PAULO, MODELO DE EVANGELIZADOR (8)

Janeiro 29, 2009

8. Metodologia maternal e paternal: evangelização personalizada e a tempo inteiro

Quem, como Paulo, foi encontrado por Cristo e vive de Cristo a tempo inteiro, tem também de dar testemunho de Cristo a tempo inteiro, com CORAÇÃO MATERNO e PATERNO, gerando filhos[1], dando-os à luz na dor, acalentando-os, exortando-os e consolando-os um a um, portanto, com tempo e total dedicação e persistência e paciência, e o zelo com que um pai guarda com dedicada atenção a filha para o casamento[2], ou chora a separação dos seus filhos, como ele próprio testemunha, escrevendo às comunidades cristãs por ele fundadas[3]:

 

 

«4,14Não querendo envergonhar-vos (entrépôn: part. pres. de entrépô) escrevo estas coisas, mas como meus filhos amados (tékna mou agapêtá) admoestando (nouthetôn: part. pres. de vouthetéô). 15Ainda que tivésseis tido dez mil pedagogos (paidagôgoús) em Cristo, não tendes muitos pais (patéras), pois em Cristo Jesus, por meio do Evangelho, eu vos GEREI (egénnêsa: aor. de gennáô)» (1 Cor 4,14-15).

 

«10Rogo-te pelo meu filho (perì toû emoû téknou), Onésimo, que GEREI (egénnêsa: aor. de gennáô) na prisão» (Flm 10).

 

«4,19Meus filhos (tékna mou), que DOU À LUZ SOFRENDO (ôdínô), até que (méchris hoû) seja formado (morphôthê: conj. aor. pass. de morphóô) Cristo em vós» (Gl 4,19).

 

«11,2Sou, na verdade, zeloso por vós, com o zelo de Deus, pois dei-vos em casamento (hermosámên: aor. médio de harmózô) a um único esposo, como virgem pura (parthénon hagnên), para vos apresentar (parastêsai: inf. aor. de parístêmi) a Cristo (tô Christô)» (2 Cor 11,2).

 

«2,17Nós, porém, irmãos, desfilhados (aporphanisthéntes: aor. pass. de aporphanízô) de vós por um momento, da vista, que não do coração, mais do que nunca estamos ansiosos e com muito desejo de ver o vosso rosto» (1 Ts 2,17).

 

A linguagem é vivíssima, e traduz o amor dilecto e sem restrições deste Pai pelos seus filhos amados. Mas deixa entrever também a relação de filial e terna dependência destes filhos para com o Pai.

De notar a força da locução «em Cristo (Jesus)», usada em sobreposição (1 Cor 4,15), e que será estudada adiante (ponto 9.).

De registrar também o vivo contraste, recurso habitual em Paulo, entre o não querer deixar vermelhos de vergonha (entrépô) os coríntios com as suas advertências fortes (leia-se 1 Cor 4,8-13), mas admoestar (nouthetéô [= noûs títhêmi = «pôr na mente» ou «pôr a mente»; reclama o muito semítico «pôr o coração» (sîm leb)]) os seus filhos amados com carinho (1 Cor 4,14)[4].

Também fica projectado na tela, com toda a luz e com toda a força, que gerar os filhos e dá-los à luz não são actos, mas atitudes a prosseguir até à (méchris hoû) configuração ou conformação com Cristo (Gl 4,19)[5]. Esta é, de resto, a atitude da esperança patente na celebraçção da Ceia do Senhor: «Anunciais a morte do Senhor até que (áchris hoû) Ele venha» (1 Cor 11,26).

Em 1 Ts 2,17, Paulo alude à sua saída forçada de Tessalónica, sentindo-se como que «desfilhado», para aludir à dor que sente um pai quando perde os seus filhos. A cultura grega, como a nossa, dá relevo aos filhos que perdem os pais, e as respectivas línguas designam essas crianças com o termo «órfãos». Há também os pais que perdem os filhos, mas a nossa cultura não lhes dá tanto relevo, e a nossa língua não tem um termo adequado para traduzir essa dor. A cultura hebraica sempre valorizou esta dor desses pais, e tem um termo para a dizer: shekôl, shikulîm[6]. Na verdade, é com shekôl que a língua hebraica traduz o grego aporphanisthéntes de 1 Ts 2,17, que só encontramos aqui em toda a Escritura[7]. Leia o resto deste artigo »


PAULO, MODELO DE EVANGELIZADOR (7)

Janeiro 29, 2009

7. A identidade de apóstolo e de servo

«Paûlos é o único nome que o Apóstolo usa para si mesmo nas suas Cartas autênticas ou que é usado em referência a ele nas Deuteropaulinas e nas Pastorais»[1]. É Lucas que, no Livro dos Actos dos Apóstolos, fala de outro nome, Saulo, na forma grecizada de Saûlos (Act 7,58; 8,1.3; 9,1.8.11.22.24; 11,25.30; 12,25; 13,1.2.7.9), ou na forma semítica transliterada de Saul [Sha’ûl] (Act 9,4 e 17; 22,7 e 13; 26,14). E não é sem alguma estranheza que, depois de ter usado sempre Saulo e Saul, e nunca Paulo, vemos o autor dos Actos a escrever assim em Act 13,9: «Saulo, dito também Paulo» (Saûlos dé, ho kaì Paûlos), passando a usar, a partir daqui, habitualmente Paulo[2].

