UMA NOVA HUMANIDADE PARA O SÉCULO XXI


 

1. Nós, que acabámos de transpor o umbral do século XXI, carregamos na memória um grande saco de contradições: por um lado, os fantásticos progressos do século XIX, em todos os âmbitos da vida, da locomotiva ao avião, do telégrafo ao telefone, da física clássica à teoria da relatividade…; por outro lado, as indescritíveis catástrofes do século XX, com lugar marcado em Verdun e Estalinegrado, Auschwitz e Gulag, Hiroshima e Chernobyl… E ficamos com a sensação de que a «razão instrumental», guiada por interesses perversos e ilimitados de poder, prevaleceu amplamente sobre a «razão como sabedoria», a sabedoria do amor, ao serviço de todos os homens.

 

2. Pelos cálculos de Hegel, o mundo moderno terá nascido em 1492 com a descoberta da América e de outros continentes pela Europa, que passou assim da periferia para o centro do mundo. Antes dessa data, os poderes da Europa eram insignificantes, quando comparados com os impérios Otomano, Mongol ou Chinês. Mas a América não foi apenas descoberta ou conhecida, mas sobretudo tomada pela força e «formatada» segundo a vontade dos conquistadores. Pouco depois, no século que medeia entre a morte de Copérnico (1543) e o nascimento de Newton (1643), tem lugar outra conquista significativa: a conquista da natureza pelo poder científico-técnico. Estas duas conquistas constituem as duas pedras-base da «nova ordem mundial», que ainda hoje perdura, não obstante o centro ter passado entretanto da Europa para os EUA, como significativamente documentam as notas de um dólar, em que se pode ver escrito em latim: novus ordo seclorum.

 

3. É um pouco como o sonho megalómano de Nabucodonosor, apresentado no Capítulo 2 do Livro de Daniel: uma enorme estátua, com a cabeça de ouro, o peito e os braços de prata, o ventre e as coxas de bronze, as pernas de ferro, os pés de barro. Mas uma pedrinha desce da montanha e vem embater contra os pés de barro da estátua. Resulta do embate que os pés de barro ficam pulverizados, mas igualmente se pulverizam as pernas de ferro, as coxas e o ventre de bronze, os braços e o peito de prata, a cabeça de ouro! Era assim o mundo de Nabucodonosor, imperador da Babilónia, e parece ser assim também a nossa sociedade pesada, rica, poderosa, técnica e metálica, mas com um grande défice de humanidade.

 

4. O certo é que a ambição de poder e riqueza e a pesada indústria dos países ricos continua a explorar brutalmente os pobres da terra e a massacrar a natureza, que se vinga no clima. No dealbar do século XXI, é bom pensar que uma simples pedrinha pode desfazer a pesada máquina das nossas inúteis megalomanias, e que mais vale ter uma cabeça cheia de bom senso do que de ouro, um coração de carne em vez de prata, um ventre de misericórdia em vez de bronze.

 

5. A crise económico-financeira em que estamos atolados é a crise da «razão instrumental», a crise de um mundo que transformou tudo em coisas com três dimensões, e em que também as pessoas não passam de coisas ou de meios que podem ser usadas a nosso bel prazer ou poder, para depois deitarmos fora. É o fim de um mundo, que Edmund Pellegrino traduz muito bem com a expressão: «excesso de meios, míngua de fins». É absolutamente escandaloso que um cão do primeiro mundo tenha à sua disposição dezassete vezes mais bens do que uma criança do terceiro mundo!

