UM TEMPO COM PASSADO, PRESENTE E FUTURO

Março 23, 2009

1. Na mitologia grega, Cronos, o Tempo, é filho do Céu (Urano) e da Terra (Gaia), e é uma divindade que mutila o pai e devora os seus próprios filhos, no intuito de se perpetuar no governo de tudo quanto existe numa espécie de «Idade de Ouro» permanente. Cronos, o Tempo dos relógios (cronómetros), é representado como um ancião com uma foice e uma ampulheta (relógio de areia), que inexoravelmente ceifam todas as realizações humanas: é fatal o movimento da foice; inexorável o rápido deslizar da areia na ampulheta.

 

2. Pela mutilação do seu pai, Cronos desliga-se do passado; devorando os seus próprios filhos à nascença, Cronos fecha-se ao futuro. Sem passado nem futuro, que tempo fica? Fica o momento à deriva, um tempo esfacelado, atomizado, feito em cacos, incomunicável, órfão e castrado, vazio, que nada recebe e nada entrega. De ninguém e a ninguém. Um tempo que não é presente, porque o presente não existe solto; tem amarras para o passado e para o futuro. Tempo do momento, esboroado em múltiplos fragmentos, sempre condenados a não serem senão fragmentos, isto é, que não se podem juntar. Tempo infecundo, infrutífero, plano como uma tábua, com planitude, mas sem plenitude. Um tempo para se gastar, como qualquer outra mercadoria à venda no supermercado. Um tempo barato. Para usar e deitar fora. Um tempo sem liberdade e responsabilidade; portanto, sem história, isto é, sem interpelação nem resposta. Um tempo morto, deitado, fechado, horizontal. Como um espaço. Um tempo preenchido com pessoas, como o espaço está preenchido com objectos. Um tempo em que se deslocam pessoas, como no espaço se podem deslocar objectos. Um tempo como um espaço em que as pessoas como os objectos apenas mudam de lugar. Um tempo em que nada acontece.

 

3. Tal é o tempo espacializado e mecânico e metálico de Cronos. Tal é o nosso tempo, o tempo em que vamos hoje. Para subsistir, para não morrermos de tédio, somos forçados a dilatar constantemente o pedaço de tempo em que estamos. O que se consegue, aumentando a dose emocional, intensificando a experiência do momento com novas vivências e descargas afectivas e emocionais. Mas este pedaço de tempo potenciado e dilatado não é fecundo, não faz futuro, não conhece passado, não é presente, não tem plenitude. É apenas planitude, uma tábua à deriva no oceano.

 

4. Tudo se passa ou gasta rapidamente. É a febre do fim do milénio, ou do fim do ano, ou do fim do curso, ou uma festa de aniversário, o dia dos namorados ou da mulher ou outro escape qualquer cujo cenário rapidamente se monta e mais rapidamente ainda se desmonta. Por momentos, a adrenalina pode subir a níveis elevados. Depois, segue-se naturalmente a depressão e o cansaço, até que um novo kick emocional apareça para enganar durante mais algumas horas o tédio habitual. É o refúgio na droga, na discoteca, no álcool ou no futebol, ou a procura de êxtases religiosos rápidos e fáceis, apregoados e vendidos nos mercados das novas seitas pós-cristãs e outras.

 

5. Contra a doença do Tempo enlatado de Cronos, proponho o Tempo aberto de Kairós, «o tempo da oportunidade», o tempo de Deus e do Homem, o tempo do Natal e da Páscoa, o tempo da dádiva, da graça, da receptividade, da liberdade, da responsabilidade, da história. O tempo de tomar decisões que abram rumos novos na nossa vida. Um tempo com sentido. O tempo da comunicação, da interpelação e da resposta. Não um tempo plano, mas um tempo pleno, com passado, presente e futuro, em que serenamente nos inserimos, situamos e empenhamos, de pé, como pessoas livres e responsáveis, na construção de um novo amanhã. Não como objectos mais ou menos à deriva numa espécie de tempo espacializado.

