CUIDADO, A PALAVRA É FRÁGIL!

Fevereiro 6, 2009

 

1. «O homem é um animal racional», têm repetido tranquilamente os livros e os homens, ao longo dos séculos, desde Aristóteles. Dizer que o homem é um animal, ainda que racional, é definir o homem por baixo, dado que o termo de comparação é o animal.

 

2. De forma diferente de todos os outros livros, a Bíblia ousa dizer e repetir que o homem é «imagem de Deus», definindo assim o homem, não por baixo, a partir do animal, mas por cima, a partir de Deus.

 

3. E ao mesmo tempo que define o homem como «imagem de Deus», a Bíblia define também claramente qual deve ser a relação do homem com o animal. Refere, de facto, o primeiro Capítulo do Livro do Génesis que o homem deve saber dominar o animal, a animalidade (Génesis 1,26.28), e mostra logo que, quando tal não acontece, surge naturalmente a desgraça. É assim que Caim se tornará assassino: por não ter sabido dominar o animal, deixando-se antes dominar por ele, ser à imagem dele e não à imagem de Deus. Em boa verdade, o homem violento é aquele que deixa que o animal ou a animalidade o domine. Dominado, então, pelo instinto do pecado à sua porta deitado (Génesis 4,7), como se de um leão se tratasse (Eclesiástico 27,10), Caim trucida o seu irmão, não lhe dando qualquer espaço: nem sequer o estreito espaço da palavra!

 

4. Refere, de forma penetrante, a versão original do Livro do Génesis: «Disse Caim para Abel, seu irmão» (Génesis 4,8a). Mas é em vão que ficamos à espera de ouvir ou de ler o anunciado dizer de Caim. De facto, ele não dirá mesmo nada. A narrativa deixa-nos perante um silêncio cortante. Omitindo qualquer palavra, o relato prossegue logo referindo que «Caim se lançou sobre o seu irmão Abel, e matou-o» (Génesis 4,8b). É tão gritante este não-dizer de Caim depois do seu dizer anunciado, que as versões posteriores, pensando tratar-se de omissão, se esforçaram por preencher essa lacuna, colocando lá uma locução do género: «Saiamos para o campo». Mas o texto original não tem lá nada. Apenas um gritante e intencional vazio.

 

5. Bem o compreendeu Judas, irmão de Tiago, quando, na sua Carta, diz certeiramente que «aqueles que seguem o caminho de Caim» são «como os animais sem palavra» (Judas 10-11). De facto, a besta que há em Caim não fala, mas grita e trucida e come o outro! Ao grito basta-lhe o instante. A palavra precisa de tempo. A palavra verdadeira é desejo de outra palavra: da palavra do outro. A palavra verdadeira dá a palavra e pede a palavra. Estreito espaço sobre o qual há que vigiar constantemente.

 

6. É bom que tomemos consciência de que quando usamos tons que não admitem resposta, quando somos categóricos e intolerantes, quando falamos sem dar atenção às palavras do outro ou sem ter presente que é o outro que está à nossa frente, então somos, de facto, como Caim: gritamos sem dizer nada e preparamo-nos apenas para o ódio, para a violência, para o homicídio.

 

7. Escrever, como falar, é não dizer tudo. É a arte de lidar com as palavras como se cada palavra, para ser admitida à passagem estreita pela qual se apresenta depois de uma palavra e antes de outra palavra, tivesse que produzir uma declaração atestando que não está contaminada pela totalidade ou pestilência da morte. Escrever é um acto de fragilidade e de liberdade.

 

8. Que a palavra escrita, ou dita, que nos une seja sempre frágil, meu irmão de hoje.

 

António Couto