OLHA COM ENLEVO A CRIANÇA QUE SE AGARRA À TUA MÃO


 

1. Depois de, no decurso do IV milénio a. C., ter iniciado a escrita ideográfica cuneiforme, quase pictórica, a velha Suméria conhece, a partir de meados do III milénio a. C., a aventura da escrita fonética. Se a escrita ideográfica cuneiforme se limitava a elementares registos de teor administrativo – contas e dinheiros –, o avanço da escrita fonética trouxe consigo a literatura. Surgiram assim diversas obras literárias no berço de «Entre-os-Rios» (Tigre e Eufrates), que é o que significa o nome «Mesopotâmia». Deixo ficar aqui dois extratos da infância literária da humanidade, da nossa infância literária, portanto. Há-de o leitor notar que se trata de dois pedaços de felicidade. O primeiro é retirado do mito sumero-acádico de Enki e Ninhursag, que abre com a descrição de uma país de sonho, de nome Dilmun, que estranhamente já nada se parece com o sul do actual Iraque destruído pela guerra e minado por inúmeras intrigas:

 

2. «Dilmun é um lugar puro,/ Dilmun é um lugar limpo;/ Dilmun é um lugar limpo,/ Dilmun é cristalino./ Em Dilmun, o corvo não lança os seus grasnidos,/ o milhagre não lança os seus gritos de milhafre,/ o leão não mata,/ o lobo não arrebata o cordeiro,/ não se conhece o cão devorador de cabritos,/ não se conhece o javali que devora o grão./ O doente dos olhos não diz: “doiem-me os olhos”;/ o doente da cabeça não diz: “dói-me a cabeça”;/ a mulher idosa não diz: “sou uma velha”;/ o homem idoso não diz: “sou um velho”./ Aquele que atravessa o Rio Tenebroso não diz…;/ à sua volta não se ouvem lamentos;/ o cantor não exprime queixumes;/ junto da cidade não se ouvem lamúrias».

 

3. O segundo é retirado da famosíssima Epopeia de Gilgamesh, mítico rei de Uruk, que canta assim a fragilidade e a beleza da vida humana:

 

4. «Tu, Gilgamesh, que o teu ventre esteja sempre cheio,/ alegra-te dia e noite,/ faz festa em todo o tempo,/ dia e noite dança e rejubila./ Que os teus vestidos sejam de festa,/ a tua cabeça perfumada,/ o teu corpo banhado com água./ Olha com enlevo a criança que se agarra à tua mão;/ que uma esposa repouse sempre em teu seio./ Eis o quinhão que toca ao homem».

 

5. Deixem-me homenagear Assurbanípal. Tinha a grande e brilhante Assíria atingido o seu apogeu com Asaradon (680-669), o qual, em 671, submeteu o próprio Egipto, no outro extremo do Crescente Fértil. Asaradon morreu em 669. Sucedeu-lhe o seu filho Assurbanípal (669-627), que herdou um país vasto, poderoso e rico. Mas Assurbanípal não tinha vocação para a política, para as armas e para as contas, e resolveu dedicar-se em exclusivo à organização da sua biblioteca de Nínive, onde recolheu muitos textos da escrita cuneiforme e fonética. Era um amante da cultura. Foi desta forma, porque um rei se dedicou à cultura, que foi preservada grande parte da literatura mesopotâmica. Muito por causa da incúria política e administrativa de Assurbanípal, a Assíria cairá pouco depois, em 612, às mãos impiedosas da Babilónia. Os militares e os administradores certamente não perdoaram a Assurbanípal este desastre. Mas a cultura de todos os tempos e latitudes presta-lhe homenagem. É quase certo que, sem ele, nunca conheceríamos a literatura e a arte da antiga Mesopotâmia. Teria sido uma perda irreparável.

