PAULO, MODELO DE EVANGELIZADOR (9)


9. A outra rede da missão: muitos e bons cooperadores

Porque o amor de Cristo tomou conta dele e de nós (e de nós?) (hê agápê toû Christoû synéchei hêmâs) (2 Cor 5,14), programando-o inteiramente, transvasava dele. Não admira que Paulo tenha sabido rodear-se de MUITOS e BONS COOPERADORES (synergoí), quer presbíteros (presbýteroi) que «trabalham na palavra e na instrução (kopiôntes en lógô kaì didaskalía)» (1 Tm 5,17), quer cristãos, mulheres e homens, empenhados no «trabalho do amor» (ho kópos tês agápês) (1 Ts 1,3), a quem Paulo trata com elevada estima e entranhado afecto, como documenta, por exemplo, o chamado «Capítulo das Saudações» no final da Carta aos Romanos[1]:

 

 

«16,1Recomendo-vos Febe, nossa irmã (adelphê hêmôn), diaconisa (diákonos) da Igreja de Cêncreas, 2para que a recebais no Senhor (en kyríô), de modo digno dos santos (hágioi), e a assistais em tudo o que de vós necessitar, pois também ela foi benfeitora (prostátis) de muitos, e até de mim próprio. 3Saudai Prisca (diminuitivo: Priscila) e Áquila, meus cooperadores (synergói) em Cristo Jesus (en Christô Iêsoû), 4os quais, para salvar a minha vida, expuseram a sua cabeça; e não sou apenas eu que lhes estou agradecido, mas também todas as igrejas dos gentios. 5Saudai também a Igreja que se reúne em sua casa. Saudai o meu querido (agapêtós) Epéneto, que constitui as primícias da Ásia para Cristo. 6Saudai Maria, que muito trabalhou (kopiáô) por vós. 7Saudai Andrónico e Júnia, meus parentes e companheiros de prisão, que se distinguiram entre os apóstolos (apóstoloi), e me precederam em Cristo (en Christô). 8Saudai Ampliato, que me é muito querido (agapêtós) no Senhor (en kyríô). 9Saudai Urbano, nosso cooperador (synergós) em Cristo (en Christô), e o meu querido (agapêtós) Estáquio. 10Saudai Apeles, provado em Cristo (en Christô). Saudai os da casa de Aristóbulo. 11Saudai Herodião, meu parente. Saudai os da casa de Narciso, que estão no Senhor (en kyríô). 12Saudai Trifena e Trifosa, que trabalharam (kopiáô) no Senhor (en kyríô). Saudai a querida (agapêtê) Pérside, que muito trabalhou (kopiáô) no Senhor (en kyríô). 13Saudai Rufo, o eleito no Senhor (en kyríô), e sua mãe, que é também a minha. 14Saudai Assíncrito, Flegonte, Hermes, Pátrobas, Hermas, e os irmãos (adelphói) que estão com eles. 15Saudai Filólogo e Júlia, Nereu e sua irmã, e Olimpas, e todos os santos (hagíoi) que estão com eles» (Rm 16,1-15).

 

O que se pode aprender, em termos teológicos e pastorais, de uma lista de nomes!

Na peugada de Paulo, o desafio da formação séria, cuidada e alargada dos ministros ordenados e dos fiéis leigos não pode deixar de nos ocupar e preocupar também hoje. Vê-se bem que a coesão desta premurosa rede eclesial assenta, não apenas em sentimentos humanos de afecto – ainda que importantes –, mas «em Cristo» (en Christô) ou «no Senhor» (en Kyríô), locução tipicamente paulina que atravessa este pequeno texto de lés a lés (10 vezes), e que é um dos grandes marcadores do inteiro Corpus Paulinum com 130 citações: 83 vezes «em Cristo»; 47 vezes «no Senhor»[2]. Em outro lugar, advertirá Paulo que Jesus Cristo é o único fundamento (themélion) posto (keímenon) para sempre por Deus (1 Cor 3,11), donde deriva a nossa existência, coerência e identidade[3].

