PAULO, MODELO DE EVANGELIZADOR (4)


4. Movido pela esperança

Tensão nova. Paulo diz aos cristãos de Éfeso que, antes de terem sido encontrados por Cristo, viviam «sem esperança e sem Deus no mundo (elpída mê échontes kaì átheoi en tô kósmô)» (Ef 2,12). Este marcador Paulino atravessa a Carta Encíclica Spe salvi, de Bento XVI, de 30 de Novembro de 2007[1]. Vejam-se os números 2, 3, 23, 27 e 44. Sem Deus no mundo, habitação desabitada, não há esperança. Pode haver apenas pequenas deduções, como quem deduz o céu da terra ou o Último do penúltimo.

No mundo grego, esperança é elpís, e tem o significado de «previsão», «lícita expectativa», sempre assente nos nossos calculismos e exercícios racionais, pequenas deduções[2]. Ao contrário, a esperança bíblica e cristã, de que fala Paulo (e Bento XVI), é sem medida, tem a ver com o nunca antes visto, aponta para além das leis da natureza, está em luta aberta contra as evidências. Trata-se de «esperar contra a esperança» (par’ elpída ep’ elpídi = contra a esperança na esperança) (Rm 4,18)[3]. É assim que Paulo define a atitude de Abraão. No mundo hebraico, esperança é tiqwah[4], e deriva de qaw, que pode significar «fio», «fita métrica», «cordel para medir». Percebe-se que tem a ver com o «fio» que se estica para medir, até chegar à medida ainda sem medida e sem solução à vista – «esperança vista não é esperança» (Rm 8,24) –, mas que tem solução recebida de Deus. É como o «fio», a «corda», o «arame» estendido entre a dor e a consolação esperada, entre a humanidade e Deus, fio tenso, não abaulado – veja-se Jb 7,6 («Os meus dias correm mais depressa do que a lançadeira,/ e consomem-se sem esperança») e Rm 4,20 («Ele [Abraão] não ficou abaulado na incredulidade / desconfiança (apistía»)) –, e seguro entre duas mãos, a de Deus (sobretudo) e a nossa. Única maneira de se poder atravessar, com segurança e confiança, o vau da morte.

Paulo transfere esta imagem do «fio» ou da «corda» para o mundo e para o homem, e coloca-os nesta tensão esperante, através do recurso ao termo apokaradokía, que ele usa em Rm 8,19 e Fl 1,20, como podemos ver:

 

«8,18Penso, de facto, que os sofrimentos do tempo presente não têm medida de comparação com a glória que está para ser revelada (apokalyphthênai) em nós. 19Com efeito, O ROSTO TENSO (apo-kara-dokía) da criação (tês ktíseos) que a revelação (apokálypsis) dos filhos de Deus ESPERA em tensão RECEBER (apekdéchetai: apò + ek + déchomai)» (Rm 8,18-19).

«1,18(…)Cristo é Evangelizado, e nisto me alegro. Mas também me alegrarei, 19pois sei, de facto, que isto resultará para a salvação, por meio das vossas orações e o socorro do Espírito de Jesus Cristo, 20conforme o ROSTO TENSO (apo-kara-dokía) e a ESPERANÇA (elpís) de que não serei confundido» (Fl 1,18-20).

 

O termo apokaradokía, de apò + kara + dokéô [= fora de + cara (rosto) + esperar/olhar atentamente], que só Paulo usa no NT nas duas passagens referidas, e que é desconhecido no grego antes do Cristianismo, traduz a atitude de quem alonga o pescoço o mais que pode para tentar ver o que ainda não se vê[5]. Fica aqui bem retratada a atitude assumida por Paulo depois de ter sido AGARRADO por Jesus Cristo: «para as coisas à frente me atirando» (Fl 3,13)..

Esta atitude está muito próxima da traduzida por apekdéchomai, que ele usa em sobregarga em Rm 8,19, como já vimos, e também em Rm 8,25:

 

 

«8,24Na verdade, na ESPERANÇA (tê gàr elpídi) fomos salvos (esôthêmen: aor. pass. de sôzô); ora, ESPERANÇA vista (elpìs dè blepoménê: part. pass. de blépô), não é ESPERANÇA (ouk éstin elpís): na verdade, o que se vê (ho gàr blépei), quem o ESPERA (tís elpízei)? 25Pelo contrário, o que não vemos, ESPERAMOS (elpízomen), por meio da PACIÊNCIA (di’ hypomonês), em tensão RECEBER (apekdechómetha: apò + ek + déchomai)» (Rm 8,24-25).

