PAULO, MODELO DE EVANGELIZADOR (5)


5. A palavra da Cruz

Pela sua importância, vale a pena transcrever este imenso texto do princípio da Primeira Carta aos Coríntios:

 

«1,10Exorto-vos, irmãos, pelo nome do Senhor Nosso, Jesus Cristo, para que a mesma coisa digais todos, e não haja entre vós divisões (schísmata); ao contrário, sede remendadores (katêrtisménoi: part. perf. pass. de katartízô) (cf. Mc 1,19; Mt 4,21 = remendar as redes) no mesmo pensamento e no mesmo parecer. 11Foi-me, na verdade, feito saber a respeito de vós, meus irmãos, pelos de Cloé, que há rixas (érides) entre vós. 12Digo isto, porque cada um de vós diz: “Eu sou de Paulo, eu de Apolo, eu de Cefas, eu de Cristo”.

13Está dividido em partes (meméristai: perf. pass. de merízô) Cristo? Não foi Paulo que foi crucificado (estaurôthê: aor. pass. de stauróô) por vós (hypèr hymôn), pois não? Também não fostes baptizados no nome de Paulo, pois não? 14Dou graças a Deus por não ter baptizado nenhum de vós, a não ser Crispo e Gaio, 15para que ninguém diga que, no meu nome, fostes baptizados. 16É verdade que também baptizei a casa de Estéfanas; de resto, não sei se alguém mais baptizei.

 

17Na verdade, Cristo não me enviou (apésteilen: aor. de apostéllô) a baptizar (baptízein), MAS A EVANGELIZAR (allà euaggelízesthai), não com a sabedoria da palavra (ouk en sophía lógou), para que não seja esvaziada (kenôthê: aor. pass. de kenóô) a Cruz de Cristo (ho stauròs toû Christoû).

 

18Na verdade, a palavra, a da Cruz (ho lógos ho toû stauroû) loucura (môría) para os que se perdem (apóllyménois) é, mas, para os que se salvam (sôzoménois), para nós, poder de Deus é. 19Está escrito (gégraptai), na verdade: “Destruirei a sabedoria dos sábios,/ e a inteligência dos inteligentes anularei. 20Onde está o sábio? Onde está o escriba?” Onde está o argumentador (syzêtêtês) deste tempo? Não tornou louca (emôrasen: aor. de môraínô) Deus a sabedoria do mundo? 21Visto que o mundo, por meio da sabedoria, não conheceu Deus na sabedoria de Deus, aprouve (eudókêsen) a Deus, por meio da loucura do anúncio (dià tês môrías toû kêrýgmatos), salvar os que acreditam (toùs pisteúontas). 22Os judeus pedem sinais (sêmeîa), e os gregos procuram a sabedoria (sophía); 23nós, porém, anunciamos (kêrýssomen) Cristo crucificado (Christòn estaurôménon: part. perf. pass. de stauróô), escândalo para os judeus, loucura (môría) para os gentios. 24Mas, para aqueles que são chamados (toîs klêtoîs), quer judeus quer gregos, Cristo é poder de Deus e sabedoria de Deus. 25Na verdade, a loucura de Deus (tò môròn toû theoû) é mais sábia do que os homens, e a fraqueza (asthenés) de Deus é mais forte do que os homens» (1 Cor 1,10-25).

 

Pela configuração que demos ao texto, deixámos em posição central o v. 17, que vários autores consideram a chave de compreensão de 1 Cor 1-4, e mesmo da inteira Primeira Carta aos Coríntios[1]. Na verdade, em 1 Cor 1,17, está bem formulada a tese de Paulo: foi enviado (apóstolo) por Cristo a Evangelizar, não como um saltimbanco da linguagem[2], com eloquência e autosuficiência quanto baste, mas com a palavra frágil e escandalosa da Cruz.

A anteceder o v. 17, fala-se de divisões que há que remendar, diferentes grupos de pertença identificados pelos seus patronos, cinco menções do verbo «baptizar». Imediatamente a seguir ao v. 17, fala-se de «a palavra da Cruz» (ho lógos ho toû stauroû) – fórmula condensada e original, só aqui em todo o NT[3] –, da loucura (môría, môrós, môraínô)[4] do poder de Deus que destrói a sabedoria do mundo, do anúncio de Cristo crucificado para sempre: tal é o significado do perfeito passivo estauroménon[5].

