AS «PASSAGENS» DA PÁSCOA


 

1. As mais antigas raízes da festa da Páscoa [= «passagem»] remontam certamente aos antigos pastores semi-nómadas do Próximo Oriente Antigo, que se deslocavam, com os seus rebanhos, ao longo de uma estreita faixa de terra, situada entre as terras cultivadas e o deserto. Não entravam nas terras cultivadas: se o fizessem iriam arranjar problemas com as populações sedentárias; não entravam no deserto: se o fizessem, o gado miúdo sucumbiria rapidamente.

 

2. A festa da Páscoa teria a ver inicialmente com os ritos apotropaicos [de apo-trépô = afastar de, conjurar] levados a cabo por estes pastores semi-nómadas, ritos que seriam em tudo análogos aos sacrifícios realizados entre os beduínos árabes pré-islâmicos, no decurso da primeira noite de lua-cheia (antigo shabbat ou sábado) da Primavera [= primeiro Verão], mês de Radjab ou de Abib ou de Nisân, antes da transumância estival, e que se destinavam a afastar as doenças dos rebanhos, sobretudo as que podiam afectar as crias jovens, particularmente nesta época de transumância, e, portanto, de «passagem».

 

3. Tratava-se de uma festa nocturna, realizada à luz da lua. É a lua, de resto, que comanda o suceder dos dias no Próximo Oriente, onde o dia começa, não com o nascer do sol, mas com o nascer da lua. A escolha para uma noite de festa recai, portanto, naturalmente na noite de lua-cheia, por causa do luar. De resto, o intenso calor no limiar do deserto não permitia que tais ritos festivos se realizassem durante o dia. Nessa época de «passagem» para a Primavera e para novas pastagens, era costume imolar um animal do rebanho, provavelmente um cabrito desleitado, de um ano de idade, «filho de um ano». Só mais tarde se fala em imolar um cordeiro. Nos sacrifícios da Primavera dos árabes antigos, o cabrito é referido mais vezes do que o cordeiro. É também o cabrito desleitado, «filho de um ano», que é mencionado no texto ritual antigo do Livro do Êxodo 34,26. A carne do animal imolado era comida juntamente om o bolo folhado de pão não-levedado, próprio dos pastores semi-nómadas, que o assavam sobre as pedras escaldadas pelo sol, condimentando-o com ervas do deserto. O pão ázimo cozido no forno e comido com ervas amargas tiradas da horta representa a fase sedentária, e, portanto, posterior, dos ázimos.

 

4. A antiga descrição da Páscoa no Egipto, referida em Êxodo 12,21-23, recolhe as antigas tradições atrás referidas acerca dos sacrifícios apotropaicos dos pastores semi-nómadas efectuados na primeira noite de lua-cheia da Primavera para afastar os golpes do «exterminador» (Êxodo 12,23), e sedentariza-as. Fala-se, portanto, de casas (Êxodo 12,22.23), e não de tendas. E localiza-as no Egipto. Continua a privilegiar a noite e a lua-cheia, como vinha da antiga tradição semi-nómada. Situa, por isso, a festa da Páscoa na noite do décimo quinto dia (Êxodo 12,6-8) do mês de Abib ou de Nisân, primeiro mês do ano (Êxodo 12,2), que começava com a Primavera. Mas aqui já não se trata de transumância com a «passagem» do gado para novas pastagens, nem tão-pouco da «passagem» para o tempo primaveril, mas da «passagem» do povo de Israel da escravidão para a liberdade.

 

5. A Páscoa de Cristo retoma tudo o que vem de trás: o cordeiro, o pão ázimo, as ervas amargas, o carácter nocturno (patente ainda hoje na Ceia Pascal hebraica e na Vigília Pascal cristã), a lua-cheia (a Páscoa é uma festa móvel, porque acompanha, ano após ano, a primeira lua-cheia da Primavera). Mantém-se também o sentido de «passagem», ainda que cada vez mais alargado e aprofundado: passagem tranquila para novas pastagens, passagem para um tempo novo, passagem da escravidão para a liberdade, passagem da morte para a vida verdadeira, que é o verdadeiro sentido da Páscoa de Cristo, que se apresenta a si mesmo como o passageiro deste mundo para o Pai (João 13,1). «Passa bem», meu irmão da Páscoa.

 

António Couto

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