E ELE FEZ DOZE PARA QUE ESTIVESSEM COM ELE E PARA OS ENVIAR


1. No início do seu Evangelho, Marcos põe perante nós a cena sublime do chamamento ou vocação e missão dos «doze»:

 

«13E Ele sobe para a montanha e chama para si aqueles que ele queria, e andaram para ele. 14E Ele fez (epoíêsen) doze, para que estivessem com ele, e para os enviar a pregar 15e ter autoridade para expulsar os demónios» (Marcos 3,13-15).

 

2. A iniciativa é de Jesus. Ele chama para si aqueles que Ele quer. E eles vão para Ele em admirável sinergia. O que o texto regista a seguir é sublime e exclusivo de Marcos: «Ele fez doze»: admirável acto criador! Primeira finalidade desta nova criação: estar com Ele. Simplesmente estar com Ele, atentos a Ele, para aprender a viver com Ele, como Ele. Este primeiro tempo deve ser sempre o primeiro, o mais intenso, intenso e pleno, como se não houvesse nenhum outro. Só depois vem o envio para a pregação do Evangelho com a consequente libertação de todas as forças demoníacas ou maléficas (ódio, inveja, egoísmo, prepotência, mentira, violência…) que aprisionam os nossos irmãos.

 

3. Esta missão de saúde, paz e alegria grande para todos é de novo expressa por Jesus, no final do mesmo Evangelho de Marcos, com o particípio da liberdade: «Indo

 

«15E Ele disse-lhes: Indo (poreuthéntes) por todo o mundo, anunciai o Evangelho a toda a criatura» (Marcos 16,15).

 

4. Este particípio histórico faz-nos tomar parte no caminho concreto de todos os vocacionados da Escritura, desde que Abraão ouviu o imperativo: «Vai!» (Génesis 12,1). E o narrador diz-nos que «Abraão foi» (Génesis 12,4).

 

5. Aquele que é assim chamado e enviado por Deus é uma nova criatura, vive dessa alegria nova e dá testemunho dessa maneira nova de viver. Não tem de demonstrar nada. Apenas mostrar e testemunhar. Seja onde for. Seja a quem for. A experiência da testemunha é sempre mais forte e mais radical do que as provas que eventualmente queira dar. É por isso que Filipe fala de Jesus a Natanael, mas face às objecções deste, não lhe dissipa as dúvidas (João 1,45-46); diz-lhe simplesmente: «Vem e vê!» (João 1,46). O testemunho não é eficaz senão quando incita o destinatário, não a inclinar-se perante as provas, mas a fazer, por sua vez, a experiência.

 

6. Note-se, todavia, uma diferença fundamental: os chefes das nações ou das empresas preparam a sua sucessão quando pressentem que o termo da sua vida se aproxima e que é inevitável a sua retirada de cena; os mestres escolhem os seus continuadores sobre a base de uma longa selecção entre os seus discípulos. Ao contrário, no que se refere a Jesus, é no princípio da sua missão que Ele chama os seus discípulos, e é durante a sua própria missão que os envia em missão. Esta contemporaneidade implica com Jesus os seus discípulos. Mas implica-nos a nós do mesmo modo, impedindo a sua e a nossa catalogação como meros continuadores da missão evangelizadora de Jesus. Continuadores é o que os discípulos de Jesus são e o que nós somos aos olhos da história empírica. Mas nós somos outra coisa bem diferente na estrutura do relato do Evangelho. Nós com Ele, e não nós depois dele.

 

7. «Eu estou convosco todos os dias» (Mateus 28,20). «Sem mim nada podeis fazer» (João 15,5). Equivocamo-nos quer quando encaramos a missão em termos de vedetismo quer quando a encaramos com pesado cepticismo. Não estamos sozinhos na cena da missão. Tão pouco somos donos da missão. A missão é d’Ele. Nós somos chamados a estar com Ele. Nunca, porém, à frente d’Ele. Ele é que é o Mestre. Nós devemos segui-l’O como discípulos fiéis. Segui-l’O. Mas também não devemos ficar demasiado para trás. Correríamos o risco de O perder de vista. De ficar sós. E de já não estar com Ele.

 

8. Fica connosco, Senhor, neste tempo de graça. Fica connosco. Preside-nos e precede-nos sempre. E que nós estejamos lá sempre atrás de Ti, perto de Ti. Contigo.

 

António Couto

2 respostas a E ELE FEZ DOZE PARA QUE ESTIVESSEM COM ELE E PARA OS ENVIAR

  1. maria de fátima diz:

    É assim … Quando Deus nos chama, nós “somos” sem ter que ter que provar nada.( Gostei desta parte da prova – grande sabedoria ! ) Simplesmente somos para Ele e, daí,” necessariamente “,para os outros. Às vezes podemos pensar que não vamos conseguir porque ” a missão ” se torne demasiado pesada. E é nestas alturas que temos a sensação de estar a ficar muito para trás … e Ele que não se volta !…

  2. E. Coelho diz:

    … e assim se entende que Ele seja o Emmanuel, Deus connosco, ao nosso lado, sempre connosco.
    E é assim que se consegue compreender a Palavra, quem é a Palavra, e onde é que a Palavra está e como alcançá-la e fazê-la nossa.
    Abraço

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