DA PÁSCOA GLORIOSA À QUARESMA SANTA; DA QUARESMA SANTA À PÁSCOA GLORIOSA

I DOMINGO DA QUARESMA (Ano B) – 01.03.2009

 

Só secundariamente a Quaresma «prepara» para a Ressur­reição. Na verdade, todos os «Tempos» e todos os Domingos do Ano Litúrgico – portanto, também a Quaresma e os seus Domingos – estão depois da Ressurreição e por causa da Ressurreição. E é só sob a intensa luz do Senhor Ressusci­tado com o Espírito Santo (Baptismo consumado: Lucas 12,49‑50) que a Igreja – e cada um de nós – pode celebrar autenti­camente a sua fé, proceder à correcta «leitura» das Escri­turas e encetar a «caminhada» quaresmal. Neste sentido, todos os baptizados são chamados a refazer com Cristo bapti­zado o seu programa baptismal, cujo conteúdo e itinerário conhecemos: desde o Baptismo no Jordão, passando pela Trans­figuração/Confirmação no Tabor, até à Cruz e à Glória da Ressurreição (Baptismo consumado!), escutando e anunciando sempre e cada vez mais intensamente o Evangelho do Reino e fazendo sempre e cada vez mais intensamente as «obras» do Reino (Actos dos Apóstolos 10,37-38: texto emblemático). Por sua vez, os catecúmenos, acompanhados sempre pela Assembleia dos baptizados, «pre­param‑se» intensamente para a Noite Pascal Baptismal, início e meta da vida cristã.

 

1. EVANGELHO: Marcos 1,12‑15. Baptizado com o Espírito Santo (Marcos 1,9‑11), e declarado por Deus «o Filho Meu», «o Dilecto» (corrijam‑se todas as versões que, não tendo em conta o ar­tigo grego, diluem «o Dilecto» (ho agapêtós) – título preciso e precioso – num «predilecto» ou «amado» ou outras banalidades das traduções correntes), Jesus é impelido pelo Espírito Santo para o de­serto (Marcos 1,12), lugar teológico e não geográfico: não com muita areia, mas com muita água (João 3,23), cumprindo Isaías 35,6‑7; 41,18 e 43,19‑20, com árvores (canas) (Mateus 11,7; Lucas 7,24) e relva verde (Marcos 6,39), cumprindo Isaías 35,1 e 7 e 41,19, lugar longe do que é nosso, on­de se está «a céu aberto» com Deus, onde troará a voz do seu mensageiro (Isaías 40,3), de João Baptista (Mateus 3,l-12; Marcos l,4-8; Lucas 3,2-18), do próprio Messias segundo uma tradição judaica recolhida por Mateus 24,26. O deserto é o lugar onde já desponta a «obra» nova de Deus, a que nós somos convidados a prestar toda atenção para não nos passar despercebida (Isaías 43,19).

Como «Novo Israel», Jesus permanece neste deserto du­rante 40 dias (simbologia baptismal), em paz com os animais selvagens (notável cumprimento de diversos passos do AT, desde o domínio manso do homem sobre os animais (Génesis 1,26 e 28; 7,2-3 e 8-9; 9,10; Isaías 11,6-9; 65,25), até ao júbilo dos próprios animais muito bem expresso em Isaías 43,20: até os animais selvagens têm agora motivos para louvar a Deus!), e é tentado na sua condição de baptizado, isto é, de Filho de Deus. De facto, como muito bem explicitam Mateus e Lucas, a tentação – a de Cristo e a nossa – soa sempre «se és o Filho de Deus…», desde o Baptismo até à Morte (Mateus 4,3e 6; 27,40; Lucas 4,3 e 9; 23,35).

Baptizado, tentado na sua condição de baptizado, e Vitorioso na tentação, Jesus passa de imediato à execução do seu programa filial baptismal: anunciar o Evangelho de Deus (Marcos 1,14‑15) é a «primeira Caridade» para os ir­mãos.

 

2. ANTIGO TESTAMENTO: Génesis 9,8‑15. Após o drama do dilúvio, Deus fala a Noé e aos seus filhos (Génesis 9,8) – portanto, a toda a humanida­de –, anunciando que vai estabelecer a paz com todo o uni­verso criado (Génesis 9,9‑11), inclusive com os animais selva­gens (Gn 9,10): grandiosa abertura para o Evangelho (ver atrás). Sinal desta nova era de paz: Deus depõe o seu arco­-de-guerra (arco-íris) nas nuvens (Génesis 9,12‑17). O Desígnio de Deus anunciado será inexoravelmente cumprido. A paz para todos e para sempre, inaugurada em Cristo e sempre presente no seu programa filial baptismal, tem de estar igualmente presente no programa filial baptismal de cada baptizado.