Dizer «Paulo» é dizer «o Apóstolo Paulo»[3]. De facto, «Apóstolo» (apóstolos) é o título que Paulo adscreve mais vezes ao seu nome Paulo (Paûlos), na apresentação (titulatio) das suas Cartas: Rm 1,1; 1 Cor 1,1; 2 Cor 1,1; Gl 1,1; Ef 1,1; Cl 1,1; 1 Tm 1,1; 2 Tm 1,1; Tt 1,1[4]. Só não segue este procedimento nas Cartas aos Filipenses, 1 e 2 Tessalonicenses e Filémon[5]. É quanto se pode ver a seguir detalhadamente, com o nome e os títulos em destaque:

 

«1,1PAULO, SERVO de Cristo Jesus (doûlos Christoû Iêsoû), chamado APÓSTOLO, separado (aphôrisménos: part. perf. pass. de aphorízô) para o Evangelho de Deus» (Rm 1,1).

«1,1PAULO, chamado APÓSTOLO de Cristo Jesus (apóstolos Christoû Iêsoû), por vontade de Deus…» (1 Cor 1,1).

«1,1PAULO, APÓSTOLO de Cristo Jesus (apóstolos Christoû Iêsoû), por vontade de Deus…» (2 Cor 1,1).

«1,1PAULO, APÓSTOLO, não por parte dos homens nem por intermédio de um homem, mas por Jesus Cristo (dià Iêsoû Christoû) e Deus Pai, que o ressuscitou dos mortos» (Gl 1,1).

«1,1PAULO, APÓSTOLO de Jesus Cristo (apóstolos Iêsoû Christoû), pela vontade de Deus…)» (Ef 1,1).

«1,1PAULO e Timóteo, SERVOS de Cristo Jesus (doûloi Christôu Iêsoû)…» (Fl 1,1).

«1,1PAULO, APÓSTOLO de Cristo Jesus (apóstolos Christoû Iêsoû), por vontade de Deus…» (Cl 1,1).

«1,1PAULO e Silvano e Timóteo…» (1 Ts 1,1).

«1,1PAULO e Silvano e Timóteo…» (2 Ts 1,1).

«1,1PAULO, APÓSTOLO de Cristo Jesus (apóstolos Christoû Iêsoû)…» (1 Tm 1,1).

«1,1PAULO, APÓSTOLO de Cristo Jesus (apóstolos Christoû Iêsoû)…» (2 Tm 1,1).

«1,1PAULO, SERVO de Deus, APÓSTOLO de Jesus Cristo (apóstolos Iêsoû Christoû)…» (Tt 1,1).

«1PAULO, PRISIONEIRO de Cristo Jesus (désmios Christoû Iêsoû)…» (Flm 1).

 

Salta à vista a frequência da locução «Apóstolo de Cristo Jesus» (1 Cor,1,1; 2 Cor 1,1; Cl 1,1; 1 Tm 1,1; 2 Tm 1,1), por duas vezes alterada para «Apóstolo de Jesus Cristo» (Ef 1,1; Tt 1,1).  «Servo de Cristo Jesus» também se ouve por duas vezes (Rm 1,1; Fl 1,1). Uma vez ressoa «Prisioneiro de Cristo Jesus» (Flm 1). Vê-se bem que estas locuções configuram genitivos subjectivos (o apóstolo é enviado por Cristo) e/ou genitivos de posse (o apóstolo pertence a Cristo), acentuando bem a profunda ligação que une Paulo a Cristo[6]. A locução «Apóstolo por Jesus Cristo» (apóstolos dià Iêsoû Christoû) (Gl 1,1) constitui também um genitivo subjectivo[7].

Pressente-se também que é muito querido a Paulo o título de «apóstolo das nações» (ethnôn apóstolos) (Rm 11,13; cf. Gl 1,16; 2,2.8-9)[8], vendo nas «nações» os «não-judeus»[9], ainda que a sua «preocupação quotidiana» (epístasis kath’êméran) seja «o cuidado (hê mérimna) de todas as Igrejas (pasôn tôn ekklêsiôn)» (2 Cor 11,28)[10]. Leia o resto deste artigo »