PAULO, MODELO DE EVANGELIZADOR (4)

Janeiro 25, 2009

4. Movido pela esperança

Tensão nova. Paulo diz aos cristãos de Éfeso que, antes de terem sido encontrados por Cristo, viviam «sem esperança e sem Deus no mundo (elpída mê échontes kaì átheoi en tô kósmô)» (Ef 2,12). Este marcador Paulino atravessa a Carta Encíclica Spe salvi, de Bento XVI, de 30 de Novembro de 2007[1]. Vejam-se os números 2, 3, 23, 27 e 44. Sem Deus no mundo, habitação desabitada, não há esperança. Pode haver apenas pequenas deduções, como quem deduz o céu da terra ou o Último do penúltimo.

No mundo grego, esperança é elpís, e tem o significado de «previsão», «lícita expectativa», sempre assente nos nossos calculismos e exercícios racionais, pequenas deduções[2]. Ao contrário, a esperança bíblica e cristã, de que fala Paulo (e Bento XVI), é sem medida, tem a ver com o nunca antes visto, aponta para além das leis da natureza, está em luta aberta contra as evidências. Trata-se de «esperar contra a esperança» (par’ elpída ep’ elpídi = contra a esperança na esperança) (Rm 4,18)[3]. É assim que Paulo define a atitude de Abraão. No mundo hebraico, esperança é tiqwah[4], e deriva de qaw, que pode significar «fio», «fita métrica», «cordel para medir». Percebe-se que tem a ver com o «fio» que se estica para medir, até chegar à medida ainda sem medida e sem solução à vista – «esperança vista não é esperança» (Rm 8,24) –, mas que tem solução recebida de Deus. É como o «fio», a «corda», o «arame» estendido entre a dor e a consolação esperada, entre a humanidade e Deus, fio tenso, não abaulado – veja-se Jb 7,6 («Os meus dias correm mais depressa do que a lançadeira,/ e consomem-se sem esperança») e Rm 4,20 («Ele [Abraão] não ficou abaulado na incredulidade / desconfiança (apistía»)) –, e seguro entre duas mãos, a de Deus (sobretudo) e a nossa. Única maneira de se poder atravessar, com segurança e confiança, o vau da morte.

Paulo transfere esta imagem do «fio» ou da «corda» para o mundo e para o homem, e coloca-os nesta tensão esperante, através do recurso ao termo apokaradokía, que ele usa em Rm 8,19 e Fl 1,20, como podemos ver:

 

«8,18Penso, de facto, que os sofrimentos do tempo presente não têm medida de comparação com a glória que está para ser revelada (apokalyphthênai) em nós. 19Com efeito, O ROSTO TENSO (apo-kara-dokía) da criação (tês ktíseos) que a revelação (apokálypsis) dos filhos de Deus ESPERA em tensão RECEBER (apekdéchetai: apò + ek + déchomai)» (Rm 8,18-19).

«1,18(…)Cristo é Evangelizado, e nisto me alegro. Mas também me alegrarei, 19pois sei, de facto, que isto resultará para a salvação, por meio das vossas orações e o socorro do Espírito de Jesus Cristo, 20conforme o ROSTO TENSO (apo-kara-dokía) e a ESPERANÇA (elpís) de que não serei confundido» (Fl 1,18-20).

 

O termo apokaradokía, de apò + kara + dokéô [= fora de + cara (rosto) + esperar/olhar atentamente], que só Paulo usa no NT nas duas passagens referidas, e que é desconhecido no grego antes do Cristianismo, traduz a atitude de quem alonga o pescoço o mais que pode para tentar ver o que ainda não se vê[5]. Fica aqui bem retratada a atitude assumida por Paulo depois de ter sido AGARRADO por Jesus Cristo: «para as coisas à frente me atirando» (Fl 3,13). Leia o resto deste artigo »