 

6. Desde 1979 que as pesquisas efectuadas no domínio da recente e pluridisciplinar psiconeuroimunologia nos vêm surpreendendo com dados fantásticos. O Congresso Internacional «The early human life», realizado em Roma, de 6 a 8 de Setembro de 2000, divulgou novas e sensacionais descobertas que confirmam as pesquisas efectuadas nos anos anteriores, e que bem podem servir de paradigma para a nova humanidade que entra no século XXI. Salvatore Mancuso e Mariella Zezza acabam de publicar (Dezembro de 2008), na Poletto Editore, de Milão, «La prima casa», um belíssimo livro que fala do maravilhoso intercâmbio entre bebé e mãe no ventre materno. Já sabíamos que uma criança herda cinquenta por cento do património genético da sua mãe, como já sabíamos também que o feto está continuamente em contacto com o mundo exterior através do organismo materno. A surpresa que tem vindo a revelar o Prof. Salvatore Mancuso, Director do Instituto de ginecologia e obstetrícia da Universidade Católica do Sagrado Coração, de Roma, mostra que também a mãe sofre, por influência do filho, modificações a longo prazo, que ultrapassam em muito o período da gestação. Diz o Prof. Mancuso que, «desde as primeiríssimas fases da subdivisão celular, partem do embrião mensagens dirigidas à mãe, informações que servem para fazer adaptar o organismo da mãe à presença do novo ser vivo. Depois da implantação do embrião, o diálogo torna-se mais intenso por via sanguínea e celular. Agora temos as provas – refere o Prof. Mancuso – de que as células estaminais do filho passam para a mãe em grande quantidade, implantam-se sobretudo nos órgãos linfáticos e na medula óssea, de que nunca mais se separam, e de que nascem linfócitos durante o resto da vida da mãe. Esta ponte é mesmo incrementada na hora do parto ou do aborto. Mesmo à distância de trinta anos do parto, a mãe continua a levar dentro de si alguma coisa do filho, e, através do filho, também do marido, dado que o filho transporta também cinquenta por cento de património genético do pai. (…) Pode agora dizer-se que, de certa maneira, a gravidez não dura apenas as quarenta semanas usuais, mas dura por toda a vida».

 

7. A passagem das células do feto para a mãe inicia-se muito cedo, já a partir do quinto dia da concepção, tornando-se mais evidente a partir da quarta semana. Mas também do organismo materno são enviadas células ao filho, e também no filho estas células maternas persistem na idade adulta. Oh singular entrelaçamento, maravilhosa simbiose entre mãe, pai e filho, oh singular maravilha da família!

 

8. Para reavivar esta maravilha, realiza-se agora, de 14 a 18 de Janeiro de 2009, na cidade do México, o Encontro Mundial das Famílias.

 

9. Tempo de rezar com o Salmista: «4Ainda a Palavra me não chegou à língua,/ e já, Senhor, a conheceis perfeitamente./ 5Por todos os lados me envolveis,/ e sobre mim pondes a vossa mão./ 6Prodigiosa ciência que não posso compreender,/ tão sublime que a não posso alcançar.// 13Vós formastes as entranhas do meu corpo,/ e me criastes no seio da minha mãe./ 14Eu vos dou graças por me haverdes feito tão maravilhosamente:/ admiráveis são as vossas obras!» (Sl 139,4-6.13-14).

 

António Couto

4 respostas a UMA NOVA HUMANIDADE PARA O SÉCULO XXI

  1. glória diz:

    Neste século XXl já não é só a Fé que nos faz descobrir como filhos de um Pai que a TODOS os homens ama e ata com laços de ternura…a própria Ciência vai descobrindo que há laços de familia que, num encadeado invisível a olho nu,vão ligando toda a Humanidade…
    Esta consciência de relação impele-nos a tornar esse encadeado, que vem do princípio, vivível e palpável, em passos que nos aproximam e gestos que nos fazem irmãos…

  2. Oxalá, a Igreja Católica contribua cada vez mais para essa nova humanidade do século XXI.

  3. Luisa diz:

    Achei bastante interessante o que foi dito desde o ponto 6 ao ponto 9 onde podemos aperceber-nos de fenómenos que não podem ser vistos a olho nu mas a ciência é capaz de nos revelar. É como se a ciência fosse os dedos de Deus que desviam pouco a pouco as “cortinas” da vida para nos mostrar como é que o ser humano se vai criando e fundindo com aqueles que são seus pais biológicos, e dos quais se espera que formem o melhor possível o conceito de “família”. Talvez passe por esta valorização humana a evolução capaz de nos conduzir à nova humanidade para o século XXI.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: