PAULO, MODELO DE EVANGELIZADOR (3)

Janeiro 24, 2009

3. Três textos aurorais

A aurora é a metáfora de uma luz nova, que vem de fora, e que se contrapõe à metáfora da luz que em nós mora, a luz da nossa pequena razão. A iniciativa gratuita de Deus precede sempre a nossa pesquisa, o nosso pequeno esforço, meditação, exercícios espirituais, longas orações, jejuns[1]. Vejamos os três lugares clássicos em que Paulo diz, em jeito autobiográfico, esta imensa novidade:

 

 

«15,3Transmiti-vos (parédoka: aor. de paradídômi), na verdade, em primeiro lugar, aquilo que eu mesmo recebi (parélabon: aor de paralambánô): que Cristo morreu (apéthanen: aor2 de apothnêskô) pelos nossos pecados segundo as Escrituras, 4e que foi sepultado (etáphê: aor2 pass. de thápô) e que foi ressuscitado (egêgertai: pf. pass. de egeírô)[2] ao terceiro dia segundo as Escrituras, 5e que SE FEZ VER (ôphthê: aor. pass. de horáô) a Cefas (Kêphã), e depois aos Doze. […] 8Em último lugar, FEZ-SE VER (ôphthê) também a mim (emoí), 9(…)o mais pequeno dos apóstolos (ho eláchistos tôn apostólôn) (…); 10é pela graça de Deus (cháriti dè theoû) que sou o que sou (eimi hó eimi), e a sua graça em mim não ficou vazia (kenê)» (1 Cor 15,3-5.8-10).

 

«1,11Dou-vos a conhecer (gnôrízô), irmãos, o EVANGELHO evangelizado por mim (tò euaggélion tò euaggelisthèn hyp’ emoû), que não é segundo o homem (ouk éstin katà ánthrôpon), 12nem, na verdade, eu o recebi de homem (oudè gàr egô parà anthrôpou parélabon autó), nem fui ensinado (oúte edidáchthên: aor. pass. de didáskô), mas por REVELAÇÃO de JESUS CRISTO (allà di’ apokalýpseôs Iêsoû Christoû). […] 15Quando, pois, aprouve (eudókêsen) a Deus – aquele que me separou (aphorísas) desde o ventre de minha mãe, e me chamou (kaléô) por meio da sua graça –, 16REVELAR (apokalýpsai) o seu Filho em mim, a fim de o evangelizar (hína euaggelízomai autón)» (Gl 1,11-12.15-16).

 

«3,12Não que eu já a tenha recebido (élabon: aor2 de lambánô) ou já tenha chegado à perfeição (teteleíômai: perf. pass. de teleióô), mas persigo/corro (diôkô) para a agarrar (katalábô), pois também FUI AGARRADO (katelêmphthên: aor. pass. de katalambánô) por Jesus Cristo. 13Irmãos, eu mesmo não penso tê-la agarrado (kateilêphénai: inf. perf. katalambánô), mas UMA COISA (hèn dé): as coisas atrás (tà ôpísô) esquecendo (epilanthanómenos: part. pres. médio de epilanthánomai), para as coisas à frente (toîs émprosthen) me atirando (epekteinómenos: part. pres. médio de epekteínomai), 14para a META (skopós) persigo/corro (diôkô) para o PRÉMIO (brabeîon) da chamada celeste de Deus (tês ánô klêseôs toû theoû) em Cristo Jesus (en Christô Iêsoû)» (Fl 3,12-14).

 

É grandemente significativo que, para falar deste começo novo, imprevisível e não programável – que não é «segundo o homem» nem o «recebeu de homem» nem «foi ensinado» (Gl 1,11 e 12) –, Paulo recorra a dois verbos de REVELAÇÃO (ôphthê, aor. pass. de horáô, e apokalýptô) e a um de LUTA (katelêmphthên, aor. pass. de katalambánô).

A locução ôphthê Kêphã [= «Fez-se ver a Cefas»] (1 Cor 15,5) ou ôphthê emoí [= «fez-se ver a mim»] (1 Cor 15,8) merece a nossa atenção. Kêphã [= «a Cefas»] ou emoí [= «a mim»] configura umdativo dito «do beneficiário» usado com o passivo ôphthê, com significado intransitivo. Esta construção do verbo «ver» (ôphthê) sublinha a iniciativa gratuita e soberana de Deus, que deve traduzir-se por «fez-se ver a», e não por «foi visto por»[3], salvaguardando a iniciativa absoluta de Deus.

A locução apokálypsis Iêsoû Christoû [= «revelação de Jesus Cristo»] (Gl 1,12), sendo «de Jesus Cristo» um genitivo subjectivo que acentua que é de Jesus Cristo a acção de revelação[4], subtrai o Evangelho evangelizado por Paulo do âmbito da acção didáctica, da instrução, da aprendizagem e transmissão humana, mas também do âmbito da autodidáctica – Paulo não aprendeu por si mesmo –, para o âmbito novo da «teodidáctica» ou da intervenção divina. Paulo apresenta-se aqui como um «teodidacta» (theodídaktos) (cf. 1 Ts 4,9)[5], sendo o Evangelho que vive e anuncia obra de Deus nele gravada por amor[6]. O Evangelho (tò euaggélion) é um termo tipicamente Paulino, pertencendo a Paulo 60 das 76 menções que ocorrem no NT[7].

