PAULO, MODELO DE EVANGELIZADOR (3)

Janeiro 24, 2009

3. Três textos aurorais

A aurora é a metáfora de uma luz nova, que vem de fora, e que se contrapõe à metáfora da luz que em nós mora, a luz da nossa pequena razão. A iniciativa gratuita de Deus precede sempre a nossa pesquisa, o nosso pequeno esforço, meditação, exercícios espirituais, longas orações, jejuns[1]. Vejamos os três lugares clássicos em que Paulo diz, em jeito autobiográfico, esta imensa novidade:

 

 

«15,3Transmiti-vos (parédoka: aor. de paradídômi), na verdade, em primeiro lugar, aquilo que eu mesmo recebi (parélabon: aor de paralambánô): que Cristo morreu (apéthanen: aor2 de apothnêskô) pelos nossos pecados segundo as Escrituras, 4e que foi sepultado (etáphê: aor2 pass. de thápô) e que foi ressuscitado (egêgertai: pf. pass. de egeírô)[2] ao terceiro dia segundo as Escrituras, 5e que SE FEZ VER (ôphthê: aor. pass. de horáô) a Cefas (Kêphã), e depois aos Doze. […] 8Em último lugar, FEZ-SE VER (ôphthê) também a mim (emoí), 9(…)o mais pequeno dos apóstolos (ho eláchistos tôn apostólôn) (…); 10é pela graça de Deus (cháriti dè theoû) que sou o que sou (eimi hó eimi), e a sua graça em mim não ficou vazia (kenê)» (1 Cor 15,3-5.8-10).

 

«1,11Dou-vos a conhecer (gnôrízô), irmãos, o EVANGELHO evangelizado por mim (tò euaggélion tò euaggelisthèn hyp’ emoû), que não é segundo o homem (ouk éstin katà ánthrôpon), 12nem, na verdade, eu o recebi de homem (oudè gàr egô parà anthrôpou parélabon autó), nem fui ensinado (oúte edidáchthên: aor. pass. de didáskô), mas por REVELAÇÃO de JESUS CRISTO (allà di’ apokalýpseôs Iêsoû Christoû). […] 15Quando, pois, aprouve (eudókêsen) a Deus – aquele que me separou (aphorísas) desde o ventre de minha mãe, e me chamou (kaléô) por meio da sua graça –, 16REVELAR (apokalýpsai) o seu Filho em mim, a fim de o evangelizar (hína euaggelízomai autón)» (Gl 1,11-12.15-16).

 

«3,12Não que eu já a tenha recebido (élabon: aor2 de lambánô) ou já tenha chegado à perfeição (teteleíômai: perf. pass. de teleióô), mas persigo/corro (diôkô) para a agarrar (katalábô), pois também FUI AGARRADO (katelêmphthên: aor. pass. de katalambánô) por Jesus Cristo. 13Irmãos, eu mesmo não penso tê-la agarrado (kateilêphénai: inf. perf. katalambánô), mas UMA COISA (hèn dé): as coisas atrás (tà ôpísô) esquecendo (epilanthanómenos: part. pres. médio de epilanthánomai), para as coisas à frente (toîs émprosthen) me atirando (epekteinómenos: part. pres. médio de epekteínomai), 14para a META (skopós) persigo/corro (diôkô) para o PRÉMIO (brabeîon) da chamada celeste de Deus (tês ánô klêseôs toû theoû) em Cristo Jesus (en Christô Iêsoû)» (Fl 3,12-14).

 

É grandemente significativo que, para falar deste começo novo, imprevisível e não programável – que não é «segundo o homem» nem o «recebeu de homem» nem «foi ensinado» (Gl 1,11 e 12) –, Paulo recorra a dois verbos de REVELAÇÃO (ôphthê, aor. pass. de horáô, e apokalýptô) e a um de LUTA (katelêmphthên, aor. pass. de katalambánô).