O título de diákonos dado a Febe traduz a qualidade de «servidora» de Cristo, do Evangelho e da Comunidade, que caracteriza esta mulher de Cêncreas. É um título que Paulo se dá si mesmo e dá outros também a outros seus cooperadores[4]. O nome grego prostátis só se encontra neste lugar, e esta única vez, em todo o grego bíblico. Deriva de uma raiz que significa: 1) «tomar cuidado de», «ajudar a»; 2) «dirigir», «presidir», «liderar». O primeiro significado é normalmente o que se aplica a Febe, que é assim vista como uma pessoa rica e influente, que se aproxima do grego profano e do latim patrona, e que se dispõe a prestar a todos os cristãos, nomeadamente a Paulo, os auxílios necessários. O segundo significado é de excluir, sobretudo porque o texto a apresenta como sendo «benfeitora» até do próprio Paulo. Benfeitora sim, dirigente ou líder não[5].

Por outro lado, o trabalho (kópos / kopiáô) de Paulo e de Timóteo e de tantos cooperadores (synergoí) de Paulo é um dos marcadores do trabalho apostólico[6]. Em 1 Tm 4,10, o verbo kopiáô [= trabalhar] aparece unido por um kaí [= e] epexegético ao verbo agônízô [= lutar] – kopiômen kaì agônizómetha [= «trabalhamos e lutamos»] –, pelo que o trabalho da evangelização não se faz sem luta[7], o mesmo sucedendo em Cl 1,29, em que a evangelização de Paulo aparece traduzida pelo verbo kopiáô logo seguido pelo particípio do verbo agonízôkopiô agônizómenos – [= «trabalho lutando»]. Entenda-se bem. Esta luta (agôn), que enche a vida de Paulo e dos seus cooperadores (1 Ts 2,2), e também a vida de Paulo e dos cristãos (Rm 15,30), não é uma guerra, mas o amor (agápê), a luta do amor, tendo os dois termos gregos a mesma raiz etimológica. Quem ama, luta. Paradoxo do amor: o amor faz-te feliz, matando-te! Quanto mais amas, lutas, e te matas a amar, mais te encontras: «Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; ao contrário, quem perder a sua vida por causa de mim, salvá-la-á» (Lc 9,24).

Não deixa de ser sintomático que Paulo anote esta bela luta na primeira e na última das suas Cartas autênticas (1 Ts 2,2; Rm 15,30), deixando nesta última referência um convite circunstancial e permanente:

 

 

«15,30Exorto-vos, pois, irmãos, (…) a lutar comigo (synagônísasthaí moi) nas orações (en taîs proseuchaîs)» (Rm 15,30)[8].

 

Mas esta lista de operadores do Evangelho, juntamente com Paulo, pode ser ainda muito alargada e enriquecida com nomes como Timóteo, Tito, Silvano (Silas nos Actos), Apolo, Epafras, Sóstenes, Tércio, Gaio, Estéfanas, Fortunato, Acaico, Tíquico, Quarto, Aristarco, Marcos, Lucas, Demas, Arquipo, Ápia, Epafrodito, Onésimo, Evódia e Síntique, e tantos outros, normalmente citados na apresentação (titulatio) ou na saudação (salutatio) final das Cartas.

Da rede de nomes referidos, destaca-se claramente Timóteo. Além da bela referência já atrás expressa (Fl 2,19-22), ele é apresentado por Paulo como «o meu cooperador» por excelência (ho synergós mou) (Rm 16,21), o «meu filho querido e fiel no Senhor (mou téknov agapêtòn kaì pistòn en kyríô)» (1 Cor 4,17), «a obra do Senhor ele opera como eu (érgon kyríou ergázetai hôs kagô)» (1 Cor 16,10)[9].

É ainda de salientar a presença do nome de Timóteo ao lado do de Paulo na apresentação (titulatio) de seis Cartas, como coautor ou coexpedidor: 2 Cor 1,1; Fl 1,1; Cl 1,1; 1 Ts 1,1; 2 Ts 1,1; Flm 1[10]. Também Silvano aparece como coautor ou coexpedidor, por duas vezes, ao lado de Paulo e Timóteo na apresentação (titulatio) de duas Cartas: 1 Ts 1,1; 2 Ts 1,1. O mesmo sucede com Sóstenes, dito «o irmão» (ho adelphós), que aparece associado ao nome de Paulo, como coautor ou coexpedidor, em 1 Cor 1,1.

 

 

«1,1PAULO, chamado apóstolo de Cristo Jesus, por vontade de Deus, e SÓSTENES, o irmão…» (1 Cor 1,1).

«1,1PAULO, apóstolo de Cristo Jesus, por vontade de Deus, e TIMÓTEO, o irmão…» (2 Cor 1,1).