 

3. APÓSTOLO: 1 Pedro 3,18‑22. «Na fé todos estes morreram, sem terem obtido a realização da promessa; mas viram‑na e acenaram-lhe de longe» (Hebreus 11,13). Belíssimo cenário de espe­rança! Todo o Antigo Testamento acena para Cristo, sua esperança. E como Deus não desilude, Cristo acena agora a todo o Antigo Testamento, levan­do a salvação de Deus a todos os homens e a todos os luga­res, iluminando também a até então impenetrável região da morte (1 Pedro 3,18‑20). O Apóstolo dá testemunho da força do Evangelho e da Ressurreição de Cristo que nos constitui em «nova criação» pelo Baptismo (1 Pedro 3,21‑22).

 

 

II DOMINGO DA QUARESMA (Ano B) – 08.03.2009

 

Baptizado com o Espírito Santo, chamado pelo Pai «o Filho meu», «o Dilecto», tentado na sua condição filial baptismal, mas Vitorioso, Jesus deu início à execução do seu programa filial baptismal, anunciando o Evangelho do Reino de Deus e fazendo as suas «obras» (ver I Domingo).

Por Ele baptizados com o Espírito Santo e com o fogo (Mt 3,11; Mc 1,8; Lc 3,16; Jo 1,33), somos discípulos d’Ele, seguimo‑lo passo a passo, o seu programa filial baptismal é também o nosso programa filial baptismal.

 

1. EVANGELHO: Marcos 9,2‑10. Baptizado no Jordão, tentado, Vtorio­so, Jesus começou a executar o seu programa filial baptis­mal que tem por meta a Cruz Gloriosa (Baptismo consumado!) em que nós somos por Ele baptizados com o fogo e com o Espírito Santo (ainda Lc 12,49‑50). Entre o Jordão e a Cruz Gloriosa aí está Hoje a Transfiguração – Luz incriada e inacessível (Mt 17,2; Mc 9,3; cf. Sl 104,2; 1 Tm 6,16) que investe a Humanidade de Jesus: experiência momentânea da Ressurreição –, mediante a qual o Pai confirma o Filho na sua mis­são filial baptismal, já iniciada, mas ainda não consumada. Baptizado para a Cruz Gloriosa, Confirmado para a Cruz Gloriosa. As mesmas palavras do Pai no Baptismo e na Transfiguração/Confirmação: «o Filho meu», «o Dilecto» (Mt 3,17; 17,5; Mc 1,11; 9,7), agora seguidas pelo imperativo «Escutai‑o!», dirigido a todos os discípulos: Jesus é também o «Profeta novo», como Moisés, prometido em Dt 18,15‑18. Testemunham a cena grandio­sa da Transfiguração/Confirmacão três discípulos – como dispunha a Lei antiga: duas ou três testemunhas (Dt 17,6) –, os quais são assim igualmente confirmados para a sua missão futura de dar testemunho d’Ele. Aparecem Moisés e Elias que falam com Jesus Transfigurado/Ressuscitado: é para Ele que aponta todo o Antigo Testamento! As «Escrituras», Moisés, todos os profe­tas e os Salmos falam acerca d’Ele (Lc 24,27 e 44; Jo 5,39 e 46; Act 10,43). É o «segundo as Escrituras» que os discípulos também devem testemunhar. Pedro, sempre ele, em nome dos discípulos de então e de sempre, tenta impedir Jesus de prosseguir a sua missão filial baptismal até à Cruz: «Façamos aqui três tendas…, mas não sabia o que dizia» (Mc 9,5‑6). Não sabia, porque ainda não tinha sido baptizado com o Espírito Santo e com o fogo; quando o for, saberá também ele, discípulo fiel, baptizado‑confirmado, levar por diante a missão fili­al baptismal em que foi investido, e dará testemunho até ao sangue.

A Ressurreição é a Transfiguração tornada permanente, eterna. Todos os baptizados-confirmados estão destinados à mesma Ressurreição-Transfiguração do Senhor, a divinização.

 

2. ANTIGO TESTAMENTO: Génesis 22,1‑2.9a.10‑13.15‑18. Recebemos tudo de Deus, damos tudo a Deus, e de novo recebemos tudo de Deus. Eis em que consiste o nosso conhecimento filial baptismal e a nossa missão filial baptismal. «Abraão, toma o filho teu, o teu único, esse que tu amas, Isaac» (Gn 22,2). Tinha‑o recebido de Deus, era tudo o que tinha, o seu próprio fu­turo e o futuro da Humanidade, o filho da Promessa e o her­deiro da Promessa. Esta é a mais patética e a mais abissal de todas as histórias patriarcais. A mais divina, portanto. «O Filho Meu, o Dilecto, nele o meu Enlevo» (ver Evangelho), «o Filho do amor do Pai» (Cl 1,13), a «Vítima» humilde e dócil (Act 8,32‑33; Hb 9,14), o «Herdeiro» universal (Mt 21,38; Hb 1,2‑4), o Filho de Abraão (Mt 1,1), o Isaac úl­timo.

 

APÓSTOLO: Romanos 8,31b‑34. «Deus entregou o seu Filho por nós» (Rm 8,32). Eis o Desígnio (Mistério) de Deus anunciado no AT, realizado em Cristo, baptizado para a Morte, confirmado para a Morte, entregue por Deus à Morte. Nesta Morte Gloriosa fomos nós baptizados e confirmados com o Espírito Santo e com o fogo, e foi‑nos dado a conhecer esse Desígnio (Mistério conhecido!) (Rm 16,25‑26; 1 Cor 2,7‑l0; Ef 3,3‑11; Cl 1,26‑27). Desígnio (Mistério) de Deus anunciado, realizado, e dado a conhecer. A nossa missão filial baptismal é proclamá‑lo e testemunhá‑lo como o Apóstolo o proclama e testemunha.

 

 

III DOMINGO DA QUARESMA (Ano B) – 15.03.2009

 

No programa de «preparação» para a Noite Pascal Baptis­mal, início e meta da vida cristã, o III Domingo da Quaresma está marcado pelos primeiros «escrutínios» para os catecúme­nos: primeira «chamada» para a liberdade.

 

1. EVANGELHO: João 2,13-25. Cumprindo as «Escrituras» (sobretu­do Zc 14,21 e Ml 3,1‑4), Jesus, baptizado com o Espírito Santo – o Fogo procedente do Fogo –, purifica o Templo e o culto. Purificação radical. Na verdade, escorraçando os vendilhões juntamente com as vítimas destinadas aos sacri­fícios (bois, ovelhas, pombas) e derrubando as mesas onde se procedia ao câmbio do meio‑sheqel para o pagamento do imposto anual (per capita) para os serviços do Templo, Je­sus mina os próprios fundamentos daquele Templo e do seu culto. Jesus, porém, não se limita a esta acção de «limpe­za». Anuncia um Templo novo, levantado (egéirô: verbo té­cnico da Ressurreição) em três dias (nova alusão à Ressur­reição). O comentário do Evangelista é preciso e precioso: «Ele falava do Templo do seu corpo» (Jo 2,21). Precisão e preciosidade que se tornam ainda mais evidentes se tiver­mos em conta que a expressão «do seu corpo» constitui um genitivo epexegético, pelo que, numa boa tradução, terá de ser realça­do que «Ele falava do Templo que é o seu corpo». Neste Tem­plo novo, um culto novo: «no Espírito e na Verdade» (Jo 4,23); entenda‑se: no Espírito Santo e em Jesus, baptiza­do/confirmado/ressuscitado com o Espírito Santo, que é a Verdade (Jo 14,6). Saliente‑se que, em regime cristão, to­do o culto se dirige ao Pai, mediante o Filho‑Verdade, no Espírito Santo. E, no Pai, adoramos a Trindade santa e indi­visível do Pai e do Filho e do Espírito Santo, o Deus Único. À luz da Ressurreição, a partir da Ressurreição, depois da Ressurreição e por causa da Ressurreição, os discípulos de ontem, de hoje, e de sempre fazem anamnese da vida históri­ca de Jesus, nomeadamente deste episódio do Templo antigo destruído e do Templo novo levantado pela Ressurreição, e acreditam na Escritura e na Palavra de Jesus (Jo 2,22). E, por isso, são felizes e rejubilam com uma alegria inefável (Lc 1,45; Jo 20,29; 1 Pe 1,8). A alegria nova da Ressurreição (Mt 28,8‑9; Lc 24,41; Jo 20,20) que enche o Templo novo em que a Assembleia dos baptizados/confirmados/chamados exerce o culto novo «no Espírito e na Verdade». Assembleia de filhos e de irmãos, ou não fosse o Templo chamado por Jesus «a Casa do meu Pai». Então, se é «a Casa do meu Pai», é suposto que nela se encontrem filhos e irmãos. Na verdade, muitas vezes somos vendedores, cambistas e banqueiros! Aí está uma das mais intensas mudanças que a novidade de Jesus deve operar em nós.