A locução ôphthê Kêphã [= «Fez-se ver a Cefas»] (1 Cor 15,5) ou ôphthê emoí [= «fez-se ver a mim»] (1 Cor 15,8) merece a nossa atenção. Kêphã [= «a Cefas»] ou emoí [= «a mim»] configura umdativo dito «do beneficiário» usado com o passivo ôphthê, com significado intransitivo. Esta construção do verbo «ver» (ôphthê) sublinha a iniciativa gratuita e soberana de Deus, que deve traduzir-se por «fez-se ver a», e não por «foi visto por»[3], salvaguardando a iniciativa absoluta de Deus.

A locução apokálypsis Iêsoû Christoû [= «revelação de Jesus Cristo»] (Gl 1,12), sendo «de Jesus Cristo» um genitivo subjectivo que acentua que é de Jesus Cristo a acção de revelação[4], subtrai o Evangelho evangelizado por Paulo do âmbito da acção didáctica, da instrução, da aprendizagem e transmissão humana, mas também do âmbito da autodidáctica – Paulo não aprendeu por si mesmo –, para o âmbito novo da «teodidáctica» ou da intervenção divina. Paulo apresenta-se aqui como um «teodidacta» (theodídaktos) (cf. 1 Ts 4,9)[5], sendo o Evangelho que vive e anuncia obra de Deus nele gravada por amor[6]. O Evangelho (tò euaggélion) é um termo tipicamente Paulino, pertencendo a Paulo 60 das 76 menções que ocorrem no NT[7].

Ensinado por Deus (theodídaktos), recebedor de Deus (theodóchos), imitador (mimêtês) de Deus (1 Cor 11,1; cf. 4,16; Ef 5,1; 1 Ts 1,6; 2 Ts 3,7): ser na terra um «mimo» (mîmos) de Deus, fazer como Deus faz, fazer descer o céu à terra[8]. Leia o resto deste artigo »

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PAULO, MODELO DE EVANGELIZADOR (2)

Janeiro 24, 2009

2. Uma luz que vem de fora

Encontram-se no Livro dos Actos dos Apóstolos três descrições da reviravolta (evitemos o termo «conversão») operada na vida de Paulo: Act 9,1-19 (em terceira pessoa), Act 22,1-21 e 26,2-23 (em forma autobiográfica). A descrição mencionada em Act 26,2-23 constitui o último discurso que Paulo faz em sua defesa, em Cesareia Marítima, diante do rei Agripa, e é a mais rica em acenos autobiográficos. Deixando de lado aspectos inverosímeis como, por exemplo, a perseguição em cidades estrangeiras (26,11-12; cf. 9,2; 22,5) movida a partir de Jerusalém[1], retenhamos apenas aquela luz nova, vinda de fora, em pleno meio-dia, que atinge e envolve Paulo de forma decisiva (Act 9,3; 22,6; 26,13):

 

 

«9,3Enquanto caminhando, aconteceu, quando se aproximava de Damasco, subitamente, relampejou à minha volta (periêstrapsen: aor. de periastráptô) uma luz (phôs), vinda do céu» (Act 9,3).

 

«22,6Aconteceu que, enquanto caminhava, e ao aproximar-me de Damasco, pelo meio-dia, subitamente, do céu relampejou (periastrápsai: inf. aor. de periastráptô) uma luz (phôs) à minha volta» (Act 22,6).

 

«26,13Ao meio-dia, no caminho, vi, ó rei, vindo do céu, com mais brilho do que o sol, uma luz (phôs) a refulgir à minha volta (perilámpsan) e dos que iam comigo» (Act 26,13).

 

Luz nova, porque vinda de fora, do céu, de Deus, arrasta consigo uma nova criação, um novo nascimento: no «dia Um» da criação, «Deus viu que a luz era boa» (Gn 1,3-4), e foi nesta bondade que tudo foi criado; quando Isaías põe em cena o menino-messias (Is 9,1-6), «uma luz refulge (phôs lámpsei LXX)» (Is 9,1); quando Jesus nasce em Belém, «a glória do Senhor refulgiu à volta (periélampsen) deles [pastores]» (Lc 2,9)[2].