 

6. É preciso recuperar um Tempo com passado, presente e futuro. Com tempos, modos e causas. Com receptividade, liberdade e responsabilidade. Um tempo que seja nosso, tecido com o suor do rosto, com o coração, a inteligência e as mãos.

 

António Couto

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DA PÁSCOA GLORIOSA À QUARESMA SANTA; DA QUARESMA SANTA À PÁSCOA GLORIOSA

Março 14, 2009

I DOMINGO DA QUARESMA (Ano B) – 01.03.2009

 

Só secundariamente a Quaresma «prepara» para a Ressur­reição. Na verdade, todos os «Tempos» e todos os Domingos do Ano Litúrgico – portanto, também a Quaresma e os seus Domingos – estão depois da Ressurreição e por causa da Ressurreição. E é só sob a intensa luz do Senhor Ressusci­tado com o Espírito Santo (Baptismo consumado: Lucas 12,49‑50) que a Igreja – e cada um de nós – pode celebrar autenti­camente a sua fé, proceder à correcta «leitura» das Escri­turas e encetar a «caminhada» quaresmal. Neste sentido, todos os baptizados são chamados a refazer com Cristo bapti­zado o seu programa baptismal, cujo conteúdo e itinerário conhecemos: desde o Baptismo no Jordão, passando pela Trans­figuração/Confirmação no Tabor, até à Cruz e à Glória da Ressurreição (Baptismo consumado!), escutando e anunciando sempre e cada vez mais intensamente o Evangelho do Reino e fazendo sempre e cada vez mais intensamente as «obras» do Reino (Actos dos Apóstolos 10,37-38: texto emblemático). Por sua vez, os catecúmenos, acompanhados sempre pela Assembleia dos baptizados, «pre­param‑se» intensamente para a Noite Pascal Baptismal, início e meta da vida cristã.

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O «ESPECTÁCULO» DA CRUZ

Março 8, 2009

1. A Cruz é o grande sinal da vida, cristã e não só, que deve abrir os nossos olhos, ao longo do inteiro ano litúrgico, que simboliza o inteiro ciclo da nossa vida. Mas, pela Páscoa, a Cruz entra-nos em casa com o «compasso», podendo assim, se o permitirmos, entrar-nos também melhor pelos olhos dentro.

 

2. Num texto de singular densidade, S. Paulo diz que Cristo crucificado é «Cristo exposto por escrito (proegráphê) diante dos (nossos) olhos (kat’ ophthalmoús)» (Gálatas 3,1). A Cruz é, portanto, um texto que se pode ler. Embora, para muitos dos nossos contemporâneos, aquela letra pareça quase ilegível.

 

3. S. Lucas, por sua vez, fala da Cruz como «espectáculo» (theôría) que converte, referindo a propósito que «todas as multidões, vendo o espectáculo das coisas acontecidas, regressaram batendo no peito» (Lucas 23,48). Bater no peito significa o reconhecimento das próprias culpas na morte violenta daquele inocente.

 

4. Na Cruz, que é, portanto, para ver e para ler, passam dois filmes. Passa, em primeiro lugar, o filme do nosso pecado, que se traduz na nossa violência, cobiça, inveja, ódio, malvadez… Se, de facto, nos perguntarmos: «Quem crucificou aquele inocente?», teremos por força de responder que fomos nós, a malvadez que há em nós. Então, vendo bem aquelas chagas do Crucificado, seremos levados a reconhecer nelas a nossa violência. E é, ao reconhecer naquelas chagas a violência do nosso pecado, que somos curados (1 Carta de S. Pedro 2,24). De facto, só podemos ser curados do pecado em nós escondido, quando ele se tornar claro para nós. O mesmo se passa com a doença: só quando sabemos que estamos doentes e sabemos também qual é a nossa doença, podemos iniciar o processo da cura. É assim também que a imagem da cobra levantada por Moisés no deserto, era objecto de cura (Números 21,8-9). O Evangelho de S. João 3,14 associa muito bem o corpo de Jesus cravado na Cruz com o corpo da cobra, nu como o dele, fixado num poste. De facto, a cobra, que se dissimula e esconde, é bem a imagem do pecado. Mas a exibição daquilo que está dissimulado retira-lhe a nocividade: é assim que se processa a cura. Mordidos pelo veneno da cobra, que é o nosso mau génio, violência e malvadez, levantando-a agora à altura dos olhos para a vermos bem, podemos reconhecer o mal que nos afecta, e iniciar então o processo da cura.