«1,1PAULO, apóstolo, não por parte dos homens nem por intermédio de um homem, mas por Jesus Cristo e Deus Pai, que o ressuscitou dos mortos, 2e TODOS OS IRMÃOS QUE ESTÃO COMIGO…» (Gl 1,1-2).

«1,1PAULO e TIMÓTEO, escravos de Cristo Jesus…» (Fl 1,1).

«1,1PAULO, apóstolo de Cristo Jesus, por vontade de Deus, e TIMÓTEO, o irmão…» (Cl 1,1).

«1,1PAULO e SILVANO e TIMÓTEO…» (1 Ts 1,1).

«1,1PAULO e SILVANO e TIMÓTEO…» (2 Ts 1,1).

«1PAULO, prisioneiro de Cristo Jesus, e TIMÓTEO, o irmão» (Flm 1).

 

Esta maneira de associar coautores ou coexpedidores na apresentação das cartas é extremamente rara nas cartas gregas do tempo, como decorre da análise de Ernest Randolph Richards[11]. Pode ser um dos modos de Paulo manifestar que não concebe o seu ministério sem cooperadores[12].

Em tempos modernos, vêm-nos à mente as Cartas Pastorais D. Alois Kothgasser. No último ano do seu ministério episcopal em Innsbruck (Áustria), e pouco antes de ser nomeado Arcebispo de Salzburgo, D. Alois escreveu duas Cartas Pastorais bastante originais: a primeira, em Junho de 2002, dedicada ao «Pai Nosso», com o auxílio de sete crianças, e assinada por D. Alois Kothgasser e Pia, Lena, Viktoria, Barbara, Myriam, Nadine e Nina[13]; a segunda, em Setembro de 2002, dedicada à forma como os jovens encaram a Igreja, com a cooperação de doze jovens, e assinada desta maneira: “Wolfgang, Daniela, Elisabeth, Veronika, Christina, Birgit, Maria Bernadette, Simon, Clemens, Stefan, Maria-Magdalena, Christoph e, com gratidão e uma bênção, o vosso bispo Alois”[14].

De notar ainda que, na apresentação de Cl 1,1 e Flm 1, Timóteo é dito «o irmão» (ho adelphós)[15], o que sucede também Sóstenes (1 Cor 1,1).

O título caloroso de «irmão» (adelphós) aparece ainda associado a Febe (Rm 16,1), Quarto (Rm 16,23), Apolo (1 Cor 16,12), Tito (2 Cor 2,13), Epafrodito (Fl 2,25), Tíquico (Ef 6,21; Cl 4,7), Onésimo (Cl 4,9) e Ápia (hê adelphê) (Flm 2).

O título de «cooperador» (synergós), que mostra que, no trabalho da Evangelização, não há lugar para trabalhadores solitários[16], afecta ainda os nomes de Prisca e Áquila (Rm 16,3), Urbano (Rm 16,9), Tito (2 Cor 8,23), Epafrodito (Fl 2,25), Clemente e outros cujos nomes estão no livro da vida (Fl 4,3), Aristarco, Marcos e Jesus, dito o Justo (Cl 4,10-11), Filémon (Flm 1), Marcos, Aristarco, Demas e Lucas (Flm 24). Há ainda a registar a bela locução que define os Evangelizadores como «cooperadores da vossa alegria» (synergoí tês cháris hymôn) (2 Cor 1,24), e também aquela que faz ver os Evangelizadores como «cooperadores de Deus» (theoû synergoí) (1 Cor 3,9), sendo as comunidades «campo de Deus» (theoû geôrgion) e «construção de Deus» (theoû oikodomê) (1 Cor 3,9)[17].

(continua no próximo post)

António Couto


[1] Foi muito discutida a inserção desta bela e extensa lista de nomes na Carta aos Romanos. Houve quem pensasse que se tratava de um anexo dirigido a Éfeso. É hoje inquestionável que esta lista faz parte integrante da Carta aos Romanos. Ver síntese de posições e acerto final em A. COUTO, Romanos (Epístola aos), in Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, Lisboa – São Paulo, Verbo, Edição Século XXI, Vol. 25, 2002, col. 854-860. Assunto em questão nas cols. 857-858.