 

2. ANTIGO TESTAMENTO: Êxodo 20,1-17. «E falou Deus todas estas palavras dizen­do» (Ex 20,1). Estas palavras constituem o Decálogo, um con­junto de leis que cobrem todo o âmbito da acção moral. Saí­das directamente da boca de Deus, estas palavras constituem o alimento de que deve nutrir‑se o Povo santo de Deus do Antigo Testamento (Dt 8,3), mas também o Povo santo dos baptizados (Mt 4,4) que, à luz da Ressurreição, faz anamnese da vida his­tórica de Jesus e acredita na Palavra da Escritura (= Antigo Testamento) e do Evangelho. Palavra que há que guardar sábia e amorosa­mente, pois ela é a nossa vida (Dt 32,47).

 

3. APÓSTOLO: 1 Coríntios 1,22-25. Enquanto os judeus pedem sinais (Jo 2,18;1 Cor 1,22) e os gregos procuram a sabedoria des­te mundo (1 Cor 1,22), os baptizados/confirmados/chamados continuam de olhos postos no único sinal da Cruz Gloriosa, sem dúvida a mais bela página que Deus escreveu na história dos homens, embora a letra seja ainda ilegível para muita gente!

 

 

IV DOMINGO DA QUARESMA (Ano B) – 22.03.2009

 

Com o olhar cada vez mais fixo na Cruz Gloriosa, em que foi entronizada a Luz que dá a Vida verdadeira, Bapti­zados e catecúmenos continuam a sua «caminhada» quaresmal: memória do baptismo (= execução do programa filial baptis­mal) para os baptizados, preparação para o baptismo por parte dos catecúmenos (SC 109), que têm neste IV Domingo da Quaresma os seus segundos «escrutínios»: segunda «cha­mada» para a Liberdade.

 

1. EVANGELHO: João 3,14-21. O «Filho do Homem» deve (deî) – o que pressupõe o Desígnio/Mistério/Plano divino – ser levantado (= crucificado/exaltado/glorificado) como o verda­deiro «Servo do Senhor» (Is 52,13), logo identificado com Cristo Jesus (Fl 2,9), o Filho Unigénito de Deus, «a Luz que veio ao mundo» (Jo 3,19; 12,46) para dar a Vida ao mun­do (Jo 1,4; 3,15‑16). Veio (elêluthen) ao mundo e permanece acesa no mundo, como indica o perfeito usado no texto grego. Marcos recorre à crueza da linguagem para nos fazer compreender melhor o Mistério desta Luz-que-vem: «Vem a Luz (!) para ser colocada debaixo do alqueire ou debaixo da cama? Não, antes, para ser colo­cada sobre o candelabro? Na verdade, nada está escondido que não seja para se manifestar» (Mc 4,21‑22). Tendo vindo na humildade da condição humana, esta Luz foi entronizada na Cruz onde arde para sempre: suprema manifestação do infinito, insondável, impenetrável, incompreensível, indi­zível amor de Deus: «Deus amou (êgápêsen: aoristo históri­co!) tanto o mundo»! (Jo 3,16). Assim manifestada na Cruz Gloriosa, esta Luz dá a Vida verdadeira a quem para ela olhar como a serpente no deserto (Nm 21,8‑9). «Hão‑de olhar para aquele que trespassaram» (Jo 19,37). «Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim» (Jo 12,32). «Quando tiverdes levantado o Filho do Homem, então sabereis que Eu Sou» (título divino) (Jo 8,28).

Para ter a Vida verdadeira, é necessario ver (= acre­ditar) o Filho (Jo 3,36; 6,40), Luz da Luz, que brilha sobre a Cruz, novo e último candelabro do amor de Deus (Act 2,36). Ver o Filho é obra do Espírito Santo em nós (1 Cor 12,3). Para O ver é necessário ter nascido da água e do Espírito (Jo 3,5), claríssima alusão ao baptismo, a grande iluminação que abre os nossos olhos para o divi­no (Hb 6,4‑5: texto espantoso!) e nos faz «filhos da luz», operadores das «obras da luz», que não têm parte com as «obras das trevas» (Ef 5,8‑14).

