PAULO, MODELO DE EVANGELIZADOR (10)

Janeiro 31, 2009

10. Paulo, Tito e Corinto ou a história do anel verdadeiro

Para introduzir a temática comovente do reencontro de Paulo com a sua comunidade de Corinto, momentaneamente perdida, e ganha por Tito, que foi bem sucedido na sua viagem missionária a Corinto por solicitação de Paulo (2 Cor 8,16-17; 12,18), começo por evocar a «história dos três anéis»[1]. Trata-se de uma novela que circulava na Idade Média entre os judeus de Espanha, que aparece recolhida no Decameron, de Boccaccio (1313-1375), e que atingiu a máxima dimensão com o escritor alemão Gotthold Ephraim Lessing (1729-1781), que a incluiu no seu poema dramático Nathan der Weise [= «Natã, o sábio»], escrito em 1779.

A novela dos três anéis conta-nos que havia, no Oriente, um homem muito rico, que possuía um anel que tinha o condão de tornar feliz e querido e estimado por Deus e pelos homens aquele que o usasse. Ao longo de muitas gerações, o precioso anel transitou sempre de pai para filho, sendo herdado pelo filho predilecto. Até ao dia em que um pai se encontrou na difícil situação de ter de escolher o herdeiro do anel entre três filhos igualmente queridos. Para resolver a situação, aquele pai optou por mandar fazer, às escondidas, mais dois anéis iguais, no aspecto, ao original. Pouco antes de morrer, aquele pai entregou a cada filho um anel, ficando cada um deles a pensar que tinha sido o escolhido pelo pai para herdar o precioso anel. Mas quando os três filhos se encontraram frente a frente, cada um com o seu anel, aperceberam-se logo de que tinha havido falcatrua, e começou logo ali a guerra pelo reconhecimento do anel verdadeiro. Depois de muitos anos de guerra e sofrimento, os três irmãos decidiram comparecer perante um juiz, para que este dirimisse a questão. Depois de ouvir a história das virtualidades do anel, segundo a qual o anel verdadeiro tinha o condão de tornar o seu portador querido e estimado pelos outros, o juiz quis então saber qual dos três irmãos era o mais querido pelos outros. Como nenhum dos três ousasse responder, o juiz compreendeu que estava perante três malvados merecedores de castigo. Mas, em vez de os castigar, achou melhor tecer algumas considerações: «Pensai que o vosso pai não vos enganou, mas que não quis submeter-se à tirania de um único anel verdadeiro». E deu-lhes um conselho: «Adiemos a questão de saber qual é o único anel verdadeiro, e que cada um de vós se esforce, entretanto, por fazer com que o seu anel seja o verdadeiro, agindo de maneira a tornar-se querido e estimado pelos outros. E lá há-de vir, um dia, um juiz, daqui a milhares de anos, que, analisando o que entretanto conseguirdes fazer, ditará a sentença definitiva». Leia o resto deste artigo »


PAULO, MODELO DE EVANGELIZADOR (9)

Janeiro 31, 2009

9. A outra rede da missão: muitos e bons cooperadores

Porque o amor de Cristo tomou conta dele e de nós (e de nós?) (hê agápê toû Christoû synéchei hêmâs) (2 Cor 5,14), programando-o inteiramente, transvasava dele. Não admira que Paulo tenha sabido rodear-se de MUITOS e BONS COOPERADORES (synergoí), quer presbíteros (presbýteroi) que «trabalham na palavra e na instrução (kopiôntes en lógô kaì didaskalía)» (1 Tm 5,17), quer cristãos, mulheres e homens, empenhados no «trabalho do amor» (ho kópos tês agápês) (1 Ts 1,3), a quem Paulo trata com elevada estima e entranhado afecto, como documenta, por exemplo, o chamado «Capítulo das Saudações» no final da Carta aos Romanos[1]:

 

 

«16,1Recomendo-vos Febe, nossa irmã (adelphê hêmôn), diaconisa (diákonos) da Igreja de Cêncreas, 2para que a recebais no Senhor (en kyríô), de modo digno dos santos (hágioi), e a assistais em tudo o que de vós necessitar, pois também ela foi benfeitora (prostátis) de muitos, e até de mim próprio. 3Saudai Prisca (diminuitivo: Priscila) e Áquila, meus cooperadores (synergói) em Cristo Jesus (en Christô Iêsoû), 4os quais, para salvar a minha vida, expuseram a sua cabeça; e não sou apenas eu que lhes estou agradecido, mas também todas as igrejas dos gentios. 5Saudai também a Igreja que se reúne em sua casa. Saudai o meu querido (agapêtós) Epéneto, que constitui as primícias da Ásia para Cristo. 6Saudai Maria, que muito trabalhou (kopiáô) por vós. 7Saudai Andrónico e Júnia, meus parentes e companheiros de prisão, que se distinguiram entre os apóstolos (apóstoloi), e me precederam em Cristo (en Christô). 8Saudai Ampliato, que me é muito querido (agapêtós) no Senhor (en kyríô). 9Saudai Urbano, nosso cooperador (synergós) em Cristo (en Christô), e o meu querido (agapêtós) Estáquio. 10Saudai Apeles, provado em Cristo (en Christô). Saudai os da casa de Aristóbulo. 11Saudai Herodião, meu parente. Saudai os da casa de Narciso, que estão no Senhor (en kyríô). 12Saudai Trifena e Trifosa, que trabalharam (kopiáô) no Senhor (en kyríô). Saudai a querida (agapêtê) Pérside, que muito trabalhou (kopiáô) no Senhor (en kyríô). 13Saudai Rufo, o eleito no Senhor (en kyríô), e sua mãe, que é também a minha. 14Saudai Assíncrito, Flegonte, Hermes, Pátrobas, Hermas, e os irmãos (adelphói) que estão com eles. 15Saudai Filólogo e Júlia, Nereu e sua irmã, e Olimpas, e todos os santos (hagíoi) que estão com eles» (Rm 16,1-15).

 

O que se pode aprender, em termos teológicos e pastorais, de uma lista de nomes!

Na peugada de Paulo, o desafio da formação séria, cuidada e alargada dos ministros ordenados e dos fiéis leigos não pode deixar de nos ocupar e preocupar também hoje. Vê-se bem que a coesão desta premurosa rede eclesial assenta, não apenas em sentimentos humanos de afecto – ainda que importantes –, mas «em Cristo» (en Christô) ou «no Senhor» (en Kyríô), locução tipicamente paulina que atravessa este pequeno texto de lés a lés (10 vezes), e que é um dos grandes marcadores do inteiro Corpus Paulinum com 130 citações: 83 vezes «em Cristo»; 47 vezes «no Senhor»[2]. Em outro lugar, advertirá Paulo que Jesus Cristo é o único fundamento (themélion) posto (keímenon) para sempre por Deus (1 Cor 3,11), donde deriva a nossa existência, coerência e identidade[3].

O título de diákonos dado a Febe traduz a qualidade de «servidora» de Cristo, do Evangelho e da Comunidade, que caracteriza esta mulher de Cêncreas. É um título que Paulo se dá si mesmo e dá outros também a outros seus cooperadores[4]. O nome grego prostátis só se encontra neste lugar, e esta única vez, em todo o grego bíblico. Deriva de uma raiz que significa: 1) «tomar cuidado de», «ajudar a»; 2) «dirigir», «presidir», «liderar». O primeiro significado é normalmente o que se aplica a Febe, que é assim vista como uma pessoa rica e influente, que se aproxima do grego profano e do latim patrona, e que se dispõe a prestar a todos os cristãos, nomeadamente a Paulo, os auxílios necessários. O segundo significado é de excluir, sobretudo porque o texto a apresenta como sendo «benfeitora» até do próprio Paulo. Benfeitora sim, dirigente ou líder não[5].

Por outro lado, o trabalho (kópos / kopiáô) de Paulo e de Timóteo e de tantos cooperadores (synergoí) de Paulo é um dos marcadores do trabalho apostólico[6]. Em 1 Tm 4,10, o verbo kopiáô [= trabalhar] aparece unido por um kaí [= e] epexegético ao verbo agônízô [= lutar] – kopiômen kaì agônizómetha [= «trabalhamos e lutamos»] –, pelo que o trabalho da evangelização não se faz sem luta[7], o mesmo sucedendo em Cl 1,29, em que a evangelização de Paulo aparece traduzida pelo verbo kopiáô logo seguido pelo particípio do verbo agonízôkopiô agônizómenos – [= «trabalho lutando»]. Entenda-se bem. Esta luta (agôn), que enche a vida de Paulo e dos seus cooperadores (1 Ts 2,2), e também a vida de Paulo e dos cristãos (Rm 15,30), não é uma guerra, mas o amor (agápê), a luta do amor, tendo os dois termos gregos a mesma raiz etimológica. Quem ama, luta. Paradoxo do amor: o amor faz-te feliz, matando-te! Quanto mais amas, lutas, e te matas a amar, mais te encontras: «Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; ao contrário, quem perder a sua vida por causa de mim, salvá-la-á» (Lc 9,24). Leia o resto deste artigo »


PAULO, MODELO DE EVANGELIZADOR (8)

Janeiro 29, 2009

8. Metodologia maternal e paternal: evangelização personalizada e a tempo inteiro

Quem, como Paulo, foi encontrado por Cristo e vive de Cristo a tempo inteiro, tem também de dar testemunho de Cristo a tempo inteiro, com CORAÇÃO MATERNO e PATERNO, gerando filhos[1], dando-os à luz na dor, acalentando-os, exortando-os e consolando-os um a um, portanto, com tempo e total dedicação e persistência e paciência, e o zelo com que um pai guarda com dedicada atenção a filha para o casamento[2], ou chora a separação dos seus filhos, como ele próprio testemunha, escrevendo às comunidades cristãs por ele fundadas[3]:

 

 

«4,14Não querendo envergonhar-vos (entrépôn: part. pres. de entrépô) escrevo estas coisas, mas como meus filhos amados (tékna mou agapêtá) admoestando (nouthetôn: part. pres. de vouthetéô). 15Ainda que tivésseis tido dez mil pedagogos (paidagôgoús) em Cristo, não tendes muitos pais (patéras), pois em Cristo Jesus, por meio do Evangelho, eu vos GEREI (egénnêsa: aor. de gennáô)» (1 Cor 4,14-15).

 

«10Rogo-te pelo meu filho (perì toû emoû téknou), Onésimo, que GEREI (egénnêsa: aor. de gennáô) na prisão» (Flm 10).

 

«4,19Meus filhos (tékna mou), que DOU À LUZ SOFRENDO (ôdínô), até que (méchris hoû) seja formado (morphôthê: conj. aor. pass. de morphóô) Cristo em vós» (Gl 4,19).

 

«11,2Sou, na verdade, zeloso por vós, com o zelo de Deus, pois dei-vos em casamento (hermosámên: aor. médio de harmózô) a um único esposo, como virgem pura (parthénon hagnên), para vos apresentar (parastêsai: inf. aor. de parístêmi) a Cristo (tô Christô)» (2 Cor 11,2).

 

«2,17Nós, porém, irmãos, desfilhados (aporphanisthéntes: aor. pass. de aporphanízô) de vós por um momento, da vista, que não do coração, mais do que nunca estamos ansiosos e com muito desejo de ver o vosso rosto» (1 Ts 2,17).

 

A linguagem é vivíssima, e traduz o amor dilecto e sem restrições deste Pai pelos seus filhos amados. Mas deixa entrever também a relação de filial e terna dependência destes filhos para com o Pai.

De notar a força da locução «em Cristo (Jesus)», usada em sobreposição (1 Cor 4,15), e que será estudada adiante (ponto 9.).

