PAULO, MODELO DE EVANGELIZADOR (6)


6. A força nova de uma testemunha

No seu discurso aos Membros do Consilium de Laicis, proferido em 02 de Outubro de 1974[1], Paulo VI fez uma importante afirmação, que depois retomou na Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi (08 de Dezembro de 1975), n.º 41:

  

«O homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres, ou então, se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas».

 

Paulo entra bem nesta catalogação do mestre que é testemunha. Ele sabe bem que foi chamado desde o ventre materno (Gl 1,15; cf. Is 49,1; Jr 1,5). Que foi agarrado por Jesus Cristo (Fl 3,12). Que foi amado por Jesus Cristo (Gl 2,20). Que o amor de Cristo tomou conta dele (hê agápê toû Christoû synéchei hêmâs) (2 Cor 5,14), programando-o[2]. Que, para ele, viver é Cristo (Fl 1,21), pois é Cristo que vive nele (Gl 2,20), e fala nele (2 Cor 13,3)[3].

É por isso que Paulo estava tomado (syneícheto: imperf. passivo de synéchô) pela Palavra o tempo todo, dando testemunho aos judeus de que Jesus era o Cristo (Act 18,5). Tomava conta da Palavra, que tomou conta dele.

A abrir o Capítulo nono da Primeira Carta aos Coríntios, Paulo apresenta as suas credenciais apostólicas, servindo-se de uma série de perguntas retóricas que reclamam outras tantas respostas afirmativas enfáticas[4]:

  

«9,1Não sou livre? Não sou apóstolo? Não VI (heôraka) Jesus, o Senhor nosso?» (1 Cor 9,1).

 

Este VER, no tempo perfeito grego, indica que Paulo não se refere apenas a uma experiência do passado, que não afecta o presente, mas a uma experiência cujo efeito continua no presente[5]. Empregando este tempo gramatical, Paulo afirma que viu e que continua a ver Jesus, apresentando-se, portanto, como uma testemunha credível e convincente. O tempo perfeito é o tempo da testemunha. Só alguém com a vida cheia de Jesus pode dar testemunho de Jesus.

Atente-se também, neste sentido, nas palavras elucidativas que Ananias dirige a Paulo:

  

«22,14O Deus dos nossos pais designou-te para conhecer a vontade dele e VER (ideîn: inf. aor2 de horáô) o Justo e ESCUTAR (akoúsai: inf. aor. de akoúô) a voz da boca dele, 15porque serás testemunha (mártys) dele para todos os homens acerca das coisas que VISTE (heôrakas: perf. de horáô) e ESCUTASTE (êkousas: aor. de akoúô)» (Act 22,14-15).

 

 E ainda nas palavras que lhe dirige o próprio Senhor Ressuscitado:

  

«26,16Levanta-te, e fica de pé. Por isto me FIZ VER a ti (ôphthên soi)[6]: para te designar servo e testemunha (mártys) das coisas que VISTE (eîdes: aor2 de horáô) de mim e daquelas que te farei VER (ophthêsomai)» (Act 26,16).

 

Os textos citados do Livro dos Actos dos Apóstolos ostentam mesmo a palavra «testemunha»  (mártys) (Act 22,15; 26,16)[7], e continuam a mostrar a mesma visão testemunhal, com o verbo VER no tempo perfeito (Act 22,15). Mas recorrem também a um outro VER, traduzido com o aoristo segundo de horáô, que é eîdon, infinito ideîn, que implica uma visão nova e profunda, para além das aparências, interior, não necessariamente ocular, que tem a ver com a identidade (Act 22,14; 26,16)[8]. Mas note-se ainda a importância do ESCUTAR (Act 22,14 e 15), expresso com o verbo akoúô, que faz passar do ouvir físico para a docilidade do coração, de modo a facultar que a Palavra entre e ressoe no coração fiel[9]. É outra nota importante da testemunha fiel e amante.