 

6. Reparamos agora que, com esta guerra em solo iraquiano, foi o mundo todo que deu um passo atrás. Outra vez do sonho literário para as contas da administração, do III milénio para o IV milénio a. C. (em termos de escrita), mas também de Assurbanípal para Asaradon (em termos de cultura e mentalidade). Estamos outra vez tão entretidos e empenhados com as espingardas, o petróleo e o dinheiro, que não damos sequer pelo sangue derramado de tantos homens, mulheres e crianças, por tantas lágrimas vertidas, e pelo saque irreparável dos museus do Iraque, um dos berços da humanidade. Em boa verdade, a crise em que estamos atolados não vale uma lágrima sequer de uma criança que sofre!

 

7. Não te esqueças, meu irmão de Domingo, de velar sempre e em primeiro lugar pela beleza e pela humanidade da vida e do mundo à tua volta.

 

António Couto

3 respostas a OLHA COM ENLEVO A CRIANÇA QUE SE AGARRA À TUA MÃO

  1. Luisa diz:

    Tenho na mente que todos os seres humanos trazem em si a imensa sabedoria de Deus, porque Dele são parte, porém ainda em estado de imperfeição. Como tal, cá dentro de cada um de nós encontra-se a Sabedoria Divina Adormecida. Ela vai despertando no contacto com o outro, nas partilhas de “despertares de consciências”, no “relembrar” do que a vida nos espera e no que ela tem para nós, à luz de Deus e do semelhante. Assim, aqui ou ali, somos sempre importantes no “teatro” da vida, onde as partilhas se fazem indispensáveis ao crescimento em todos os sentidos. Talvez por isso o Homem precise viver em sociedade, em troca constante de ideias, e exemplos práticos. Tudo isto oferece-nos divinas oportunidades de crescimento interior, de uma evolução inconsciente pois tudo se processa de forma natural. Já o Homem das cavernas realizava estas partilhas e não tinha o intuito de buscar perfeição, se não, sobrevivência, fazendo das suas transmissões legados de vida! Agora, a vida que se nos apresenta, é mais sublime, mais complexa intelectualmente, possui mais finalidade concreta, mais base de sustentação nas diversas crenças, nas diversas formas que temos para buscar forças nas quedas do dia-a-dia. Partilhando, estamos a fazer de tudo um pouco, estamos a amar, estamos a fazer evoluir, estamos a evoluir nós próprios na oferenda que proporcionamos. Partilhar é uma palavra muito mais ampla do que se possa pensar. Partilhar é trabalhar o próximo, dar-lhe ferramentas de auto-transformação, pois não transformamos ninguém se essa pessoa não se quiser transformar a si mesma. Partilhar, é trabalhar-se a si mesmo, é doar espontaneamente sem aguardar nada em troca, para receber o retorno da satisfação de contributo na nossa doação de partilha ao próximo e a ele ter oferecido um contributo evolutivo.
    Tudo isto só para agradecer o facto de tanto connosco partilhar! A partilha é bela, e faz parte da humanidade da vida.

    Paz e Bem!

  2. josé carlos pereira diz:

    Participando nesta sua acertada reflexão, permita-me que, a jeito de partilha, evoque duas citações relativas, entre outras, ao sangue inocente que escorre (bradando aos céus por justiça):

    «A voz do sangue de teu irmão clama da terra até mim» Gn 4,10. Esta voz que, constantemente, é repetida e recriada em cada inocente morto pela ganância individual e/ou colectiva do Homem… espera um final justo, que brote da justeza de Deus (do Deus justo e misericordioso).

    «Ai de vós… (diz Jesus aos doutores da lei) cairá sobre vós todo o sangue inocente que tem sido derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel até ao sangue de Zacarias (…) tudo isto cairá sobre esta geração.» (Mt 23,35 || Lc 11,50).

    josé carlos pereira

  3. Angelina diz:

    Como «a palavra verdadeira dá a palavra e pede a palavra», sinto-me no dever de dizer: Muito obrigada Sr. D. António. A sua palavra dita, ou escrita, é tão rica, é tão verdadeira e é tão agravável,que me ajuda a olhar com enlevo e em cada dia, essa criança que se agarra à minha mão…Como é bom termos UM DADOR DE VIDA tão proximo!É mesmo assim a GRAÇA…Gosta de embalar.

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