Lida por Paulo, esta luz nova – nova criação e novo nascimento (2 Cor 4,6 é o eco de Gn 1,3-4, modificado pela expressão phôs lámpsei [= «uma luz refulge»] de Is 9,1)[3] – recria-o e recria-nos, desde o coração, com um novo conhecimento e um novo nascimento (2 Cor 4,6)[4]:

 

 

«4,6Porquanto, Deus, aquele que disse: “Das trevas a luz refulgirá (phôs lámpsei)”, é aquele que refulgiu (élampsen) nos nossos corações para a iluminação (pròs phôtismón) que é o conhecimento da glória de Deus (tês gnôseôs tês dóxês toû theoû)[5] no rosto de [Jesus] Cristo (en prosôpô Christoû)» (2 Cor 4,6).

 

Novo conhecimento de Deus, que se declina na passiva: conhecer Deus é ser conhecido primeiro por Deus[6]. O conhecimento na passiva precede o nosso conhecimento activo, que pressupõe aquele[7].

Ver, a propósito deste novo conhecimento que se declina na passiva, o texto de Gl 4,9, em que Paulo faz uma afirmação na activa, para logo a corrigir, completar e reformular pela passiva:

 

 

«4,8Outrora, porém, não conhecendo (ouk eidótes: part. perf. de oîda) Deus, servistes a deuses que, na sua verdadeira natureza (phýsei), não o são. 9Agora, porém, tendo conhecido (gnóntes: part. aor2 de ginôskô) Deus, ou melhor (mâllon dè), tendo sido conhecidos (gnôsthéntes: part. aor2 pass. de ginôskô) por Deus (hypò theoû)» (Gl 4,9).

 

O uso repetido, mas corrigido (da activa para a passiva), do aoristo do verbo conhecer marca a ruptura com o longo estado anterior de desconhecimento de Deus, expresso com o perfeito – «não conhecendo (ouk eidótes: part. perf. de oîda) Deus» (Gl 4,8) –, e sublinha o início de uma nova relação estabelecida por uma livre e gratuita iniciativa de Deus, antigamente com Israel, agora com os Gálatas[8]. Leia o resto deste artigo »


PAULO, MODELO DE EVANGELIZADOR (1)

Janeiro 23, 2009

Começamos aqui a apresentar um texto longo sobre «PAULO, MODELO DE EVANGELIZADOR». Por ser longo, será apresentado em treze posts, diariamente, numerados de 1 a 13, pois estão em continuidade. O que se segue é o primeiro.

1. Um Paulo nascido do sangue, do zelo e do esforço meticuloso

As páginas autobiográficas que se seguem mostram-nos um Paulo orgulhoso da sua raça, das suas raízes culturais e religiosas, que recorda e ostenta com vivo entusiasmo e emoção, ao mesmo tempo que nos deixam ver o entranhado empenho com que se devotou a elas a tempo inteiro e de corpo inteiro, defendendo ciosa, enérgica e, por vezes, violentamente o seu tesouro judaico – assiste-se a uma «progressão de privilégio» do plano da raça e do sangue para o plano religioso e teológico[1] – de tudo aquilo que lhe parecia hostil, nomeadamente a jovem Igreja de Cristo[2]:

 

 

«11,22São hebreus? Também eu. São israelitas? Também eu. São descendentes de Abraão? Também eu» (2 Cor 11,22).

 

«11,1Eu também sou israelita, da descendência de Abraão, da tribo de Benjamim» (Rm 11,1).

 

«3,5Circuncidado ao oitavo dia, da raça de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu, filho de hebreus, quanto à lei fariseu, 6quanto ao zelo, perseguidor (diôkôn) da Igreja, quanto à justiça que há na Lei, irrepreensível» (Fl 3,5-6).