Ver o Filho do Homem levantado na Cruz é ver passar dois filmes: 1) o da nossa violência e malvadez, postas a descoberto naquele rosto desfigurado, naqueles chagas, naquele sangue: está ali, bem diante de nós, a imagem do pecado que está em nós; 2) ali passa também o filme do imenso amor de Deus, que não faz frente à minha violência, mas a abraça, única maneira de a dissolver. A cura não é mágica. Exibida a cobra que há em nós, conhecemos agora a doença de que padecemos. Podemos, portanto, começar a tratar-nos. E o remédio também está ali posto bem diante dos nossos olhos.

 

2. ANTIGO TESTAMENTO: 2 Crónicas 36,14-16.19-23. Grande «teologia da história»: abandonando a Palavra de Deus, que é a nossa luz (Sl 118, 105) e a nossa vida (Dt 32,47), caímos inevitavelmente nas trevas e na morte de um «exílio» qualquer. Porém, o caminho é reversível: aproximando‑nos de Deus e da sua Palavra, podemos recuperar de novo a luz e a vida.

 

3. APÓSTOLO: Efésios 2,4-10. Da morte para a vida em Cristo Je­sus: movimento baptismal (da morte para a vida) e fórmula baptismal («em Cristo Jesus»). Nisto se manifestou «o gran­de amor com que Deus nos amou» (êgápêsen: de novo o inaudi­to aoristo histórico!) (Ef 2,4). Mas há muito mais «coisas» inauditas de que Paulo tem de se socorrer, inovando até o vocabulário grego (!), num esforço supremo para tentar tra­duzir este indizível «grande amor» de Deus: com Cristo nos com‑vivificou (Ef 2,5), nos com‑ressuscitou e nos com­‑sentou nos Céus (Ef 2,6). Tudo aoristos históricos!!! Com­preenda‑se, portanto, o incompreensível: tudo isto nos aconteceu! Somos, de facto, obra de Deus! (Ef 2,10). Demos Graças a Deus!

 

 

V DOMINGO DA QUARESMA (Ano B) – 29.03.2009

 

A «caminhada» quaresmal aproxima‑se da sua meta e do seu verdadeiro ponto de partida: a Cruz Gloriosa, onde resplandece para sempre o Rosto do imenso, indizível amor de Deus por nós. Nesta altura do percurso (supõe‑se que encetámos uma subida «espiritual»: entenda‑se no Espírito Santo e com o Espírito Santo), baptizados e catecúmenos devem estar já a ser Iluminados por essa Luz, a ponto de se desfazerem das «obras das trevas» e de abraçarem as «obras da luz», como verdadeiros discípulos que seguem o Mestre até ao fim, que é também o princípio, a Fonte da Vida verdadeira donde jorra o Espírito Santo (sempre Act 2,32-33; Jo 19,30 e 34; 7,38-39). Os catecúmenos têm neste V Domingo da Quaresma os seus terceiros «escru­tínios»: última «chamada» para a Liberdade antes da Noite Pascal Baptismal.

 

1. EVANGELHO: João 12,20-33. Trata‑se do último discurso e da última aparição de Jesus em público, aos olhos da «multi­dão» (Jo 12,29 e 34). Pouco depois, o evangelista diz‑nos que «Jesus se retirou e se escondeu deles» (Jo 12,36). A nós, porém, foi‑nos dado conhecer o Mistério deste escondimento, que o não é senão para se vir a manifestar (leia­‑se de novo inteligentemente o lógion de Jesus no Evange­lho de Marcos: «nada está escondido que não seja para se rnanifestar» (Mc 4,22), e que esclarece o Mistério da Luz-que-vem (!), que é Ele, no versículo anterior). Em boa verdade, este Jesus que agora se esconde da multidão manifestar-se-á definitivamente, aos olhos de todos (também aos nossos!), na Cruz Gloriosa, último e único sinal dado (por Deus) a esta geração (Mt 12,39‑40; 1 Cor 1,20‑24): «olharão para aquele que trespassaram» (Jo 19,37).