 

É verdade que quem, como Paulo, tem a vida cheia de Jesus e vive de Jesus, tenha mesmo de dar testemunho de Jesus. Eis como Paulo expressa essa necessidade:

  

«9,16Evangelizar (euaggelízomai) não é para mim um título de glória, mas uma necessidade que se me impõe. Ai de mim (ouaì gár moí estin) se não evangelizar! (eàn mê euaggelízomai)» (1 Cor 9,16).

 

E também fica esclarecida a afirmação forte de Paulo VI na Exortação Apostólica Evangelli Nuntiandi, n.º 14:

  

«A missão de evangelizar é a graça e a vocação própria da Igreja, de toda a Igreja, a sua identidade mais profunda. A Igreja existe para evangelizar».

 

E também se entendem bem as palavras de João Paulo II na Carta Apostólica Novo Millenio Ineunte (06 de Janeiro de 2001), n.º 40:

  

«Esta paixão (“Ai de mim se não evangelizar!”: 1 Cor 9,16) não deixará de suscitar na Igreja uma nova missionariedade, que não poderá ser delegada a um grupo de “especialistas”, mas deverá corresponsabilizar todos os membros do povo de Deus. Quem verdadeiramente encontrou Cristo, não pode guardá-l’O para si; tem de O anunciar».

 

A verdade é que, com aquele «Ai de mim», que é uma «fórmula de desgraça» em uso no discurso profético[10], Paulo confessa que a sua vida se desmorona, que se desfaz num amontoado de ruínas, se não se dedicar apaixonadamente ao anúncio do Evangelho!

(continua no próximo post)

António Couto

[1]AAS, 66, 1974, p. 568.

[2] O verbo synéchô significa «tomar conta de», «dominar completamente»…  M. J. HARRIS, The Second Epistle to the Corinthians, p. 419.

[3] J. GNILKA, Pablo de Tarso, p. 250.

[4]A. C. THISELTON, The First Epistle to the Corinthians, p. 667.

[5] A. C. THISELTON, The First Epistle to the Corinthians, p. 668.

[6] É outra vez o dativo do beneficiário já atrás mencionado.

[7] J. GNILKA, Pablo de Tarso, p. 9-10. De notar que Joachim Gnilka põe mesmo como subtítulo do seu livro «Apóstolo e testemunha».

[8] C. TRAETS, Voir Jésus et le Père en Lui selon l’Évangile de Saint Jean, Roma, Libreria Editrice dell’Università Gregoriana, 1967, p. 41; B. MAGGIONI, Era veramente uomo. Rivisitando la figura di Gesù nei Vangeli, Milão, Àncora, p. 151.

[9] I. DE LA POTTERIE, Studi di Cristologia Giovannea, Génova, Marietti, 3.ª ed., 1992, p. 293.

[10] E. JENNI, hôy Ay, in E. JENNI, C. WESTERMANN (eds.), Diccionario Teologico manual del Antiguo Testamento, I, cols. 669-670.


2 respostas a PAULO, MODELO DE EVANGELIZADOR (6)

  1. E. Coelho diz:

    Olá
    Ontem estive a ver o filme do 2º encontro no auditório Vita. Os slides da apresentação estavam escritos em várias cores e eram destacadas as palavras/frases sobre as quais querias que meditassemos mais profundamente. Não se pode fazer o mesmo aqui, (em Azura)?
    É que se calhar ajudava-nos um pouco a entender melhor os textos, principalmente quando eles são mais longos.
    (Isto é apenas uma sugestão…)

  2. Fatima Ferreira das Neves diz:

    É ,em nossas casas ,que deve começar o propósito de S. Paulo, caminhando como ele, e,vivendo.
    É ,que Paulo diz-nos que encontrou Jesus,QUE MARAVILHA. Paulo, também ,O imitou, identificando-se com Ele.Quem não gostaria ,de também ser , encontrado por JESUS?
    Mãos á obra ,caminhemos também evangelizemos,proclamando
    a palavra do Senhor,com experiências vividas no nosso quotidiano,divulguemos a palavra de Deus sem medo ou receios.
    Paulo, QUER DAR CONTINUIDADE aos seus testemunhos,tentemos compreendê-lo e perceber o que ele quer transmitir a todos nós.Felicidades para todos os filhos de Deus.Sempre convosco.Bem hajam.

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