PAULO, MODELO DE EVANGELIZADOR (1)


Começamos aqui a apresentar um texto longo sobre «PAULO, MODELO DE EVANGELIZADOR». Por ser longo, será apresentado em treze posts, diariamente, numerados de 1 a 13, pois estão em continuidade. O que se segue é o primeiro.

1. Um Paulo nascido do sangue, do zelo e do esforço meticuloso

As páginas autobiográficas que se seguem mostram-nos um Paulo orgulhoso da sua raça, das suas raízes culturais e religiosas, que recorda e ostenta com vivo entusiasmo e emoção, ao mesmo tempo que nos deixam ver o entranhado empenho com que se devotou a elas a tempo inteiro e de corpo inteiro, defendendo ciosa, enérgica e, por vezes, violentamente o seu tesouro judaico – assiste-se a uma «progressão de privilégio» do plano da raça e do sangue para o plano religioso e teológico[1] – de tudo aquilo que lhe parecia hostil, nomeadamente a jovem Igreja de Cristo[2]:

 

 

«11,22São hebreus? Também eu. São israelitas? Também eu. São descendentes de Abraão? Também eu» (2 Cor 11,22).

 

«11,1Eu também sou israelita, da descendência de Abraão, da tribo de Benjamim» (Rm 11,1).

 

«3,5Circuncidado ao oitavo dia, da raça de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu, filho de hebreus, quanto à lei fariseu, 6quanto ao zelo, perseguidor (diôkôn) da Igreja, quanto à justiça que há na Lei, irrepreensível» (Fl 3,5-6).

 

«1,13Ouvistes certamente da minha conduta de outrora no judaísmo, de como com excesso (kath’ hyperbolên) perseguia (edíôkon: imperf. de diôkô) a Igreja de Deus e a devastava (epórthoun: imperf. de porthéô), 14e progredia (proékopton: imperf. de prokóptô) no judaísmo mais do que muitos da minha idade e da minha raça, sendo muito mais zeloso das tradições dos meus pais» (Gl 1,13-14).

 

De notar ainda, neste último texto, os três imperfeitos de duração seguidos, que marcam bem a sua acção constante[3]. Por estes breves acenos autobiográficos, podemos entrever um retrato de Paulo, sem meias tintas – «Ninguém pode servir a dois senhores» (Mt 6,24) vale para o homem oriental; nós, ocidentais, arranjamos sempre maneira de o conseguir fazer! –, organizado, determinado e apaixonado, de acordo com a descrição precisa de Amédée Brunot, que refere que Paulo se apresenta como «homem de razão como o grego, homem de acção como o romano, homem de paixão como o oriental»[4].

(continua no póximo post)

 

António Couto


[1] M. J. HARRIS, The Second Epistle to the Corinthians. A Commentary on the Greek Text, Grand Rapids – Milton Keynes, Eerdmans – Paternoster, 2005, p. 794-796.

[2] Ver também C. M. MARTINI, Il Vangelo di Paolo, Milão, Àncora, 2007, p. 12-15; J. GNILKA, Pablo de Tarso. Apóstol y testigo, Barcelona, Herder, 1998, p. 25.

[3] S. LÉGASSE, L’Épître de Paul aux Galates, Paris, Cerf, 2000, p. 87, nota 4.

[4] A. BRUNOT, Le génie littéraire de Saint Paul, Paris, Cerf, 1955, p. 227.

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