PAULO, MODELO DE EVANGELIZADOR (11)


11. A viagem da «comunhão»

Enviada, provavelmente desde Filipos, a «Carta da reconciliação» ou da «consolação», Paulo segue logo também para Corinto, naquela que se pode chamar «a viagem da reconciliação». De Corinto escreverá, talvez no inverno de 55/56, a grande Carta aos Romanos, o seu último escrito autêntico e seu testamento espiritual. Nessa Carta, Paulo refere que deu por terminada a sua missão na parte oriental do império (Rm 15,19 e 23), e que, antes de se dirigir a Roma e mesmo à Espanha (Rm 15,23-24 e 28), se prepara agora para partir para Jerusalém na mais arriscada das suas viagens. Viagem histórico-geográfica, mas sobretudo eclesial. É a viagem da sua vida: a viagem da comunhão das igrejas em Cristo, quer as oriundas do judaísmo quer as oriundas do paganismo. É pela fé em Cristo que todos, judeus e gentios, são justificados [= transformados por Deus de pecadores em justos] e salvos. A Carta aos Romanos é, portanto, a magna carta da unidade e da liberdade das igrejas em Cristo. Último escrito saído da mão de Paulo, obra madura, amadurecida nas esperanças e nas dores, súmula das suas cartas anteriores (1 Ts, Gl, Fl, 1 Cor, 2 Cor, Flm) e de todas elas a mais extensa (7101 palavras) e completa, a Epístola aos Romanos pode considerar-se também o seu testamento. De facto, Paulo vive, anuncia, ensina e escreve a unidade e a liberdade de todos em Cristo, e é por esta realidade que dará a vida.

Na verdade, Paulo tem consciência de que o projecto que o espera é decisivo e arriscado: ir a Jerusalém entregar o fruto da «colecta» (logeía) – termo só usado aqui em todo o NT, e que significa «colecta de dinheiro»[1] –, mas que é significativamente dita o mais das vezes «comunhão» (koinônía) (Rm 15,26; 2 Cor 8,4; 9,13; cf. Fl 4,15)[2], verdadeiro hápax phainómenon no cristianismo antigo[3], ou «serviço» (diakonía) (Rm 15,25.31; 2 Cor 8,4; 9,1.12.13) ou «graça» (cháris) (1 Cor 16,3; 2 Cor 8,7)[4]. Note-se ainda a articulação da «graça» com o «serviço» na belíssima locução «a graça servida por nós» (hê cháris hê diakonouménê hyph’ hêmôn) (2 Cor 8,18), a que já atrás fizemos referência[5]. Receberá ainda os nomes significativos de «bênção» (eulogía) (2 Cor 9,5) e «liturgia» (leitourgía) (2 Cor 9,12)[6]. De facto, Paulo partirá de Corinto para Jerusalém, provavelmente na primavera de 56, e faz-se acompanhar, também significativamente, de uma delegação de representantes das Igrejas por ele fundadas na Grécia (Acaia), na Macedónia e na Ásia Menor (Act 20,4). Com tal procedimento, o que Paulo está, na verdade, para empreender agora é a viagem da sua vida, a «viagem da comunhão», da unidade das Igrejas em Cristo. E uma questão paira no espírito do Apóstolo: como é que a Igreja-mãe de Jerusalém, acentuadamente judeo-cristã, acolherá a «colecta» das Igrejas da gentilidade? Aceitará ou denunciará a «comunhão»? Consciente das dificuldades e manifestando grande apreensão, Paulo pede aos cristãos de Roma que «lutem com ele na oração» pelo bom resultado desta viagem (Rm 15,30-31).

Como sabemos, Paulo será preso em Jerusalém. Daqui seguirá para Cesareia e para Roma, onde dará a sua vida por Cristo e pela unidade das Igrejas em Cristo.

(continua no próximo post)

António Couto


[1] A. C. THISELTON, The First Epistle to the Corinthians, p. 1318.

[2] O termo koinônía encontra-se apenas três vezes nos LXX, e parece ter sido introduzido por Paulo no vocabulário cristão, para referir a intimidade do amor existente na comunidade cristã, que expressa uma comunhão vertical e horizontal que supera todos os calculismos e institui um habitat fraternal permanente de doadores e de recebedores. Encontra-se 134 vezes no corpus paulinum, e apenas 19 vezes no resto do NT. S. LÉGASSE, L’Épître de Paul aux Romains, p. 934, nota 42; D. J. MOO, The Epistle to the Romans, p. 903; A. WODKA, Una teologia bíblica del dare nel contesto della colletta paolina (2 Cor 8-9), p. 168-170.

[3] A. WODKA, Una teologia bíblica del dare nel contesto della colletta paolina (2 Cor 8-9), p. 18-19.

[4] A. C. THISELTON, The First Epistle to the Corinthians, p. 1318.

[5] Atrás, ponto 7.

[6] A. C. THISELTON, The First Epistle to the Corinthians, p. 1318.

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