PAULO, MODELO DE EVANGELIZADOR (10)

Janeiro 31, 2009

10. Paulo, Tito e Corinto ou a história do anel verdadeiro

Para introduzir a temática comovente do reencontro de Paulo com a sua comunidade de Corinto, momentaneamente perdida, e ganha por Tito, que foi bem sucedido na sua viagem missionária a Corinto por solicitação de Paulo (2 Cor 8,16-17; 12,18), começo por evocar a «história dos três anéis»[1]. Trata-se de uma novela que circulava na Idade Média entre os judeus de Espanha, que aparece recolhida no Decameron, de Boccaccio (1313-1375), e que atingiu a máxima dimensão com o escritor alemão Gotthold Ephraim Lessing (1729-1781), que a incluiu no seu poema dramático Nathan der Weise [= «Natã, o sábio»], escrito em 1779.

A novela dos três anéis conta-nos que havia, no Oriente, um homem muito rico, que possuía um anel que tinha o condão de tornar feliz e querido e estimado por Deus e pelos homens aquele que o usasse. Ao longo de muitas gerações, o precioso anel transitou sempre de pai para filho, sendo herdado pelo filho predilecto. Até ao dia em que um pai se encontrou na difícil situação de ter de escolher o herdeiro do anel entre três filhos igualmente queridos. Para resolver a situação, aquele pai optou por mandar fazer, às escondidas, mais dois anéis iguais, no aspecto, ao original. Pouco antes de morrer, aquele pai entregou a cada filho um anel, ficando cada um deles a pensar que tinha sido o escolhido pelo pai para herdar o precioso anel. Mas quando os três filhos se encontraram frente a frente, cada um com o seu anel, aperceberam-se logo de que tinha havido falcatrua, e começou logo ali a guerra pelo reconhecimento do anel verdadeiro. Depois de muitos anos de guerra e sofrimento, os três irmãos decidiram comparecer perante um juiz, para que este dirimisse a questão. Depois de ouvir a história das virtualidades do anel, segundo a qual o anel verdadeiro tinha o condão de tornar o seu portador querido e estimado pelos outros, o juiz quis então saber qual dos três irmãos era o mais querido pelos outros. Como nenhum dos três ousasse responder, o juiz compreendeu que estava perante três malvados merecedores de castigo. Mas, em vez de os castigar, achou melhor tecer algumas considerações: «Pensai que o vosso pai não vos enganou, mas que não quis submeter-se à tirania de um único anel verdadeiro». E deu-lhes um conselho: «Adiemos a questão de saber qual é o único anel verdadeiro, e que cada um de vós se esforce, entretanto, por fazer com que o seu anel seja o verdadeiro, agindo de maneira a tornar-se querido e estimado pelos outros. E lá há-de vir, um dia, um juiz, daqui a milhares de anos, que, analisando o que entretanto conseguirdes fazer, ditará a sentença definitiva». Leia o resto deste artigo »


PAULO, MODELO DE EVANGELIZADOR (9)

Janeiro 31, 2009

9. A outra rede da missão: muitos e bons cooperadores

Porque o amor de Cristo tomou conta dele e de nós (e de nós?) (hê agápê toû Christoû synéchei hêmâs) (2 Cor 5,14), programando-o inteiramente, transvasava dele. Não admira que Paulo tenha sabido rodear-se de MUITOS e BONS COOPERADORES (synergoí), quer presbíteros (presbýteroi) que «trabalham na palavra e na instrução (kopiôntes en lógô kaì didaskalía)» (1 Tm 5,17), quer cristãos, mulheres e homens, empenhados no «trabalho do amor» (ho kópos tês agápês) (1 Ts 1,3), a quem Paulo trata com elevada estima e entranhado afecto, como documenta, por exemplo, o chamado «Capítulo das Saudações» no final da Carta aos Romanos[1]:

 

 