De registrar também o vivo contraste, recurso habitual em Paulo, entre o não querer deixar vermelhos de vergonha (entrépô) os coríntios com as suas advertências fortes (leia-se 1 Cor 4,8-13), mas admoestar (nouthetéô [= noûs títhêmi = «pôr na mente» ou «pôr a mente»; reclama o muito semítico «pôr o coração» (sîm leb)]) os seus filhos amados com carinho (1 Cor 4,14)[4].

Também fica projectado na tela, com toda a luz e com toda a força, que gerar os filhos e dá-los à luz não são actos, mas atitudes a prosseguir até à (méchris hoû) configuração ou conformação com Cristo (Gl 4,19)[5]. Esta é, de resto, a atitude da esperança patente na celebraçção da Ceia do Senhor: «Anunciais a morte do Senhor até que (áchris hoû) Ele venha» (1 Cor 11,26).

Em 1 Ts 2,17, Paulo alude à sua saída forçada de Tessalónica, sentindo-se como que «desfilhado», para aludir à dor que sente um pai quando perde os seus filhos. A cultura grega, como a nossa, dá relevo aos filhos que perdem os pais, e as respectivas línguas designam essas crianças com o termo «órfãos». Há também os pais que perdem os filhos, mas a nossa cultura não lhes dá tanto relevo, e a nossa língua não tem um termo adequado para traduzir essa dor. A cultura hebraica sempre valorizou esta dor desses pais, e tem um termo para a dizer: shekôl, shikulîm[6]. Na verdade, é com shekôl que a língua hebraica traduz o grego aporphanisthéntes de 1 Ts 2,17, que só encontramos aqui em toda a Escritura[7]. Leia o resto deste artigo »


PAULO, MODELO DE EVANGELIZADOR (7)

Janeiro 29, 2009

7. A identidade de apóstolo e de servo

«Paûlos é o único nome que o Apóstolo usa para si mesmo nas suas Cartas autênticas ou que é usado em referência a ele nas Deuteropaulinas e nas Pastorais»[1]. É Lucas que, no Livro dos Actos dos Apóstolos, fala de outro nome, Saulo, na forma grecizada de Saûlos (Act 7,58; 8,1.3; 9,1.8.11.22.24; 11,25.30; 12,25; 13,1.2.7.9), ou na forma semítica transliterada de Saul [Sha’ûl] (Act 9,4 e 17; 22,7 e 13; 26,14). E não é sem alguma estranheza que, depois de ter usado sempre Saulo e Saul, e nunca Paulo, vemos o autor dos Actos a escrever assim em Act 13,9: «Saulo, dito também Paulo» (Saûlos dé, ho kaì Paûlos), passando a usar, a partir daqui, habitualmente Paulo[2].

Dizer «Paulo» é dizer «o Apóstolo Paulo»[3]. De facto, «Apóstolo» (apóstolos) é o título que Paulo adscreve mais vezes ao seu nome Paulo (Paûlos), na apresentação (titulatio) das suas Cartas: Rm 1,1; 1 Cor 1,1; 2 Cor 1,1; Gl 1,1; Ef 1,1; Cl 1,1; 1 Tm 1,1; 2 Tm 1,1; Tt 1,1[4]. Só não segue este procedimento nas Cartas aos Filipenses, 1 e 2 Tessalonicenses e Filémon[5]. É quanto se pode ver a seguir detalhadamente, com o nome e os títulos em destaque:

 

«1,1PAULO, SERVO de Cristo Jesus (doûlos Christoû Iêsoû), chamado APÓSTOLO, separado (aphôrisménos: part. perf. pass. de aphorízô) para o Evangelho de Deus» (Rm 1,1).

«1,1PAULO, chamado APÓSTOLO de Cristo Jesus (apóstolos Christoû Iêsoû), por vontade de Deus…» (1 Cor 1,1).

«1,1PAULO, APÓSTOLO de Cristo Jesus (apóstolos Christoû Iêsoû), por vontade de Deus…» (2 Cor 1,1).