É neste contexto que «uns gregos» querem «ver Jesus». Comunicam este seu desejo a Filipe, o qual, por sua vez, o comunica a André. Filipe e André são conterrâneos, naturais de Betsaida Julia (Jo 1,44), e são os dois únicos Apóstolos com nome claramente grego. Os dois levam a mensagem a Je­sus. E Jesus marca a hora da entrevista: desde agora e pa­ra sempre. É este o sentido do a hora veio (Jo 12,23). Veio (elêluthen) e fica para sempre: assim o indica o perfeito usado no texto grego. Esta hora que veio é a hora da morte/ressurreição (um único acontecimento), é a hora da Cruz Gloriosa, último e único sinal dado (por Deus) a «judeus» e a «gregos», portanto, a todos. A entrevista começou e não termina mais, pois o futuro anunciado do discípulo é o presente do Mestre, a Glória celestial em que está: «onde eu estou (eimí), aí estará (éstai) também o meu servo» (Jo 12,26).

 

2. ANTIGO TESTAMENTO: Jeremias 31,31-34. A «aliança nova», prometida para os últimos tempos, e realizada «neste Jesus» que «Deus ressus­citou», o qual «recebeu do Pai o Espírito Santo prometido e o derramou» (Act 2,32‑33). «Este Jesus» é, portanto, a úni­ca Fonte do Espírito Santo, a Vida nova de Deus nos nossos corações (Rm 2,29; 5,5; 7,6; 8,14‑27; 2 Cor 3,6; Gl 3,14; 4,6; Ef 1,13…), com o dom do Jubileu divino do perdão dos pe­cados (Jo 20,19‑23). Deus «peca» sempre por excesso: é anu­lada até a «memória divina dos pecados»!

 

3. APÓSTOLO: Hebreus 5,7-9. Um dos passos mais densos do Novo Testamento. O próprio Cristo, sendo embora o Filho de Deus, Deus ele mes­mo, enquanto Homem verdadeiro, treme perante a Morte. Porém, no momento central da sua vida (central para ele e para nós), ele aceita a morte, submetendo a sua vontade humana à sua – e do Pai e do Espírito Santo – Vontade divina (conferir a Oração do Getsémani e do «Pai Nosso»). On­de toda a Humanidade, desde Adam, fracassou, ele venceu, ofe­recendo a Deus incondicionalmente a sua 1iberdade. Por isso, o Pai pode levá‑lo à perfeição, verbo teleióô, que não in­dica perfeição moral (!), mas «ser feito sacerdote, perfei­to no serviço sacerdotal», por nossa causa. Perante tanta e quase insuportável riqueza, não nos resta senão cair de joe­lhos e adorar em silêncio «no Espírito e na Verdade».

 

 

DOMINGO DE RAMOS NA PAIXÃO DO SENHOR (Ano B) – 05.04.2009

 

Baptizado com o Espírito Santo no Jordão, confirmado com o Espírito Santo no Tabor, Jesus realizou a sua missão filial baptismal anunciando o Evangelho do Reino de Deus e fazendo as suas «obras». A sua «viagem» chega agora ao fim, em Jerusalém, onde o seu Baptismo deve ser consumado (ainda Lc 12,49‑50) na sua Morte Gloriosa: única Fonte do Espírito para nós (sempre Act 2,32-33; Jo 19,30 e 34; 7,38-39). Fomos, de facto, baptizados na sua Morte (Rm 6,3), e, com Ele, fomos «com‑sepultados», «com‑ressuscitados», «com‑vivificados» e «com‑sentados» na G1ória! (Ef 2,5‑6; Cl 2,12‑13: tudo ver­bos cunhados por Paulo e postos em aoristo histórico!). For­mamos, por isso, «a Igreja que Ele amou» (Ef 2,25). A este amor de Cristo pela Igreja chama Paulo «o mistério grande» (Ef 5,32). Nós, a Igreja do amor de Cristo, somos, portan­to, a esposa bela, a nova Jerusalém (Ap 19,7‑9; 21,2.9s) que, juntamente com o Espírito, diz ao Senhor Jesus: Vem! (Ap 22,17).

 

1. EVANGELHO: Marcos 11,1-10. O Rei messiânico toma posse da sua Cidade, a «Cidade do Grande Rei» (Sl 45,5; 47,2‑3; Tb 13,11; Mt 5,35), a Esposa bela que nascerá do seu Sangue: Esposa cúmplice da Morte do Esposo, e beneficiária da Morte do Es­poso.