 

O verbo apekdéchomai, de apò-ek-déchomai [= fora de + desde + receber], usado 8 vezes no NT, 6 das quais em Paulo (Rm 8,19.23.25; 1 Cor 1,7; Gl 5,5; Fl 3,20; ver também Act 9,28; 1 Pe 3,30), e desconhecido nos LXX[6], implica uma forte conotação de recepção, tensão para receber a salvação de Deus – viver de (ek) receber e de se receber (déchomai) de Deus (1 Cor 1,7)[7], saindo de si (apó) para se orientar completamente para Deus, tensão para o dom, pois um dom, não o podemos produzir com as nossas mãos; só o podemos receber de outras mãos[8]. A esperança bíblica e cristã consiste na dupla atitude amante de estarmos sempre à espera de Alguém, e de sabermos bem que Alguém espera por nós.

É desta maneira que a atitude da esperança invade o quotidiano e tempera a inteira vida cristã, desinstalando velhas maneiras de viver e instalando novos comportamentos. Vai nascendo assim uma nova maneira de ver e de viver o matrimónio e a vida no lar, a virgindade e o celibato, a escravatura, o tempo passageiro que nos é dado viver. Façamos uma viagem rápida por 1 Cor 7, e reparemos nos dez enunciados seguintes:

 

I. «Cada um (hékastos) a sua mulher tenha» // «Cada uma (hekástê) o seu próprio marido tenha» (1 Cor 7,2).

II. «Para com a mulher, o marido a dívida conjugal (opheilê) cumpra» // «Da mesma forma (homoíôs), a mulher para com o marido» (1 Cor 7,3).

III. «A mulher sobre o seu próprio corpo não tem poder (ouk exousiázô), mas sim o marido» // «Da mesma forma (homoíôs), o homem sobre o seu próprio corpo não tem poder, mas sim a mulher» (1 Cor 7,4).

IV. «Não vos recuseis um ao outro (allêlous), a não ser de comum acordo (súmphônos), por tempo limitado, para vos entregardes à oração, e de novo juntai-vos…» (1 Cor 7,5).

V. «A mulher do marido não se separe (chôrízô); se, porém, se vier a separar, não se volte a casar ou com o marido se reconcilie» // «e o homem a mulher não repudie (aphíêmi)» (1 Cor 7,10-11).

VI. «Se um irmão (adelphós) uma mulher tem não-cristã (ápiston = sem fé), e esta consente em habitar com ele, não a repudie» // «e se uma mulher tem um marido não-cristão (ápiston = sem fé), e este consente em habitar com ela, não repudie o marido» (1 Cor 7,12b-13).

VII. «Na verdade, é santificado o marido não-cristão pela mulher» // «e é santificada a mulher não-cristã pelo irmão (adelphós)» (1 Cor 7,14a)[9].

VIII. «Se o não-cristão (ho ápistos) – ele ou ela – quer separar-se, que se separe; não estão obrigados, o irmão ou a irmã, em tais casos» (1 Cor 7,15)[10].

IX. «Que sabes tu, mulher, se salvarás o teu marido?» // «E que sabes tu, marido, se salvarás a tua mulher?» (1 Cor 7,16).

X. «O que não é casado (ho ágamos), cuida das coisas do Senhor, de como agradar ao Senhor; mas o que se casou (ho dè gamêsas), cuida das coisas do mundo, de como agradar à mulher». // «E a mulher não-casada (hê gynê hê ágamos) e a virgem cuida das coisas do Senhor; (…) mas a que se casou (hê dè gamêsasa) cuida das coisas do mundo, de como agradar ao marido» (1 Cor 7,32b-34).

