A RESPOSTA ESTÁ NAS TUAS MÃOS E NO TEU CORAÇÃO!

Abril 25, 2009

 

1. Ontem uma criança morreu em Auschwitz. Ontem uma criança morreu em Gaza ou em Timor. Um judeu não é pior do que um alemão, nem um alemão melhor do que um judeu. Um timorense não é pior do que um indonésio, nem um indonésio melhor do que um timorense. Nem tu nem eu somos melhores ou piores do que eles. Simplesmente, meu irmão de Abril, guarda na memória – e não esqueças nunca mais – que ontem uma criança morreu em Auschwitz, que ontem uma criança morreu em Gaza ou em Timor.

 

2. A cultura ocidental é conceptual e lógica, expressa-se em conceitos, e, como bem viu Hegel, o conceito ocupa-se apenas do geral, e não do concreto e temporal. O concreto e temporal são apanágio de uma cultura dita anamnética ou da memória, que é preciso urgentemente cultivar. A consciência conceptual sabe que existe a fome, como existe o sofrimento e a morte em geral. Mas nada se preocupa com isso. Existem, sempre existiram e existirão. São o preço da história. A consciência anamnética vê e preocupa-se com aquele homem concreto que tem fome agora, que sofre agora e que está a morrer agora em Auschwitz, na faixa de Gaza, nas montanhas de Timor, ou à tua porta; que tem os olhos cravados em ti e as mão estendidas para ti. Não, Auschwitz, Gaza e Timor não foram meros deslizes da consciência ocidental, mas suas consequências lógicas.

 

3. Uma cultura da memória registra, emociona-se e é interpelada por cada grito concreto que se ouve, por cada lágrima concreta que se chora, por cada mão estendida que procura a nossa mão. Numa cultura da memória, os gritos das vítimas continuam presentes e interpelantes, enquanto que, numa cultura conceptual, as vítimas são apenas o preço da história.

 

4. Elie Wiesel, judeu, sobrevivente de Auschwitz, prémio Nobel da Paz em 1986, autor de inúmeros escritos, tem lutado toda a sua vida por gravar em cada consciência esta cultura da memória, sempre atenta ao concreto e temporal. E gosta de provocar os seus leitores e ouvintes com uma velha história da literatura talmúdica, que passo a transcrever.

 

5. «Um rei ouviu dizer que no seu reino vivia um sábio que falava todas as línguas do mundo. Sabia escutar e compreender o chilrear dos pássaros. Sabia interpretar o aspecto das nuvens. Sabia ler o pensamento das outras pessoas. O rei deu ordens para que o trouxessem ao seu palácio. O sábio chegou.

 

6. Disse então o rei: «É verdade que sabes todas as línguas?» «Sim, majestade», respondeu o sábio. «É verdade que sabes escutar e compreender o chilrear dos pássaros?», perguntou o rei. «Sim, majestade», respondeu o sábio. O rei prosseguiu: «É verdade que sabes interpretar o aspecto das nuvens?» «Sim, majestade», voltou a responder o sábio. O rei perguntou ainda: «É verdade que sabes ler o pensamento das outras pessoas?» «Sim, majestade», respondeu novamente o sábio. Disse então o rei: «Nas minhas mãos, atrás das costas, tenho um pássaro. Diz-me: está vivo ou morto?» O sábio sentiu medo, pois deu-se conta de que, fosse qual fosse a resposta que desse, o rei podia sempre matar o pássaro. Olhou para o rei, e permaneceu em silêncio um bom bocado. Por fim, respondeu: «A resposta está nas tuas mãos!»

 

7. Face às encruzilhadas que atravessamos, deixa que te diga também a ti, meu irmão de Abril: «A resposta está nas tuas mãos e no teu coração!» E nunca esqueças, meu irmão de Abril, que ontem uma criança morreu em Auschwitz, que ontem uma criança morreu em Gaza ou em Timor, ou aí mesmo à tua porta.

 

António Couto