RAPARIGAS DO SILÊNCIO, DO TERÇO E DAS FLORES

Março 1, 2009

 

1. Vamos quotidianamente experimentando os limites do nosso mundo desiderativo, projectual e instintivo. Por maior que seja, o nosso mundo (o mundo que sai de nós) é limitado! Temos limites, somos limites. Os sonhos que alimentamos quebram, os projectos que desenhamos fracassam, os amigos que amamos morrem, as pontes por onde vamos caem!

 

2. A velha ponte Hintze Ribeiro, de Entre-os-Rios, caiu há oito anos. O calendário assinalava o dia 4 de Março de 2001. Cinquenta e nove pessoas morreram (cinquenta e três viajavam no fatídico autocarro). Não obstante a vozearia excessiva dos meios de comunicação social, não era o ruído, mas o silêncio que era ensurdecedor. E todas as seguranças do mundo, com os seus muros de betão e tudo, parece que se quebravam contra aquelas frágeis flores ternamente atiradas ao rio.

 

3. É aqui que nos encontramos todos – crentes e menos crentes e descrentes – irmanados no mesmo profundo, humano, sentimento. Que sentido há que possa ainda resgatar estas vidas que nós já não conseguimos resgatar? Estou convosco, raparigas do silêncio, do terço e das flores. Estou convosco nesse gesto tremendamente frágil com que desenhais uma ponte diferente. Os homens fortes construíram a ponte Hintze Ribeiro, de pedra e de ferro, que caiu. Os homens fortes andaram aí, rio acima, rio abaixo, incapazes de um mergulho ou de um único gesto salvador. Os homens fortes vieram de longe, abriram inquéritos e lançaram ramos de promessas para o ar. Mas vós, mulheres frágeis, silentes, lacrimadas, intuitivas, descobris, construís a única ponte que ainda pode ligar a morte à vida. Vós estais sempre do lado da vida, mesmo quando os homens fortes continuam a esgaravatar, arqueológica ou intelectualmente, a morte. Vós podeis encontrar a vida; eles poderão encontrar apenas vestígios da morte.

 

4. Neste sentido, o grande filósofo de origem judaica, Franz Rosenzweig, na sua obra magistral, intitulada A Estrela da Redenção, fez a denúncia radical do pensamento ocidental como pensamento da morte, assente, portanto, no mundo férreo da necessidade e do interesse, que nega o milagre, a graça, a assimetria, em última análise, o nascimento, que é um acontecimento que não me é dado projectar e em virtude do qual eu vivo. Não é por acaso que esta sociedade ocidental evita os nascimentos, vivendo cada vez mais da morte, e, portanto, para a morte, tresandando a amoníaco.

 

5. Vós, mulheres frágeis, corajosas, dais a vida, e sabeis, de um saber de experiência feito, que a vida é um dom e que cada nascimento é um milagre, e que, portanto, remete para fora do nosso horizonte projectual. Vós embalais os vossos filhos pequeninos nos braços, e bem sabeis que eles só entendem a linguagem do amor, que reclamam o amor e que dependem completamente do amor. Sem a vossa mão acolhedora e carinhosa, eles morrem.

 

6. Vós, mulheres frágeis, corajosas, que rezais e atirais flores ao rio, vós sabeis construir a única ponte que pode ainda ligar a morte à vida. Não é por caso que o termo «religião» deriva do verbo latino re-ligare [= ligar para trás, atar]. Vós sabeis aonde ir buscar a ponta do fio partido para ligar a morte à vida, construindo assim a maior ponte que se pode construir, a ponte do verdadeiro sentido da vida. Cada uma à sua maneira, as grandes religiões da humanidade procuram oferecer esse fio de sentido, essa ponte, que não deixa a vida humana à deriva, mas a liga a Deus. O grande escritor francês, André Malraux, escreveu um dia, há quem diga que profeticamente, que «o século XXI ou é religioso ou não será».

 

7. Estou convosco, mulheres da Páscoa.

 

António Couto


MISTÉRIO PASCAL: RELATO E ANÚNCIO

Março 1, 2009

 

O Concílio Vaticano II usa reiteradamente a expressão mistério pascal para designar a Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, e o seu significado para nós. Este para nós do mistério pascal tem de ser sempre fortemente acentuado e agrafado, uma vez que Cristo – refere o texto conciliar e cantamos nós no Prefácio da Vigília Pascal – «morrendo destruiu a nossa morte e ressuscitando restaurou a nossa vida». É deste CUME que nasce a Igreja e os sacramentos, nomeadamente o baptismo e a eucaristia (SC 5.6.47); é neste LUME NOVO que se acende a celebração do inteiro ano litúrgico, cujo centro é sempre o Domingo e a Páscoa Anual (SC 102.106s.); é esta FONTE que anima todo o quotidiano cristão, devendo informar, desde a raiz, tudo o que fazemos, todas as nossas actividades, todos os nossos comportamentos; mas é ainda neste cume, neste lume e nesta água viva que cada homem de boa vontade, crente ou não crente, será sempre contado, encontrado e conhecido (1 Cor 13,12; Gl 4,9; Fl 3,12) – saiba-o ou não, Deus o sabe (cf. 2 Cor 12,2.3) – para que possa receber ânimo e sentido para a vida e para a morte (GS 22).

 

Quando cantamos que o mistério pascal do Senhor tem a ver connosco, com a NOSSA vida e com a NOSSA morte, aí mesmo confessamos que a realidade da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo nos interessa, nos atravessa, nos explica e nos implica. Leia o resto deste artigo »