MAIO E AMOR DE MÃE


 

1. No dizer do n.º 6 da Constituição Dogmática A Revelação Divina, do Concílio Vaticano II, a Revelação de Deus ao homem não consiste, da parte de Deus, numa coisa que ele entrega, num ditado que dita, numa lição que dá; nem, da parte do homem, numa coisa que recebe, num ditado que escreve, numa lição que aprende. Muito mais do que isso, a Revelação é Deus que a si mesmo se entrega ao homem em dádiva total.

 

2. Nesse sentido, e segundo a mesma Constituição Dogmática, n.º 5, a resposta correcta por parte do homem a esta entrega pessoal de Deus, não pode consistir, antes de mais, em aprender o que quer que seja, mas em acolher este Deus que a ele se entrega, e em entregar-se, por sua vez, livremente a Deus. E esta atitude de entrega pessoal, total, psicobiológica, do homem a Deus, que já antes se tinha entregado ao homem, chama-se .

 

3. Fé ou fidelidade diz-se em hebraico emunah. Emunah deriva do verbo aman, cujo significado primeiro é «segurar», «firmar», mas também significa «fiar-se», «confiar», «ser fiel». É, de resto, fácil entender que a confiança ou a fidelidade entre amigos, namorados ou esposos, e de nós mesmos uns com os outros, gera segurança e firmeza, enquanto que a desconfiança gera insegurança. Andamos mais seguros quando confiamos uns nos outros. Quando desconfiamos, instala-se a insegurança.

 

4. Indo um pouco mais fundo, podemos ainda verificar que o verbo aman pode assentar numa etimologia tipicamente maternal: pode derivar de omen, que significa mãe ou ama, e de amûn, que significa bebé. É sabido que o bebé se agarra [= segura-se] com todas as suas forças à sua mãe, sendo o colo da mãe o lugar mais seguro do mundo para o bebé. E o mesmo se passa do lado da mãe, que por nada deste mundo abandona o seu bebé.

 

5. Significativamente foi a esta relação pessoal fortíssima entre a mãe e o bebé, traduzida em confiança e segurança e felicidade, que a Bíblia foi buscar o termo para dizer fé. Isto é, a relação feliz, segura e de radical confiança que nós vemos existir entre a mãe e o seu bebé é, para a Bíblia, a melhor analogia para traduzir a relação, igualmente feliz, segura e de pessoalíssima confiança que deve existir entre nós e Deus. Esta relação seguríssima chama-se fé.

 

6. Eis um belíssimo solilóquio em que Deus se expressa com traços maternos e paternos, mais maternos que paternos: «Fui eu que ensinei a andar Efraim,/ que os ergui nos meus braços,/ mas não conheceram que era eu que cuidava deles!/ Com vínculos humanos eu os atraía./ Com laços de amor,/ eu era para eles como os que erguem uma criancinha de peito contra a sua face,/ e me debruçava sobre ela para a alimentar» (Oseias 11,3-4).

 

7. Até Deus se revê no amor de mãe. Maio pode ser mais belo, se os nossos gestos forem um pouco mais maternos.

 

António Couto

5 respostas a MAIO E AMOR DE MÃE

  1. E.Coelho diz:

    Só posso dizer, MUITO BEM! A Deus o que é de Deus!
    Elisa

  2. manuela diz:

    Como é reconfortante ver que Deus reúne todas as características do homem e da mulher!
    Deus ergue-me como os que erguem uma criancinha de peito contra a sua face, e se debruça sobre mim para me alimentar. Feliz momento de oração que ajudou a estreitar a minha relação com Deus.

    Bem haja, meu irmão em Cristo.

  3. João Manuel diz:

    Li. Em reflexão, fui-me revendo, ponto a ponto.

    1. “…a Revelação é Deus que a si mesmo se entrega ao homem em dádiva total.” Dádiva que eu não entendo pois estou preso à “lição” do ditado das coisas. Preciso de uma implosão (até “Já não sou eu que vivo…”- Gl) para enxergar ver que a dádiva é “tão grande” que me (a)funda nela e é aí que me tenho de apreender.
    2. “..a resposta correcta por parte do homem a esta entrega pessoal de Deus, … acolher este Deus que a ele se entrega”. Quero. Peço ao Pai, em nome dAquele que (Se) nos deu – Jesus, o Espírito Santo, o Consolador Enviado, o único que nos ensinará todas as coisas…
    3. Fé: preciso. Bom seria como a de um grão de mostarda… Enraizaria forte para dar poiso seguro ao pássaro nidificante, que na árvore se abrigaria.
    4. Como desejo “viver bebé” de Deus e como queria ser a “Sua” mãe. Senti-Lo, agarrá-Lo, vulcanizar-me (Ele-eu) no/pelo outro.
    5. “…relação pessoal fortíssima entre a mãe e o bebé, … a melhor analogia para traduzir a relação, igualmente feliz, segura e de pessoalíssima confiança que deve existir entre nós e Deus”. Sendo eu apenas por Ti, meu Deus, Tu és, também, fazendo-me na autonomia analógica de um cordão umbilical que (des-)refeito se refaz de mim para Ti, na minha vontade.
    6. “…Deus se expressa com traços maternos e paternos…” Do bio-suporte do que sou para o psico-espiritual que me constitui. Que se Te/me encontre, Senhor no Teu embalo.
    7. “…um pouco mais maternos”- Amém. Com a Tua protecção, ó Mãe.

  4. José Frazão diz:

    Como é interessante e importante o conhecimento da origem etimológica de alguns termos e vocábulos da nossa linguagem corrente. De certo modo, ajuda a aprofundar e a corporizar, de forma mais consciente, a verdade do que em nós já é aceite, mesmo na forma do mistério, como expressão humilde da verdade que forma e molda a consciência da nossa vida. Obrigado, pois, pelo desvendar de algum mistério, na clareza e brilho do seu conteúdo, com a explicitação e apresentação do seu significado mais profundo…

  5. J.M. Barbosa diz:

    Olá boa noite, depois de ler o texto neste dia da Mãe e mês dedicado a Nossa Senhora, Mâe de todos os crentes só uma coisa digo: Deus é nosso Pai e Mãe também.Muito obrigado nosso bom pastor.

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