 

Os dez enunciados que acabámos de enumerar são absolutamente novos para a época, quer em mundo grego quer em mundo judaico, pois conferem ao homem e à mulher, à esposa e ao marido as mesmas possibilidades e oportunidades nos diversos domínios referidos: a) o acordo comum e deliberado na vida conjugal, nomeadamente no que concerne ao exercício da união sexual e da continência (enunciados I-IV); b) a mesma situação e igual dignidade no domínio religioso (enunciados IV.VII.IX); c) os mesmos direitos perante o divórcio (enunciado V); d) igual tratamento na questão dos matrimónios mistos e do chamado «privilégio paulino» (enunciados VI-VIII).

É ainda grandemente significativo para o contexto sócio-cultural da época que, para além da paridade referida dentro da instituição matrimonial, S. Paulo reconheça ainda à mulher em qualquer outro estado – virgem (1 Cor 7,28), viúva (1 Cor 7,39), pagã cujo marido se tornou cristão (1 Cor 7,12.15) – o pleno direito de dispor da sua vida, uma vez mais em plena paridade com a parte masculina.

E no tocante à maneira como Paulo vê a vida matrimonial em relação com a vida celibatária, nota-se que Paulo favorece a vida celibatária, sem, no entanto, desprezar a vida matrimonial, que apresenta também como um dom de Deus (1 Cor 7,7)[11]. Paulo não deprecia o corpo, pois vai até ao ponto de afirmar que «o corpo (…) é para o Senhor, e o Senhor para o corpo» (1 Cor 6,13), e «o vosso corpo é templo do Espírito Santo» (1 Cor 6,19). Neste ponto preciso, Paulo rejeita as insinuações dos grupos ascético-iluministas que pululavam na cidade de Corinto, e que pretendiam impedir os jovens de se casarem e os casados de terem relações sexuais. Paulo não se move no âmbito do dualismo ascético ou litúrgico-sacral[12], mas no âmbito da total «devotação (eupáredron)[13] ao Senhor (tô kyríô) sem distracção (aperispástôs[14] (1 Cor 7,35b)[15]. Paulo também não opõe, ao contrário do que se possa pensar, uma vida tranquila (a vida celibatária) a uma vida cheia de preocupações (a vida matrimonial). De facto, falando da sua vida de Apóstolo sem família, Paulo passa em revista as inúmeras fadigas, tribulações de toda a espécie e a sua preocupação por todas as Igrejas (2 Cor 11,23-28)[16].

No Capítulo 7 da Primeira Carta aos Coríntios, nas respostas que dá às questões que lhe são formuladas acerca do matrimónio e do celibato, Paulo não se entretém com posições menores, mas mostra o modo novo de encarar o tempo limitado da nossa vida histórica no quadro mais amplo da nossa vida «em Cristo». Assim correctamente situados, compreenderemos, com Paulo, que «o tempo (ho kairós) começou já a recolher as velas (synestalménos[17] (1 Cor 7,29), e que «passa (parágei)[18], na verdade, a figura (tò schêma) deste mundo (toû kósmou toútou[19] (1 Cor 7,31b), isto é, tendo em conta a força das palavras e a expressão gramatical, «a figura que passa (na tela) é este mundo». Se assim é, devemos saber relativizar todos os nossos «esquemas» neste mundo. E o matrimónio, que pertence à figura deste mundo, dado que, «na ressurreição, nem eles se casam nem elas se dão em casamento» (Mt 22,30; Mc 12,25; cf. Lc 20,35), não pode tornar-se a meta última[20]. Chega a ser de uma comicidade extrema a seriedade com que nos agarramos às coisas terrenas[21]. Mas nada de simplismos. A alternativa não é entre opção pelo mundo e renúncia ao mundo[22]. O acento tem de pôr-se na dedicação pessoal total ao Senhor sem distracção. Portanto, no amor. A renúncia à bondade do mundo faz-se, biblicamente, só por amor, por mais amor[23]. Da lição dos chamados «Códigos familiares» (Haustafeln) presentes em Ef 5,21-6,9 e Cl 3,18-4,1 resulta que as comunidades cristãs aí documentadas não tinham como primeira preocupação subverter os quadros jurídicos e sociais que regulavam as relações entre marido, esposa, filhos, senhores e servos. Vê-se que aceitavam as normas vigentes. A sua preocupação ia sobretudo no sentido de encontrar uma maneira nova de viver dentro dos quadros vigentes[24]. É nesse sentido que Paulo transforma o binómio corrente «dominar (kratéô) – submeter (hypotássô)» em «amar (agapáô) – submeter (hypotássô[25].