«1,1PAULO, APÓSTOLO, não por parte dos homens nem por intermédio de um homem, mas por Jesus Cristo (dià Iêsoû Christoû) e Deus Pai, que o ressuscitou dos mortos» (Gl 1,1).

«1,1PAULO, APÓSTOLO de Jesus Cristo (apóstolos Iêsoû Christoû), pela vontade de Deus…)» (Ef 1,1).

«1,1PAULO e Timóteo, SERVOS de Cristo Jesus (doûloi Christôu Iêsoû)…» (Fl 1,1).

«1,1PAULO, APÓSTOLO de Cristo Jesus (apóstolos Christoû Iêsoû), por vontade de Deus…» (Cl 1,1).

«1,1PAULO e Silvano e Timóteo…» (1 Ts 1,1).

«1,1PAULO e Silvano e Timóteo…» (2 Ts 1,1).

«1,1PAULO, APÓSTOLO de Cristo Jesus (apóstolos Christoû Iêsoû)…» (1 Tm 1,1).

«1,1PAULO, APÓSTOLO de Cristo Jesus (apóstolos Christoû Iêsoû)…» (2 Tm 1,1).

«1,1PAULO, SERVO de Deus, APÓSTOLO de Jesus Cristo (apóstolos Iêsoû Christoû)…» (Tt 1,1).

«1PAULO, PRISIONEIRO de Cristo Jesus (désmios Christoû Iêsoû)…» (Flm 1).

 

Salta à vista a frequência da locução «Apóstolo de Cristo Jesus» (1 Cor,1,1; 2 Cor 1,1; Cl 1,1; 1 Tm 1,1; 2 Tm 1,1), por duas vezes alterada para «Apóstolo de Jesus Cristo» (Ef 1,1; Tt 1,1).  «Servo de Cristo Jesus» também se ouve por duas vezes (Rm 1,1; Fl 1,1). Uma vez ressoa «Prisioneiro de Cristo Jesus» (Flm 1). Vê-se bem que estas locuções configuram genitivos subjectivos (o apóstolo é enviado por Cristo) e/ou genitivos de posse (o apóstolo pertence a Cristo), acentuando bem a profunda ligação que une Paulo a Cristo[6]. A locução «Apóstolo por Jesus Cristo» (apóstolos dià Iêsoû Christoû) (Gl 1,1) constitui também um genitivo subjectivo[7].

Pressente-se também que é muito querido a Paulo o título de «apóstolo das nações» (ethnôn apóstolos) (Rm 11,13; cf. Gl 1,16; 2,2.8-9)[8], vendo nas «nações» os «não-judeus»[9], ainda que a sua «preocupação quotidiana» (epístasis kath’êméran) seja «o cuidado (hê mérimna) de todas as Igrejas (pasôn tôn ekklêsiôn)» (2 Cor 11,28)[10]. Leia o resto deste artigo »


PAULO, MODELO DE EVANGELIZADOR (6)

Janeiro 27, 2009

6. A força nova de uma testemunha

No seu discurso aos Membros do Consilium de Laicis, proferido em 02 de Outubro de 1974[1], Paulo VI fez uma importante afirmação, que depois retomou na Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi (08 de Dezembro de 1975), n.º 41:

  

«O homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres, ou então, se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas».

 

Paulo entra bem nesta catalogação do mestre que é testemunha. Ele sabe bem que foi chamado desde o ventre materno (Gl 1,15; cf. Is 49,1; Jr 1,5). Que foi agarrado por Jesus Cristo (Fl 3,12). Que foi amado por Jesus Cristo (Gl 2,20). Que o amor de Cristo tomou conta dele (hê agápê toû Christoû synéchei hêmâs) (2 Cor 5,14), programando-o[2]. Que, para ele, viver é Cristo (Fl 1,21), pois é Cristo que vive nele (Gl 2,20), e fala nele (2 Cor 13,3)[3].

É por isso que Paulo estava tomado (syneícheto: imperf. passivo de synéchô) pela Palavra o tempo todo, dando testemunho aos judeus de que Jesus era o Cristo (Act 18,5). Tomava conta da Palavra, que tomou conta dele.