[2] A fórmula en Christô («em Cristo») e similares como en Christô Iêsoû («em Cristo Jesus») ou en Kyríou («no Senhor») encontram-se nas Cartas de S. Paulo por 130 vezes. Não entram na contabilidade apresentada as locuções «n’Ele» (en autô) e «no qual» (en hô). Fora do Corpus Paulinum, estas fórmulas encontram-se apenas no Livro dos Actos Apóstolos (4,2; 13,39), na Primeira Carta de S. Pedro (3,16.19; 5,10.14) e no Apocalipse (14,13). O IV Evangelho usa a correspondente en autô («n’Ele») por 24 vezes. Não se encontram nos Sinópticos. Trata-se, com certeza, de expressões autenticamente Paulinas, recolhidas na experiência e teologicamente elaboradas, para traduzir a comunhão mais íntima possível entre o cristão e Cristo Ressuscitado. Para a contabilidade e leitura apresentadas, seguimos J. D. G. DUNN, The Theology of Paul the Apostle, p. 396-401. Nas p. 401-404, Dunn apresenta ainda a locução «com Cristo», e os seus mais de 40 compostos com syn, dos quais mais de 20 só se encontram em S. Paulo. Nas p. 404-408, Dunn apresenta ainda as locuções «para Cristo» (eis Christón) e «por Cristo» (dià Christoû). Outras indicações, também importantes, podem ver-se em A. DEISSMANN, Die neutestamentliche Formel «in Christo Jesu», Marburgo, N. G. Elwert, 1892, p. 97s.; F. PRAT, La Théologie de Saint Paul, II, Paris, Beauchesne, 1961, p. 476-480; O. KUSS, San Pablo, p. 365s.; O. KUSS, Carta a los Romanos. Cartas a los Corintios. Carta a los Gálatas, p. 91-92; G. BORNKAMM, Pablo de Tarso, p. 208-210; E. TESTA, La sotereologia di San Paolo causa della sua cattività, in Liber Anuus, 8, 1957-1958, p. 164-166; J. GNILKA, Pablo de Tarso, p. 246-251; M. J. HARRIS, The Second Epistle to the Corinthians, p. 431, e nota 52.

[3]keímenon é um particípio perfeito médio com sentido passivo. Enquanto perfeito, os seus efeitos são permanentes. Enquanto médio – passivo, é obra de Deus. A. C. THISELTON, The First Epistle to the Corinthians, p. 310.

[4] Atrás, ponto 7.

[5] D. J. MOO, The Epistle to the Romans, p. 915-916; J. A. FITZMYER, Lettera ai Romani, p. 864.

[6] J. D. QUINN, W. C. WACKER, The First and Second Letters to Timothy, p. 450; S. LÉGASSE, Les Épîtres de Paul aux Thessaloniciens, p. 78 e 315.

[7]J. D. QUINN, W. C. WACKER, The First and Second Letters to Timothy, p. 380.

[8] O verbo synagônízomai tem aqui a sua única menção no grego bíblico. O verbo simples – agônízomai – encontra-se por oito vezes no NT. D. J. MOO, The Epistle to the Romans, p. 909, nota 14.

[9] S. LÉGASSE, Les Épîtres de Paul aux Thessaloniciens, p. 61; J. D. QUINN, W. C. WACKER, The First and Second Letters to Timothy, p. 55.

[10]D. J. MOO, The Epistle to the Romans, p. 934; J. D. QUINN, W. C. WACKER, The First and Second Letters to Timothy, p. 55.

[11] Da acurada análise de 645 cartas em papiro, levada a cabo por Ernest Randolph Richards, resulta que o fenómeno da coautoria ou coexpedição foi encontrado apenas em seis casos. E. R. RICHARDS, The Secretary in the Letters of Paul, Tubinga, Mohr-Seabeck, 1991, p. 47, nota 138. Ver A. C. THISELTON, The First Epistle to the Corinthians, p. 69.

[12]A. C. THISELTON, The First Epistle to the Corinthians, p. 69.

[13] Ver notícia em Il Regno, 17, 2002, p. 573.

[14] Ver notícia em Il Regno, 7, 2003, p. 217-219.

[15]Não se trata de um simples aposto, mas revela a afeição e cordialidade de Paulo pelos seus cooperadores. A. C. THISELTON, The First Epistle to the Corinthians, p. 69-70.

[16]D. J. MOO, The Epistle to the Romans, p. 927; G. BORNKAMM, Pablo deTarso, p. 131-132.

[17] Para os problemas de tradução, ver A. C. THISELTON, The First Epistle to the Corinthians, p. 303-306.

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