 

«1,13Ouvistes certamente da minha conduta de outrora no judaísmo, de como com excesso (kath’ hyperbolên) perseguia (edíôkon: imperf. de diôkô) a Igreja de Deus e a devastava (epórthoun: imperf. de porthéô), 14e progredia (proékopton: imperf. de prokóptô) no judaísmo mais do que muitos da minha idade e da minha raça, sendo muito mais zeloso das tradições dos meus pais» (Gl 1,13-14).

 

De notar ainda, neste último texto, os três imperfeitos de duração seguidos, que marcam bem a sua acção constante[3]. Por estes breves acenos autobiográficos, podemos entrever um retrato de Paulo, sem meias tintas – «Ninguém pode servir a dois senhores» (Mt 6,24) vale para o homem oriental; nós, ocidentais, arranjamos sempre maneira de o conseguir fazer! –, organizado, determinado e apaixonado, de acordo com a descrição precisa de Amédée Brunot, que refere que Paulo se apresenta como «homem de razão como o grego, homem de acção como o romano, homem de paixão como o oriental»[4].

(continua no póximo post)

 

António Couto


[1] M. J. HARRIS, The Second Epistle to the Corinthians. A Commentary on the Greek Text, Grand Rapids – Milton Keynes, Eerdmans – Paternoster, 2005, p. 794-796.

[2] Ver também C. M. MARTINI, Il Vangelo di Paolo, Milão, Àncora, 2007, p. 12-15; J. GNILKA, Pablo de Tarso. Apóstol y testigo, Barcelona, Herder, 1998, p. 25.

[3] S. LÉGASSE, L’Épître de Paul aux Galates, Paris, Cerf, 2000, p. 87, nota 4.

[4] A. BRUNOT, Le génie littéraire de Saint Paul, Paris, Cerf, 1955, p. 227.


PAULO DE CRISTO

Janeiro 20, 2009

 

Era uma vez uma estrada, uma carreira, um curso, um percurso,

que só havia uma maneira de fazer: a correr.

Está-se mesmo a ver

só se iria inscrever

quem não gostasse mesmo nada de perder.

 

Corria então nessa estrada

um famoso corredor,

a transbordar de zelo e de ardor,

indómito lutador.

Já se sabia,

saía

sempre vencedor.

 

Até que um dia

à hora do meio-dia,

do sol a pique e de Deus na via,

um novo corredor vindo de fora,

não se sabe de onde,

agarrava

e ultrapassava

nessa estrada

o corredor.

 

A estrada era para os lados de Damasco,

Paulo o corredor,

Jesus o novo vencedor.

 

Começa aqui outra história

de outro amor

com Paulo a correr

por dentro e por fora

até morrer.

 

Fora de si,

dentro de si,

movimento transitivo

no mapa, nos mares, nas estradas, nas cidades,

movimento intransitivo,

ao jeito de Abraão,

rasgando avenidas no próprio coração.

 

Mas não quis mais correr sozinho.

Para mim correr é Cristo,

dizia,

e corria agarrado à sua mão.

Uma mão na mão de Cristo,

a outra apertando a de um irmão e outro irmão e outro irmão,

uma verdadeira multidão

em comunhão.

 

É verdade,

quando Jesus irrompe na vida de alguém,

interrompe a normalidade de um percurso,

e rompe essa vida em duas partes desiguais:

uma que fica para trás,

outra que se abre agora à nossa frente,

recta como uma seta directa a uma meta,

a um alvo, um objectivo intenso e claro,

tão intenso e claro que na vida de cada um

só pode haver um!

 

 

António Couto


A GRAÇA COMO A BÍBLIA A DIZ

Janeiro 16, 2009

 

A GRAÇA temmary_holding_baby_jesus_md_wht

tempo e jeito

maternal

 

Descobre sempre

alguém

para embalar

 

A GRAÇA só sabe

dizer SIM

 

A GRAÇA é Deus

a olhar por MIM

 

Sou eu também

A olhar por ti

Assim.

