VER, JULGAR E AGIR

Fevereiro 14, 2009

 

1. Proponho hoje uma série de ditos carregados de sabedoria prática, que se encontram no tratado da Mishna judaica, intitulado «Pirkê Abôt», título que significa «Capítulos dos Pais», em que se reúnem muitas sentenças certeiras e divertidas, que nos podem ajudar a ler melhor os nossos comportamentos diários.

 

2. Há quatro tipos de pessoas: 1) aquele que diz: «o que é meu é meu, e o que é teu é teu»: é a pessoa normal; 2) aquele que diz: «o que é meu é teu, e o que é teu é meu»: não sabe o que diz; 3) aquele que diz: «o que é meu é teu. e o que é teu é teu»: é o homem bom; 4) aquele que diz: «o que é meu é meu, e o que é teu é meu»: é o homem mau.

 

3. Há quatro tipos de temperamento: 1) o que se zanga com facilidade, e se acalma com facilidade: os ganhos são anulados pelas perdas; 2) o que se zanga com dificuldade, e se acalma com dificuldade: as perdas são anuladas pelos ganhos; 3) o que se zanga com dificuldade, e se acalma com facilidade: é o homem bom; 4) o que se zanga com facilidade, e se acalma com dificuldade: é o homem mau.

 

4. Há quatro tipos de alunos: 1) o que é rápido para escutar, e rápido para esquecer: os ganhos são anulados pelas perdas; 2) o que é lento para escutar, e lento para esquecer: as perdas são anuladas pelos ganhos; 3) o que é rápido para escutar, e lento para esquecer: é o sábio; 4) o que é lento para escutar, e rápido para esquecer: é o estúpido.

 

5. Há quatro tipos de pessoas na prática da esmola: 1) o que dá, mas não quer que os outros dêem: os seus olhos são maus para com os outros; 2) o que quer que os outros dêem, mas ele não dá: os seus olhos são maus para ele mesmo; 3) o que dá, e quer que os outros dêem: é o homem bom; 4) o que não dá, nem quer que os outros dêem: é o homem mau.

 

6. Há quatro tipos de pessoas em relação à casa de estudo: 1) o que vai, mas não faz nada: tem a recompensa de ir; 2) o que não vai, mas faz alguma coisa: tem a recompensa de fazer; 3) o que vai, e faz alguma coisa: é o homem bom; 4) o que nem vai, nem faz nada: é o estúpido.

 

7. Há quatro tipos de pessoas que se sentam diante do sábio: a esponja, o funil, o crivo e o filtro. 1) A esponja absorve tudo, tanto as coisas boas como o lixo: não tem critério; 2) o funil não retém nada: o que entra por um lado sai pelo outro: perde tudo; 3) o crivo retém o que é bom (o cereal) e deita fora o lixo: sabe discernir; 4) o filtro deixa passar o que é bom (o vinho) e retém o lixo (as borras): é insensato.

 

8. Calma e sabiamente sentado às portas da Quaresma, descobre-te a ti mesmo, meu irmão de Fevereiro. É tempo de ver e de julgar. E de agir em consequência.

 

António Couto