O «ESPECTÁCULO» DA CRUZ


1. A Cruz é o grande sinal da vida, cristã e não só, que deve abrir os nossos olhos, ao longo do inteiro ano litúrgico, que simboliza o inteiro ciclo da nossa vida. Mas, pela Páscoa, a Cruz entra-nos em casa com o «compasso», podendo assim, se o permitirmos, entrar-nos também melhor pelos olhos dentro.

 

2. Num texto de singular densidade, S. Paulo diz que Cristo crucificado é «Cristo exposto por escrito (proegráphê) diante dos (nossos) olhos (kat’ ophthalmoús)» (Gálatas 3,1). A Cruz é, portanto, um texto que se pode ler. Embora, para muitos dos nossos contemporâneos, aquela letra pareça quase ilegível.

 

3. S. Lucas, por sua vez, fala da Cruz como «espectáculo» (theôría) que converte, referindo a propósito que «todas as multidões, vendo o espectáculo das coisas acontecidas, regressaram batendo no peito» (Lucas 23,48). Bater no peito significa o reconhecimento das próprias culpas na morte violenta daquele inocente.

 

4. Na Cruz, que é, portanto, para ver e para ler, passam dois filmes. Passa, em primeiro lugar, o filme do nosso pecado, que se traduz na nossa violência, cobiça, inveja, ódio, malvadez… Se, de facto, nos perguntarmos: «Quem crucificou aquele inocente?», teremos por força de responder que fomos nós, a malvadez que há em nós. Então, vendo bem aquelas chagas do Crucificado, seremos levados a reconhecer nelas a nossa violência. E é, ao reconhecer naquelas chagas a violência do nosso pecado, que somos curados (1 Carta de S. Pedro 2,24). De facto, só podemos ser curados do pecado em nós escondido, quando ele se tornar claro para nós. O mesmo se passa com a doença: só quando sabemos que estamos doentes e sabemos também qual é a nossa doença, podemos iniciar o processo da cura. É assim também que a imagem da cobra levantada por Moisés no deserto, era objecto de cura (Números 21,8-9). O Evangelho de S. João 3,14 associa muito bem o corpo de Jesus cravado na Cruz com o corpo da cobra, nu como o dele, fixado num poste. De facto, a cobra, que se dissimula e esconde, é bem a imagem do pecado. Mas a exibição daquilo que está dissimulado retira-lhe a nocividade: é assim que se processa a cura. Mordidos pelo veneno da cobra, que é o nosso mau génio, violência e malvadez, levantando-a agora à altura dos olhos para a vermos bem, podemos reconhecer o mal que nos afecta, e iniciar então o processo da cura.

 

5. A Cruz, que é sabedoria de Deus (1 Coríntios 1,18-25), faz ver que a malvadez existe, e que é preciso vê-la, descobri-la, reconhecê-la, denunciá-la, para dela sermos curados. Mas a Cruz faz ver ainda – e é o segundo filme que passa na Cruz – que Deus nos ama com um amor tão radicalmente subversivo que oferece o perdão à nossa malvadez, quebrando assim a espiral da nossa violência, em que à violência apenas tínhamos para oferecer mais violência.

 

6. A Cruz é assim um «espectáculo» que converte. Na sua poderosa impotência, o Crucificado é a parábola que faz ver (verbo grego ideîn: não um ver exterior, mas ver por dentro, ver a «identidade») até onde a simples vista não alcança: faz-nos ver, por um lado, bem dentro de nós, a crueza da nossa violência e malvadez; por outro lado, faz-nos ver n’Ele, no Crucificado, em Deus, a força subversiva e nova do amor e do perdão.

 

7. O amor, como a Cruz, é subversivo, mas não impositivo. Não arromba portas. Bate à nossa porta, para que possamos abri-la por dentro. Abre o teu coração a uma Páscoa Feliz, meu irmão de Março!

 

António Couto

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2 respostas a O «ESPECTÁCULO» DA CRUZ

  1. Meu caro D. António Couto,
    obrigado por este seu ajudar(-me) a ver para além do que os olhos vêem.

    Uma abraço muito amigo e fraterno de um Padre que o acompanha orante e silenciosamente nesta loucura da cruz que desafia a “rasgar novos horizontes à missão”
    como sempre, no coração de Deus.

  2. João Manuel diz:

    Ai de mim “letrado”! Pois que até para quem não sabe “ler alfabeticamente”, basta a linguagem simbólica da sinalética que é adequada, expressiva e condensada.
    Mas como ando eu longe de interiorizar a força dos sinais que o Espírito me faz descodificar! E “então esta” de «Cristo crucificado é «Cristo exposto por escrito (proegráphê) diante dos (nossos) olhos (kat’ ophthalmoús)» (Gálatas 3,1)» !…Onde estão os meus olhos da fé?!
    O Espírito Santo que nos enforma seja o Mestre que me/nos ensine a ler esse escrito, essa mensagem que é Cristo na Cruz. Dá-nos, Senhor, essa luz para que os nossos olhos enxerguem e consigam ler o que faz também «para muitos dos nossos contemporâneos, aquela letra pareça quase ilegível».

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