(continua no próximo post)

António Couto


[1] R. FABRIS, «Abbiamo posto la nostra speranza nel Dio vivente». La «speranza» nella Bibbia, in R. FABRIS, D. GAROTA, M. GUZZI, C. MILITELLO, M. TENACE, Salvati nella Speranza. Commento e guida alla lettura dell’Enciclica Spe Salvi di Benedetto XVI, Milão, Paoline, 2008, p. 12.

[2] D. GAROTA, Tra caparra e compimento, in R. FABRIS, D. GAROTA, M. GUZZI, C. MILITELLO, M. TENACE, Salvati nella Speranza, p. 142.

[3] D. GAROTA, Tra caparra e compimento, p. 142.

[4]D. GAROTA, Tra caparra e compimento, p. 142.

[5] S. LÉGASSE, L’épître de Paul aux Romains, p. 538, nota 24; D. J. MOO, The Epistle to the Romans, p. 513; J. A. FITZMYER, Lettera ai Romani, p. 603-604; E. OFFMANN, Esperanza (apokaradokía), in L. COENEN, E. BEYREUTHER, H. BIETENHARD (eds.), Diccionario teológico del Nuevo Testamento, II, Salamanca, Sígueme, 1980, p. 134.

[6]E. OFFMANN, Esperanza (apokaradokía), p. 135.

[7]S. LÉGASSE, L’Épître de Paul aux Galates, p. 381; B. MAGGIONI, Il Dio di Paolo, p. 113.

[8] A. CHIEREGATTI, Dono e perdono nell’esperienza biblica, in G. GASPARINI (ed.), Il dono. Tra etica e scienze sociali, Roma – Fossano, Lavoro – Esperienze, 1999, p. 164.

[9]Note-se a inclusão operada entre 7,12b-14a mediante a repetição do termo «irmão». A passagem apresenta estrutura quiástica com a forma ABB’A’.

[10] Decorre daqui o famoso «privilégio Paulino».

[11]B. MAGGIONI, Il Dio di Paolo, p. 145.

[12]B. MAGGIONI, Il Dio di Paolo, p. 147-148.

[13]Hápax legómenon. Sugere a ideia de uma presença contínua junto de um objecto ou pessoa venerável (cf. 1 Cor 9,13: «devotado» (paredreúô) unicamente ao serviço do altar).

[14] Outro hápax. Contrapõe-se ao retrato de Marta, «distraída» (perispáomai) pelo muito serviço (Lc 10,40).

[15]B. MAGGIONI, Il Dio di Paolo, p. 149.

[16]B. MAGGIONI, Il Dio di Paolo, p. 148.

[17] Verbo systéllô. Está subjacente a imagem do marinheiro, que estando a chegar ao fim da viagem, começa a recolher as velas da embarcação.

[18]Significa «passar», como um exército que desfila ou como um actor que passa pelo palco. A. C. THISELTON, The First Epistle to the Corinthians, p. 585.

[19]Trata-se dum genitivo epexegético: a figura que é este mundo.

[20]B. MAGGIONI, Il Dio di Paolo, p. 146 e 148.

[21] O. KUSS, Carta a los Romanos. Cartas a los Coríntios. Carta a los Gálatas, Barcelona, Herder, 1976, p. 233.

[22] O. CULLMANN, Christ et le temps, Neuchâtel-Paris, Delachaux & Niestlé, 1966, p. 152.

[23] A. COUTO, Como uma dádiva. Caminhos de antropologia bíblica, Lisboa, UCE, 2.ª ed. revista, 2005, p. 119.

[24]B. MAGGIONI, Il Dio di Paolo, p. 250-251.

[25] W. SCHRAGE, Zur Ethik der neutestamentlichen Haustafeln, in New Testament Studies, 21, 1974-1975, p. 1-22; E. COTHENET, Exégèse et Liturgie, Paris, Cerf, 1988, p. 241.

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