 

5. A Cruz, que é sabedoria de Deus (1 Coríntios 1,18-25), faz ver que a malvadez existe, e que é preciso vê-la, descobri-la, reconhecê-la, denunciá-la, para dela sermos curados. Mas a Cruz faz ver ainda – e é o segundo filme que passa na Cruz – que Deus nos ama com um amor tão radicalmente subversivo que oferece o perdão à nossa malvadez, quebrando assim a espiral da nossa violência, em que à violência apenas tínhamos para oferecer mais violência.

 

6. A Cruz é assim um «espectáculo» que converte. Na sua poderosa impotência, o Crucificado é a parábola que faz ver (verbo grego ideîn: não um ver exterior, mas ver por dentro, ver a «identidade») até onde a simples vista não alcança: faz-nos ver, por um lado, bem dentro de nós, a crueza da nossa violência e malvadez; por outro lado, faz-nos ver n’Ele, no Crucificado, em Deus, a força subversiva e nova do amor e do perdão.

 

7. O amor, como a Cruz, é subversivo, mas não impositivo. Não arromba portas. Bate à nossa porta, para que possamos abri-la por dentro. Abre o teu coração a uma Páscoa Feliz, meu irmão de Março!

 

António Couto


ENCONTROS COM S. PAULO em powerpoint

Março 8, 2009

Disponibilizamos neste espaço, para quem o desejar, as imagens em powerpoint dos encontros com S. Paulo, apresentados em Braga e em outros lugares.

António Couto

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Encontros com S. Paulo (8)

Encontros com S. Paulo (9)


RAPARIGAS DO SILÊNCIO, DO TERÇO E DAS FLORES

Março 1, 2009

 

1. Vamos quotidianamente experimentando os limites do nosso mundo desiderativo, projectual e instintivo. Por maior que seja, o nosso mundo (o mundo que sai de nós) é limitado! Temos limites, somos limites. Os sonhos que alimentamos quebram, os projectos que desenhamos fracassam, os amigos que amamos morrem, as pontes por onde vamos caem!

 

2. A velha ponte Hintze Ribeiro, de Entre-os-Rios, caiu há oito anos. O calendário assinalava o dia 4 de Março de 2001. Cinquenta e nove pessoas morreram (cinquenta e três viajavam no fatídico autocarro). Não obstante a vozearia excessiva dos meios de comunicação social, não era o ruído, mas o silêncio que era ensurdecedor. E todas as seguranças do mundo, com os seus muros de betão e tudo, parece que se quebravam contra aquelas frágeis flores ternamente atiradas ao rio.

 

3. É aqui que nos encontramos todos – crentes e menos crentes e descrentes – irmanados no mesmo profundo, humano, sentimento. Que sentido há que possa ainda resgatar estas vidas que nós já não conseguimos resgatar? Estou convosco, raparigas do silêncio, do terço e das flores. Estou convosco nesse gesto tremendamente frágil com que desenhais uma ponte diferente. Os homens fortes construíram a ponte Hintze Ribeiro, de pedra e de ferro, que caiu. Os homens fortes andaram aí, rio acima, rio abaixo, incapazes de um mergulho ou de um único gesto salvador. Os homens fortes vieram de longe, abriram inquéritos e lançaram ramos de promessas para o ar. Mas vós, mulheres frágeis, silentes, lacrimadas, intuitivas, descobris, construís a única ponte que ainda pode ligar a morte à vida. Vós estais sempre do lado da vida, mesmo quando os homens fortes continuam a esgaravatar, arqueológica ou intelectualmente, a morte. Vós podeis encontrar a vida; eles poderão encontrar apenas vestígios da morte.

