VER, JULGAR E AGIR


 

1. Proponho hoje uma série de ditos carregados de sabedoria prática, que se encontram no tratado da Mishna judaica, intitulado «Pirkê Abôt», título que significa «Capítulos dos Pais», em que se reúnem muitas sentenças certeiras e divertidas, que nos podem ajudar a ler melhor os nossos comportamentos diários.

 

2. Há quatro tipos de pessoas: 1) aquele que diz: «o que é meu é meu, e o que é teu é teu»: é a pessoa normal; 2) aquele que diz: «o que é meu é teu, e o que é teu é meu»: não sabe o que diz; 3) aquele que diz: «o que é meu é teu. e o que é teu é teu»: é o homem bom; 4) aquele que diz: «o que é meu é meu, e o que é teu é meu»: é o homem mau.

 

3. Há quatro tipos de temperamento: 1) o que se zanga com facilidade, e se acalma com facilidade: os ganhos são anulados pelas perdas; 2) o que se zanga com dificuldade, e se acalma com dificuldade: as perdas são anuladas pelos ganhos; 3) o que se zanga com dificuldade, e se acalma com facilidade: é o homem bom; 4) o que se zanga com facilidade, e se acalma com dificuldade: é o homem mau.

 

4. Há quatro tipos de alunos: 1) o que é rápido para escutar, e rápido para esquecer: os ganhos são anulados pelas perdas; 2) o que é lento para escutar, e lento para esquecer: as perdas são anuladas pelos ganhos; 3) o que é rápido para escutar, e lento para esquecer: é o sábio; 4) o que é lento para escutar, e rápido para esquecer: é o estúpido.

 

5. Há quatro tipos de pessoas na prática da esmola: 1) o que dá, mas não quer que os outros dêem: os seus olhos são maus para com os outros; 2) o que quer que os outros dêem, mas ele não dá: os seus olhos são maus para ele mesmo; 3) o que dá, e quer que os outros dêem: é o homem bom; 4) o que não dá, nem quer que os outros dêem: é o homem mau.

 

6. Há quatro tipos de pessoas em relação à casa de estudo: 1) o que vai, mas não faz nada: tem a recompensa de ir; 2) o que não vai, mas faz alguma coisa: tem a recompensa de fazer; 3) o que vai, e faz alguma coisa: é o homem bom; 4) o que nem vai, nem faz nada: é o estúpido.

 

7. Há quatro tipos de pessoas que se sentam diante do sábio: a esponja, o funil, o crivo e o filtro. 1) A esponja absorve tudo, tanto as coisas boas como o lixo: não tem critério; 2) o funil não retém nada: o que entra por um lado sai pelo outro: perde tudo; 3) o crivo retém o que é bom (o cereal) e deita fora o lixo: sabe discernir; 4) o filtro deixa passar o que é bom (o vinho) e retém o lixo (as borras): é insensato.

 

8. Calma e sabiamente sentado às portas da Quaresma, descobre-te a ti mesmo, meu irmão de Fevereiro. É tempo de ver e de julgar. E de agir em consequência.

 

António Couto

3 respostas a VER, JULGAR E AGIR

  1. Ana diz:

    Muito, muito bom!

    Grande desafio quaresmal..!O problema é que há dias e
    dias e nem sempre 7.3) existe…logo, ver e julgar fica comprometido…

    Com amizade

  2. E. Coelho diz:

    Estava a ler e estava a fazer o tal exame de consciência. Com a devida autorização vou divulgar para que outros, para além de mim, possam fazer o mesmo. Obrigada.

  3. João Manuel diz:

    Abri o blog para ler a dupla dos dias 14 e 16 que não havia ainda lido.

    1.Pelo título deste dia, reportei-me de imediato à – e pensava ir confrontar-me com a – metodologia da “Acção Católica”. Um (re-) voltar-se para ver como apenas de uma forma se pode ver: com o olhar de Deus revelado em Cristo que se nos desvela pelo(s) outro(s) e na criação de que participamos.

    2.Afinal, como acertadamente –D. A. Couto no-la desenterra — essa sabedoria prática da Mishna judaica nos faz perceber, se quisermos olhar para ver e julgar o coração que nos edifica.

    3.Penso em Paulo: amar é lutar..; se em Cristo enxertados somos uma nova criação… (2 Cor 5, 17). Não está a ser ele para nós — que riqueza o seu bibliolegado! — como que um Assurbanípal tão no contexto do nosso tempo? “Tudo considerei como lixo…” (Fl 3, 8). E que restou? A riqueza da pobreza do que na simplicidade se constrói. Como uma criança que — ela mesma, sim – nos deve conduz pela mão (cfr. Reflexão do dia de “amanhã”, 16).

    4.Que, na cegueira da Luz , Cristo faça, em mim/nós, pela Sua Graça, o que edificou em Paulo: vendo-se, julgou agindo no coração, seu e do irmão.

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