PAULO, MODELO DE EVANGELIZADOR (2)


2. Uma luz que vem de fora

Encontram-se no Livro dos Actos dos Apóstolos três descrições da reviravolta (evitemos o termo «conversão») operada na vida de Paulo: Act 9,1-19 (em terceira pessoa), Act 22,1-21 e 26,2-23 (em forma autobiográfica). A descrição mencionada em Act 26,2-23 constitui o último discurso que Paulo faz em sua defesa, em Cesareia Marítima, diante do rei Agripa, e é a mais rica em acenos autobiográficos. Deixando de lado aspectos inverosímeis como, por exemplo, a perseguição em cidades estrangeiras (26,11-12; cf. 9,2; 22,5) movida a partir de Jerusalém[1], retenhamos apenas aquela luz nova, vinda de fora, em pleno meio-dia, que atinge e envolve Paulo de forma decisiva (Act 9,3; 22,6; 26,13):

 

 

«9,3Enquanto caminhando, aconteceu, quando se aproximava de Damasco, subitamente, relampejou à minha volta (periêstrapsen: aor. de periastráptô) uma luz (phôs), vinda do céu» (Act 9,3).

 

«22,6Aconteceu que, enquanto caminhava, e ao aproximar-me de Damasco, pelo meio-dia, subitamente, do céu relampejou (periastrápsai: inf. aor. de periastráptô) uma luz (phôs) à minha volta» (Act 22,6).

 

«26,13Ao meio-dia, no caminho, vi, ó rei, vindo do céu, com mais brilho do que o sol, uma luz (phôs) a refulgir à minha volta (perilámpsan) e dos que iam comigo» (Act 26,13).

 

Luz nova, porque vinda de fora, do céu, de Deus, arrasta consigo uma nova criação, um novo nascimento: no «dia Um» da criação, «Deus viu que a luz era boa» (Gn 1,3-4), e foi nesta bondade que tudo foi criado; quando Isaías põe em cena o menino-messias (Is 9,1-6), «uma luz refulge (phôs lámpsei LXX)» (Is 9,1); quando Jesus nasce em Belém, «a glória do Senhor refulgiu à volta (periélampsen) deles [pastores]» (Lc 2,9)[2].

Lida por Paulo, esta luz nova – nova criação e novo nascimento (2 Cor 4,6 é o eco de Gn 1,3-4, modificado pela expressão phôs lámpsei [= «uma luz refulge»] de Is 9,1)[3] – recria-o e recria-nos, desde o coração, com um novo conhecimento e um novo nascimento (2 Cor 4,6)[4]:

 

 

«4,6Porquanto, Deus, aquele que disse: “Das trevas a luz refulgirá (phôs lámpsei)”, é aquele que refulgiu (élampsen) nos nossos corações para a iluminação (pròs phôtismón) que é o conhecimento da glória de Deus (tês gnôseôs tês dóxês toû theoû)[5] no rosto de [Jesus] Cristo (en prosôpô Christoû)» (2 Cor 4,6).

 

Novo conhecimento de Deus, que se declina na passiva: conhecer Deus é ser conhecido primeiro por Deus[6]. O conhecimento na passiva precede o nosso conhecimento activo, que pressupõe aquele[7].

Ver, a propósito deste novo conhecimento que se declina na passiva, o texto de Gl 4,9, em que Paulo faz uma afirmação na activa, para logo a corrigir, completar e reformular pela passiva:

 

 

«4,8Outrora, porém, não conhecendo (ouk eidótes: part. perf. de oîda) Deus, servistes a deuses que, na sua verdadeira natureza (phýsei), não o são. 9Agora, porém, tendo conhecido (gnóntes: part. aor2 de ginôskô) Deus, ou melhor (mâllon dè), tendo sido conhecidos (gnôsthéntes: part. aor2 pass. de ginôskô) por Deus (hypò theoû)» (Gl 4,9).

 

O uso repetido, mas corrigido (da activa para a passiva), do aoristo do verbo conhecer marca a ruptura com o longo estado anterior de desconhecimento de Deus, expresso com o perfeito – «não conhecendo (ouk eidótes: part. perf. de oîda) Deus» (Gl 4,8) –, e sublinha o início de uma nova relação estabelecida por uma livre e gratuita iniciativa de Deus, antigamente com Israel, agora com os Gálatas[8].