A abrir o Capítulo nono da Primeira Carta aos Coríntios, Paulo apresenta as suas credenciais apostólicas, servindo-se de uma série de perguntas retóricas que reclamam outras tantas respostas afirmativas enfáticas[4]:

  

«9,1Não sou livre? Não sou apóstolo? Não VI (heôraka) Jesus, o Senhor nosso?» (1 Cor 9,1).

 

Este VER, no tempo perfeito grego, indica que Paulo não se refere apenas a uma experiência do passado, que não afecta o presente, mas a uma experiência cujo efeito continua no presente[5]. Empregando este tempo gramatical, Paulo afirma que viu e que continua a ver Jesus, apresentando-se, portanto, como uma testemunha credível e convincente. O tempo perfeito é o tempo da testemunha. Só alguém com a vida cheia de Jesus pode dar testemunho de Jesus. Leia o resto deste artigo »


PAULO, MODELO DE EVANGELIZADOR (5)

Janeiro 26, 2009

5. A palavra da Cruz

Pela sua importância, vale a pena transcrever este imenso texto do princípio da Primeira Carta aos Coríntios:

 

«1,10Exorto-vos, irmãos, pelo nome do Senhor Nosso, Jesus Cristo, para que a mesma coisa digais todos, e não haja entre vós divisões (schísmata); ao contrário, sede remendadores (katêrtisménoi: part. perf. pass. de katartízô) (cf. Mc 1,19; Mt 4,21 = remendar as redes) no mesmo pensamento e no mesmo parecer. 11Foi-me, na verdade, feito saber a respeito de vós, meus irmãos, pelos de Cloé, que há rixas (érides) entre vós. 12Digo isto, porque cada um de vós diz: “Eu sou de Paulo, eu de Apolo, eu de Cefas, eu de Cristo”.

13Está dividido em partes (meméristai: perf. pass. de merízô) Cristo? Não foi Paulo que foi crucificado (estaurôthê: aor. pass. de stauróô) por vós (hypèr hymôn), pois não? Também não fostes baptizados no nome de Paulo, pois não? 14Dou graças a Deus por não ter baptizado nenhum de vós, a não ser Crispo e Gaio, 15para que ninguém diga que, no meu nome, fostes baptizados. 16É verdade que também baptizei a casa de Estéfanas; de resto, não sei se alguém mais baptizei.

 

17Na verdade, Cristo não me enviou (apésteilen: aor. de apostéllô) a baptizar (baptízein), MAS A EVANGELIZAR (allà euaggelízesthai), não com a sabedoria da palavra (ouk en sophía lógou), para que não seja esvaziada (kenôthê: aor. pass. de kenóô) a Cruz de Cristo (ho stauròs toû Christoû).

 

18Na verdade, a palavra, a da Cruz (ho lógos ho toû stauroû) loucura (môría) para os que se perdem (apóllyménois) é, mas, para os que se salvam (sôzoménois), para nós, poder de Deus é. 19Está escrito (gégraptai), na verdade: “Destruirei a sabedoria dos sábios,/ e a inteligência dos inteligentes anularei. 20Onde está o sábio? Onde está o escriba?” Onde está o argumentador (syzêtêtês) deste tempo? Não tornou louca (emôrasen: aor. de môraínô) Deus a sabedoria do mundo? 21Visto que o mundo, por meio da sabedoria, não conheceu Deus na sabedoria de Deus, aprouve (eudókêsen) a Deus, por meio da loucura do anúncio (dià tês môrías toû kêrýgmatos), salvar os que acreditam (toùs pisteúontas). 22Os judeus pedem sinais (sêmeîa), e os gregos procuram a sabedoria (sophía); 23nós, porém, anunciamos (kêrýssomen) Cristo crucificado (Christòn estaurôménon: part. perf. pass. de stauróô), escândalo para os judeus, loucura (môría) para os gentios. 24Mas, para aqueles que são chamados (toîs klêtoîs), quer judeus quer gregos, Cristo é poder de Deus e sabedoria de Deus. 25Na verdade, a loucura de Deus (tò môròn toû theoû) é mais sábia do que os homens, e a fraqueza (asthenés) de Deus é mais forte do que os homens» (1 Cor 1,10-25).