 

 

António Couto


UMA NOVA HUMANIDADE PARA O SÉCULO XXI

Janeiro 14, 2009

 

1. Nós, que acabámos de transpor o umbral do século XXI, carregamos na memória um grande saco de contradições: por um lado, os fantásticos progressos do século XIX, em todos os âmbitos da vida, da locomotiva ao avião, do telégrafo ao telefone, da física clássica à teoria da relatividade…; por outro lado, as indescritíveis catástrofes do século XX, com lugar marcado em Verdun e Estalinegrado, Auschwitz e Gulag, Hiroshima e Chernobyl… E ficamos com a sensação de que a «razão instrumental», guiada por interesses perversos e ilimitados de poder, prevaleceu amplamente sobre a «razão como sabedoria», a sabedoria do amor, ao serviço de todos os homens.

 

2. Pelos cálculos de Hegel, o mundo moderno terá nascido em 1492 com a descoberta da América e de outros continentes pela Europa, que passou assim da periferia para o centro do mundo. Antes dessa data, os poderes da Europa eram insignificantes, quando comparados com os impérios Otomano, Mongol ou Chinês. Mas a América não foi apenas descoberta ou conhecida, mas sobretudo tomada pela força e «formatada» segundo a vontade dos conquistadores. Pouco depois, no século que medeia entre a morte de Copérnico (1543) e o nascimento de Newton (1643), tem lugar outra conquista significativa: a conquista da natureza pelo poder científico-técnico. Estas duas conquistas constituem as duas pedras-base da «nova ordem mundial», que ainda hoje perdura, não obstante o centro ter passado entretanto da Europa para os EUA, como significativamente documentam as notas de um dólar, em que se pode ver escrito em latim: novus ordo seclorum.

 

3. É um pouco como o sonho megalómano de Nabucodonosor, apresentado no Capítulo 2 do Livro de Daniel: uma enorme estátua, com a cabeça de ouro, o peito e os braços de prata, o ventre e as coxas de bronze, as pernas de ferro, os pés de barro. Mas uma pedrinha desce da montanha e vem embater contra os pés de barro da estátua. Resulta do embate que os pés de barro ficam pulverizados, mas igualmente se pulverizam as pernas de ferro, as coxas e o ventre de bronze, os braços e o peito de prata, a cabeça de ouro! Era assim o mundo de Nabucodonosor, imperador da Babilónia, e parece ser assim também a nossa sociedade pesada, rica, poderosa, técnica e metálica, mas com um grande défice de humanidade.

 

4. O certo é que a ambição de poder e riqueza e a pesada indústria dos países ricos continua a explorar brutalmente os pobres da terra e a massacrar a natureza, que se vinga no clima. No dealbar do século XXI, é bom pensar que uma simples pedrinha pode desfazer a pesada máquina das nossas inúteis megalomanias, e que mais vale ter uma cabeça cheia de bom senso do que de ouro, um coração de carne em vez de prata, um ventre de misericórdia em vez de bronze.

 

5. A crise económico-financeira em que estamos atolados é a crise da «razão instrumental», a crise de um mundo que transformou tudo em coisas com três dimensões, e em que também as pessoas não passam de coisas ou de meios que podem ser usadas a nosso bel prazer ou poder, para depois deitarmos fora. É o fim de um mundo, que Edmund Pellegrino traduz muito bem com a expressão: «excesso de meios, míngua de fins». É absolutamente escandaloso que um cão do primeiro mundo tenha à sua disposição dezassete vezes mais bens do que uma criança do terceiro mundo!