Ensinado por Deus (theodídaktos), recebedor de Deus (theodóchos), imitador (mimêtês) de Deus (1 Cor 11,1; cf. 4,16; Ef 5,1; 1 Ts 1,6; 2 Ts 3,7): ser na terra um «mimo» (mîmos) de Deus, fazer como Deus faz, fazer descer o céu à terra[8]. Leia o resto deste artigo »


PAULO, MODELO DE EVANGELIZADOR (2)

Janeiro 24, 2009

2. Uma luz que vem de fora

Encontram-se no Livro dos Actos dos Apóstolos três descrições da reviravolta (evitemos o termo «conversão») operada na vida de Paulo: Act 9,1-19 (em terceira pessoa), Act 22,1-21 e 26,2-23 (em forma autobiográfica). A descrição mencionada em Act 26,2-23 constitui o último discurso que Paulo faz em sua defesa, em Cesareia Marítima, diante do rei Agripa, e é a mais rica em acenos autobiográficos. Deixando de lado aspectos inverosímeis como, por exemplo, a perseguição em cidades estrangeiras (26,11-12; cf. 9,2; 22,5) movida a partir de Jerusalém[1], retenhamos apenas aquela luz nova, vinda de fora, em pleno meio-dia, que atinge e envolve Paulo de forma decisiva (Act 9,3; 22,6; 26,13):

 

 

«9,3Enquanto caminhando, aconteceu, quando se aproximava de Damasco, subitamente, relampejou à minha volta (periêstrapsen: aor. de periastráptô) uma luz (phôs), vinda do céu» (Act 9,3).

 

«22,6Aconteceu que, enquanto caminhava, e ao aproximar-me de Damasco, pelo meio-dia, subitamente, do céu relampejou (periastrápsai: inf. aor. de periastráptô) uma luz (phôs) à minha volta» (Act 22,6).

 

«26,13Ao meio-dia, no caminho, vi, ó rei, vindo do céu, com mais brilho do que o sol, uma luz (phôs) a refulgir à minha volta (perilámpsan) e dos que iam comigo» (Act 26,13).

 

Luz nova, porque vinda de fora, do céu, de Deus, arrasta consigo uma nova criação, um novo nascimento: no «dia Um» da criação, «Deus viu que a luz era boa» (Gn 1,3-4), e foi nesta bondade que tudo foi criado; quando Isaías põe em cena o menino-messias (Is 9,1-6), «uma luz refulge (phôs lámpsei LXX)» (Is 9,1); quando Jesus nasce em Belém, «a glória do Senhor refulgiu à volta (periélampsen) deles [pastores]» (Lc 2,9)[2].

Lida por Paulo, esta luz nova – nova criação e novo nascimento (2 Cor 4,6 é o eco de Gn 1,3-4, modificado pela expressão phôs lámpsei [= «uma luz refulge»] de Is 9,1)[3] – recria-o e recria-nos, desde o coração, com um novo conhecimento e um novo nascimento (2 Cor 4,6)[4]:

 

 

«4,6Porquanto, Deus, aquele que disse: “Das trevas a luz refulgirá (phôs lámpsei)”, é aquele que refulgiu (élampsen) nos nossos corações para a iluminação (pròs phôtismón) que é o conhecimento da glória de Deus (tês gnôseôs tês dóxês toû theoû)[5] no rosto de [Jesus] Cristo (en prosôpô Christoû)» (2 Cor 4,6).

 

Novo conhecimento de Deus, que se declina na passiva: conhecer Deus é ser conhecido primeiro por Deus[6]. O conhecimento na passiva precede o nosso conhecimento activo, que pressupõe aquele[7].

Ver, a propósito deste novo conhecimento que se declina na passiva, o texto de Gl 4,9, em que Paulo faz uma afirmação na activa, para logo a corrigir, completar e reformular pela passiva:

 

 

«4,8Outrora, porém, não conhecendo (ouk eidótes: part. perf. de oîda) Deus, servistes a deuses que, na sua verdadeira natureza (phýsei), não o são. 9Agora, porém, tendo conhecido (gnóntes: part. aor2 de ginôskô) Deus, ou melhor (mâllon dè), tendo sido conhecidos (gnôsthéntes: part. aor2 pass. de ginôskô) por Deus (hypò theoû)» (Gl 4,9).

 

O uso repetido, mas corrigido (da activa para a passiva), do aoristo do verbo conhecer marca a ruptura com o longo estado anterior de desconhecimento de Deus, expresso com o perfeito – «não conhecendo (ouk eidótes: part. perf. de oîda) Deus» (Gl 4,8) –, e sublinha o início de uma nova relação estabelecida por uma livre e gratuita iniciativa de Deus, antigamente com Israel, agora com os Gálatas[8]. Leia o resto deste artigo »