 

Pela configuração que demos ao texto, deixámos em posição central o v. 17, que vários autores consideram a chave de compreensão de 1 Cor 1-4, e mesmo da inteira Primeira Carta aos Coríntios[1]. Na verdade, em 1 Cor 1,17, está bem formulada a tese de Paulo: foi enviado (apóstolo) por Cristo a Evangelizar, não como um saltimbanco da linguagem[2], com eloquência e autosuficiência quanto baste, mas com a palavra frágil e escandalosa da Cruz.

A anteceder o v. 17, fala-se de divisões que há que remendar, diferentes grupos de pertença identificados pelos seus patronos, cinco menções do verbo «baptizar». Imediatamente a seguir ao v. 17, fala-se de «a palavra da Cruz» (ho lógos ho toû stauroû) – fórmula condensada e original, só aqui em todo o NT[3] –, da loucura (môría, môrós, môraínô)[4] do poder de Deus que destrói a sabedoria do mundo, do anúncio de Cristo crucificado para sempre: tal é o significado do perfeito passivo estauroménon[5].

Dupla loucura é que a Cruz seja ad unius o objecto e o método do anúncio. A Cruz é o sinal de que Deus nos ama radicalmente debruçando-se por amor sobre nós, e que se recusa a impor o amor[6]. O crucificado (estauroménon) mostra que a dádiva da vida é total e permanente. Cúmulo da loucura: da palavra da Cruz faz parte o anúncio de que Cristo Ressuscitado é aquele crucificado[7]. Veja-se a esta luz a força da expressão «Senhor (é) Jesus» (Kýrios ’Iêsoûs; aramaico: Mareh Iêshou‘) (Rm 10,9; 1 Cor 12,3) ou «Senhor (é) Jesus Cristo» (Kýrios ’Iêsoûs Christós) (Fl 2,11), e compreenda-se bem a diferença em relação à expressão secundária «Jesus (é) Senhor». A primeira formulação, que mantém a ordem correcta das palavras, provém da linguagem da confissão de fé (homología), como quem responde à pergunta: «Quem é Senhor?», «Quem reconheces tu como Senhor?»[8].

E este anúncio, além de reclamar a nossa radical identificação com Cristo que dá a sua vida por nós, convida-nos ainda a subir ao púlpito para proclamar o Evangelho de Cristo, alto e bom som[9]. Anunciar a morte de Jesus não tem qualquer sentido fúnebre, não é anunciar o sofrimento dorido ou a coragem do herói, tão-pouco a resignação ou, no pólo oposto, qualquer aspecto belicoso – do tipo in hoc signo vinces, de constantiniana memória, transposto depois para o estandarte dos cruzados[10], ou qualquer outra manifestação de heroicidade a favor de alguém e contra alguém, como vemos nos modernos kamikaze –, mas sim a soberana novidade da dádiva da vida por amor a todos sem excepção.

Aquele «não me enviou a baptizar, mas a evangelizar» poderia levar-nos a supor a existência de uma ruptura entre entre o ministério sacramental e o ministério do anúncio. Seria um erro supor que Paulo estabelecesse um contraste entre os dois ministérios. Na verdade, tanto o Baptismo como a Ceia do Senhor proclamam o Evangelho da morte e da ressurreição de Cristo (Rm 6,3-11; 1 Cor 11,24-27)[11]. É possível, porém, ver uma certa diferença nas Cartas de Paulo entre a Ceia do Senhor, cuja prática é feita remontar directamente à tradição de Jesus, e o Baptismo, cuja prática não aparece directamente na linha da tradição de Jesus, ao contrário do que sucede, por exemplo, em Mt 28,19. Ecos desta divergência podem ver-se ainda em 1 Cor 1,13-17, em que aparece uma concepção do Baptismo que cria uma particular ligação de pertença do baptizado em relação a quem o baptiza. Charles Perrot refere mesmo que este aspecto é um dos traços característicos dos movimentos baptistas[12]. Leia o resto deste artigo »


PAULO, MODELO DE EVANGELIZADOR (4)

Janeiro 25, 2009

4. Movido pela esperança

Tensão nova. Paulo diz aos cristãos de Éfeso que, antes de terem sido encontrados por Cristo, viviam «sem esperança e sem Deus no mundo (elpída mê échontes kaì átheoi en tô kósmô)» (Ef 2,12). Este marcador Paulino atravessa a Carta Encíclica Spe salvi, de Bento XVI, de 30 de Novembro de 2007[1]. Vejam-se os números 2, 3, 23, 27 e 44. Sem Deus no mundo, habitação desabitada, não há esperança. Pode haver apenas pequenas deduções, como quem deduz o céu da terra ou o Último do penúltimo.

No mundo grego, esperança é elpís, e tem o significado de «previsão», «lícita expectativa», sempre assente nos nossos calculismos e exercícios racionais, pequenas deduções[2]. Ao contrário, a esperança bíblica e cristã, de que fala Paulo (e Bento XVI), é sem medida, tem a ver com o nunca antes visto, aponta para além das leis da natureza, está em luta aberta contra as evidências. Trata-se de «esperar contra a esperança» (par’ elpída ep’ elpídi = contra a esperança na esperança) (Rm 4,18)[3]. É assim que Paulo define a atitude de Abraão. No mundo hebraico, esperança é tiqwah[4], e deriva de qaw, que pode significar «fio», «fita métrica», «cordel para medir». Percebe-se que tem a ver com o «fio» que se estica para medir, até chegar à medida ainda sem medida e sem solução à vista – «esperança vista não é esperança» (Rm 8,24) –, mas que tem solução recebida de Deus. É como o «fio», a «corda», o «arame» estendido entre a dor e a consolação esperada, entre a humanidade e Deus, fio tenso, não abaulado – veja-se Jb 7,6 («Os meus dias correm mais depressa do que a lançadeira,/ e consomem-se sem esperança») e Rm 4,20 («Ele [Abraão] não ficou abaulado na incredulidade / desconfiança (apistía»)) –, e seguro entre duas mãos, a de Deus (sobretudo) e a nossa. Única maneira de se poder atravessar, com segurança e confiança, o vau da morte.

Paulo transfere esta imagem do «fio» ou da «corda» para o mundo e para o homem, e coloca-os nesta tensão esperante, através do recurso ao termo apokaradokía, que ele usa em Rm 8,19 e Fl 1,20, como podemos ver:

 

«8,18Penso, de facto, que os sofrimentos do tempo presente não têm medida de comparação com a glória que está para ser revelada (apokalyphthênai) em nós. 19Com efeito, O ROSTO TENSO (apo-kara-dokía) da criação (tês ktíseos) que a revelação (apokálypsis) dos filhos de Deus ESPERA em tensão RECEBER (apekdéchetai: apò + ek + déchomai)» (Rm 8,18-19).

«1,18(…)Cristo é Evangelizado, e nisto me alegro. Mas também me alegrarei, 19pois sei, de facto, que isto resultará para a salvação, por meio das vossas orações e o socorro do Espírito de Jesus Cristo, 20conforme o ROSTO TENSO (apo-kara-dokía) e a ESPERANÇA (elpís) de que não serei confundido» (Fl 1,18-20).

 

O termo apokaradokía, de apò + kara + dokéô [= fora de + cara (rosto) + esperar/olhar atentamente], que só Paulo usa no NT nas duas passagens referidas, e que é desconhecido no grego antes do Cristianismo, traduz a atitude de quem alonga o pescoço o mais que pode para tentar ver o que ainda não se vê[5]. Fica aqui bem retratada a atitude assumida por Paulo depois de ter sido AGARRADO por Jesus Cristo: «para as coisas à frente me atirando» (Fl 3,13). Leia o resto deste artigo »