 

6. Desde 1979 que as pesquisas efectuadas no domínio da recente e pluridisciplinar psiconeuroimunologia nos vêm surpreendendo com dados fantásticos. O Congresso Internacional «The early human life», realizado em Roma, de 6 a 8 de Setembro de 2000, divulgou novas e sensacionais descobertas que confirmam as pesquisas efectuadas nos anos anteriores, e que bem podem servir de paradigma para a nova humanidade que entra no século XXI. Salvatore Mancuso e Mariella Zezza acabam de publicar (Dezembro de 2008), na Poletto Editore, de Milão, «La prima casa», um belíssimo livro que fala do maravilhoso intercâmbio entre bebé e mãe no ventre materno. Já sabíamos que uma criança herda cinquenta por cento do património genético da sua mãe, como já sabíamos também que o feto está continuamente em contacto com o mundo exterior através do organismo materno. A surpresa que tem vindo a revelar o Prof. Salvatore Mancuso, Director do Instituto de ginecologia e obstetrícia da Universidade Católica do Sagrado Coração, de Roma, mostra que também a mãe sofre, por influência do filho, modificações a longo prazo, que ultrapassam em muito o período da gestação. Diz o Prof. Mancuso que, «desde as primeiríssimas fases da subdivisão celular, partem do embrião mensagens dirigidas à mãe, informações que servem para fazer adaptar o organismo da mãe à presença do novo ser vivo. Depois da implantação do embrião, o diálogo torna-se mais intenso por via sanguínea e celular. Agora temos as provas – refere o Prof. Mancuso – de que as células estaminais do filho passam para a mãe em grande quantidade, implantam-se sobretudo nos órgãos linfáticos e na medula óssea, de que nunca mais se separam, e de que nascem linfócitos durante o resto da vida da mãe. Esta ponte é mesmo incrementada na hora do parto ou do aborto. Mesmo à distância de trinta anos do parto, a mãe continua a levar dentro de si alguma coisa do filho, e, através do filho, também do marido, dado que o filho transporta também cinquenta por cento de património genético do pai. (…) Pode agora dizer-se que, de certa maneira, a gravidez não dura apenas as quarenta semanas usuais, mas dura por toda a vida».

 

7. A passagem das células do feto para a mãe inicia-se muito cedo, já a partir do quinto dia da concepção, tornando-se mais evidente a partir da quarta semana. Mas também do organismo materno são enviadas células ao filho, e também no filho estas células maternas persistem na idade adulta. Oh singular entrelaçamento, maravilhosa simbiose entre mãe, pai e filho, oh singular maravilha da família!

 

8. Para reavivar esta maravilha, realiza-se agora, de 14 a 18 de Janeiro de 2009, na cidade do México, o Encontro Mundial das Famílias.

 

9. Tempo de rezar com o Salmista: «4Ainda a Palavra me não chegou à língua,/ e já, Senhor, a conheceis perfeitamente./ 5Por todos os lados me envolveis,/ e sobre mim pondes a vossa mão./ 6Prodigiosa ciência que não posso compreender,/ tão sublime que a não posso alcançar.// 13Vós formastes as entranhas do meu corpo,/ e me criastes no seio da minha mãe./ 14Eu vos dou graças por me haverdes feito tão maravilhosamente:/ admiráveis são as vossas obras!» (Sl 139,4-6.13-14).

 

António Couto


UNS E OS OUTROS

Janeiro 4, 2009

1. Já lá vão uns anos. Recordo-me bem. Eu morava então em El-Qubèibeh, o Emaús de Lucas 24, uma aldeiazinha completamente palestiniana, a uns 12 km para ocidente de Jerusalém. Contava-se já quase um ano de Intifada [= sublevação, levantamento popular], a célebre guerra das pedras, iniciada em 9 de Dezembro de 1987, com que os jovens palestinianos afrontavam e enfrentavam os bem armados soldados de Israel.