Ver também o extraordinário conhecimento expresso em 1 Cor 13,12:

 

 

«13,12Vemos (blépomen: ind. pres. de blépô) agora, na verdade, através de um espelho, de maneira confusa (ainígmati); então, ao contrário, rosto a rosto (prósôpon pròs prósôpon). Agora conheço (ginôskô) parcialmente (ek mérous). Então, ao contrário, conhecerei (epignôsomai: fut. de epiginôskô) como também fui conhecido (epegnôsthen: aor. pass. de epiginôskô)» (1 Cor 13,12).

 

Extraordinário e completo conhecimento pessoal, expresso na passagem do verbo normal ginôskô para o verbo pleno epiginôskô[9]. A verdadeira natureza e medida deste conhecimento vem de Deus[10]. O «rosto a rosto» lembra e remete para o «boca a boca» de Nm 12,8, com a intimidade de um beijo[11].

Novo conhecimento. Dado por Deus, a partir de Deus, e não adquirido a partir das nossas categorias. É iluminante o texto de 1 Cor 8,2, a que associamos, para uma correcta compreensão, o versículo precedente:

 

 

«8,1Acerca das coisas sacrificadas aos ídolos, sabemos (oídamen) que todos conhecimento (gnôsis) temos. Mas o conhecimento (hê gnôsis) incha (physioî: pres. de physióô); é o amor (hê dè agápê) que edifica (oikodomeî). 2Se alguém pensa conhecer (egnôskénai: inf. perf. de ginôskô) alguma coisa, ainda não (oúpô) conheceu (égnô: aor2 de ginôskô) como se deve (kathôs deî) conhecer (gnônai: inf. aor2 de ginôskô) (1 Cor 8,1-2).

 

Dado o contexto, salta à vista que, para se «conhecer como se deve», não basta o conhecimento pagão ou natural, simplesmente preso à terra[12], e que da terra brota, cresce ou incha (physióô remete para phýsis = natureza, de phýô, que significa «nascer», «crescer»)[13]. É necessário o amor. No texto acima transcrito, é óbvia a oposição entre o conhecimento e o amor[14]. Mas salta igualmente à vista a oposição entre o conhecimento acabado (tempo perfeito) e o processo frágil do conhecimento (tempo aoristo) como se deve[15]. Bem o sabemos. Não podemos conhecer verdadeiramente alguma coisa ou alguém, sem um processo humilde e frágil de procura e encontro e sem nos apaixonarmos de outra maneira por essa coisa ou por essa pessoa[16]. «Como se deve» arrasta consigo o inteiro Evangelho, vida dada, porque verdadeiramente recebida.

A vanglória (o vento) incha, rebenta e destrói; não constrói. É o amor que constrói:

 

«13,4O amor é paciente (makrothymeî)[17],/ é amável o amor,/ não inveja o amor,/ não se vangloria,/ não incha (physioûtai),/ 5não é inconveniente,/ não procura as próprias coisas (ou zêteî tà heautês),/ não se irrita,/ não pensa mal» (1 Cor 13,4-5).

 

É de salientar que o verbo physióô se faça ouvir seis vezes na Primeira Carta aos Coríntios (1 Cor 4,6.18.19; 5,2; 81; 13,4) e apenas mais uma vez no resto do NT (Cl 2,18)[18].

(continua no próximo post) 

António Couto


[1] Ver, por exemplo, G. BORNKAMM, Pablo de Tarso, Salamanca, Sígueme, 1979, p. 48; J. BECKER, Paul «L’Apôtre des nations», Paris – Montreal, Cerf – Médiaspaul, 1995, p. 77; C. M. MARTINI, Il Vangelo di Paolo, p. 10. É inverosímil a perseguição em cidades estrangeiras, como são igualmente inverosímeis a sua vinda muito cedo para Jerusalém (Act 22,3; 26,4-5), a sua formação aos pés de Gamaliel em Jerusalém (Act 22,3), a sua participação na perseguição e morte de Estêvão (Act 7). Paulo afirma sob juramento que não esteve em Jerusalém nos anos anteriores nem imediatamente seguintes à Revelação que lhe foi feita (Gl 1,17-20), e que, bastantes anos decorridos, o seu rosto era ainda desconhecido pelas comunidades de Jerusalém (Gl 1,22-24). É aceitável que, no momento da Revelação, Paulo residisse em Damasco (dedução do «regresso» de Gl 1,17), e que a sua formação na linha farisaica podia ter sido recebida em qualquer sinagoga de certa importância na diáspora, como, por exemplo, Tarso. Ver, por exemplo, J. BECKER, Paul «L’Apôtre des nations», p. 28-31.51-52.