Dupla loucura é que a Cruz seja ad unius o objecto e o método do anúncio. A Cruz é o sinal de que Deus nos ama radicalmente debruçando-se por amor sobre nós, e que se recusa a impor o amor[6]. O crucificado (estauroménon) mostra que a dádiva da vida é total e permanente. Cúmulo da loucura: da palavra da Cruz faz parte o anúncio de que Cristo Ressuscitado é aquele crucificado[7]. Veja-se a esta luz a força da expressão «Senhor (é) Jesus» (Kýrios ’Iêsoûs; aramaico: Mareh Iêshou‘) (Rm 10,9; 1 Cor 12,3) ou «Senhor (é) Jesus Cristo» (Kýrios ’Iêsoûs Christós) (Fl 2,11), e compreenda-se bem a diferença em relação à expressão secundária «Jesus (é) Senhor». A primeira formulação, que mantém a ordem correcta das palavras, provém da linguagem da confissão de fé (homología), como quem responde à pergunta: «Quem é Senhor?», «Quem reconheces tu como Senhor?»[8].

E este anúncio, além de reclamar a nossa radical identificação com Cristo que dá a sua vida por nós, convida-nos ainda a subir ao púlpito para proclamar o Evangelho de Cristo, alto e bom som[9]. Anunciar a morte de Jesus não tem qualquer sentido fúnebre, não é anunciar o sofrimento dorido ou a coragem do herói, tão-pouco a resignação ou, no pólo oposto, qualquer aspecto belicoso – do tipo in hoc signo vinces, de constantiniana memória, transposto depois para o estandarte dos cruzados[10], ou qualquer outra manifestação de heroicidade a favor de alguém e contra alguém, como vemos nos modernos kamikaze –, mas sim a soberana novidade da dádiva da vida por amor a todos sem excepção.

Aquele «não me enviou a baptizar, mas a evangelizar» poderia levar-nos a supor a existência de uma ruptura entre entre o ministério sacramental e o ministério do anúncio. Seria um erro supor que Paulo estabelecesse um contraste entre os dois ministérios. Na verdade, tanto o Baptismo como a Ceia do Senhor proclamam o Evangelho da morte e da ressurreição de Cristo (Rm 6,3-11; 1 Cor 11,24-27)[11]. É possível, porém, ver uma certa diferença nas Cartas de Paulo entre a Ceia do Senhor, cuja prática é feita remontar directamente à tradição de Jesus, e o Baptismo, cuja prática não aparece directamente na linha da tradição de Jesus, ao contrário do que sucede, por exemplo, em Mt 28,19. Ecos desta divergência podem ver-se ainda em 1 Cor 1,13-17, em que aparece uma concepção do Baptismo que cria uma particular ligação de pertença do baptizado em relação a quem o baptiza. Charles Perrot refere mesmo que este aspecto é um dos traços característicos dos movimentos baptistas[12].

 É provável, de acordo com Jürgen Becker, que a tipologia baptismal do vestido ou revestimento (revestidos de Cristo) remonte à comunidade de Antioquia, donde Paulo a terá recebido[13]:

 

«3,26Na verdade, todos (pántes) filhos de Deus sois, através da fé em Cristo Jesus (en Christô Iêsoû), 27pois os que para Cristo (eis Christón) fostes baptizados, de Cristo fostes revestidos (enedýsasthe: aor. de endýô). 28Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há macho e fêmea, pois todos (pántes) vós um sois em Cristo Jesus (en Christô Iêsoû)» (Gl 3,26-28).

 

Note-se, em primeiro lugar, o ritmo circular do texto com «todos» e «em Cristo Jesus» a abrir e a fechar[14]. Note-se também, no coração do texto, a tradução do baptismo como «passagem», transferência para Cristo (eis Christón)[15], até ao ponto de nos «revestirmos» de Cristo (cf. Rm 13,14), metáfora da vida nova em Cristo, com Cristo, como Cristo, outro Cristo[16], não de uma vez por todas, mas um afazer de todos os dias, como denota o uso do aoristo (aqui e em Rm 13,14)[17].