 

2. Todos os dias me deslocava de manhã para Jerusalém, para efeitos de estudos no Studium Biblicum Franciscanum. À noite fazia o trajecto inverso. Viajava nos transportes palestinianos, os únicos que faziam aquele trajecto com segurança. Nenhum veículo de matrícula hebraica, carro particular ou transporte colectivo, se aventurava sequer por aquelas estradas poeirentas. Sabia que poderia ser naturalmente apedrejado. O transporte fazia-se em pequenos, velhos e sujos autocarros ou pequenas carrinhas adaptadas, com bancos de madeira corridos, os chamados sherut. Como eu viajava diariamente naqueles velhos e apinhados transportes só frequentados por palestinianos, bem depressa eles se aperceberam de que eu era estrangeiro. O motorista já sorria para mim quando me via entrar, e até se esforçava por falar inglês. Os passageiros, que me olhavam com muito espanto, também faziam tudo o que podiam para que eu viajasse o mais confortável possível. Com o tempo, sobretudo os mais jovens, enchiam-me de perguntas: por que é que eu morava numa aldeia palestiniana? O que é que ia fazer todos os dias para Jerusalém? Se estudava com os hebreus? O que é que estudava? Qual era a minha religião? Ia-lhes respondendo como podia e sabia. Ficaram a saber que eu era padre católico, que não era judeu e que os admirava. Eles eram todos muçulmanos, mas lá me iam dizendo que tinham alguns amigos católicos. Ouvi-os falar com grande amor de Jerusalém, que eles chamam Al-Quds [= A Santa]. Pela minha parte, compreendi rapidamente que eles sentiam muito orgulho por ter um estrangeiro a morar no meio deles e a viajar nos transportes deles.

 

3. Com o tempo, fiz alguns amigos palestinianos. Fiz com eles grandes e arriscadas viagens por zonas que nenhum estrangeiro visita há muitos anos. Só se faziam em certos dias, com informações telefónicas quase permanentes, e outros truques estratégicos.

 

4. Mas fiz também grandes amigos hebreus, que me contavam a história e as histórias de outra maneira. Já estava habituado a passar por entre rapazes e raparigas de camisola verde e arma aperrada. Andavam sempre com a metralhadora, mesmo quando apanhavam o autocarro ou pediam boleia à beira da estrada. Às vezes viajava pelas estradas bem asfaltadas de Israel, em belos autocarros. Também me interessava, e muito, o mundo hebreu. Fiquei a saber que muitos daqueles jovens o que queriam mesmo era a paz, para poderem viver como gente normal. De facto, Israel não era uma sociedade civil; era um exército sempre armado, sempre em estado de alerta. Também me passavam informações por onde poderia andar, por onde não era conveniente. Estas informações acerca dos locais por onde se podia andar ou não, mudavam todos os dias. Transporto ainda muitas confidências, que guardo para mim.

 

5. Hoje, vejo as imagens, leio os jornais e fico triste. Sei que os ânimos estão outra vez inflamados entre dois grandes povos, que muito admiro, e que contam histórias diferentes. Ambos sonham com a paz e sabem o que é a amizade. Mas zangavam-se muito quando eu, distraído, entre uns e os outros, trocava salam por shalôm ou shalôm por salam. Salam é a saudação palestiniana (e árabe em geral). Shalôm é a saudação hebraica.

 

6. Sinceramente, em nada me fascinam as viagens pré-fabricadas a Israel. Os turistas vêem, nessas viagens, uma montagem preparada para turista ver. Mais ou menos de plástico. Fascinante mesmo é conhecer o mundo verdadeiro de israelitas e palestinianos, uns e os outros, em carne e osso e sonho. Um dia hei-de voltar para vos rever, amigos. No fundo do vosso odiozinho, eu sei que há seres humanos que anseiam pela paz, e que rezam, uns e os outros, pela paz de Jerusalém. Eu vi.

 

7. Entretanto, sofro convosco e rezo por vós, meus irmãos. Lembro-me de um poema que encontrei aí, em El-Qubèibeh, e que lembrava o encontro dos dois de Emaús com Jesus, narrado em Lucas 24. Andava escrito em várias línguas, e passa agora a conhecer também o português. Diz assim: «Todos os dias/ Te encontramos/ no caminho./ Mas muitos reconhecer-Te-ão/ apenas/ quando/ repartires connosco/ o Teu pão./ Quem sabe?/ Talvez/ no último entardecer».

 

António Couto