O Rei messiânico toma posse da sua Cidade, a Filha de Sião, a Esposa; vem montado sobre o jumento da paz, e não sobre cavalos de guerra, cumprindo Zc 9,9. Estendem‑se as capas no caminho: assim se procedia quando o rei subia ao trono (2 Rs 9,13). A multidão canta «Hossana» (= salva, por favor!) (Sl 117,25), saudando o Rei‑que‑vem, «Aquele‑que‑vem» (título divino) (Sl 117,26), com o Reino de David, o novo Da­vid.

 

1. EVANGELHO: Marcos 14,1-15,47. O imenso e impressionante texto da Paixão, mediante a qual o Rei dócil e obediente purifica, san­tifica e apresenta a si mesmo a sua Igreja, tornando-a santa e irrepreensível, sem mancha nem ruga, a Esposa bela (Ef 5,26-27). Nestes momentos decisivos, a Esposa fiel deve seguir o Esposo passo a passo: a unção para a sepultura em Betânia, a Ceia Primeira (e não última!), o abismo do Getsémani, a prisão: todos o abandonam (Mc 14,50); Jesus fica sozinho, verdadeiro «Resto de Israel», os processos e a condenação (Jesus afirma‑se como «o Bendito», «o Filho de Deus», «o Messias», «o Rei»), a en­trega à morte de cruz por Pilatos (Mc 15,15), mas, na verda­de, por Deus (1 Cor 11,23: paredídeto: passivo divino!), a coroa de espinhos, a Cruz santa e gloriosa, as três tentações por parte dos que passavam, dos sacerdotes, dos demais cruci­ficados: «salva‑te a ti mesmo», «desce da cruz» (Mc 15,29‑32), a oração do Sl 21 (todo): começa «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?», e termina «esta é a obra do Senhor»!, a ago­nia e a Morte precedida do grande grito (Mc 15,33.37), que indica a Vitória de Deus, a sepultura… Proclamação da máxima Obra de Deus no mundo, a indizível Economia divina na vida terrena do Filho de Deus! A proclamação deve seguir‑se com a conversão do coração, e, sobretudo, com o louvor no coração.

 

2. ANTIGO TESTAMENTO: Isaías 50,4-7. O terceiro «canto do Servo do Senhor». Gerado na dor de Israel como verdadeiro filho do milagre (Is 49,21), ergue‑se uma singular figura de «servo» (ebed), totalmente nas mãos de Deus – desde a sua predestinação desde o seio mater­no (Is 49,1.5), passando pela sua entrega à morte (Is 53,12), até à sua exaltação e glorificação (Is 52,13) –, de tal modo que Deus o pode chamar «’meu servo» (abdî). O Novo Testamento passa por aqui!

 

3. APÓSTOLO: Filipenses 2,6-11. Em claro paralelismo com o Servo do Senhor, de Isaías. Mas aqui tem um Rosto e um Nome: Jesus re­cebeu, na sua Humanidade, o Nome divino (ver também Hb 1,1‑4), Nome incomparável (Fl 2,9). Por isso, agora, todos os seres criados adoram o Nome-Jesus (Fl 2,10), e «toda a língua», isto é, todo o homem racional, professa: «Senhor é Jesus Cris­to»! Notar a ordem dos três termos, errada nas versões moder­nas: Senhor, isto é, Deus Eterno, é o Homem-Jesus Cristo. O acento cai, pois, sobre Senhor. O fim em vista: a Glória do Pai com o Espírito (Fl 2,11). É quanto Deus operou na Cruz.

 

 

O DIA DA RESSURREIÇÃO (Ano B) – 12.04.2009

 