O ícone desta passagem ou transferência para Cristo, a renovar todos os dias, bem pode ser Santo Agostinho. Na sua intensa busca da verdade, foi de Tagaste para Cartago, para Milão. Homem inquieto, no pólo oposto do coktail da tranquilidade e consolo, servido pela New Age ou da Next Age, e de acordo com a advertência de Julien Green: «Enquanto estivermos inquietos, podemos estar tranquilos». No princípio do Outono de 386, angustiado e inquieto, Agostinho sai para o jardim da sua casa, em Milão, e chora amargamente, sentado debaixo de uma figueira. Ouve então uma criança que, na casa vizinha, cantarolava uma estranha letra: «Toma e lê!», «toma e lê!» Agostinho apercebeu-se de que não era normal uma criança trautear uma canção com uma letra assim. Foi, por isso, levado a compreender que bem podia ser um recado de Deus para ele. Entrou em casa, desenrolou à sorte as Cartas de S. Paulo que tinha sobre a mesa, e leu:

 

«13,13bNão em orgias e bebedeiras, não em devassidão e libertinagem, não em rixas e ciúmes, 14mas REVESTI-VOS (endýsasthe: imper. aor. de endýô) do Senhor Jesus Cristo e não presteis atenção à carne através da concupiscência» (Rm 13b-14).

 

Nesse dia e nessa hora, nasceu Santo Agostinho[18].

Também é provável, como aponta Simon Légasse, que o agrafo do baptismo com o mistério da morte e da ressurreição de Cristo constitua uma originalidade paulina[19]:

 

 

«6,3Ou ignorais que todos os que fomos baptizados para Cristo Jesus (eis Christòn Iêsoûn), foi na sua morte que fomos baptizados? 4Fomos com-sepultados (synetáphêmen: aor2 pass. de syntáptô) com ele por meio do baptismo na morte, para que, como foi ressuscitado (êgérthê: aor. pass. de egeírô) Cristo dos mortos por meio da glória do Pai (dià tês dóxês toû patrós), assim também nós numa vida renovada (kainótêti zôês) caminhemos (peripatêsômen: conj. aor. de peripatéô). 5Se, na verdade, com-crescidos (sýmphytoi) nos tornámos (gegónamen: perf. de gínomai) com ele por morte semelhante à sua, também o seremos na ressurreição» (Rm 6,3-5).

 

Texto intenso para traduzir a nossa vital participação com Cristo, movimentação para Cristo traduzida no eis Christón[20], através do baptismo, pelo qual já fomos com-sepultados (aoristo) e com-crescemos (perfeito)[21]. Na verdade, Paulo fala muitas vezes da participação do cristão na morte de Cristo (Gl 2,19; 5,4; 6,14; 2 Cor 4,10; 5,15), mas esta é a única passagem autêntica (cf. Cl 2,12) que associa o baptismo à morte de Cristo. Ainda assim, de forma bastante subtil, pois o baptismo desaparece a partir de 6,5[22]. Que a Ressurreição de Cristo seja atribuída à glória do Pai mostra a dependência de Paulo em relação ao AT, onde os milagres e as teofanias do Êxodo são atribuídas à glória (kabôd, dóxa) de Deus (Ex 15,7 e 11; 16,7 e 10)[23]. Note-se a articulação da «vida renovada» do baptizado com a «criação renovada» (kainê ktísis) de quem está «em Cristo» (en Christô) (2 Cor 5,17). Note-se ainda o «caminhar», com conotação ética, que Paulo pediu emprestado ao AT (Ex 18,20; 2 Rs 20,3; 22,2; Sl 86,11; Pr 8,20; 28,18)[24].

É inquestionável, e Paulo mostra-o até à exaustão, que a Cruz de Cristo constitui o chão e o critério da identidade cristã e apostólica[25].

Basta que nos detenhamos um pouco a contemplar a riqueza destes textos selectos:

 

 

«3,25Deus o expôs (proétheto) como PROPICIATÓRIO (hilastêrion), por seu próprio sangue, mediante a fé» (Rm 3,25).

«3,1Aos (vossos) olhos (kat’ophtalmoús), Jesus Cristo exposto por escrito (proegráphê), crucificado (estaurôménos)» (Gl 3,1).

«1,18A palavra, a da cruz» (ho lógos gàr ho toû stauroû) (1 Cor 1,18).

«1,23Nós anunciamos Cristo crucificado (estaurôménon), para os judeus escândalo (skándalon), para os gentios loucura (môrían)» (1 Cor 1,23).

«2,2Na verdade, decidi não saber nada entre vós, senão Jesus Cristo, e este crucificado (estaurôménon) (1 Cor 2,2).

