PAULO, MODELO DE EVANGELIZADOR (12)


12. O rosto missionário das Igrejas: a missão coração a coração

Em 2004, por ocasião dos 1250 anos do martírio de S. Bonifácio, Apóstolo da Alemanha, o Cardeal Karl Lehmann, Arcebispo de Mogúncia (Mainz), dirigiu à sua Diocese uma Carta Pastoral, intitulada Testemunho missionário, em que se lê:

 

 

«Tornámo-nos um mundo velho. Deixámo-nos vencer pelo cansaço (…). É necessário um radical revigoramento missionário da nossa Igreja. Não se trata apenas de reformar as estruturas. É preciso começar por cada um de nós. Se não estivermos entusiasmados pela profundidade e pela beleza da nossa fé, não podemos verdadeiramente transmiti-la nem aos vizinhos nem aos filhos nem às gerações futuras. (…) É necessário também ganhar outras pessoas para a nossa fé cristã e arrastar os cristãos que cederam ao cansaço ou que até abandonaram a Igreja (…). Devemos difundir verdadeiramente o Evangelho de casa em casa, de coração a coração»[1].

 

Nesta Carta Pastoral, o Cardeal Lehmann traça um quadro realista de uma Igreja que parece envelhecida e cansada, mas aponta também, com mestria e clarividência, as coordenadas que devem moldar o rumo do futuro: não basta reformar por fora estruturas e edifícios; é preciso reformar por dentro, mudar o coração, acendê-lo com a luz nova de Cristo e do seu Evangelho.

A Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, n.º 46, de Paulo VI, de 8 de Dezembro de 1975, de depois de falar da importância da pregação feita para todos, refere logo também a validade e a importância da transmissão «de pessoa para pessoa». E a Nota Pastoral da Conferência Episcopal Italiana, intitulada O rosto missionário das paróquias num mundo em mudança (n.º 6), de 30 de Maio de 2004[2], acentua que «para a evangelização é essencial a comunicação de crente para crente, de pessoa a pessoa», aspecto que volta a ser salientado na recente Nota doutrinal sobre alguns aspectos da evangelização, n.º 11, da Congregação para a Doutrina da Fé, de 3 de Dezembro de 2007[3].

No mesmo sentido, na cerimónia de encerramento do Congresso Internacional realizado em Roma, de 09 a 11 de Março de 2006, para celebrar e reflectir sobre o Decreto Conciliar Ad Gentes, no quadragésimo ano da sua promulgação (07 de Dezembro de 1965), referiu o Papa Bento XVI, entre outras coisas, que:

 

 

«Não são, de facto, somente os povos não-cristãos e as terras distantes, mas também os âmbitos sócio-culturais, e, principalmente os corações, os verdadeiros destinatários da actividade missionária do Povo de Deus».

 

E, nas palavras proferidas antes da Oração do Angelus do 80.º Dia Missionário Mundial (22.10.2006), Bento XVI acentuou esta dinâmica afirmando agora que «A missão parte do coração».

Novo tempo, novo modo, nova Anunciação, nova missão coração a coração. Aí está muito do novo estilo e da nova mentalidade que Bento XVI acaba de pedir à comunidade eclesial portuguesa, no seu Discurso, de 10 de Novembro de 2007, aos Bispos portugueses na recente Visita ad Limina. Bento XVI partiu da constatação de que «a confissão mais frequente nos lábios dos cristãos foi a falta de participação na vida comunitária», para referir logo que «é preciso mudar o estilo de organização da comunidade eclesial portuguesa e a mentalidade dos seus membros», e acrescentou que na «eclesiologia de comunhão na senda do Concílio», os clérigos e os leigos, cada um nas suas funções, devem tomar consciência de que «todos somos um, desde quando fomos baptizados e integrados na família dos filhos de Deus, e todos somos corresponsáveis pelo crescimento da Igreja».

O que acabo de dizer, os desafios assinados e datados que acabo de formular no domínio da metodologia da Evangelização, nomeadamente a relação personalizada, íntima e calorosa, «coração a coração» – é assim que brota a missão do coração de Deus –, e a participação de todos neste «trabalho do amor», tudo isto se desdobra muito bem do labor missionário de S. Paulo.

(continua no próximo post)

António Couto


[1]Texto na Revista Il Regno, 17, 2004, p. 544.

[2] CONFERÊNCIA EPISCOPAL ITALIANA, Nota Pastoral Il volto missionario delle parrocchie in un mondo che cambia, de 30 de Maio de 2004.

[3] CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, Nota dottrinale su alcuni aspetti dell’evangelizzazione, 3 de Dezembro de 2007.

Uma resposta a PAULO, MODELO DE EVANGELIZADOR (12)

  1. João Manuel diz:

    Só me resta agradecer ao bom Deus, neste “post” do dia da “Senhora das Candeias” a GRAÇA que Ele nos dá com este conteúdo do blog de D. António Couto: é uma candeia que nos ilumina e aquece.
    Bem haja o Bom Deus que, como a PAULO, o AGARROU.
    Obrigado D. António Couto.

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