UNS E OS OUTROS


1. Já lá vão uns anos. Recordo-me bem. Eu morava então em El-Qubèibeh, o Emaús de Lucas 24, uma aldeiazinha completamente palestiniana, a uns 12 km para ocidente de Jerusalém. Contava-se já quase um ano de Intifada [= sublevação, levantamento popular], a célebre guerra das pedras, iniciada em 9 de Dezembro de 1987, com que os jovens palestinianos afrontavam e enfrentavam os bem armados soldados de Israel.

 

2. Todos os dias me deslocava de manhã para Jerusalém, para efeitos de estudos no Studium Biblicum Franciscanum. À noite fazia o trajecto inverso. Viajava nos transportes palestinianos, os únicos que faziam aquele trajecto com segurança. Nenhum veículo de matrícula hebraica, carro particular ou transporte colectivo, se aventurava sequer por aquelas estradas poeirentas. Sabia que poderia ser naturalmente apedrejado. O transporte fazia-se em pequenos, velhos e sujos autocarros ou pequenas carrinhas adaptadas, com bancos de madeira corridos, os chamados sherut. Como eu viajava diariamente naqueles velhos e apinhados transportes só frequentados por palestinianos, bem depressa eles se aperceberam de que eu era estrangeiro. O motorista já sorria para mim quando me via entrar, e até se esforçava por falar inglês. Os passageiros, que me olhavam com muito espanto, também faziam tudo o que podiam para que eu viajasse o mais confortável possível. Com o tempo, sobretudo os mais jovens, enchiam-me de perguntas: por que é que eu morava numa aldeia palestiniana? O que é que ia fazer todos os dias para Jerusalém? Se estudava com os hebreus? O que é que estudava? Qual era a minha religião? Ia-lhes respondendo como podia e sabia. Ficaram a saber que eu era padre católico, que não era judeu e que os admirava. Eles eram todos muçulmanos, mas lá me iam dizendo que tinham alguns amigos católicos. Ouvi-os falar com grande amor de Jerusalém, que eles chamam Al-Quds [= A Santa]. Pela minha parte, compreendi rapidamente que eles sentiam muito orgulho por ter um estrangeiro a morar no meio deles e a viajar nos transportes deles.

 

3. Com o tempo, fiz alguns amigos palestinianos. Fiz com eles grandes e arriscadas viagens por zonas que nenhum estrangeiro visita há muitos anos. Só se faziam em certos dias, com informações telefónicas quase permanentes, e outros truques estratégicos.

 

4. Mas fiz também grandes amigos hebreus, que me contavam a história e as histórias de outra maneira. Já estava habituado a passar por entre rapazes e raparigas de camisola verde e arma aperrada. Andavam sempre com a metralhadora, mesmo quando apanhavam o autocarro ou pediam boleia à beira da estrada. Às vezes viajava pelas estradas bem asfaltadas de Israel, em belos autocarros. Também me interessava, e muito, o mundo hebreu. Fiquei a saber que muitos daqueles jovens o que queriam mesmo era a paz, para poderem viver como gente normal. De facto, Israel não era uma sociedade civil; era um exército sempre armado, sempre em estado de alerta. Também me passavam informações por onde poderia andar, por onde não era conveniente. Estas informações acerca dos locais por onde se podia andar ou não, mudavam todos os dias. Transporto ainda muitas confidências, que guardo para mim.

 

5. Hoje, vejo as imagens, leio os jornais e fico triste. Sei que os ânimos estão outra vez inflamados entre dois grandes povos, que muito admiro, e que contam histórias diferentes. Ambos sonham com a paz e sabem o que é a amizade. Mas zangavam-se muito quando eu, distraído, entre uns e os outros, trocava salam por shalôm ou shalôm por salam. Salam é a saudação palestiniana (e árabe em geral). Shalôm é a saudação hebraica.

 

6. Sinceramente, em nada me fascinam as viagens pré-fabricadas a Israel. Os turistas vêem, nessas viagens, uma montagem preparada para turista ver. Mais ou menos de plástico. Fascinante mesmo é conhecer o mundo verdadeiro de israelitas e palestinianos, uns e os outros, em carne e osso e sonho. Um dia hei-de voltar para vos rever, amigos. No fundo do vosso odiozinho, eu sei que há seres humanos que anseiam pela paz, e que rezam, uns e os outros, pela paz de Jerusalém. Eu vi.

 

7. Entretanto, sofro convosco e rezo por vós, meus irmãos. Lembro-me de um poema que encontrei aí, em El-Qubèibeh, e que lembrava o encontro dos dois de Emaús com Jesus, narrado em Lucas 24. Andava escrito em várias línguas, e passa agora a conhecer também o português. Diz assim: «Todos os dias/ Te encontramos/ no caminho./ Mas muitos reconhecer-Te-ão/ apenas/ quando/ repartires connosco/ o Teu pão./ Quem sabe?/ Talvez/ no último entardecer».

 

António Couto

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5 Responses to UNS E OS OUTROS

  1. Luisa diz:

    Que lindo poema! E que belas memórias!
    Realmente é verdade que “viagens feitas” não passam disso mesmo, “feitas” de acordo com aquilo que se deseja ver e sentir, e assim se perdem outros veres e sentires genuínos e originais capazes de nos mostrar sem artifícios as gentes com os sentimentos que os preenchem.
    Deus queira que um dia possam realmente alcançar a paz desejada para viverem como pessoas normais e deixarem de andar aos sobressaltos!

  2. Elisabete diz:

    Obrigada, D. António, por esta partilha repassada de ternura, de mágoa, mas também de Esperança!
    Unamo-nos na oração por estes povos, irmãos nossos!

  3. glória diz:

    Para lá de todas as fronteiras…de todos os muros que levantamos dentro e fora de nós…está um Deus, todo poderoso…todo poderoso em Amor! É por isso que não abdica nunca de precisar de nós para que a Paz, que é Sua, deixe de ser um sonho e seja uma realidade que todos temos obrigação de ajudar a construir…

  4. Obrigado pela ternura da PALAVRA e pela sensibilidade com que a transmite… Uns e outros, sim…

    Acreditamos que a Lei do mais forte faz com que todos fiquem apenas mais fracos, não é? Acreditamos que o Deus de Jesus é capaz de vencer na ternura e na carícia do Espírito… e, entretanto, Esperamos. Porque Acreditamos, Esperamos…

    E peço ao Bom Deus, de uns e outros, que “isto” seja verdadeiramente Esperança na Fé, e não apenas um nome mascarado para a impotência…

  5. E. Coelho diz:

    Quando eu era pequena, lá em África, muitos serões eram preenchidos pelo meu pai a contar histórias e aventuras da primeira profissão que teve lá: caçador. Ao ler este texto, senti.me, de repente transportada para esses momentos, muitas meses à roda de um candeeiro a petróleo e algumas outras à volta de uma fogueira algures no mato, nas viagens que fazia com ele muitas vezes nas férias. Sei sentir a nostalgia de coisas antigas que nos maracaram, mas que, por isso mesmo são sempre novas. Obrigada por partilhares connosco essa experiência e esse sentimento, pois ajuda-nos a não tomar partido criando divisão, mas a procurar sempre ver o “Rosto” de cada outro.

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