 

Também é verdade, e di-lo bem Alexandra Brown, a partir dos textos densos de Paulo, que o anúncio da Cruz abre para «uma nova maneira de estar no mundo»[26]. E também é importante compreender, com John Louis Martyn, que o oposto de «conhecer katà sárka» não é apenas «conhecer katà pneûma», mas também «conhecer katà staurón»[27].

(continua no próximo post)

António Couto


[1] D. LITFIN, St. Paul’s Theology of Proclamation: 1 Corinthians 1-4 and Greco-Roman Rhetoric, Cambridge, Cambridge University Press, 1994, p. 187. Giuseppe Barbaglio vê no v. 17 a tese de Paulo. G. BARBAGLIO, Il pensare dell’Apostolo Paolo, Bolonha, EDB, 2004, p. 127.

[2]G. BARBAGLIO, Il pensare dell’Apostolo Paolo, p. 116.

[3]G. BARBAGLIO, Il pensare dell’Apostolo Paolo, p. 123.

[4] Cinco anotações em oito versículos. O seu sentido fundamental é a estupidez. B. MAGGIONI, Il Dio di Paolo, p. 127.

[5]B. MAGGIONI, Il Dio di Paolo, p. 124-125.

[6]B. MAGGIONI, Il Dio di Paolo, p. 131-133.

[7]G. BARBAGLIO, Il pensare dell’Apostolo Paolo, p. 126.

[8] Sobre este assunto importante, ver V. FUSCO, Les premières communautés chrétiennes. Traditions et tendances dans le christianisme dês origines, Paris, Cerf, 2001, p. 110-111; ver também J. A. FITZMYER, Lettera ai Romani, p. 702.

[9] A. C. THISELTON, The First Epistle to the Corinthians, p. 886-887.

[10] G. BARBAGLIO, Il pensare dell’apostolo Paolo, p. 118.

[11] A. C. THISELTON, The First Epistle to the Corinthians, p. 142-143.

[12]Ch. PERROT, Gesù e la storia, p. 100.

[13] J. BECKER, Paul,« L’Apôtre des nations», p. 129 e 288.

[14]S. LÉGASSE, L’Épître de Paul aux Galates, p. 272.

[15]S. LÉGASSE, L’Épître de Paul aux Galates, p. 276.

[16]S. LÉGASSE, L’Épître de Paul aux Galates, p. 277-278.

[17]D. J. MOO, The Epistle to the Romans, p. 826, nota 50.

[18] Agostinho narra este episódio nas suas Confissões, Livro VIII, 12.

[19] S. LÉGASSE, Naissance du baptême, Paris, Cerf, 1993, p. 130-131.

[20]J. D. G. DUNN, The Theology of Paul the Apostle, p. 404.

[21]Sýmphytoi (de symphýô) traduz vida (nascer e crescer) em conjunto, e pode evocar a imagem de um enxerto (cf. Jo 15). J. A. FITZMYER, Lettera ai Romani, p. 518; D. J. MOO, The Epistle to the Romans, p. 368, e nota 76. O tempo perfeito (gegónamen) indica sempre, e também neste caso, um acontecimento cujos efeitos permanecem. S. LÉGASSE, L’Épître de Paul aux Romains, p. 395 e 397.

[22] S. LÉGASSE, L’Êpître de Paul aux Romains, p.391-398.

[23]S. LÉGASSE, L’Êpître de Paul aux Romains, p. 395.

[24]J. A. FITZMYER, Lettera ai Romani, p. 517-518.

[25] W. SCHRAGE, Der erste Brief an die Korinther, I, Neukirchen-Vluyn, Zurique-Dusseldorf, Neukirchener Verlag-Benziger Verlag, 1991, p. 165.

[26] A. R. BROWN, The Cross in Human Transformation: Paul’s Apocalyptic Word in 1 Corinthians, Mineapolis, Fortress, 1995, p. 12.

[27] A afirmação é de J. L. MARTYN, Epistemology at the Turn of the Ages: 2 Cor 5,16, in H. R. FARMER, C. F. D. MOULE, R. R. NIEBUHR (eds.), Christian History and Interpretation: Studies Presented to John Knox, Cambridge, Cambridge University Press, 1967, p. 272. Ver também A. C. THISELTON, The First Epistle to the Corinthians, 147.

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