1. Toda a palavra,/ o dizer inteiro,/ é som e ritmo./ Como o coração,/ a respiração,/ a pulsação,/ a lalação,/ a aleitação./ Vida recebida,/ amada,/ mimada,/ acariciada./ Nunca enlatada./ Eu penso, logo existo,/ é o moderno disparate de Descartes,/ que pensava que se punha no ser pelo seu pensamento./ Notoriamente Descartes esqueceu a sua mãe./ Dono de si,/ senhor de si,/ é o homem deste tempo enlatado,/ habitado pelo ritmo metálico da marcha militar,/ fúnebre,/ fatal,/ mortal,/ com morte, mas sem nascimento,/ sem coração,/ sem embalação,/ sem lalação.
2. Como escreveste isto?[1],/ perguntam os senhores,/ os donos,/ de ontem e de hoje./ Eu?,/ com tinta[2],/ responde o servo,/ e só o servo sabe dizer tanto./ A palavra não é minha,/ vem de fora./ Palavra criadora,/ não faz vibrar o ar,/ o mar,/ não lhe captamos o som,/ só lhe captamos o sentido.
3. Som que nunca se ouviu,/ silêncio que nunca se calou./ As palavras que alinhamos,/ que embalamos,/ que aleitamos,/ uma a uma,/ cada uma depois de outra, antes de outra,/ ocupam o seu lugar, pequeno e frágil,/ certificado de que não mancharam as mãos com a totalidade./ Mas são sentinelas do sentido,/ coração,/ respiração,/ pulsação,/ pontes para outras fontes,/ que não as do consumo ou do fumo…
4. Com tinta,/ diz o servo./ Aí está a página,/ o vinco na página,/ a pulsação,/ a lalação,/ de mão para mão,/ de coração a coração.
António Couto
[1] Evocação de Jeremias 36,17. A pergunta é feita a Baruc, servo de Jeremias, pelos senhores da corte de Jerusalém.
[2] Evocação de Jeremias 36,18. Resposta de Baruc à pergunta dos senhores.
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