 

4. Neste sentido, o grande filósofo de origem judaica, Franz Rosenzweig, na sua obra magistral, intitulada A Estrela da Redenção, fez a denúncia radical do pensamento ocidental como pensamento da morte, assente, portanto, no mundo férreo da necessidade e do interesse, que nega o milagre, a graça, a assimetria, em última análise, o nascimento, que é um acontecimento que não me é dado projectar e em virtude do qual eu vivo. Não é por acaso que esta sociedade ocidental evita os nascimentos, vivendo cada vez mais da morte, e, portanto, para a morte, tresandando a amoníaco.

 

5. Vós, mulheres frágeis, corajosas, dais a vida, e sabeis, de um saber de experiência feito, que a vida é um dom e que cada nascimento é um milagre, e que, portanto, remete para fora do nosso horizonte projectual. Vós embalais os vossos filhos pequeninos nos braços, e bem sabeis que eles só entendem a linguagem do amor, que reclamam o amor e que dependem completamente do amor. Sem a vossa mão acolhedora e carinhosa, eles morrem.

 

6. Vós, mulheres frágeis, corajosas, que rezais e atirais flores ao rio, vós sabeis construir a única ponte que pode ainda ligar a morte à vida. Não é por caso que o termo «religião» deriva do verbo latino re-ligare [= ligar para trás, atar]. Vós sabeis aonde ir buscar a ponta do fio partido para ligar a morte à vida, construindo assim a maior ponte que se pode construir, a ponte do verdadeiro sentido da vida. Cada uma à sua maneira, as grandes religiões da humanidade procuram oferecer esse fio de sentido, essa ponte, que não deixa a vida humana à deriva, mas a liga a Deus. O grande escritor francês, André Malraux, escreveu um dia, há quem diga que profeticamente, que «o século XXI ou é religioso ou não será».

 

7. Estou convosco, mulheres da Páscoa.

 

António Couto


MISTÉRIO PASCAL: RELATO E ANÚNCIO

Março 1, 2009

 

O Concílio Vaticano II usa reiteradamente a expressão mistério pascal para designar a Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, e o seu significado para nós. Este para nós do mistério pascal tem de ser sempre fortemente acentuado e agrafado, uma vez que Cristo – refere o texto conciliar e cantamos nós no Prefácio da Vigília Pascal – «morrendo destruiu a nossa morte e ressuscitando restaurou a nossa vida». É deste CUME que nasce a Igreja e os sacramentos, nomeadamente o baptismo e a eucaristia (SC 5.6.47); é neste LUME NOVO que se acende a celebração do inteiro ano litúrgico, cujo centro é sempre o Domingo e a Páscoa Anual (SC 102.106s.); é esta FONTE que anima todo o quotidiano cristão, devendo informar, desde a raiz, tudo o que fazemos, todas as nossas actividades, todos os nossos comportamentos; mas é ainda neste cume, neste lume e nesta água viva que cada homem de boa vontade, crente ou não crente, será sempre contado, encontrado e conhecido (1 Cor 13,12; Gl 4,9; Fl 3,12) – saiba-o ou não, Deus o sabe (cf. 2 Cor 12,2.3) – para que possa receber ânimo e sentido para a vida e para a morte (GS 22).

 

Quando cantamos que o mistério pascal do Senhor tem a ver connosco, com a NOSSA vida e com a NOSSA morte, aí mesmo confessamos que a realidade da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo nos interessa, nos atravessa, nos explica e nos implica. Leia o resto deste artigo »