«Esta é a Obra do Senhor»!: assim gritava com «voz forte» (grito de Vitória e de Revelação) Jesus na Cruz, deci­frando a Cruz, recitando o Salmo 21 todo (entenda‑se a meto­nímia de Mt 27,46 e Mc 15,34, citando apenas o início). Par­ticularmente ao longo da Semana Santa, dita «Grande» ou «dos Mistérios» pela Igreja do Oriente, Deus expôs (proétheto) diante dos nossos olhos atónitos – e logo a partir do Domingo de Ramos – o Rei Vitorioso no seu Trono de Graça e de Glória, que é a Cruz (veja‑se aqui demoradamente Rm 3,24‑25), tomando posse da sua Igreja‑Esposa para o efeito redimida na «água e no sangue» (Jo 19,34; Ef 5,25‑27), isto é, no Espírito Santo, conforme ensina Jesus com «voz forte» (!) no grande texto de Jo 7,37-39. Para aqui também apontava a «caminhada» quaresmal, a qual – vê‑se agora claramente – só daqui podia afinal ter partido. É este «o Mistério Grande» (Ef 5,32) que nos foi dado a conhecer por Deus (Rm 16,25‑26; 1 Cor 2,7‑10; Ef 3,3‑11; Cl 1,26‑27). E só Deus pode dar tanto a conhecer (veja‑se agora o texto espantoso de Ef 3,14‑21). É quanto Deus operou na Cruz! Por isso, exultamos e nos alegramos (com a Chará: alegria pascal), pois «este é o Dia que o Senhor fez» (Sl 117,24) e em que o Senhor nos fez! É o «Primeiro Dia» (Mt 28,1; Mc 16,2.9; Lc 24,1; Jo 20,1.19; Act 20,7; 1 Cor 16,2), e tal permanecerá para sempre (!), o «Dia do Senhor» (Ap l,10), o Domingo, todos os Domingos, o Ano Litúrgico todo, o Ano da Graça do Senhor, em que a Igreja‑Esposa, redi­mida, santificada, bela (apresentada no Apocalipse com voz forte), celebra jubilosamente o seu Senhor, à volta do al­tar, do ambão, do baptistério: tudo «sinais» do túmulo aberto (mas não vazio!) do Senhor Ressuscitado, donde emerge continuamente a mensagem da Ressurreição. Aleluia!

 

 

1. EVANGELHO: João 20,1-9. Anote‑se a progressão: 1) Maria Madale­na a pedra retirada; 2) o outro discípulo, «o discípulo amado» as faixas de linho no chão; 3) Pedro as faixas de linho no chão e o sudário que cobrira o Rosto de Jesus, à parte, dobrado cuidadosamente, como «sinal»: o Ressuscitado fê‑lo, e com calma, cuidadosamente, segundo o seu Desígnio; com esta indica­ção preciosa de que o véu foi retirado do seu Rosto, a Revelação convida agora a contemplar o Rosto divino no Rosto humano do Ressuscitado: vendo‑o a Ele, vê‑se o Pai (cf. Jo 14, 9); 4) «o discípulo amado» entrou e viu e acreditou (v. 8), verdadeiro clímax do relato: anote‑se a passagem do presente para o aoristo: «o discípulo amado» viu tudo: toda a Economia divina realizada. Os outros esperam para ver, por assim dizer, «o corpo ressuscitado», o que acontecerá na tarde desse Dia, mas depois do anúncio «segundo as Escrituras» (cf. 1 Cor 15,1‑8) feito pela Madalena (vv. 17‑18). A Ressurreição do Senhor, Acontecimento-Omega, remete, portanto, sempre para «as Escri­turas» (= Antigo Testamento), o Acontecimento-Alfa, com o qual forma a única manifestação completa do Desígnio do amor divino para todos os homens. Também Hoje: nem faixas nem sudário, mas as Escrituras conhecidas e amadas remetem para o Senhor. O seu Rosto permanece descoberto!

 

2. ACTOS DOS APÓSTOLOS: Actos 10,34a.37-43. Os Apóstolos dão testemunho do que viram. Foi‑lhes dado ver exactamente para dar teste­munho. Viram e testemunham o seu Baptismo, a execução da sua missão filial baptismal, a sua Morte na Cruz, a sua Ressurrei­ção Gloriosa, a sua Vinda Gloriosa. Mas os Apóstolos insistem que também os Profetas (= Antigo Testamento) dão testemunho d’Ele Ressuscitado, no qual se cumpre para nós a «remissão dos pecados», o Jubileu divino do Espírito Santo (v. 43). A base profética é imponente: Jr 31,34; Is 33,24; 53,5‑6; 61,1; Ez 34,16; Dn 9,24; cf. depois Jo 20,19‑23. «As Escrituras» apontam para o Ressuscitado; o Ressuscitado remete para «as Escrituras».

 

3. APÓSTOLO: Colossenses 3,1-4. O Capítulo III da Carta aos Colossenses trata a «vida nova» em Cristo, que é vida baptismal, operada pelo Espírito Santo que faz morrer e renascer na Fonte da Graça. Por isso, adverte solenemente Paulo: «procurai as coi­sas do alto» (v. l), «pensai as coisas do alto» (v. 2), exorta­ção que se ouve no Diálogo que antecede o Prefácio: «Corações ao alto!»; «o nosso coração está em Deus»!

 

António Couto

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