«16,1Recomendo-vos Febe, nossa irmã (adelphê hêmôn), diaconisa (diákonos) da Igreja de Cêncreas, 2para que a recebais no Senhor (en kyríô), de modo digno dos santos (hágioi), e a assistais em tudo o que de vós necessitar, pois também ela foi benfeitora (prostátis) de muitos, e até de mim próprio. 3Saudai Prisca (diminuitivo: Priscila) e Áquila, meus cooperadores (synergói) em Cristo Jesus (en Christô Iêsoû), 4os quais, para salvar a minha vida, expuseram a sua cabeça; e não sou apenas eu que lhes estou agradecido, mas também todas as igrejas dos gentios. 5Saudai também a Igreja que se reúne em sua casa. Saudai o meu querido (agapêtós) Epéneto, que constitui as primícias da Ásia para Cristo. 6Saudai Maria, que muito trabalhou (kopiáô) por vós. 7Saudai Andrónico e Júnia, meus parentes e companheiros de prisão, que se distinguiram entre os apóstolos (apóstoloi), e me precederam em Cristo (en Christô). 8Saudai Ampliato, que me é muito querido (agapêtós) no Senhor (en kyríô). 9Saudai Urbano, nosso cooperador (synergós) em Cristo (en Christô), e o meu querido (agapêtós) Estáquio. 10Saudai Apeles, provado em Cristo (en Christô). Saudai os da casa de Aristóbulo. 11Saudai Herodião, meu parente. Saudai os da casa de Narciso, que estão no Senhor (en kyríô). 12Saudai Trifena e Trifosa, que trabalharam (kopiáô) no Senhor (en kyríô). Saudai a querida (agapêtê) Pérside, que muito trabalhou (kopiáô) no Senhor (en kyríô). 13Saudai Rufo, o eleito no Senhor (en kyríô), e sua mãe, que é também a minha. 14Saudai Assíncrito, Flegonte, Hermes, Pátrobas, Hermas, e os irmãos (adelphói) que estão com eles. 15Saudai Filólogo e Júlia, Nereu e sua irmã, e Olimpas, e todos os santos (hagíoi) que estão com eles» (Rm 16,1-15).

 

O que se pode aprender, em termos teológicos e pastorais, de uma lista de nomes!

Na peugada de Paulo, o desafio da formação séria, cuidada e alargada dos ministros ordenados e dos fiéis leigos não pode deixar de nos ocupar e preocupar também hoje. Vê-se bem que a coesão desta premurosa rede eclesial assenta, não apenas em sentimentos humanos de afecto – ainda que importantes –, mas «em Cristo» (en Christô) ou «no Senhor» (en Kyríô), locução tipicamente paulina que atravessa este pequeno texto de lés a lés (10 vezes), e que é um dos grandes marcadores do inteiro Corpus Paulinum com 130 citações: 83 vezes «em Cristo»; 47 vezes «no Senhor»[2]. Em outro lugar, advertirá Paulo que Jesus Cristo é o único fundamento (themélion) posto (keímenon) para sempre por Deus (1 Cor 3,11), donde deriva a nossa existência, coerência e identidade[3].

O título de diákonos dado a Febe traduz a qualidade de «servidora» de Cristo, do Evangelho e da Comunidade, que caracteriza esta mulher de Cêncreas. É um título que Paulo se dá si mesmo e dá outros também a outros seus cooperadores[4]. O nome grego prostátis só se encontra neste lugar, e esta única vez, em todo o grego bíblico. Deriva de uma raiz que significa: 1) «tomar cuidado de», «ajudar a»; 2) «dirigir», «presidir», «liderar». O primeiro significado é normalmente o que se aplica a Febe, que é assim vista como uma pessoa rica e influente, que se aproxima do grego profano e do latim patrona, e que se dispõe a prestar a todos os cristãos, nomeadamente a Paulo, os auxílios necessários. O segundo significado é de excluir, sobretudo porque o texto a apresenta como sendo «benfeitora» até do próprio Paulo. Benfeitora sim, dirigente ou líder não[5].

Por outro lado, o trabalho (kópos / kopiáô) de Paulo e de Timóteo e de tantos cooperadores (synergoí) de Paulo é um dos marcadores do trabalho apostólico[6]. Em 1 Tm 4,10, o verbo kopiáô [= trabalhar] aparece unido por um kaí [= e] epexegético ao verbo agônízô [= lutar] – kopiômen kaì agônizómetha [= «trabalhamos e lutamos»] –, pelo que o trabalho da evangelização não se faz sem luta[7], o mesmo sucedendo em Cl 1,29, em que a evangelização de Paulo aparece traduzida pelo verbo kopiáô logo seguido pelo particípio do verbo agonízôkopiô agônizómenos – [= «trabalho lutando»]. Entenda-se bem. Esta luta (agôn), que enche a vida de Paulo e dos seus cooperadores (1 Ts 2,2), e também a vida de Paulo e dos cristãos (Rm 15,30), não é uma guerra, mas o amor (agápê), a luta do amor, tendo os dois termos gregos a mesma raiz etimológica. Quem ama, luta. Paradoxo do amor: o amor faz-te feliz, matando-te! Quanto mais amas, lutas, e te matas a amar, mais te encontras: «Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; ao contrário, quem perder a sua vida por causa de mim, salvá-la-á» (Lc 9,24). Leia o resto deste artigo »