[2] Ph. BOSSUYT, J. RADERMAKERS, Témoins de la Parole de la Grâce. Lecture des Actes des Apôtres. 2. Lecture continue, Bruxelas, Éditions de l’Institut d’Études Théologiques, 1995, p. 662, e nota 40.

[3]M. J. HARRIS, The Second Epistle to the Corinthians, p. 334; J. D. G. DUNN, The Thology of Paul the Apostle, Edimburgo, T & T Clark, 1998, p. 29.

[4] C. M. MARTINI, Il Vangelo di Paolo, p. 11; J. BECKER, Paul «L’Apôtre des nations», p. 96.

[5] Pode tratar-se de um genitivo subjectivo ou fontal ou de um genitivo epexegético. Ver M. J. HARRIS, The Second Epistle to the Corinthians, p. 335-336.

[6] J. D. G. DUNN, The Thology of Paul the Apostle, p. 47.

[7]D. MARGUERAT, La mystique de l’Apôtre Paul, in J. SCHLOSSER (ed.), Paul de Tarse. Congrès de l’ACFEB (Strasbourg, 1995), Paris, Cerf, 1996, p. 317; S. LÉGASSE, L’Épître de Paul aux Galates, p. 313.

[8]S. LÉGASSE, L’Épître de Paul aux Galates, p. 313, e nota 2.

[9] No grego clássico, o nome epígnôsis e o verbo correspondente epiginôskô podem significar o conhecimento completo e perfeito, distinto do conhecimento parcial, expresso com gnôsis e ginôskô, ainda que possam também ser usados como sinónimos. Ver M. BARTH, H. BLANKE, The Letter to Philemon. A New Translation with Notes and Commentary, Grand Rapids – Cambridge, Eerdmans, 2000, p. 284.

[10]A. C. THISELTON, The First Epistle to the Corinthians. A Commentary on the Greek Text, Grand Rapids –  Cambridge – Carlisle, Eerdmans – Paternoster, 2000, p. 1070.

[11] A. C. THISELTON, The First Epistle to the Corinthians, p. 1071.

[12] Como bem refere Maurice Blanchot, ser pagão significa «fixar-se», quase cravar-se na terra. Etimologicamente, pagus designa o marco, a estaca de marcação cravada na terra. M. BLANCHOT, Infinito Intrattenimento, Turim, Einaudi, 1977, p. 167-168; A. ERNOUT, A. MEILLET, Dictionnaire Étymologique de la Langue Latine. Histoire des mots, Paris, nova edição revista, corrigida e aumentada, 1939, p. 722-723.

[13] A. COUTO, Pentateuco. Caminho da vida agraciada, Lisboa, UCE, 2.ª ed. rev., 2005, p. 207.

[14]A. C. THISELTON, The First Epistle to the Corinthians, p. 623.

[15]A. C. THISELTON, The First Epistle to the Corinthians, p. 624.

[16]B. MAGGIONI, Il Dio di Paolo. Il vangelo della grazia e della libertà, Milão, Paoline, 2.ª ed. actualizada e ampliada, 2008, p. 152-153.

[17] O quinto dos treze atributos de Deus é «paciente» (makróthymos LXX) (Ex 34,6). O termo grego traduz a expressão hebraica ’erek ’apayim [= «largo de narinas»].

[18]A. C. THISELTON, The First Epistle to the Corinthians, p. 622.

Uma resposta a PAULO, MODELO DE EVANGELIZADOR (2)

  1. maria de fátima diz:

    Amar para conhecer e daqui para o crescimento do ( e no ) amor. E quanto mais se conhece mais se ama. Não se começa do conhecimento para o Amor mas é o amor que impele ao conhecimento. É o enamoramento de Cristo que nos impele para Ele e para os outros. É um não querermos mais ” soltar a mão “.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: