humilde e dedicada a BONDADE, a PAZ e a ALEGRIA do EVANGELHO. O CRISTO «de la SONRISA», que muitas vezes contemplou Xavier e que muitas vezes Xavier contemplou, gravou-se no coração e nos lábios de Xavier, tomou conta dele, conformou-se nele, transvasou dele. São, na verdade, muitas as testemunhas que descrevem Xavier «com a boca sempre cheia de riso e da graça de Deus» (Monumenta Xaveriana, tomo 2, Madrid, 1912, p. 291 e 306). É também de salientar a sua ilimitada CONFIANÇA em Deus, como transparece de uma sua carta, datada de 05 de Novembro de 1549, escrita de Kagoshima, no Japão, e dirigida aos seus companheiros de Goa:

 

«Sei de uma pessoa a quem Deus concedeu muitas graças, que se ocupava muitas vezes, tanto nos perigos como fora deles, em pôr toda a sua ESPERANÇA e CONFIANÇA n’Ele, e o proveito que daí lhe adveio levaria muito tempo a descrever».

 

Aquele «Sei de uma pessoa» lembra Paulo (2 Cor 12,2). Pôr toda a sua confiança em Deus é firmar-se em Deus, viver de Deus e desde Deus. A tanto nos desafia também a nós, hoje, o nosso Padroeiro. E aquele SORRISO nos lábios do Crucificado e de Xavier é outro impressionante desafio para nós. Na verdade, que EVANGELHO podemos nós viver e testemunhar sem CONFIANÇA e ALEGRIA?

Obrigado, amigo Francisco. Celebrarei gozosamente a tua Festa.

 

António Couto